A RVORE DO CU
II
O RAMO VERDE
EDITH PARGETER

A RVORE DO CU
II
O RAMO VERDE

Traduo de Fernanda Baro
Romance
Editorial Bizncio Lisboa, 2004

Ttulo original: The Heaven Tree II - The Green Branch
(c) Edith Pargeter, 1962
1 edio portuguesa: Setembro de 2004
Traduo: Fernanda Baro
Reviso de texto: Sandra Pereira
Capa: Cerebralidades
Gravura da Capa: (c) Bridgeman Art Library/AIC
Composio e paginao: Editorial Bizncio
Impresso e acabamento: Rolo & Filhos - Artes Grficas, Lda.
Depsito legal n 216 393/04

ISBN: 972-53-0249-4

Todos os direitos para a publicao desta obra em Portugal
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CAPTULO UM
Kerry, Setembro de 1228 Aber: Outubro de 1228

Empoleirado num ramo da faia, com o rosto voltado para o Sol nascente, o jovem semicerrou os olhos.
Os pontos de luz que cintilavam l em baixo, sobre a talha aberta entre as rvores pelo regato, toldavam-lhe a viso; a clareira ngreme e abrupta do vale abria-se 
aos raios longos que comeavam a penetrar a neblina e cuja luz atingia a superfcie da gua que ondulava entre as rvores. O olhar do jovem esforava-se por alcanar, 
para l do reflexo espelhado, o promontrio arredondado onde se erguiam as muralhas do castelo inacabado e onde a vasta extenso do acampamento do rei bordava de 
cores garridas as pastagens das colinas, onde agora no havia carneiros.
Confiantes no seu nmero, os ingleses podiam permitir-se exibir ali todo o colorido dos seus equipamentos, mas deixar que o movimento fugaz de um tecido prpura 
ou do penacho de um elmo fosse avistado, quando se embrenhavam nos bosques, custava-lhes bem caro. S na ltima semana, mais de quarenta haviam servido de alvos, 
a curta distncia do seu prprio acampamento. Harry trespassara pessoalmente dois deles, quando, ao alvorecer, demasiado
esfaimados para se mostrarem prudentes, estes iam inspeccionar as armadilhas para os coelhos. O exrcito do corregedor do reino1 era formado por homens famintos. 
Havia trs semanas que no comiam carne ou, se tivessem comido alguma, seria a dos prprios cavalos. As aldeias haviam sido abandonadas, as vacas, os porcos e os 
carneiros lanados  solta na natureza e at a caa existente na floresta fora metodicamente empurrada para Oeste, para no ficar ao seu alcance.
Os golpes da luz reflectida continuavam a ferir os olhos de Harry. Assolado por um sbito mal-estar, desviou a ateno da manta de retalhos de tendas e 
pavilhes, pestanejou para afastar a imagem do vale que se estendia at ao pregueado formado pelas distantes colinas limtrofes - sombra sobre sombra, azul sobre 
azul, contra a luz do sol agora mais intensa - e perscrutou mais atentamente a trama que os raios descontnuos de luz teciam por entre as rvores, por baixo do seu 
posto de vigia.
O seu corao bateu com mais fora. As retraces da gua haviam-se desviado do regato e subiam pela colina em direco  crista, como uma serpente prateada estirando 
o corpo sinuoso pelo bosque que cobria o flanco de Gwernesgob. No se tratava, todavia, do jogo de reflexos da luz sobre a gua: era o brilho imprudente de armas 
e elmos. Nem sequer haviam tido o bom-senso de escurecer as pontas das lanas, antes de se lanarem na pilhagem.
Harry desceu rapidamente da rvore, esfolando os joelhos e as palmas das mos devido  pressa, e desatou a correr que nem uma lebre entre o mato, voltando as costas 
ao extenso vale sobre o qual o sol se derramava agora como gua, varrendo diante de si os restos da bruma, que eram empurrados para os recessos das colinas do Kerry.

1 Alto funcionrio poltico e judicial da corte dos reis normandos e dos reis de Inglaterra que se lhes seguiram, at ao sculo XIII. A partir de ento e durante 
o resto da Idade Mdia, as funes desta espcie de primeiro-ministro (que era a personagem mais influente do reino) parecem ter passado a restringir-se  rea da 
administrao da Justia. (N. da T.)

Os seus dois irmos adoptivos galeses desciam lado a lado o carreiro verdejante entre os carvalhos. David era alto, magro e de semblante grave, como a me; Owen 
era forte e jovial e tinha os cabelos castanhos. Como de costume, discutiam por causa dele.
- Eu bem disse que no devamos traz-lo connosco - dizia Owen, zangado. - Ele s tem treze anos e, por isso, o melhor era ficar em casa. Porque havias de deix-lo 
vir? Sabias perfeitamente que ia portar-se como uma peste.
- Ele fartou-se de pedir - desculpou-se David. - E  to bom arqueiro como qualquer dos adultos que esto ao meu servio. J o provou.
- Isso estaria tudo muito bem, se consegussemos mant-lo na ordem. Mas o diabrete aproxima-se demasiado.  a terceira vez que tenho de ir busc-lo perto das linhas 
do inimigo. O que ia dizer a sua me, se eu voltasse sem ele? J que cedes a todos os seus caprichos, porque hei-de ser eu a tomar conta dele?  quase o mesmo que 
pores-me a tomar conta de uma cria de lobo!
David riu-se. O seu riso era igual ao da me: raro, caloroso e breve, um pouco triste tambm, como se o peso da realeza houvesse comeado a silenci-lo demasiado 
cedo.
- Sabes muito bem que ela nunca o entregaria aos cuidados de outro que no tu. E com toda a razo! Mal ele se afasta um bocadinho, vais logo a correr atrs dele, 
como uma galinha atrs dos pintainhos. Se te preocupasses menos com ele, no precisarias de o castigar tanto. Ests a ralar-te sem motivo. O Harry  esperto.
- A ralar-me! Quem foi que virou o acampamento de pernas para o ar, quando demos pela falta dele? Deixa-me deitar-lhe a mo e vais ver se no lhe dou uns bons aoites 
- prometeu Owen, em tom sombrio.
Nesse instante, a arquejar de tanto ter corrido, Harry saltou do meio dos arbustos, mesmo por trs deles, e lanou-se de livre vontade nas mos de pele morena que 
Owen ameaara usar contra si. Owen sacudiu-o com fora, mas sem violncia. Era sempre Owen quem proferia as ameaas mas, em geral, era David quem, levado pelo seu 
firme sentido do dever, aplicava o castigo.
Por onde andaste tu nas ltimas duas horas, meu patife?

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- No te proibi de sares do acampamento sozinho? Voltas a desobedecer e mando-te para casa sob escolta, ests a ouvir?
Apesar de ainda sem flego, Harry esquivou-se-lhes energicamente.
- Escutai-me! Eu responderei pelo que fiz mas mais tarde. Agora, ouvi-me. Os ingleses... eu estava de vigia, na colina e...
- Bem me parecia! - exclamou David.
E, dizendo isto, deu-lhe duas palmadas, para afirmar a sua autoridade, mas ficou atnito perante o sbito ardor com que Harry lhe agarrou na mo e o afastou.
- Quereis ouvir-me?! Os ingleses esto na outra vertente. Eu vi-os do alto da colina. Esto a avanar pela crista, em direco a Dolfor.
Conseguira de facto captar a ateno de Owen e David que, agora, o seguravam cada um por um brao, bombardeando-o com perguntas.
- H quanto tempo?
- Quantos so?
- Com as cores de que casa?
Sacudiam-no, tamanha era a ansiedade, mas no havia preciso de o pressionarem, pois Harry dava respostas rpidas e precisas a todas as perguntas.
- H menos de um quarto de hora. Contei pelo menos trinta. Vi-os subir por entre as rvores e fiquei a ver para onde iam. Avanavam a coberto do bosque mas, vem-se 
bem, quando o sol lhes bate nas malhas e nas lanas. As armaduras deles brilham muito - explicou Harry, com um trejeito de desdm. - Se seguirmos ao longo do rio, 
podemos apanh-los no vau.
David e Owen trocaram um olhar duro como ao, por cima da cabea de Harry, soltaram-no e voltaram a toda a pressa pelo caminho por onde tinham vindo. Harry foi obrigado 
a correr para os acompanhar mas manteve-se firmemente colado aos calcanhares de ambos e, sem deixar de correr, agarrou-se ao brao de David, protestando antecipadamente 
contra a proibio que sabia amea-lo.
- Levais-me convosco? - perguntou, apreensivo. - Fui eu quem os viu!

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- Pois foste - concordou David, erguendo um brao para afastar um ramo do rosto. - Fizeste bem a tua parte e, agora, vais-nos deixar cumprir a nossa.
- No  justo! Ento, porque me trouxestes convosco? E, se eu no estivesse aqui, nem sequer ireis saber...
Com toda a sua energia e toda a sua ateno concentradas nos protestos, Harry esqueceu-se de ver onde punha os ps, tropeou na raiz de uma rvore e caiu, estendendo-se 
ao comprido; mas levantou-se rapidamente e continuou a correr, aos saltos, para poder esfregar a coxa arranhada.
- Juro que no deixo que eles me vejam. Mas deixai-me ir convosco. Para que estou eu aqui, se no posso combater?
Chegaram  clareira ao mesmo tempo. O jovem continuava a protestar acaloradamente, quando David chamou os homens dos cls que, em resposta ao chamado do seu prncipe, 
emergiram das sombras tranquilas da floresta, eles prprios vultos to silenciosos como as prprias rvores.
- Ah, deixa-o vir, seno ainda nos pe surdos - disse Owen, impaciente. - Eu cuido de o colocar fora da linha de fogo. E encarrego-me de o fazer arrepender-se, se 
se afastar um passo que seja do stio onde eu o mandar ficar. Ests a ouvir? - perguntou, fulminando Harry com um olhar ameaador dos seus olhos escuros. - Despacha-te! 
Vai buscar o teu arco.
Harry no perdeu um segundo mas os seus ouvidos mantiveram-se atentos, no fosse David cham-lo para o privar daquilo que Owen acabara de lhe conceder. Os irmos 
haviam deixado passar em branco o facto de ele no levar consigo as armas, quando se escapara do acampamento antes do amanhecer, mas parecera-lhe que seria mais 
seguro ir disfarado de campons, vestido com uma cota de tecido grosseiro, para o caso de algum o surpreender a passear no bosque, demasiado perto do acampamento 
do rei Henrique. Todavia, agora era muito diferente: ia ter a sua primeira experincia num combate a srio. O medo de que eles se fossem embora sem ele, fazia-o 
andar depressa mas, mesmo assim, envergou febrilmente a cota de malha que, usando uma antiga cota de David, o armeiro cortara para ele; sabia que, se se lhes apresentasse 
sem ela, seria mandado para trs.

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Quase arrancou a pele dos dedos a esticar o arco. John o Frecheiro fizera-o especialmente para ele e trouxera-o das colinas no Natal. Estava calibrado na perfeio 
para o seu peso e alcance e, no contando com a espada do amieiro real que o prncipe lhe oferecera, era o seu bem mais precioso. A espada trazia consigo o esplendor 
do prprio Llewellyn, que a havia usado na sua primeira batalha, quando acabara de completar catorze anos e era apenas um jovem despojado dos seus bens, que lutava 
contra os tios, para recuperar o ttulo de prncipe. Llewellyn servira-se dela e ela tivera o seu baptismo de sangue. Harry gostaria de a empunhar naquela campanha 
mas no sabia ainda manej-la com a destreza com que manejava o arco e, apesar de lhe haver custado, optara pela arma que dominava melhor.
No fim de contas, no iam para o campo de batalha para sua glria e ascenso pessoal mas para expulsar o corregedor do reino do Kerry gals, onde a sua presena 
era indesejada - a dele e a do seu jovem rei, que muito espalhafato fazia por bem pouco. Toda a fronteira estava em p de guerra; Clifford, de Breos, Pembroke, Gloucester 
e mais uma dzia de senhores das Marcas haviam pegado em armas, alguns deles sem grande entusiasmo, para defender uma fortuna e um poder que eles prprios comeavam 
j a detestar. E para qu? Menos de dez milhas para alm do rochedo inexpugnvel de Montgomery, as suas linhas de abastecimentos haviam sido desmanteladas e ali 
estavam eles em dificuldades e esfaimados, a construir  pressa uma fortaleza que o Inverno no lhes permitiria acabar, enquanto os galeses, com um quinto dos efectivos, 
os iam cercando e lhes davam caa sem problemas.
Harry cobriu as articulaes com as proteces de couro e saiu a correr do abrigo rudimentar de David, para se juntar  companhia. Os homens haviam-se embrenhado 
entre as rvores que rodeavam a crista, deixando apenas meia dzia de silhuetas tranquilas de vigia, no acampamento silencioso e quase invisvel. David tinha sob 
o seu comando apenas doze homens de armas do seu pai e outros tantos homens livres dos cls; a maior parte da hoste encontrava-se em segurana, com Llewellyn, na 
outra vertente de Kerry, montando cerco e assaltando o castelo em construo.

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Chegados  orla da floresta, saram a descoberto e, no passo alongado dos montanheses, avanaram para a clareira do rio que, naquele local, no passava de um regato 
a serpentear pela extenso de uma milha. No havia ali ningum que os visse mas os falces esvoaavam sobre as pastagens acidentadas e, um pouco mais adiante, era 
outra vez a floresta, a envolver o curso de gua que aumentava de volume.
- E se eles j atravessaram o vau? - perguntou Harry,
ansioso, puxando o cotovelo de David.
- Se assim for, estaremos entre eles e o acampamento e cortamos-lhes a retirada, se voltarem para trs. E, no caminho para Dolfor, iro encontrar com quem se haver.
- O nosso pai sabe que eles esto aqui?
- Mandei um mensageiro ao seu encontro. Ele vai conduzir os seus cavaleiros pela estrada e contornar o inimigo, antes de o enfrentar. Mas, a menos que hajam sido 
alertados, os ingleses iro desmontar e descer a encosta a p e ns chegaremos l a tempo. Agora, vamos depressa, seno ainda deixamos passar o sinal de Iorwerth.
Naquele primeiro troo, qualquer rapaz gil poderia franquear de um salto o Mule, mas s havia um ponto onde as suas margens ngremes eram suficientemente niveladas 
para permitir que os cavalos o atravessassem a vau. O carreiro descia a encosta escarpada descrevendo longos desvios e as rvores quase o ocultavam, at  beira 
da gua. Naquela margem, abria-se um terreno plano e coberto de ervas e, depois dele, um semicrculo de rvores. A Leste, a encosta ngreme encobria o sol matinal; 
ali, reinava ainda a penumbra do amanhecer, envolvida pela neblina de Setembro.
Os arqueiros e os lanceiros afastaram a vegetao e desapareceram na floresta, onde cada um deles escolheu cuidadosamente a sua posio. No topo da colina, alguma 
coisa incomodara um pica-pau que, por duas vezes, soltou o seu grito estridente semelhante a uma gargalhada.
Mesmo a tempo. Esto quase a chegar aqui - sussurrou Owen, exultante, enquanto ia arrastando Harry para um local bem protegido pelas rvores. - Sobe para ali e deixa-te 
l ficar. Tens

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boa visibilidade e ningum te v. Acontea o que acontecer aqui em baixo, no sais dali. Ouviste bem?
- E se precisarem de mim? - argumentou Harry, empoleirando-se no ramo de um carvalho e olhando para Owen com uma expresso de desafio.
-  s eu ver-te pr um p no cho antes de estar tudo acabado e desfao-te o traseiro com a lana - ameaou Owen, furioso, antes de se afastar, para assumir o seu 
lugar de honra, ao lado de David.
Aquilo no eram modos de falar com um homem que acabara de ser aceite nas fileiras dos guerreiros. J que o deixavam combater, deviam pelo menos dar-lhe a mesma 
liberdade de deciso que aos companheiros. Instalado no ramo frondoso do carvalho, to espaoso e slido como os muitos afloramentos rochosos existentes nas pastagens 
de montanha, Harry tremia de fria e indignao. Enervado perante a quase certeza de falhar o alvo por no ter os ps assentes em terra firme ou por um ramo poder 
atravessar-se na trajectria da flecha, mudou de posio, firmou os ps e ajustou o ngulo de tiro. A ansiedade e a preocupao no o deixaram ficar quieto at ao 
momento em que o pica-pau que no era um pica-pau voltou a soltar um grito semelhante a uma gargalhada, no qual transparecia agora uma ponta de inquietao.
Ento, subitamente, a ansiedade que fizera tremer Harry transformou-se em determinao fria e enrgica; a sua respirao era agora mais calma e compassada e a ponta 
da flecha que ajustara  corda do arco abriu suavemente caminho pelos interstcios dos ramos, apontada ao torso de um cavaleiro que surgira acima das guas do vau. 
O arco esticado ficou imvel, como um co de caa preparado para atacar a presa.
L em baixo, no bosque, Meurig, do vilar dos servos de Aber, que por direito era apenas um moo de fretes das tropas, mas que nunca se privava de combater, lanou 
um sorriso fugaz a Harry, beijou a lmina da lana deliberadamente escurecida e, num gesto quase terno, sopesou-a na palma da mo. Bem equilibrada, a lana estremeceu, 
como que pronta a lanar-se em voo sozinha, se Meurig no a segurasse.

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Foi ento que os ingleses chegaram. Os olhos de Harry vislumbraram um brilho colorido, que descia a encosta arborizada, num local onde, um ms antes, a folhagem 
o teria ocultado. E, um pouco mais acima, um outro. Ao mesmo tempo, Harry ouviu o tilintar suave dos arneses e, depois, o som das passadas ritmadas dos cavalos e 
o som ocasional de uma ferradura, a resvalar na lama espessa. Avanavam lenta e silenciosamente, com toda a cautela, pelo trilho que ia dar ao curso de gua.
Quando ficaram a descoberto, junto  margem, Harry observou com satisfao que eles levavam os cavalos pela rdea, o que iria facilitar as coisas: havia mais hipteses 
de se matar o homem e obter uma montada intacta e menor probabilidade de homem e animal, feridos ou no, evitarem a emboscada e fugirem. Os cavalos - altos, de enorme 
ossatura, quase com o dobro do tamanho do pnei de plo comprido que costumava montar em Aber - eram a nica coisa que os ingleses possuam e que Harry cobiava. 
Com a ajuda de Deus, naquela mesma noite, seria dono de um.
David s deu o sinal depois de os primeiros seis homens haverem atravessado a corrente e de o stimo se encontrar a meio do vau. Este ltimo ia a cavalo, no se 
dignando conduzir a montada  mo, nem mesmo numa descida ngreme. Era jovem, vestia uma bela cota de malha e um pelote de couro polido e o elmo erguido revelava 
um rosto alegre, ousado e arrogante, marcado por uma expresso um tanto estudada e insolente, mas inegavelmente belo. Quando o seu cavalo castanho escorregou nas 
pedras do leito do regato, o cavaleiro que atravessara antes dele voltou a entrar na gua para segurar nas rdeas e o levar para a margem. A atitude fora to obsequiosa 
que Harry, acostumado  independncia tenaz dos galeses livres, quase soltou uma gargalhada. Mas o primeiro cavaleiro afastou-o com um gesto imperioso, oscilou devido 
 paragem abrupta do animal e puxou rapidamente as rdeas, num movimento suave e apaziguador.
Era por certo um dos nobres do rei Henrique, visto que os cavaleiros se aprestavam a servi-lo. Talvez fosse do Poitou, um desses fidalgos estrangeiros esquisitos, 
mesmo aos olhos dos ingleses, entre os quais causavam forte descontentamento. Fora isso que

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ouvira o prncipe dizer, em tom animado, num dia em que este tentava avaliar a grandeza da hoste do rei, chegada de Montgomery.
O cavalo castanho comeara a trepar para a margem, quando David deu ordem de ataque aos seus arqueiros. A primeira flecha de Cynan embateu demasiado acima no ombro 
do cavaleiro, tilintou ao chocar com a armadura, seguiu em frente, a sibilar, e, sem parar de vibrar, foi cravar-se no tronco de uma rvore. No obstante, o impacto 
atirou o cavaleiro para trs, sobre a sela, e o cavalo empinou-se, agitou as patas dianteiras no ar e relinchou, assustado. Entretanto, uma chuva de flechas partira 
atrs da primeira. Harry disparou ao mesmo tempo que os outros, mas era impossvel saber se a sua flecha atingira o alvo. O primeiro homem a chegar  margem soltou 
as rdeas e rodou sobre si mesmo, com as mos sobre o ventre. Depois, caiu ao cho e as suas pernas foram agitadas por estremecimentos. O cavalo desapareceu entre 
as rvores.
O fidalgo que no desmontara, recomps-se com garbo, curvou-se sobre a sela do lado do ombro atingido e cavalgou em direco ao bosque. Dois dos seus companheiros 
conseguiram recuperar os cavalos e correram na mesma direco. Dois outros haviam cado por terra e, agora, arrastavam-se penosamente em busca de abrigo, empunhando 
as espadas sem muita convico. Aqueles que iam ainda a caminho do vau abandonaram o carreiro e galgaram perigosamente a ravina, para irem em socorro do seu chefe. 
Por trs deles, o pica-pau voltou a gritar e obteve resposta. Um pequeno grupo de soldados de David atravessara o rio e, naquele momento, contornava os ingleses, 
para lhes cortar a retirada.
Invisveis entre a vegetao espessa, os arqueiros galeses deslocavam-se em crculo; s Cynan saiu a descoberto e correu para a beira da gua, no intuito de afastar 
do seu prncipe os cavaleiros ingleses, que se voltaram instintivamente para se lanarem na perseguio do nico inimigo visvel, tornando-se mais uma vez alvos 
ideais para os atiradores ocultos. Com um soluo de excitao, Harry pegou numa terceira flecha, ajustou-a e, momentaneamente, no avistou qualquer alvo ntido, 
porque a clareira fora invadida por uma terrvel confuso de homens que gritavam e cavalos que relinchavam.

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Passada a surpresa inicial, os ingleses comeavam a recuperar a presena de esprito. Distrado por breves instantes pela corrida de Cynan, o chefe dos inimigos 
voltava-se agora decididamente para o seu primeiro alvo, pois conclura que o arqueiro havia sado daquela zona de vegetao densa para dali desviar as atenes. 
Cravou as esporas no cavalo e, seguido de perto por trs ou quatro cavaleiros, lanou-se novamente ao ataque, guiando o animal por entre os arbustos, numa chuva 
de folhas e ramos.
David recuara, mas apenas alguns passos, e a rapidez do assalto apanhou-o de surpresa. Saltou para trs, evitando a espada apontada  sua cabea, mas caiu sobre 
os bastos tufos de erva, contra o tronco de um espinheiro. E, antes de Owen ter tempo de se aproximar, o cavalo castanho avanou e deu meia volta por baixo do carvalho 
de Harry, aproximando-se do homem cado no cho.
Harry apontou e disparou, com demasiada pressa e sem o necessrio ajustamento, e a flecha enterrou-se ingloriamente no cho. Mais tarde, diria em sua defesa que, 
depois de haver trado a sua presena, se desviara um pouco a fim de evitar ser obrigado a saltar do poleiro a golpes de lana. Na verdade, a flecha perdida passara 
despercebida e o cavaleiro nem sequer erguera os olhos mas o prncipe e irmo adoptivo de Harry tinha um joelho por terra e, a golpes de joelhos e com as esporas, 
o seu assaltante impelia a montada para cima dele; Harry nem parou para pensar. Com um grito de raiva, largou o arco e, balanando o ramo da rvore, lanou-se sobre 
os ombros do cavaleiro.
O choque da queda deixou-o sem respirao e derrubou o adversrio sobre o aro da sela. Aterrorizado, o cavalo recuou, batendo com as ferraduras no solo, e o homem 
e o rapaz caram juntos sobre as ervas.
Por um momento que parecia no ter fim, Harry arquejou, tentando recuperar o flego. Por entre os estrondos e a confuso, ouviu Owen soltar um grito de alarme e, 
muito perto - aparentemente a toda a volta -, um martelar que abalava o solo e enviava para o seu corpo ondas de dor e medo. Ento, uma mo enorme, agarrou-o pela 
axila e, com um puxo que quase lhe deslocou o brao, afastou-o das ferraduras ameaadoras, ao mesmo tempo que

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outra mo - o par da primeira - o atirava para bem longe do perigo, com uma forte palmada no ouvido.
Harry rolou sobre si mesmo e, depois, ficou deitado, com a cabea entre os braos, at a terra deixar de oscilar e tremer, at conseguir respirar um pouco melhor 
e recuperar a presena de esprito necessria para se sentir grato e no melindrado pelo bofeto. Aquele gesto de fria casual confirmava a continuidade da existncia 
de um mundo que ele compreendia e no qual se movimentava e agia confiantemente. Quando eram obrigados a salv-lo de situaes perigosas, os mais velhos vingavam-se 
quase sempre do susto, dando-lhe palmadas nas orelhas depois de o perigo haver passado. No lhes queria mal por isso: era a outra face da indulgncia que mostravam 
para com ele e do valor que lhe davam.
Por baixo de si, o solo estabilizou e, lentamente, Harry comeou a sentir as dores das contuses. Primeiro, com toda a cautela, tirou as mos dos ouvidos: o clamor 
da luta s se ouvia  distncia, no bosque, onde continuava a perseguio queles que haviam conseguido passar pelo cordo. Ouviam-se tambm vozes que chamavam pelos 
feridos e pelos mortos, vozes que discutiam, praguejavam, gemiam. Bem perto, num tom ligeiramente brusco, uma voz familiar disse:
- V l, levanta-te. No ests ferido. No tens sequer um arranho!
A mo que lhe apalpara suavemente os ossos desceu ao longo das suas costas e deu-lhe uma palmadinha no traseiro. Harry assentou as mos na erva, apoiou-se num joelho 
ainda pouco firme e abriu os olhos que se depararam com o rosto de falco do seu pai adoptivo, um rosto tisnado, barbudo, de mas salientes, queixo brilhante  
luz matinal e rugas profundas, contorcido num riso contido.
- Chegmos mesmo a tempo de te vermos voar - disse o prncipe. - J vi muitos pssaros desajeitados a aprender a voar, mas juro que nunca vi nenhum pssaro to esquisito 
como tu. Acabaram-se-te as flechas para precisares de te atirar para cima dele?
Harry abriu a boca e, ansioso, perguntou:
- O David?

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- No receies, est so e salvo. No perdemos um nico homem e s sofremos meia dzia de ferimentos leves. Ficmos com sete bons cavalos e talvez ainda consigamos 
apanhar mais um ou dois na floresta.
Ouvir falar nos cavalos restituiu toda a vitalidade a Harry, que, de olhos brilhantes, se sentou, apoiado ao brao de Llewellyn. O seu olhar percorreu avidamente 
a clareira, agora juncada de pegadas humanas, marcas de ferraduras e ramos arrancados a rvores e arbustos. Sobre as ervas jaziam alguns mortos e, tambm, moribundos 
que gemiam e se contorciam. Cynan voltara, a sangrar de um brao, mas com um sorriso de satisfao, e Meurig andava  volta dos feridos e, sem brutalidade mas tambm 
sem gentilezas, retirava-lhes dos corpos as lanas ensanguentadas, como se as arrancasse de troncos de rvores.
De sbito, as contuses de Harry comearam a latejar, provocando-lhe dores vivas, como se acabasse de tomar conscincia da realidade que eram as feridas e a morte. 
Conseguiu dominar a nusea, provocada pela excitao e pela reaco  batalha. Mas David estava ali, magro e vivo como sempre, intacto, do outro lado do tapete de 
erva que cobria a clareira, debruado sobre um dos feridos, e v-lo assim bastou para tranquilizar Harry. E Owen tambm se encontrava ali, a tentar acalmar um cavalo 
assustado que tremia e espumava, e fitando o irmo adoptivo mais novo com uma expresso em que se misturavam a clera e a aprovao. Era bom encontrar e enfrentar 
o olhar de Owen, uma vez garantido o beneplcito do prncipe.
-  esta a tua recompensa - anunciou Llewellyn. - Desde que sejas capaz de o montar, com sela e respectivos arreios. Bem o mereceste. V l, olha para ele!  mais 
bonito assim do que visto de debaixo das ferraduras. E no te pisou, o que prova que  um bom animal.
O cavalo castanho continuava a tremer violentamente, sob as carcias das mos de Owen, a pelagem luzidia manchada de vagas de espuma, como uma praia na mar baixa. 
Com alguma dificuldade, Harry desviou os olhos do animal e, pensativo, poisou-os no cavaleiro, estendido sobre as ervas.
Haviam-lhe tirado o elmo, deixando a descoberto os fartos cabelos pretos, empapados em suor, e o rosto de traos finos, bem

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barbeado, plido e exausto. Ainda assim, o rosto conservava a arrogncia que era, todavia, isenta de maldade. A impotncia espelhava-se nele. Jazia numa posio 
elegante, os cabelos pretos encaracolados cados sobre as faces, to belas como as de uma rapariga.
- Est morto? - perguntou Harry, baixinho, tremendo pela primeira vez perante a possibilidade de o ter morto.
Aquele homem no tinha o aspecto de um inimigo.
- Claro que no! Ainda h-de morrer de velho. Est s desmaiado. E se ouvisses o barulho que ele fez, quando caiu em cima das razes do carvalho onde tu estavas 
empoleirado, nem perguntavas isso. Os nicos males dele so umas costelas partidas e um ombro ferido. Olha bem para ele, Harry. Sabes quem foi que deitaste ao cho?
Harry abanou a cabea, espantado. As plpebras azuladas tinham comeado a agitar-se, as sobrancelhas pretas e direitas franziam-se, com o despertar da dor.
- Ao deitares as mos  sua pessoa, estavas a deitar as mos a Hay, Radnor, Builth, Brecon e sei l mais o qu. Foi este homem que, h trs meses, quando o velho 
Reginald morreu, herdou metade dos domnios da fronteira. William de Breos em pessoa!
O som do seu prprio nome penetrou o atordoamento em que haviam mergulhado os sentidos do senhor de Brecon. Abriu os olhos escuros e, sem pestanejar, fitou o homem 
alto e o rapaz que o olhavam de cima. Por trs das sobrancelhas franzidas, a memria do que se passara voltou lentamente.
- William de Breos - confirmou, em voz fraca e lgubre. - Em pessoa!
Lembrava-se do rapaz, embora s o tivesse entrevisto por um breve instante, quando ele lhe cara em cima, como um raio cado do cu. Aquele rosto grave, aqueles 
olhos grandes e inquietos deram-lhe uma enorme vontade de rir, que conseguiu controlar e transformar num sorriso corts e simptico.  preciso ser-se cauteloso com 
o riso, no v ele virar-se contra ns.
- Sado-vos, senhor - disse em tom solene, o sorriso distorcido pelos tremores da dor. - Fostes o nico campeo que jamais lutou comigo desarmado, em corpo a corpo, 
e me fez ir ao cho.

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E, por Deus, devereis ser o nico a realizar tal proeza. No ides dizer-me o nome de quem me venceu?
A lisonja, a ironia, o poder de seduo deliberadamente exercido envolveram os sentidos de Harry numa rede difana, que o deixou confuso.
- O meu nome  Harry Talvace, senhor - respondeu, subitamente assolado pela timidez.
- Talvace!
Um bom nome normando, num rapaz gals ousado e de cabelos pretos. William de Breos meditou no assunto por breves instantes mas, naquele momento, pensar era demasiado 
penoso. As plpebras voltaram a fechar-se, a ligeira cor que lhe tingira as faces desapareceu e o seu rosto ficou novamente cinzento.
Num impulso, Harry libertou-se dos braos de Llewellyn, apanhou o elmo que rolara sobre as ervas e foi a correr buscar gua ao rio. Em seguida, ajoelhou-se junto 
do prisioneiro e, corado de orgulho e admirao, humedeceu-lhe a testa alta e os lbios inchados, esquecido at mesmo do cavalo.
Quando de Breos acabou por abrir os olhos e viu o rosto do rapaz, solcito e terrivelmente srio, debruado sobre si, j era difcil saber qual dos dois era o conquistador 
e qual o vencido.
A escolta emergiu do vale e rumou a Leste, seguindo pela verde plancie costeira, entre os charcos salinos e as montanhas. Harry desmontou, para caminhar ao lado 
da carroa e conversar com o ferido, debruado sobre a maca improvisada. Estava de regresso a casa e, para mais, voltava coberto de glria. Nunca experimentara a 
amargura de ser prisioneiro. Falava com entusiasmo, indicando com o dedo o brilho prateado da gua, para l de Lavan Sands e, mais adiante, a costa suave da ilha 
de Ynys Mon, que se ia afilando at  pequena linha da crista azul de Ynys Lanog. Mas corria o ms de Outubro e, mesmo em pleno dia, o mar era de uma tristeza aflitiva 
e, a despeito do tom de brincadeira utilizado e do riso corajoso, de Breos estava triste.
- Aber das Conchas Brancas! - exclamou, mordiscando uma das mas serdias, que Harry apanhara para ele em Nanhwynain e

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cujo gosto cido o fez estremecer. - E que vou eu fazer em Aber? - perguntou, de olhos fixos nas marcas que os seus fortes dentes brancos haviam deixado na polpa 
da ma. - Devo dizer-te que, se gostasse um pouco menos de ti, havia de te desejar todos os males do mundo. Antes de mais, porque diabo estavas tu no alto da colina, 
a espiar o nosso acampamento? Andavas em busca de qu? No de glria, por certo, pois disseste-me que estavas desarmado. O que era ento?
O momento de silncio e hesitao que se seguiu surpreendeu-o, porque, at ento, o rapaz mostrara-se disposto a conversar sobre todos os assuntos. Quase no era 
preciso instig-lo para ele se lanar em confidncias. Desta vez, devia ter abordado uma questo melindrosa e, por instantes, a pergunta no obteve resposta. Se 
a sua curiosidade e a sua vaidade no houvessem sido espicaadas, talvez a boa educao o houvesse levado a no insistir. Obtivera resposta para tudo quanto lhe 
apetecera perguntar e de certeza que, agora, tambm iria obter resposta. Por isso esperou, sorrindo teimosamente, at o constrangimento desaparecer, dando lugar 
a uma torrente de palavras impulsivas.
- Herdei uma querela com um certo ingls - confessou Harry, de olhos brilhantes. - Estou sempre  espera de avistar o meu inimigo, para ficar a conhec-lo.
William de Breos esforou-se por manter a compostura. No era difcil: gostava demasiado do rapaz para encarar de nimo leve aquilo que era importante para ele.
- E alguma vez viste esse teu inimigo?
- Ainda no - respondeu Harry, secamente.
- Quem  ele? Pode ser que eu o conhea.
- De nome, conheceis seguramente. J me apeteceu perguntar-vos por ele. O nome dele  Ralf Isambard, de Parfois.
Com os dentes cravados na ma, de Breos abriu muito os olhos.
- Isambard? No te contentas com pouco! Por todos os santos do cu, que querela pode ser a tua contra o senhor de Parfois? O homem podia ser teu av! E acredita 
que no  pessoa que algum, mesmo um prncipe, possa enfrentar de nimo leve.

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- Trata-se de uma galanas, uma dvida de sangue - explicou Harry, muito srio, pressentindo que, por trs do espanto e do respeito que se lia no rosto que o fitava, 
se ocultava um resqucio de zombaria.
- Por certo que a lei galesa te permite saldar essa galanas por um determinado preo - sugeriu de Breos delicadamente.
Ralf Isambard!, pensou, contendo a custo a vontade de rir que tamanha incongruncia lhe provocava. A vida era cheia de desequilbrios, mas ouvir um garoto ingnuo 
declarar gravemente a sua inimizade por aquele velho lobo ultrapassava todos os limites. Estes galeses! Ademais, o rapaz nem sequer era gals: o seu nome era incontestavelmente 
normando, como o do prprio de Breos, e to antigo como este.
- Neste caso no - replicou Harry, em tom sombrio. - Mesmo que ele quisesse, eu no ia ceder. Mas ele no sabe nada a meu respeito. A querela  do meu pai.
A direita, sobre as montanhas, a indistinta bruma esbranquiada que pairava sobre o mar transformava-se numa nuvem mais densa mas, apesar disso, avistava-se j o 
grande contraforte rochoso, que, por trs de Aber, protegia os campos da rebentao. Em menos de uma hora, estariam em casa. Consciente do olhar perscrutador que 
o fitava, Harry observava os contornos das colinas.
- O que fez o velho Ralf ao teu pai, para lhe guardares tamanho rancor?
A voz era calma, amigvel e transparentemente curiosa. Quando queria, William de Breos sabia fazer as perguntas com a franqueza de uma criana e eram poucas as coisas 
que Harry seria capaz de lhe ocultar: nem mesmo as ocorrncias perturbadoras que rodeavam o seu nascimento e aceleravam a sua maturidade.
- Condenou o meu pai  morte. H muitos anos, pouco antes de eu haver nascido. O meu pai era mestre canteiro ao servio de Isambard e houve uma histria de um rapaz 
gals, capturado durante uma incurso, e que esteve ao cuidado do meu pai, em Parfois. O rei Joo ordenou que o rapaz fosse enforcado e Isambard haveria feito isso 
mesmo, se o meu pai no houvesse levado o rapaz para lugar seguro e mandado que o devolvessem ao prncipe

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de Gwynedd.  o rapaz que haveis visto, junto ao vau do Mule - explicou Harry. -  o meu irmo adoptivo mais velho, Owen ap Ivor ap Madoc.
- Ah, estou lembrado dele.  aquele que vigia todos os teus passos. Mas, se eles conseguiram chegar a Gales, como foi que o teu pai voltou a cair nas mos do senhor 
de Parfois?
- Ele voltou - respondeu Harry, com simplicidade.
- Mas porque diabo voltou ele? Se estava ao servio daquele velho lobo, devia saber que no podia voltar a colocar-se  merc dele.
- No havia outra sada, pois estava obrigado por um juramento. Havia sido encarregado de construir uma igreja no senhorio e jurara que ficaria em Parfois at concluir 
a sua obra. Depois de haver cuidado de que Owen chegasse a casa so e salvo, regressou para cumprir a palavra dada. E foi punido com a morte. A mesma sorte que nos 
esperava, a mim e  minha me, se no fosse uma certa dama de Parfois, que, com risco da prpria vida, foi sempre nossa amiga e nos confiou aos bons cuidados do 
prncipe de Gwynedd. Estamos aqui desde ento. E  por isso que sou irmo adoptivo do prncipe David e de Owen e a minha me  aia da princesa Joan.
- Ento, foi assim que um Talvace acabou por se transformar num guerreiro gals, to bom como os melhores. Confesso que me sentia intrigado. E essa dama que vos 
socorreu? Que foi feito dela?
-  uma santa - replicou Harry, como se isso explicasse tudo e no fossem necessrios mais pormenores.
- Quem me dera que ela me ensinasse como se faz, j que para ela foi to fcil - disse de Breos, com um sorriso contrito. - O que  preciso fazer para se ser santo? 
 uma santa viva, penso eu. No  minha ambio ser um santo morto. Na maior parte dos casos, os santos sofrem mortes terrveis.
Harry fitou-o com um olhar em que se lia uma total incompreenso; para ele, "santo" era uma palavra de uso corrente, que nada tinha a ver com a canonizao.
- Foi viver numa cela, l no alto - explicou, indicando com um movimento da cabea as colinas que se inclinavam suavemente

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sobre o caminho para Aber. - Construram uma cela para ela, perto da cela do Santo Clydog. Vive afastada do mundo, em orao. Faz agora treze anos que l est. De 
vez em quando, vamos visit-la e, outras vezes, quando quer alguma coisa, manda o John o Frecheiro vir ter connosco. Mas ela nunca vem.
- Ento, essa dama e Santo Clydog passam os dias em rezas e meditao? E sem ningum, a menos de doze milhas, que possa perturbar a sua paz!
- H o John o Frecheiro - argumentou Harry, que deixara escapar a ironia da frase, porque esta no lhe dizia respeito.
- Ah, claro,  preciso no esquecer John o Frecheiro!
- A minha me - confidenciou Harry - diz que ela escolheu a recluso porque no queria casar. E era to bonita!
- Cada vez melhor! Vou mandar construir uma terceira cela para mim, l no alto. Portanto, ela fugiu ao casamento, abraando a santidade, foi assim? No teve o sentido 
prtico da tua me, que escapou ficando ao servio da princesa.
- Mas a minha me voltou a casar - esclareceu Harry. - Casou com o melhor amigo do meu pai, o Adam, o canteiro que sempre trabalhou com ele. Foi o Adam quem trouxe 
o Owen para casa e, depois disso, nunca mais ousou pr os ps em Inglaterra.
- Santo Deus, Harry! - exclamou de Breos, lanando a cabea para trs, sobre as mantas, na primeira gargalhada com gosto, desde que fora feito cativo. - Nunca conheci 
um rapaz mais dotado de mes e pais. Trs mes e dois pais neste mundo e mais um pai no cu! Como foi que, entre todos, ainda no te fizeram em pedaos?
Mas, pensou de Breos, parando de rir, talvez o houvessem feito em pedaos, se o rapaz no fosse to ousado, to slido, to determinado como era e se no ostentasse 
no rosto imaturo aquele resoluto queixo normando, nem aqueles olhos verde-mar, francos e provocadores.
Bem, pensou ainda, pelo menos o que morreu deve deix-lo em paz. Mas talvez o seu julgamento fosse demasiado apressado. No h ningum to exigente como os mortos 
- ou os vivos, em nome dos mortos. E no h ningum pior representado do que os mortos, quando os vivos comeam a fazer exigncias em seu nome.

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Que pensaria realmente o rapaz daquele pai, que j no podia falar por si mesmo?
De Breos mudou penosamente de posio, para aliviar um pouco as dores que a maca tosca lhe provocava no tronco, estremecendo devido  dor mais aguda que lhe causavam 
as costelas partidas. Havia sido uma loucura cavalgar tantas horas, logo de manh. Agora, sentia o corpo dorido. Olhou para as volutas das nuvens que desciam da 
montanha, para o mar prateado, que se tornava mais escuro para l de Lavan Sands, e estremeceu. No era de espantar que os ingleses exilados naquele lugar brbaro 
cerrassem fileiras. No era de espantar que a viva de Talvace se houvesse apegado aos seus, apressando-se a barricar-se por trs do nome de outro homem, para dar 
ao filho um pai da sua prpria raa.
- E qual dos teus muitos pais ouves tu mais atentamente, Harry? Suponho que  difcil eles falarem todos a uma s voz.
- O prncipe - respondeu Harry, com esprito prtico e sorrindo com malcia. - No meu lugar, no fareis o mesmo?
- Faria! Seria preciso muito para, estando eu no teu lugar, me arriscar a desagradar a esse senhor. Todavia, meu amigo, parece-me que tu consegues que ele te faa 
quase todas as vontades.
- Ele  muito bom para mim - reconheceu Harry alegremente. - E s se zanga comigo com razo. Mas, quando isso acontece,  terrvel.
Utilizava as palavras que nos servem para falar do medo mas no sabia ainda o que era o medo: nos seus olhos, por trs da admirao receosa, lia-se tambm o divertimento.
- Uma vez, o velho Einion adormeceu, no salo do castelo, debruado sobre a harpa e eu atei-lhe as barbas s cordas. Quando ele acordou e quis tocar, estava to 
enredado que at pensou que era um feitio. Nunca vi o prncipe to zangado. Apanhei a maior tareia que ele alguma vez me deu, para me ensinar a ser respeitoso.
Mas de Breos bem via que o castigo no fora suficientemente severo para impedir Harry de se rir ou para o intimidar perante o prncipe ou perante o bardo.
- Depois, arrependi-me - confessou Harry. - No pensei que ele fosse acordar daquela maneira e assustar-se por se ver preso.

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Mas isso foi h muito tempo - acrescentou apressadamente, recuperando a dignidade presente, que a condio de escolta de um prisioneiro to importante lhe conferia. 
- Foi h quase trs anos, quando eu ainda era criana.
- Calculei que assim fosse - disse de Breos, para o tranquilizar.
Aproximavam-se da passagem arborizada que cortava abruptamente as altas montanhas. William de Breos avistou o brilho metlico do curso de gua que atravessava o 
carreiro e fertilizava os campos planos, lanando-se depois nos charcos salinos; e, mais acima, recuando para a embocadura do vale, a grande muralha de madeira do 
castelo de Llewellyn, semioculta pelos casebres do vilar dos servos, que a ela se colavam, junto  porta. Dentro das muralhas, a torre de menagem de madeira dominava 
o outeiro alto e os telhados agrupados  sua volta. Sobre o grande aglomerado pairava uma leve neblina de fumo, que parecia isol-lo do dia que chegava ao fim. Aquela 
terra vizinha das suas e que, em perto de trinta anos, apenas entrevira parecia mais estranha do que nunca a William de Breos.
- Confesso que nunca prendi um bardo a uma harpa - ia dizendo, em tom ligeiro, apesar de o corao lhe estar a gelar dentro do peito. - Mas, uma vez, deitei fogo 
a um capelo. O velho tolo nunca se calava e o diabo deixou uma vela acesa mesmo ao p da batina dele. Um feito aceitvel para o filho do meu pai, mas imperdovel 
para o sobrinho do meu tio. Ter bispos na famlia  uma bno discutvel, Harry. Mas claro que isso tambm foi h muito tempo, quando eu ainda era criana.
O que vais tu fazer aqui, meu caro William?, pensava para consigo, assolado por vivo descontentamento e pelo langor frio que se instalava dentro de si, como as nuvens 
sobre Moei Wnion. O que vais tu fazer aqui, sem nada em que ocupar o tempo, sem exerccio, sem mulheres? Ah, se me fosse dada a liberdade de viver na terceira cela, 
na montanha, com a decidida (e bela) dama que no quer saber do casamento. Ser verdade que ela se contenta com o Santo Clydog? E com John o Frecheiro, evidentemente! 
Convm no esquecer John o Frecheiro.
Quando se aproximavam das muralhas, os cavaleiros que seguiam adiante endireitaram as costas e os cavalos ergueram as

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cabeas e dilataram as narinas para aspirar o cheiro de pastos que lhes eram familiares. A barreira imponente que o ameaava era, para os outros, uma viso reconfortante: 
havia estbulos com feno  espera dos cavalos e camas quentes  espera dos homens. Mas porque haveria a sua cama de ser fria? H mulheres em todo o lado. Era sabido 
que as damas galesas de alta linhagem eram virtuosas. Mas s-lo-iam todas? Antes de casar, Llewellyn tivera um filho bastardo com uma dama de uma linhagem quase 
to antiga como a sua. Tanto quanto me lembro, o rapaz revelou-se incmodo e, agora, vive fechado a sete chaves em Degannwy, para no se atirar  garganta do irmo. 
Fechado a sete chaves, como eu ficarei em breve, aqui, em Aber.
- Espero que alojeis os vossos prisioneiros acima do solo, Harry - disse, mirando a muralha sombria. - A luz  a ltima coisa que um homem se resigna a perder. Sem 
contar com a respirao - acrescentou com um sorriso amargo.
Arrependeu-se de imediato de ter utilizado aquele tom. Era injusto despejar a blis para cima do rapaz, uma presa fcil pelo apego inocente e espontneo que lhe 
testemunhava. No lhe passara despercebido que Harry imitava a sua maneira de falar, os seus movimentos de cabea e a sua postura na cela. De Breos no tinha filhos 
- apenas um bando de filhas pequenas - e achava lisonjeira e agradvel aquela admirao que, todavia, o obrigava a controlar os mnimos gestos.
- Aqui no h masmorras, senhor. Vivemos  luz do dia. A viagem foi dura para vs - acrescentou Harry, ansioso. - Mas em breve podereis descansar. E juro-vos que 
a princesa, minha me adoptiva, vos tratar com generosidade e carinho.
- Embora nunca a haja visto, ainda somos parentes distantes.
A relao era efectivamente tnue, um n de mltiplos interesses, na complexa rede de alianas que formavam uma vasta teia de aranha, na zona de fronteira. J com 
uma idade avanada, o seu pai casara em segundas npcias com a mais bela das muitas raparigas que havia nascido depois de David. A jovem e morena Gladys no poderia 
deixar de se sentir muito satisfeita por haver ficado viva aos dezasseis anos. Ou seriam dezassete? Agora, iam voltar a casa-

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-Ia e, se Deus tivesse d dela, talvez com algum com uma idade mais prxima da sua.
- Tem cuidado, Harry, com aquilo que prometes em nome de outrem. Se o acolhimento que me for dispensado for menos generoso e carinhoso do que prometeste, pedir-te-ei 
contas por aquilo que estiver em falta. No duvido que vou pagar bem cara a minha estada.
Ainda nem havia dois meses que se instalara no seu feudo e j ia ser necessrio penhor-lo para pagar a prpria liberdade. No obstante, conseguiu manter o sorriso 
e a sua boca, bela apesar das marcas do cansao, recuperara uma expresso de bom humor. Chegara a altura de reunir as energias que lhe restavam, pois estavam agora 
a passar agora pelas primeiras cabanas da aldeia e os guardas postados junto  porta afastavam-se j para lhes dar passagem.
Harry parou por um instante do lado de fora da porta e de Breos, que no pde deixar de adivinhar o motivo, absteve-se delicadamente de olhar. Que jovem daquela 
idade resistiria a fazer uma entrada majestosa no castelo, montado num cavalo, que era o seu trofeu de guerra justamente conquistado? E a verdade era que Harry no 
conseguia chegar ao estribo sem se apoiar no eixo da carroa ou numa pedra com altura apropriada e era demasiado orgulhoso para deixar que um dos homens de armas 
o ajudasse a subir para a sela. O melhor era pois no olhar para o contraforte de madeira da muralha, quando o rapaz para l se precipitasse.
Pouco depois, Harry estava de novo ao seu lado, de costas direitas, rosto solene, montado no grande alazo; e, apesar de, nas suas costas, mostrarem um sorriso aberto, 
diante dele, os homens de armas apresentavam uma expresso impenetrvel. Todos eles gostavam de Harry e nenhum se sentia com coragem para estragar o seu triunfo.
As mulheres da aldeia largaram o que estavam a fazer e correram a agarrar-se aos estribos, comeando a caminhar ao lado dos seus homens. Rhys ap Griffith, que, na 
prtica, assumira o comando da escolta e do seu comandante nominal, afastou-se modestamente para o lado, para deixar o rapaz avanar sozinho.

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A carroa parou. Do salo do castelo, saiu Ednyfed Fychan, o senescal de Llewellyn, e, logo atrs dele, um grupo de oficiais subalternos; vindos das cozinhas, do 
armeiro e dos canis, apareceram todos os homens que podiam abandonar os seus afazeres e vir dar as boas-vindas aos companheiros que regressavam. Harry teve um pblico 
 altura da sua entrada triunfal. Mas no foi para os olhos dos mais velhos e nem mesmo do seu antigo mestre, Einion, que o jovem obrigou a montada nervosa a dar 
alguns passos de dana, antes de se deter.
Dos aposentos do prncipe, situados no ngulo mais afastado do castelo, tinham sado duas mulheres: sem dvida, as duas mes seculares de Harry. Qual delas provocara 
aquela comovente demonstrao de orgulho e ambio, aquela forma estudada de descer do cavalo, o rubor vivo que lhe coloria as faces? Por certo que no fora a sua 
me de sangue! Primeiro com distanciamento e, depois, com crescente interesse, de Breos observou as duas figuras que se aproximavam.
Uma delas era baixa, com grandes olhos escuros e um rosto que fazia lembrar uma rosa; menos esbelta do que talvez j houvesse sido e menos jovem, mas o preto dos 
seus cabelos e os tons plido e rosa das suas faces haviam conservado o brilho. A outra era meia cabea mais alta e mais magra do que a primeira, uma mulher de expresso 
grave, cabelo louro acastanhado penteado em duas tranas, enroladas ao lado da cabea, tez clara e rosto estreito.
No podia haver dvidas quanto a qual das duas era Gilleis Boteler e qual a princesa de Gwynedd. Bem se via onde fora o herdeiro de Llewellyn buscar o cabelo claro 
e a magreza. E, espantosamente, era aquele rosto que, sem que ele se apercebesse de tal, inflamava o corao incauto de Harry, fazendo-o corar e brilhar na presena 
dela.
De Breos no via naquele rosto nada que justificasse tamanho arroubo juvenil. A princesa era dotada de uma autoridade grave, de uma graa demasiado calma e indiferente 
de movimentos, de um certo encanto desconsolado. Mas nunca deveria ter sido realmente bonita e, aos quarenta anos, estava magra e cansada; a pele deixava entrever 
demasiado os ossos e a carne flcida deixava transparecer

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demasiado o esprito. Mais alguns anos e seria velha. De Breos desviou os olhos.
Quando Harry desmontou, um cavalario tirou-lhe as rdeas das mos. O jovem voltou as costas ao senescal e correu para as duas mulheres. Ajoelhou diante da princesa 
e, em seguida - naquilo que devia ser uma rotina de toda a sua vida, em cada um dos reencontros e em cada uma das despedidas - ergueu-se e estendeu o rosto para 
ela, para receber um beijo. A princesa prendeu-lhe a cabea entre as mos e beijou-o, com uma simplicidade que denunciava um velho hbito, antes de o libertar para 
os carinhos mais expansivos da me. Mas, por um momento, com as mos de Joan sobre as faces e os lbios de Joan poisados na testa, Harry vibrou, sob o efeito de 
uma tenso desconhecida e que estava para alm da sua compreenso. De Breos viu essa tenso percorrer os ombros rgidos do rapaz, as suas costas robustas, como um 
frmito de felicidade. No havia dvida possvel: o jovem estava profundamente apaixonado por ela.
E uma mulher por quem algum est apaixonado, mesmo que esse algum seja um rapazinho impetuoso e ingnuo, merece sempre um segundo olhar.
Timidamente, agarrando-se s guardas da carroa, de Breos ergueu-se um pouco, quando viu Harry voltar a correr para junto de si.
- Podeis caminhar, senhor? Quereis ir ao encontro da princesa?
Sim, pensou de Breos, eu vou; vou e levo comigo todas as armas de que disponho. Segundo parece, h ali qualquer coisa que vale a pena descobrir. As mulheres haviam-se 
juntado ao grupo de homens e a princesa conversava com Ednyfed Fychan. No olhou para o prisioneiro, talvez para no parecer querer apress-lo na descida da carroa, 
claramente difcil e penosa.
Mas haveis de olhar para mim, senhora, pensou de Breos, que sentiu o fluido vibrante do desafio voltar a correr-lhe nas veias, como o vinho que atravessa o corao 
de um brio. Haveis de olhar para mim e haveis de me ver, pois haveis visto quase tudo quanto h para ver neste reino mas nunca, at agora, haveis visto William 
de Breos.

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- Permite que me apoie no teu ombro, Harry. Sinto-me terrivelmente rgido. No, no me deixes assim. Foste tu quem me partiu as costelas e vais ser tu a servir-me 
de apoio at elas ficarem boas. Tambm me deves uma boa camisa e bem gostaria de a vestir neste momento. Mas no importa: se no me apresentar no meu melhor, no 
poder haver decepes mais tarde.
A princesa voltou a cabea, quando eles se aproximaram: o homem avanando a passadas hesitantes e cansadas, com o brao apoiado no ombro do rapaz. Desde o incio 
que tivera conscincia da sua presena e, agora, voltava finalmente a cabea porque lhe parecia cruel deixar o ferido percorrer com tanta dificuldade a distncia 
que os separava. Joan era generosa, de uma generosidade impulsiva. A primeira promessa de Harry foi cumprida pouco depois de feita. A princesa afastou-se do senescal 
e foi ao encontro deles.
Harry caminhava com toda a cautela, acertando o passo e a respirao pelos do seu prezado prisioneiro, orgulhoso por lhe servir de apoio. Nada disto escapou ao olhar 
da princesa. Nada lhe escapava. Como vedes,  um sinal, para vs e para mim, pensou de Breos. O vosso jovem falco, real por adopo, foi domesticado. Meditai nas 
implicaes desse feito e olhai bem para mim. Deixar-se-ia ele seduzir por um homem qualquer?
- Bem-vindo a Aber, senhor de Breos - disse a princesa, numa voz grave, o mais belo dos seus atributos. - Estais ferido e demasiado cansado para cerimnias. Se desejardes 
retirar-vos para os vossos aposentos, mandarei que vos levem toalhas e gua.
- E se eu recusasse? - perguntou o prisioneiro, com um sorriso triste. -Aceitareis? Deixar-me-eis partir, depois de me haverdes alimentado e permitido que me aquecesse 
na vossa casa?
- Vejo que conheceis os costumes da hospitalidade galesa - disse Joan, com um ligeiro sorriso.
Os olhos que ela fixou no rosto dele eram cinzentos, lmpidos e muito profundos. Aquilo que esses olhos viram no foi o corpo bem feito de William de Breos, nem 
as suas feies belas e orgulhosas: viram os dedos crispados sobre o ombro de Harry, as rugas acentuadas, as marcas do desnimo  volta da sua boca - que tornavam 
intil o sorriso obstinado -, a beleza destroada dos seus

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movimentos e, tambm, a sua juventude, to ostensivamente enganadora e insolente, mas agora esmagada por um sentimento de impotncia.
- Seja como for - prosseguiu a princesa num tom seco, apesar do sorriso um pouco mais caloroso - penso que, no vosso estado, no seria sensato pedirdes para partir 
esta noite.
-  verdade - concordou ele, olhando-a fixamente. - No vou pedir para partir esta noite. Mesmo que me abrsseis a porta, eu no iria.
Ela tratar-me- com generosidade e ternura, no  assim, Harry? J vi a sua generosidade, porque a generosidade pode ser exibida num terreiro, diante de toda a gente. 
Mas a ternura  diferente: exige silncio e recolhimento. E tempo. Mas, graas  obstinao do senhor desta fortaleza, tempo  coisa que no nos vai faltar.
- Sim, meu filho, ns sabemos, ns sabemos - disse Gilleis, bem-disposta.
Ia a caminho do tear e parou para tocar ao de leve na nuca tensa de Harry, com o dedo coberto por um dedal.
- Nunca se viu to grande poo de virtudes! Tem uma voz de anjo, a ligeireza de um galgo e uns modos infinitamente galantes e nobres. Desde que o trouxeste para 
aqui, h trs dias, no fazes outra coisa seno tecer-lhe louvores. J todos sabemos de cor a tua msica.
Ajoelhado no tapete, aos ps de Joan, com os braos apoiados nos joelhos cobertos de brocado da princesa, Harry no parava de falar. Na intimidade do quarto de Joan, 
Harry continuava a comportar-se como um filho de pleno direito. Haviam sido muitas as vezes em que brincara na grande cama de Llewellyn, muitas as vezes em que ela 
observara as brincadeiras daquele rapazinho estranho e altivo, cativada por tamanha segurana, que quase o levava a acreditar que as suas razes estavam ali.
- Mas ele no  tal e qual como eu disse? No vos disse que ele era capaz de fazer boa figura, em tudo o que se empenhasse? At perante um bardo to grande como 
o nosso - acrescentou Harry, cheio de orgulho.

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Joan estava sentada, com a mo entre as mos de Harry, de olhos fixos na sua prpria imagem, reflectida no prateado brilhante do espelho, por trs do jovem. Tinha 
j o cabelo solto, que lhe caa at  cintura em pesadas madeixas. Olhava para um qualquer ponto para l do espelho, para l das paredes do quarto, e a expresso 
da sua boca denotava uma tristeza, que enchia de ternura o corao de Harry.
-  um homem como os outros - disse ela. - Uma voz, um rosto, um corpo. Deus dotou-o do que era preciso.
- Se continuas a louvar tanto os mritos dele, vai haver quem diga que fazes isso para te gabares de o haver vencido - comentou Gilleis, troando do filho.
-  mentira, nunca pensei nisso! - protestou Harry, indignado. - O que eu admiro no  o seu merecimento em combate, apesar de a reputao dele ser boa em Inglaterra. 
 o modo como ele aceitou as coisas, quando a sorte se voltou contra ele. E mesmo agora... se o houvsseis visto, como eu vi, to triste que ele estava, quando pensava 
no haver ningum por perto. Ele no merece isto! Sabeis vs, saberei eu o que  estar prisioneiro? Todavia, bem o ouvistes  hora da ceia, a falar, a rir...
E se ria! Com todo o seu ser, a cabea lanada para trs, os ombros largos e musculados oscilando ao ritmo das gargalhadas e o pescoo comprido, incrivelmente liso, 
palpitando por cima da gola de pele da cota de David. E como falava, entre uma gargalhada e outra, com o brilhantismo e a fluidez de um vinho que escorre com facilidade. 
A recordao fez corar um pouco o rosto plido reflectido no espelho. Reviu-se a si mesma, calada e grave, ao lado dele, incapaz de partilhar aquele riso, mesmo 
quando essa oportunidade lhe era dada. Ele perguntara conscienciosamente pela madrasta, permitindo que, nas suas boas maneiras, transparecesse um ligeiro divertimento 
sem malcia, e demasiado civilizado para ser ironia; mas ela nem sequer sorrira. Talvez estivesse envolvida havia demasiado tempo no jogo intrincado de cortes, reis 
e destinos. Habituara-se a considerar as filhas como peas de um tabuleiro de jogo, que podiam ser movidas entre trs geraes. As filhas sim mas o filho no. O 
filho nunca.

35

- E, esta noite, quando chegou o mensageiro do nosso senhor, bem haveis visto como ele aceitou as novas, que todavia lhe eram adversas. Ouvistes o que ele disse. 
Quantos homens seriam capazes de mostrar tal valentia?
Eram de facto ms notcias para o ingls. A guerra no Kerry terminara e a hoste inglesa batia ignominiosamente em retirada, bem para o interior das prprias fronteiras, 
fugindo s primeiras geadas do Inverno e  ameaa da fome. Ainda lhe parecia ouvir a voz do senescal, transmitindo as novas das trincheiras, e ver de Breos que o 
escutava sem vacilar. Quantos homens seriam capazes de mostrar tal valentia?
"Os termos da paz j foram acordados, s havendo ainda um certo burburinho quanto  forma de acertar alguns pormenores. Os ingleses vo pagar umas tantas cabeas 
de gado pelo privilgio de recuperarem o Kerry intacto mas esta  uma questo insignificante."
"No para aquela gente esfaimada que eu por l vi! Ser um milagre, se eles deixarem um animal inteiro para o rei poder levar para Inglaterra. E quanto  fortaleza 
de Hubert? Pressinto que nunca h-de chegar a ser acabada."
"Vai ser deitada abaixo, demolida at aos alicerces, senhor."
"Deus v tudo! Ele chamou-lhe a sua loucura e acabou por se ver que era mesmo uma loucura. Espero que nunca brinqueis com as palavras, senhora. E condo das palavras 
voltarem ao ponto de partida, arrastadas pelo vento, batendo na cara do tolo que julgou hav-las encaminhado noutra direco. Vai ser, por certo, preciso pagar uma 
indemnizao pelo trabalho de arrasar a fortaleza?"
"O montante ainda no foi acertado, senhor."
"Que isso no vos d cuidado. Seja qual for, por certo poderei pag-lo."
Toda esta conversa decorrera sem ela haver dito uma palavra. As palavras so armas temveis; mesmo sem o aviso de William de Breos, Joan nunca as usaria sem prudncia. 
Quando, por fim, ousara faz-lo, o cho tremera-lhe debaixo dos ps; at esse momento, ignorava que pudesse tremer tanto.
"Receio, senhor, que estas notcias no vos dem qualquer prazer."

36

Por uma vez sem sorrir, ele lanara sobre o rosto dela o brilho dos seus olhos escuros e, rapidamente, numa voz to baixa que ela quase no percebera o sentido das 
palavras, perguntara: "E a vs, senhora?"
Fechando o armrio, onde acabara de arrumar um vestido, Gilleis, disse:
- Vem, Harry! Est na hora de ires para a cama. Pensas que, sozinhas, as mulheres no so capazes de reparar num rosto bonito e de apreciar um corao valoroso? 
Diz boa-noite  minha senhora e recolhe  tua magnificncia solitria, j que no queres a minha companhia nem a do Adam.
Harry dormia, com Owen, na antecmara dos aposentos atribudos a David, dada a sua qualidade de herdeiro reconhecido de seu pai, e poderia perfeitamente ficar no 
alojamento da me, enquanto os irmos estavam fora de Aber; mas no queria renunciar aos seus direitos, por nada deste mundo.
Obediente, Harry beijou a mo de Joan e estendeu o rosto para receber o beijo dela. Estremeceu, quando os seus lbios lhe afloraram a face, e ela sentiu o calor 
do sangue que aflua quela pele macia; mas, quando o afastou de si, o que ela viu foi uma criana ruborizada, talvez com um pouco de febre provocada pelo sono. 
Se ela ouvisse os louvores que ele lhe tecia junto de de Breos, pensou Harry, os louvores que lhe ficavam atravessados na garganta na sua presena, dar-lhe-ia mais 
valor e ach-lo-ia digno de desempenhar uma tarefa de homem, ao seu servio. Quando lhe descrevera a embriaguez e o jbilo da sua primeira participao em combate, 
do qual trouxera um magnfico trofeu para depositar aos seus ps, ela limitara-se a acarici-lo sorrindo, com a mesma calma que demonstraria se ele estivesse a mostrar-lhe 
um novo brinquedo. A princesa passava demasiado tempo com a sua me, que ele amava ternamente mas que nunca o levava a srio.
Ao chegar  porta, voltou-se para acrescentar fervorosamente:
- O padre Philip diz que, nas nossas oraes, devemos lembrar-nos de todas as almas que sofrem duras provas e de todos os prisioneiros. Rezareis pelo senhor de Breos?

37

A princesa no voltou a cabea mas, no suave brilho metlico do espelho, os seus olhos procuraram os de Harry e o olhar reflectido era, ao mesmo tempo, terno e severo, 
como se lhe sorrisse mas estivesse a mostrar reprovao a algum que se encontrasse atrs dele. Ao cabo de um longo silncio, respondeu baixinho:
- Podes ir descansado. Rezarei por ele.
- Que rapaz este! - suspirou Gilleis, beijando-o na face, antes de o empurrar  sua frente, para a porta. - Alguma vez o vistes assim preocupado por causa de um 
de ns? Quantas vezes o vi rezar as oraes to depressa que nem se percebia o que ele dizia. Mas, pelo senhor de Breos, quer pr-nos a todos de joelhos. A verdade 
 que, no que lhe respeita, todas as palavras lhe parecem poucas. E o jovem senhor sabe lidar com ele - admitiu, sorrindo. - Seria difcil resistir a gostar dele.
Joan continuou em silncio, imvel diante do espelho, de olhos fixos nas suas longas tranas desfeitas, alisadas pela escova. O cabelo ainda era louro mas, a pouco 
e pouco, o brilho cor de mel ia ficando mais plido, como a erva que, no corao do Vero, comea a embranquecer. O tempo esbate os tons da pele, dos cabelos e dos 
olhos, cobrindo-os com uma fina poeira corrosiva. Os msculos da garganta estavam um pouco flcidos, a delicada pele branca do pescoo baa e granulada. A poeira 
velava-lhe at os olhos, cinzentos como um espelho. Era como que se toda a sua vida fosse Quaresma, como se a Primavera houvesse passado, sem que uma qualquer Pscoa 
surgisse, para dar sentido a essa vida e trguas  sua alma. As ltimas flores de Maio secavam j nos ramos e iriam desaparecer, sem lhe dar tempo de estender a 
mo para as colher. Claro que, um dia, j fora rapariga mas essa rapariga morrera irrevogvelmente aos quinze anos, quando abandonara as bonecas, para carregar o 
fardo dos assuntos da corte e conceber um filho, para quem, desde ento, se dedicara a construir um reino. Estivera demasiado ocupada, e at demasiado satisfeita, 
a manipular os homens, os tronos, os poderes, e no lhe sobrara tempo para apreciar o ms de Maio.
- Dentro de uma semana, o meu senhor estar de volta a casa disse Gilleis, em tom animador.

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- Graas a Deus!
Bastava-lhe olhar atentamente para o seu prprio rosto, no espelho, e via-o l. A expresso sombria de Llewellyn transparecia sob a sua palidez, o fogo metlico 
dele sob a discreta autoridade dela, a ossatura de um fundida na ossatura do outro, os seus olhos confundindo-se com os dele, e, do ninho que fizera na sua mente, 
era uma guia que espreitava atravs do seu rosto. Ela crescia nele, carne na carne, alma na alma, desde havia muito tempo. Se ele fosse ferido, ela sangraria. Alguma 
vez teria havido uma tal fuso de dois seres num s? Alguma vez teria havido um casamento to absoluto como o seu?
- Agora, retirai-vos, Gilleis. Vou dormir j. Boa noite!
- Boa noite, senhora! Vou deixar a tocha acesa.
Os passos leves de Gilleis soavam cada vez mais distantes, enquanto ela ia descendo a escada de madeira. O grande quarto de dormir e o guarda-roupa de Joan erguiam-se 
sobre uma galeria alta e, por isso, as janelas abriam-se acima do pano da muralha; quem por elas olhasse avistaria os canais e, mais ao longe, a cadeia prateada 
da costa de Ynis Mon.
Quando ouviu a porta exterior fechar-se pesadamente, Joan levantou-se do tamborete, desceu os degraus a correr e colocou a pesada barra de madeira no encaixe. Alguma 
vez haveria feito tal coisa? Porque havia de o fazer agora? Quem ousaria abrir a sua porta? Ela era o seu prprio baluarte, a sua prpria armadura, uma fortaleza 
impenetrvel. E ningum pode proteger-se das imagens com uma tranca. Se a imagem de um homem conseguira penetrar aquela barreira invisvel, como seria possvel afast-la 
com aquela proteco irrisria de que nunca precisara? Trancar a porta era admitir e reconhecer a sua presena. Ele ia ficar dentro daquele quarto com ela, insinuar-se 
no seu sono durante toda a noite.
Apesar disso, deixou a tranca no lugar. E, ao regressar ao quarto, rezou apaixonadamente por todos os prisioneiros e por todos os seres expostos a duras provas.

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Harry sentou-se na cama, sobressaltado, nas trevas frias de depois da meia-noite, arrancado a um sonho agitado que se desvaneceu instantaneamente, sem deixar imagens 
mas apenas uma sensao de tenso e medo. O seu corao batia desordenadamente, como se houvesse corrido, mas parecia-lhe mais haver corrido para esse medo, e no 
para longe dele; e acordara no momento em que ia abra-lo. Instintivamente, estendeu a mo em busca de Owen mas o lugar de Owen na cama estava frio e, ento, lembrou-se 
de que estava sozinho.
Aconchegou a manta de pele  volta do corpo nu e ficou  escuta, em silncio. Sem forma e furtivo, o sonho incompleto pairava sobre ele,  espera, na escurido. 
Era uma tontice ter medo. Bastava estender-se na cama, cobrir os ouvidos com a manta e deixar-se mergulhar no sono, devagarinho. Os sonhos interrompidos raramente 
voltam.
Mas Harry no se deitou. Saltou da cama grande e, s apalpadelas, sempre de ouvido atento, procurou as meias. Os ces no haviam dado sinal. Todavia, houvera um 
som, um som suave e sussurrante, que mal se ouvia, o aflorar dos dedos de uma mo a tactear o caminho ao longo da madeira rugosa da parede exterior do seu quarto, 
como se um cego por ali houvesse passado.
Agora que dera uma forma ao som, estava menos assustado e infinitamente mais curioso. Sempre s escuras, vestiu as meias, enfiou a cabea na abertura da cota e parou 
de novo, numa imobilidade nervosa. Se no estivesse  escuta com tanta ateno, no teria ouvido o segundo som, todavia mais forte do que o primeiro; quando este 
chegou, Harry no seria capaz de dizer quanto tempo se passara entre um e o outro. Era o som surdo de uma queda, abafado, vindo de algures entre os edifcios, dos 
lados do pano da muralha. Com toda a cautela, Harry abriu a porta do quarto e, sustendo a respirao, ficou  espera de que os ces comeassem a ladrar. Mas os canis 
ficavam no extremo oposto do castelo e os ces no ladraram. Na escurido da noite nublada e sem lua, nada se mexia e, com o -vontade de um velho hbito, Harry 
avanou entre os edifcios e correu na direco da ameaa desconhecida com a mesma curiosidade e a mesma temeridade que no sonho.

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Contornou a esquina da torre e parou de repente, alarmado: o som surdo dos seus passos e as batidas fortes do seu corao diziam-lhe que a porta ao fundo das escadas 
estava aberta. Porque estaria a porta da princesa aberta quela hora? Hesitou, na dvida: deveria correr para a princesa, para ver se ela estava a salvo, ou deveria 
seguir o som? Mas eram s dez jardas da esquina da torre at ao caminho estreito que a separava do pano da muralha e a curiosidade venceu.
Ao cabo de instantes, Harry avistou uma sombra, de p, mesmo por baixo da muralha, num ponto onde era difcil distinguir entre uma sombra e outra. Uma voz abafada 
inquiriu baixinho:
- Quem anda a?
Depois, houve um breve sussurro, de reconhecimento sem dvida, e a voz tornou-se mais firme.
- s tu, Harry?
- Est tudo bem, senhora... - comeou ele, em voz alta. A princesa tapou-lhe a boca com a mo, impondo silncio.
A palma da mo dela, dura e firme, estava fria e acalmou-o. Ela era a senhora daquele domnio, por direito e no por favor e, se no se mostrava alarmada, no havia 
motivo para ele se alarmar. Harry estendeu os braos para ela e tropeou numa coisa pesada e quente que se encontrava aos seus ps. De braos abertos contra o pano 
da muralha, jazia um homem. As mos do homem, firmadas numa tentativa laboriosa para erguer o corpo do cho, eram duas manchas brancas no escuro. Os cabelos cados 
sobre o rosto eram o centro mais negro de vrias zonas de sombra, que comeavam a desenhar-se diante dos olhos de Harry. O homem respirava fundo, com dificuldade, 
e o primeiro impulso que deu para se levantar arrancou-lhe um gemido.
- Senhor de Breos! - sussurrou Harry.
A certeza que o invadiu f-lo tremer de novo. Aquele lugar exguo e escondido, junto  muralha, no extremo mais afastado do terreiro do castelo, os bosques no ficavam 
muito longe, no havia lua...
- Ele no podia! - exclamou Harry, numa voz estrangulada, ofendido e incrdulo. - No podia! Deu a palavra de honra...

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- Chiu! - ordenou peremptoriamente a princesa, agarrando-lhe no brao. -Ajuda-me a levant-lo. Depressa. E cala-te. Temos de o levar para a cama, antes que mais 
algum acorde.
Apesar de confuso, Harry obedeceu; estendeu o brao e, entre ambos, conseguiram pr de p o homem cado. Joan colocou o comprido brao direito de William de Breos 
 volta do pescoo; do outro lado, Harry amparava-o com o prprio corpo. Avanavam os trs como um nico ser, enlaados e vacilantes. Ao primeiro passo, de Breos 
soergueu-se, para os aliviar um pouco do peso do seu corpo. No disse palavra, no levantou a cabea mas, com a ajuda deles, conseguiu andar.
- Como  que ele pde? - sussurrou Harry, em tom amargo, por entre os dentes cerrados, dirigindo-se directamente a Joan, como se o homem entre ambos fosse surdo 
ou estivesse morto. - Ele deu a palavra de honra!
A princesa percebeu a raiva e o choque na voz dele e esboou um sorriso, no escuro. Harry tinha treze anos e ainda vivia no mundo simples onde todas as promessas 
e a palavra dada eram automaticamente honradas. Tinha muito a aprender sobre os homens e, ainda mais, acerca da compaixo mas, em breve, a vida se encarregaria de 
o ensinar. Deix-lo viver um pouco mais na iluso, mesmo que isso o fizesse sofrer. Ningum, alm dela, precisava de saber de que parede cara de Breos.
- Cala-te - repetiu ela, docemente. - Vamos lev-lo para casa. Ainda abatido pela decepo, Harry engoliu em silncio as
lgrimas de indignao.
- Ser preciso p-lo a ferros? Se no  capaz de cumprir a palavra de honra...
Ferido e envergonhado, abriu a porta do quarto do prisioneiro, com um empurro raivoso. Porque se havia deixado arrastar para aquela conspirao de silncio? A vergonha 
que sentia era contra si mesmo, porque fizera daquele homem uma pea da sua vida, porque ingenuamente se orgulhara dele e v-lo assim exposto ao desprezo era uma 
humilhao insuportvel.
- Fecha a porta - ordenou Joan, deixando escapar um suspiro de alvio.

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Depositaram o fardo que transportavam em cima da cama, onde este ficou estendido, com a cabea no travesseiro, sem se mexer. Apesar de a porta estar fechada, os 
olhos de ambos j se haviam habituado  escurido e conseguiam distinguir os contornos das sombras. Viram de Breos erguer o brao, num movimento lento e pesado, 
e cobrir o rosto. Ficaram  espera por alguns instantes, embora Harry no soubesse de qu; talvez de que o silncio lhes trouxesse a certeza de que no havia mais 
ningum acordado, talvez de que o ritmo das suas respiraes abrandasse, antes de se arriscarem a falar.
- Estais ferido? - perguntou por fim Joan, em voz muito baixa.
Pela tenso do seu corpo, Joan e Harry sabiam que de Breos estava consciente.
- No - respondeu o homem deitado na cama, numa voz abafada e amarga. - No como eu merecia.
- Foi uma loucura tentar aquela escalada - disse Joan, num tom to abafado como o dele. - J deveis saber que, no estado em que vos encontrais, no ireis aguentar 
tamanho esforo.
- Sabeis bem que foi mais do que uma loucura - murmurou a voz, por baixo da manga. - Foi uma infmia, da qual estou arrependido. Agora, podeis entregar-me e fica 
tudo acabado.
- Apesar de serdes meu prisioneiro, senhor, sois tambm, de certo modo, meu hspede e a honra dos meus hspedes  um bem que me  caro - disse ela. Em seguida, voltando-se 
para o rapaz, acrescentou com autoridade: - No vais contar nada disto a ningum.  uma coisa que vai ficar s entre ns os trs.
Como que apanhados por um mesmo impulso de recuo, o homem e o rapaz ficaram tensos.
- Ele desrespeitou aquilo que prometeu - replicou o rapaz, revoltado.
- Antes dele, muitos outros o fizeram, levados por situaes extremas e, depois disso, viveram com honra.
Fora mais por mgoa do corao ferido do que por nsia de justia que Harry lhe fizera frente e Joan sabia isso; mas resolveu atribuir-lhe o motivo mais nobre.

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- No sejas demasiado duro por uma nica falta, seno, quem estar  altura das tuas exigncias? Poder chegar um dia em que precises que te julguem com brandura, 
Harry. O mundo d muitas voltas.
Comover Harry era tarefa fcil e a grande afeio que tornara aquela traio to insuportvel comeava j a pesar a favor de de Breos.
- Obedecer-vos-ei, senhora - murmurou Harry, reticente e desorientado. - Nunca falarei disto.
- Muito bem! Mas cuida de te lembrares disso. Deixa que seja Deus a julgar. Agora, o melhor  voltarmos cada um para a sua cama e esquecermo-nos de que alguma vez 
de l samos. O assunto est encerrado. De manh, senhor, mandarei saber como vos encontrais. Espero que no estejais muito magoado. Estais seguro de que no estais 
ferido? Sentis-vos suficientemente bem para ficardes s?
A voz que lhe respondeu do leito era dura e seca.
- To bem como pode estar um homem que ficou cara a cara consigo mesmo e tem vergonha do que viu.
- H alguma coisa de que preciseis, antes de vos deixarmos?
- Nada, j fostes misericordiosa ao ponto de apagar dos vossos pensamentos o que se passou na ltima hora - respondeu de Breos. - Preciso apenas de um corao mais 
puro e, penso, isso j vs me haveis dado.
De sbito, afastou o brao que lhe cobria o rosto e soergueu-se sobre o cotovelo.
- Harry! Vem c!
O rapaz aproximou-se da cama, num passo arrastado, a habitual compulso a apossar-se-lhe dos sentidos. A escurido ocultava o rosto que admirava mas nada impedia 
a voz de soar to ntima e dominadora. E Joan, que era a perfeio, havia-lhe dito que no fosse apressado a julgar as faltas pelas quais nunca fora ainda tentado.
- Lamento do fundo do corao a minha tentativa desta noite, Harry. No voltarei a cometer tal ofensa. No sei se ainda aceitas a minha palavra mas dou-ta de qualquer 
modo, por aquilo que ela possa valer para ti.

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Abruptamente, sem sequer esperar por uma resposta, de Breos deixou-se cair sobre o leito e voltou a cabea para o outro lado. Por instantes, Harry ficou indeciso, 
tentando encontrar uma frase generosa para dizer, comovido e furioso por se sentir comovido. Era lisonjeiro algum pedir-lhe perdo e as delcias da magnanimidade 
impeliam-no a ceder mas a ferida era ainda demasiado recente e grave para sarar com facilidade.
- Vem - disse Joan, pegando-lhe no brao. -Agora, vamos deix-lo s.
Harry deixou-se guiar para fora do quarto, sem dizer palavra. O ar nocturno que lhe batia nas faces e nas plpebras era frio. Apesar disso, o sono apoderava-se dele. 
A princesa passou-lhe o brao sobre os ombros e levou-o at  porta do quarto, empurrando-o docemente l para dentro.
- Vai para a cama e pra de te atormentares. Amanh sentir-te-s melhor.
- Se vs soubsseis como eu pensava bem dele... - disse Harry, numa voz abafada pelo desgosto.
- E hs-de voltar a pensar, meu filho. Uma falha no transforma um homem num ser vil. Vai para a cama e dorme. Isto no  o fim do mundo. E pensa nele com bondade 
- acrescentou ela, a voz calma subitamente tomada de desespero. - Pensa com bondade em todos os pobres pecadores. Se cuidas estar ferido, quantos no sero os tormentos 
deles?
- Vou tentar - prometeu Harry, quase a chorar. Cambaleante, aproximou-se da cama fria; a angstia da voz
dela ainda ecoava nos seus ouvidos.
Depois de fechar a porta do quarto de Harry, Joan voltou, qual sombra silenciosa, ao quarto onde se encontrava de Breos. Entrou e aproximou-se dele sem rudo.
De Breos estava deitado na cama, enrolado sobre si mesmo, com o rosto voltado para a parede e os braos compridos fortemente apertados contra o corpo, como se fossem 
cordas. No se mexeu quando ela entrou mas apercebera-se da sua chegada pela ligeira alterao das trevas e pela deslocao de ar provocada pelas suas vestes; e 
por mais qualquer coisa que emanava da presena dela e

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que provocava em todos os seus nervos uma tenso tal que a sua pele se transformava numa rede de sofrimento intolervel. Joan no dizia nada. Seria ele a ter de 
falar no lugar dela mas esse esforo era como a morte. No haveria j dito o suficiente e de modo bem claro?
- Porque voltastes? - perguntou numa voz dorida de angstia. - Que mais quereis de mim? Estou arrependido e no voltarei a ofender-vos. Se pudesse, apagaria tudo 
o que fiz mas, Deus me acuda, isso est fora do meu poder.  uma confisso que pretendeis? Bem sabeis que foi at  vossa janela que eu tentei trepar. Para que quereria 
eu fugir, se vs ficareis dentro destas muralhas?
- Eu sei - respondeu ela, sem se mover.
- Se no fosse o Harry...
- Nada haveis a recear dele. O Harry ainda vos tem no corao. Ele vai ficar calado.
- Para conhecerdes a verdade toda, ficai sabendo que me deixei cair de propsito. Escalei demasiadas janelas na minha vida, para cair daquela. Era uma brincadeira 
de crianas. Se quisesse, poderia haver-vos apanhado de surpresa mas, quando chegou o momento, no era isso que eu queria. Queria que vs visseis at mim... de 
livre vontade, por caridade vossa...
- Sim - disse ela, num tom de desespero. - Vs sabeis como trazer-me at vs. Estou aqui. De livre vontade.
- Vs deveis erguer-me e ter piedade de mim... e, Santo Deus, foi isso que fizestes!
- Ser piedade?
A bela voz grave soava triste e interrogativa.
- Sei apenas que precisava de vir ter convosco - prosseguiu ela. - E, agora que aqui estou, nem sequer olhais para mim?
- No! - respondeu ele, com um sobressalto de protesto. Mas, no instante seguinte, soergueu-se com grande esforo e
voltou-se, enfrentando-a. Com maior esforo ainda, conseguiu pr-se de p, sobre o cho de terra batida.
- Fiz demasiado bem o meu jogo - disse. -Afinal, no era um jogo ou, ento, foi jogado  minha custa, o que no deixa de ser justo. Fui apanhado na minha prpria 
armadilha. Deus  minha testemunha: eu amo-vos! Amo-vos e no posso tocar-vos!

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Ocultou o rosto entre as mos e fechou os olhos,  espera das flutuaes da obscuridade e do frio que assinalariam que ela partira; mas as suas plpebras doridas 
no registaram nenhuma alterao da intensidade das trevas e, quando voltou a abri-las, ela aproximara-se mais um pouco e estava parada, ao alcance das suas mos.
- Ento? - perguntou ela. - Devo ficar ou partir?
- Ide! - implorou ele, em voz rouca. - Pelo amor de Deus! E depressa!
Mas ela no se moveu e, passado um momento, como o moribundo que se lana sobre a Hstia, William de Breos estendeu cegamente os braos, que se fecharam  volta 
do corpo dela, puxando-a contra o peito.

CAPTULO DOIS

Aber: Janeiro a Setembro de 1229
O preo da vossa liberdade, senhor,  de duas mil libras - disse Llewelyn, estendendo uma das mos tisnadas para o calor do fogo.
- Precisamente a soma que me vem assaltando a mente com uma curiosa insistncia, desde que me chegou aos ouvidos que a indemnizao pelo desmantelamento do novo 
castelo do nosso bom corregedor do reino, no Kerry, havia sido fixada nesse montante - respondeu de Breos, com uma gravidade inocente. - Espero que me concedais 
algum tempo para ponderar as probabilidades e... para recuperar o flego de que bem vou precisar at este trato estar terminado.
J antes se haviam entregado a alguns assaltos preliminares, avaliando-se mutuamente, com estocadas e respostas. Isso acontecera antes das festas do Natal, quando 
Lleweiyn regressara a Aber com a sua escolta, em Novembro, e os lugares vazios diante do fogo haviam sido de novo ocupados pelos lanceiros e arqueiros do seu exrcito 
pessoal. Haviam voltado de boa sade e os bardos haviam cantado em seu louvor. Mesmo aos olhos do ingls de Breos, a vitria obtida pelo prncipe, no Kerry, era 
de um alcance que ultrapassava em muito a

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dimenso do pedao de territrio pelo qual a batalha fora travada. Era o primeiro revs infligido  irresistvel ascenso do poder pessoal de Hubert de Burgh e no 
havia dvida de que o rei Henrique, pouco firme no amor que votava ao seu corregedor, ficara devidamente impressionado. Havia srios motivos de discrdia e desunio.
Com Llewelyn, os adiamentos eram sempre pensados e metdicos, apesar de os seus impulsos naturais o arrastarem para a paixo e o dio; fora para servir os interesses 
do Pas de Gales que aprendera a controlar uma e o outro e os seus feitos no domnio da arte da pacincia e da subtileza eram uma vitria prodigiosa contra o seu 
temperamento. O amor pode conseguir o impossvel, incluindo induzir prncipes brbaros a serem cautelosos, astutos e humildes. E o corpo alto, magro e violento de 
Llewelyn, prncipe de Aberfltaw e senhor de Snowdon, continha reservas imensas de amor: por Gwynedd, pelo ideal mais vasto do Pas de Gales - que de Breos via por 
vezes reflectido nos seus olhos expressivos -, pelo filho que herdaria Gwynedd e concluiria a criao de Gales, por todos os carvalhos, por todos os homens dos cls 
que o seguiam incondicionalmente. E, sobretudo, por aquela mulher sria e tranquila, ali sentada  mesa, de costas bem direitas, e que prestava s reunies do conselho 
do esposo a mesma ateno que as outras mulheres prestavam aos seus bordados.
Sim, por tudo isso, Llewelyn era capaz de evitar e adiar uma deciso. Se deixara passar Novembro e Dezembro sem apresentar as suas exigncias, fora apenas  espera 
de sentir que pisava terreno firme, de cimentar a sua posio perante o rei e de ter a certeza de poder anunciar as suas reclamaes com maiores possibilidades de 
sucesso. Henrique j restitura  princesa os feudos de Condover e Rothley, favores que era seu uso conceder ou retirar, consoante o humor do momento. Tratava-se 
de um sinal encorajador para os planos de Llewelyn e de mau augrio para a sua vtima. Todavia, o rei era o seu nico recurso; mas, com uma arma de dois gumes e 
flexvel como era Henrique, nem mesmo um mestre nas artes da espada poderia alguma vez ter grandes certezas.
- Duas mil libras  muito dinheiro, senhor - disse prudentemente de Breos, brincando com a taa quase vazia que segurava entre os dedos.

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- Foi o que eu disse aos enviados do rei, mas eles no quiseram baixar o preo. E como poderia eu pedir por um de Breos menos do que aquilo que vou pagar por um 
castelo inacabado?
O rosto de falco ostentava uma expresso solene mas, por entre as ligeiras rugas que os rodeavam, os olhos argutos sorriam.
- Todavia, senhor, sejam quais forem os termos que acordemos entre ns, estes estaro sujeitos  sano do rei. No seria melhor, quanto mais no fosse por uma questo 
de forma, abater um pouco o vosso preo, para evitar um paralelo to exacto?
- Abater o meu preo? - perguntou Llewelyn, inclinando-se de sbito para diante e batendo decididamente com as palmas das mos no tampo da mesa. - Quando dano a 
compasso com os enviados do rei, sou capaz de falar, to bem como qualquer outro, aquela linguagem tortuosa que eles costumam usar. E, tanto para eles como para 
os registos reais, deve ser mais acertado usar as regras estabelecidas. Mas, entre ns os dois, vamos usar a verdade nua e crua. Sua Majestade poder encontrar algum 
conforto em que fique registado que a campanha no Kerry terminou pela via da negociao mas ele sabe, to bem como eu, que o Kerry foi uma guerra perdida e ganha 
e que quem a ganhou fui eu. Se me aprouvesse, poderia extorquir-vos uma quantia muito superior  que lhe vou pagar a ele, para lhe salvar a face. Se no o fao, 
podeis estar certo de que tal se deve a eu nunca haver pretendido ganhar dinheiro com esta questo. No procurei esta guerra e, por isso, por que hei-de pagar por 
ela?
- Do mesmo mal me posso eu queixar, pois Deus bem sabe que tambm no a procurei.
- E admito que ela nada vos trouxe a no ser reveses. Mas so assim os caprichos da guerra e no fui eu quem decidiu a sua sorte. Poderia muito bem haver acontecido 
ser eu agora o vosso prisioneiro, em Brecon, e estar a parlamentar pela minha liberdade, como vs fazeis neste momento pela vossa.
- Se, algum dia, me for dado esse prazer, prometo que no me pouparei a esforos para vos acolher to magnanimamente como fui acolhido aqui - replicou de Breos, 
com um sorriso luminoso.
-  muito amvel da vossa parte. E eu espero suportar o cativeiro com tanto esprito como haveis suportado o vosso. E no

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 um cumprimento feito de nimo leve. Desejo a todos os homens feitos prisioneiros uma coragem como a vossa. Enquanto o vosso pai foi vivo, mal vos conhecia mas, 
agora que o destino nos colocou lado a lado, digo-vos cara a cara que gosto do que vejo.
A taa parou de oscilar entre os dedos compridos, ficou imvel, mas, dentro dela, a bebida ainda estremecia um pouco. O rosto sorridente ficou esttico por um instante 
e a pele tisnada pelo sol de Vero empalideceu. O brao de Joan moveu-se bruscamente sobre a mesa e fez vacilar a pena no tinteiro. Mas Llewelyn ps cobro quele 
breve momento de embarao, continuando a falar em tom caloroso:
- Gosto de vs e vou tratar-vos com honestidade. Se haveis em mente que o rei venha a impedir este acordo, no lhe dando a sua aprovao, sede sensato e tirai essa 
ideia da cabea. Ele daria o seu consentimento, mesmo que eu vos extorquisse o dobro desta soma. Sua Majestade sofreu um revs no Kerry que o fez dar o devido valor 
 minha calma e a manter boas relaes comigo... pelo menos at achar que as suas possibilidades de sucesso so maiores... por isso, sacrificar-vos- sem remorsos.
- Mas parece-me que, neste momento, estais igualmente ansioso por vos entenderdes com ele - observou de Breos, recuperando a segurana e o brilho. - Ainda  preciso 
pensar em de Burgh.
- Pois  - admitiu Llewelyn, em tom sardnico. - Sei muito bem disso. E a melhor proteco que eu e os meus temos contra ele  um senhor que no gosta nada dele 
e a quem agradaria dispor de uma alternativa. Eu preciso do rei Henrique e ele precisa de mim. Ele precisa que eu me sinta satisfeito e eu preciso que ele se sinta 
tranquilo. Nestas condies, porque no haveramos de entrar num acordo honesto? Mas a necessidade dele  mais aguda do que a minha, como sabereis por certo, se 
sabeis do seu desgnio de lanar uma nova expedio contra a Frana. Est a comprar a minha neutralidade e t-la-. Nenhum dos meus homens passar para o outro lado 
da fronteira, enquanto o rei Henrique estiver de costas voltadas. H muito a fazer aqui, para garantir a segurana das minhas prprias fronteiras. Sereis sensato, 
se aceitardes as minhas condies, porque o rei no vai mexer um dedo por vs.

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De Breos ouvia aquelas palavras sem dizer nada, de sobrolho franzido sobre as mos cruzadas. A luz das velas brilhava nas pedras dos seus anis. Mal recebera a notcia 
da sua captura, a esposa mandara vrios cavalos, carregados com roupas, outras comodidades de Brecon e cartas de amor. Agora, j no precisava de usar roupas emprestadas 
e as suas vestes suplantavam em muito as de David. Talvez fosse um erro, pensava de Breos com amargura, algum vestir-se demasiado bem, quando esse algum est prisioneiro: 
isso tendia a fazer subir o preo. Lanou um breve olhar  princesa, cuja silhueta, erecta e real, se destacava contra o fundo escuro das paredes. Tinha o cabelo 
penteado em duas tranas enroladas que emergiam do delicado diadema de ouro e caam em caracis soltos e brilhantes dos dois lados do rosto. As jias s serviam 
para tornar a palidez dela radiante, intensa e inconsistente como uma chama; mas nunca chama alguma ardera com tamanha constncia.
- Bem. Parece que s me resta pagar - disse finalmente de Breos.
- Parece ser a nica coisa a fazer, a menos que desejeis continuar aqui como prisioneiro.
- No penso que o cativeiro possa ser, para sempre, adequado para o senhor de Breos - disse Joan, voltando-se para o fitar, com a sombra de um sorriso.
- Na vossa casa, senhora, juro que nunca me queixaria, mas receio que em breve a vossa boa vontade se esgote. Muito bem: concordo. Vejamos os pormenores.
- Est previsto eu efectuar um pagamento, na Pscoa - disse Llewelyn. - So duzentos e cinquenta marcos1. Essa soma poderia ser liquidada, sem sair de Inglaterra.
- Assim ser. E que mais? Parece-me que o plano que preparastes inclui mais qualquer coisa.
Fora a mo de Joan que o redigira. De Breos deveria estar preparado para isso, mas sentiu-se confundido. Ela estava por trs de todas as deliberaes do marido, 
era a sua mo direita onde ele

' O marco era uma unidade de peso correspondente a 226 gramas. Como unidade monetria, equivalia ao valor de um marco de prata pura (N. da T.)

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no podia estar presente, a sua melhor emissria e a sua melhor diplomata; Llewelyn confiara-lhe aquela tarefa, como lhe confiava tudo. Talvez at houvesse dado 
a sua opinio; mas a expresso dela nada deixava transparecer: mostrava-se neutra, reservada e s os seus olhos inteligentes saltavam atentamente do rosto de um 
para o rosto do outro, enquanto os dois homens travavam aquele combate, perdido e ganho de antemo como a campanha no Kerry.
- Sim. H mais. Desejo de vs, senhor, a promessa de nunca mais pegar em armas contra mim.
- Parece-me que estais a tentar reescrever a Histria - disse de Breos, com um sorriso sardnico. - Quantas vezes houve, nos ltimos cinquenta anos, um de Breos 
que no pegasse em armas contra Gwynedd? E que resposta vou eu dar ao rei Henrique, da prxima vez que ele reunir a hoste?
- Deveis responder-lhe com a coragem que Deus vos der. A minha exigncia mantm-se. Ademais, no me parece que, se falardes verdade, essa exigncia merea a vossa 
desaprovao. Houve alturas em que os de Breos e os Gwynedd foram aliados.
-  verdade. Mas apenas para disporem de algum descanso, entre longos perodos de luta. Bem... e que mais? Haveis despertado o meu interesse. Que falta mencionar?
- Uma aliana ainda mais estreita entre ns dois. Quero ter segurana nas minhas fronteiras e desejo que, pelo menos vs, no vos conteis entre os meus inimigos. 
Eu tenho um filho e vs tendes quatro filhas. Desejo que deis a vossa filha Isabella em casamento ao meu filho David...
- Eis algo que eu no esperava, senhor! - exclamou de Breos, de olhos muito abertos.
- ...trazendo por dote o senhorio e o castelo de Builth.
- Ah! Chegmos ao que interessa! Builth  o enfeite que coroa o bolo. Um belo rochedo slido no centro de Gales, atravessado no caminho da avanada do corregedor 
do reino em direco ao Norte.
- As vantagens existem, para mim e para vs - replicou Llewelyn. - E a vossa filha ser aqui bem acolhida. Desejo sinceramente firmar uma aliana mais estreita convosco, 
se estiverdes de acordo. E ofereo  vossa filha uma unio real e um esposo que 

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um rapaz bom, justo e galante. Estou a louvar os meus, mas o meu filho merece estes louvores, pois  tudo quanto desejei que ele fosse e todos os homens do Norte 
de Gales vos diro o mesmo.
Todos menos um, pensou de Breos, desviando os olhos do rosto radiante e eloquente de Llewelyn para a expresso reservada da princesa, cujo olhar profundo se iluminou 
fugazmente,  meno do filho. Esse outro prisioneiro, o jovem turbulento que remoa a clera no castelo de Degannwy, haveria usado palavras bem diferentes para 
descrever o meio-irmo, embora no conseguisse encontrar ningum que secundasse a sua opinio ou que estivesse disposto a faz-lo abertamente. Griffith e David: 
cada um deles despertava o que de pior havia no outro; a gua e o azeite no eram mais irreconciliveis. Entre os dois, ainda podiam destruir tudo quanto Llewelyn 
construra.
Mas os construtores nunca reconhecem os destruidores que os seguem de perto. Se os reconhecessem, poisariam as ferramentas e sentar-se-iam a apanhar sol.
- Ento? - perguntou Llewelyn. - Que dizeis?
- Que posso eu dizer? Sou to sensvel como vs s vantagens dessa unio e David  perfeito. No podia esperar melhor para Isabella. Mas no vos esqueais de que 
so quatro as filhas que hei para casar e Builth  um dote considervel.
- Gwynedd tambm, senhor. A meu ver,  o mais importante dos dois.
- E ambos vos pertencero, senhor, se eu concordar com os vossos termos.
No era possvel negar tal verdade e Llewelyn nem sequer tentou. De olhos nos olhos, os dois mediram-se por instantes e, em seguida, ambos soltaram gargalhadas alegres. 
Esquecida, a princesa observava-os com um ligeiro sorriso. Pegou na pena e, com a pequena faca que se encontrava perto do tinteiro, aguou-lhe a ponta. Em breve 
iria ser precisa. Por certo, Ednyfed Fychan estava j  espera que o chamassem, perguntando-se porque tardavam tanto.
- Deus sabe, senhor, que tramas estamos a tecer para os nossos filhos. A vossa filha  minha madrasta e, agora, o vosso filho vai ser meu genro. Que parentesco passar 
a haver entre ns? Mas

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assim se far: vamos arriscar. Isabella trar-vos- Builth e a minha promessa ser cumprida. Aceito os vossos termos, senhor - anunciou de Breos, estendendo a mo 
para selar o acordo.
Numa manh gelada de Fevereiro, em que a orla do mar ao longo das pequenas lagoas salgadas, perto de Aber, se apresentava adornada pela neve, um grupo de cavaleiros 
de Brecon seguia em direco a Bangor, para escoltar o seu senhor no regresso a casa. Chegaram com grande pompa e foram recebidos de igual modo. Por mais tristes 
que houvessem sido as circunstncias da chegada de de Breos a Aber, a sua partida fora programada para as fazer esquecer. A escolta passou a noite na corte de Llewelyn 
e foi recebida principescamente. O velho Einion no poupou os louvores ao valor,  fama e s proezas do distinto hspede e lamentou a sua partida.
- Santo Deus! - exclamou de Breos, ao ouvir a traduo sussurrada de Harry, que, todavia, no passava de uma plida verso dos floreados originais. - Quem ouvir 
este bardo h-de pensar que ser derrubado do cavalo por um rapaz que salta de uma rvore  um grande feito de armas. Quem me dera que ele houvesse dado largas  
imaginao, na noite em que aqui cheguei. Sempre me haveria feito ficar com melhor opinio de mim mesmo.
- Agora, est a falar do prncipe - relatou Harry, preocupado em no deixar escapar nada da crnica. - Est a cantar a balada de Cynddelw sobre a batalha de Alun, 
quando o nosso senhor era muito jovem.
- Ah! Bem me parecia que no tardaramos a chegar ao prncipe Llewelyn. O que diz o bardo acerca dele? Traduz!
- Est a dizer: "Nesse dia, as guas do Alun ficaram vermelhas do sangue dos seus inimigos. Assim pereceram todos quantos injuriaram ou afrontaram o bem-amado da 
fortuna, o grande e ousado senhor Llewelyn."
- Ao que todos os bravos Galeses devero responder: "Amen." Mas eu no sou gals e, por isso, posso ficar calado.
E, por Deus,  o melhor que posso fazer, pensou, contendo as palavras que lhe afloravam aos lbios com demasiada facilidade. Bebi mais do que a conta e seria uma 
loucura deixar escapar uma

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frase fatal, agora que estou quase livre. Se  que o que me espera  a liberdade!
- Deveis estar muito feliz, esta noite - comentou Harry, inclinando-se confiantemente sobre o brao da cadeira do amigo.
- Feliz?
A nota de surpresa na voz foi to ligeira que Harry no se surpreendeu por a ouvir de um homem que acabava de ser libertado da priso.
- Por ir para casa? Sim, estou muito feliz.
Na verdade, de Breos ria e se havia alguma ironia no seu riso, Harry no deu por ela.
E vai ser este o fim, pensou, contemplando o brilho de todo aquele formidvel esplendor, no centro da mesa dos prncipes. Hei-de voltar para junto da minha mulher 
e dos meus filhos e de me contentar em ser feliz. Seja como for, que mais pode esperar um homem que conheceu aquilo que eu conheci? Devia ser possvel voltar a viver 
sem isso, fosse como fosse. Hei fama de manter a calma, na privao e no cativeiro. Veremos se a mereo. Quanto ao resto que eu possa merecer, que Deus me proteja! 
Talvez Ele esteja realmente a proteger-me, se isto  mesmo o fim, mas h um limite para alm do qual ningum deve tent-Lo.
- E, quando voltardes aqui, ser como hspede de honra - prosseguiu Harry alegremente.
- Assim ser. E j no precisars de corar por minha causa, mesmo que em segredo.
Era a primeira vez que fazia aluso quele incidente, que parecia haver sido apagado da memria do rapaz com a mesma facilidade, e deixando to poucas marcas, como 
as palmadas que, de vez em quando, os irmos lhe davam. De Breos lamentou haver pronunciado aquelas palavras; nunca se deve pedir perdo, mas arranc-lo aos outros, 
por um qualquer sortilgio, sem eles perceberem; raros so aqueles que possuem coragem suficiente para o retirar depois de dado. Mas preocupara-se desnecessariamente: 
Harry nem sequer percebera a aluso.
- E vireis celebrar uma unio, que vos torna nosso parente.
-  verdade, Harry. Uma unio muito cara ao meu corao.

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De Breos reparou no duplo sentido das suas palavras e sentiu-se mal. Seria mesmo aquela a forma que desejava para aquele fim necessrio? William, meu amigo, refreia-te, 
aconselhou a si mesmo. Acabara. Mas o seu corao rebelava-se contra a sua vontade e recusava-se a fazer promessas.
- No vos parece, senhor, que houve um desgnio oculto por trs de haverdes vindo para aqui, por minha culpa? Como vedes, tudo se resolveu em bem. E, daqui a algum 
tempo, talvez no Outono, o prncipe vai enviar David  corte, para o rei o reconhecer como o herdeiro de Gwynedd. Os senhores galeses j o reconheceram, e o Papa 
tambm, e o governo do rei, mas ele ter de fazer uma visita de estado e prestar homenagem formal, por todas as terras que viro a ser suas...
- Eu sei - interrompeu de Breos, deixando passar o hidromel que circulava pela mesa. - Vou ter a honra de ser um dos seus patronos.
- ...e Owen vai acompanh-lo na visita. E eu... espero ir com eles, se conseguir levar a minha avante.
- Tu? - perguntou de Breos, surpreendido. Perscrutando o rosto srio e apaixonado, viu o brilho dos olhos
verdes e compreendeu.
- Ainda no desististe! E que ganhas tu, Harry, se encontrares o teu velho inimigo na corte? Na presena do rei, estars protegido contra ele, e ele contra ti. Mas 
 uma loucura pavonear o teu rosto diante dele e revelares-lhe o teu nome, alertando-o para a ameaa antes de tempo.
- Antes de tempo? - explodiu o rapaz, inflamando-se, como se fosse palha seca. - Em breve estarei na idade. No Outono, j serei um homem.
- Ters catorze anos. Bem sei que a lei galesa diz que passars a ser um homem e que, a partir de ento, nenhum dos teus vrios pais e mes poder bater-te, mesmo 
que o mereas. Mas ser um homem  mais do que isso.  preciso sobretudo aprender uma humildade justa e s. O bom-senso e a sabedoria no aparecem por magia, no dia 
em que se faz catorze anos, e tu vais precisar das duas coisas, antes de medires foras com Parfois, pela espada ou pelo

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esprito. Provocar de nimo leve homens terrveis no  um acto de bravura ou de nobreza, Harry.  temeridade e presuno.
Como ele prprio dissera um dia, sentado quela mesma mesa, as palavras possuem o condo de descrever um crculo completo e bater na cara do tolo que as lanou. 
Aquelas fustigaram-lhe o rosto como se fossem granizo, ioldando-lhe os sentidos. Leva-as a srio enquanto  tempo, aconselhou a si mesmo. Temerrio e presunoso, 
s tu; recua, afasta-te deste turbilho e deixa o prncipe de Gwynedd em paz.
- No tenciono fazer nada de nimo leve - protestou Harry, que procurava a sua benevolncia e o seu encorajamento. - S quero ver o senhor de Parfois no seu prprio 
terreno, observ-lo e ficar a saber como ele age. De que outro modo poderei alguma vez esperar medir-me com ele? Cuidais que esperei tanto tempo e no vou saber 
esperar um pouco mais, at poder contar com toda a minha fora de adulto? Ele nem precisa de saber quem eu sou. Passarei por ser apenas um dos pajens de David e 
ele no h-de ouvir o meu nome.
- Nem precisa de ouvir. Segundo me disseram, a tua cara  demasiado parecida com a do teu pai para ele no te identificar.
Harry recebeu o reparo com tanta consternao que se tornou bvio que no pensara nessa possibilidade. No entanto, argumentou teimosamente:
- Em catorze anos, ele pode haver esquecido o meu pai.
- Nem tu acreditas nisso, Harry. No convivi muito de perto com a tua famlia mas sei que nenhuma das pessoas que se relacionaram com o teu pai o esqueceu. Para 
o melhor e para o pior, ele foi um homem inolvidvel. E tu mesmo me disseste que a sua imagem est gravada nas pedras da igreja que ele construiu. S sensato, Harry, 
deixa o passado ser passado. O homem est velho e a morte h-de vir procur-lo em breve, sem ser preciso seres tu a apress-la.
- A morte dele pertence-me - protestou Harry, numa voz baixa e apaixonada, que exprimia de forma categrica e irrevogvel aquilo que pensava do pai que perdera. 
- No vou desistir.
- Harry, Harry! Estou a ver que, afinal, s um gals convicto. Vs e as vossas galanas! Quantos belos jovens desperdiaram as

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vidas por darem continuidade a esses dios de morte? S mais sensato que eles e vive, para fazeres pela terra mais do que reg-la com o teu sangue. O teu pai aprovaria 
que o fizesses, se foi realmente o homem que eu penso que ele foi. Defende os teus direitos, quando deves faz-lo, e contra os teus iguais. Mas aquele homem  perigoso. 
Fosse ou no uma atitude sensata, o olhar de William de Breos voltou a poisar na cadeira de espaldar alto, no centro da mesa dos prncipes. Sobre os cabelos ainda 
pretos e lustrosos de Llewelyn, a coroa de ouro brilhava como um anel de fogo; e, por baixo do diadema, o seu rosto de bronze fundido, mostrava-se animado de vida, 
paixo, energia. O colar curto, de pedras de mbar polidas, estremecia e retesava-se ao sabor das suas gargalhadas portentosas.
- Faz a tua vida entre os homens e evita misturar-te com demnios. Deixa em paz o leo e o leopardo, Harry. Eles matam!
De manh, os cavaleiros de Brecon partiram de Aber em direco ao Conway. A frente, seguia William de Breos. O cortejo dos seus servos e cavalos de carga patinhava 
sobre o caminho gelado, a um quarto de milha de distncia.
Da janela estreita dos aposentos da princesa, as mulheres assistiram  partida.
- Um belo final - comentou Gilleis, seguindo com um olhar satisfeito a comitiva que se afastava pelo carreiro, entre os campos cobertos de geada. - Builth anexada 
e um aliado poderoso conquistado para a causa de David. Harry trouxe at ns um bom cativo, na sua primeira batalha.
Joan no disse uma palavra. Ficou  janela, at o manto vermelho e ouro que flutuava ao vento se transformar num ponto do tamanho da cabea de um alfinete, ao longe, 
e mesmo depois de esse ponto minsculo de luz se haver diludo no brilho do sol semi-oculto pela bruma.
Nesse Outono, o mosteiro cistercense preferido do prncipe, Aberconway, queixou-se de falta de celeiros, na sua propriedade de Nanhwynain, e de que os redis eram 
insuficientes nas pastagens altas, para l de Snowdon. Llewelyn enviou o seu melhor pedreiro,

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Adam Boteler, para avaliar as necessidades e prometeu mo-de-obra e materiais para as obras. Ao fim de uma semana, Adam regressou e relatou que, para fazer tudo 
quanto os frades queriam, s nos celeiros era preciso mais de um ms de trabalho e que, encorajado pela complacncia do seu senhor, o prior se apressara a pedir 
tambm a extenso da rea habitacional.
- Levo comigo uma dzia dos meus homens, na prxima semana - anunciou Adam, apresentando-se perante Llewelyn ainda afogueado da cavalgada.
Era um homem alto e belo, com cerca de quarenta anos, cabelos loiros cor de linho, excepto as madeixas sobre a testa, que haviam embranquecido sem nunca se haverem 
tornado grisalhas.
- O resto da mo-de-obra posso arranj-la l mesmo. No  precisa grande habilidade para iar umas tantas pedras toscamente talhadas e p-las no stio. Esperava, 
senhor, que me confisseis uma obra em que fosse precisa mais arte do que para redis para carneiros. Como  que o Harry vai aprender o ofcio, sem prtica? Ele j 
 demasiado avesso ao trabalho e gosta  de ir caar com o prncipe David. No posso culp-lo por isso mas ele precisa de aprender, para poder ganhar a vida. Em 
Nanhwynain, eu sempre poderia mant-lo mais debaixo de olho.
- Ele ainda  novo - replicou Llewelyn, estendendo indolentemente os ps para o fogo, entre os pilares centrais do salo.
O prncipe regressara da caa havia menos de uma hora, satisfeito depois daquele dia revigorante, e o calor da sala pairava sobre ele como uma nuvem pesada e suave.
- Deixai-o correr em liberdade, enquanto ainda  tempo.
-  novo, quando lhe cheira a trabalho - disse Adam, sorrindo. - Mas  o primeiro a dizer que  um homem, quando se trata de uma batalha ou de uma lia.  verdade 
que  corajoso, como o pai era, e mais capaz do que ele de se desenvencilhar numa refrega. O Harry no era muito hbil com as armas. Mas que coragem! Vi-o aguentar 
golpes de rapazes com o dobro do tamanho dele. E o filho  como ele. No outro dia, deu uma queda que deveria haver-lhe acalmado os ardores mas saiu-se dela como 
se houvesse sido uma simples palmada da me.

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Com um sorriso e um suspiro, Adam sentou-se e colocou entre os joelhos as mos, aquelas mos que, durante trinta anos, tinham talhado pedra. Os dois Harries quase 
se sobrepunham nas imagens que desfilavam diante dos seus olhos e na sua voz sonhadora. Um deles agarrara-se com ambas as mos  vida, no momento em que o outro 
a perdia e morria.
- Ele no vai gostar, se o levardes convosco para Nanhwynain - disse o prncipe, bocejando. - Meteu na cabea que quer acompanhar David a Londres.
- No lhe haveis prometido nada, pois no, senhor? - perguntou Adam, alarmado.
O prncipe era capaz de, de vez em quando, se esquivar a uma das suas obrigaes para com os Ingleses, quando uma paixo nova e premente expulsava do seu esprito 
os acordos que com eles fizera; mas nunca faltaria  palavra dada a Harry.
- Juro que no. Mas ele  bem capaz de haver recorrido ao Owen. O David estava firmemente decidido a dizer-lhe que no mas, quando o David lhe nega alguma coisa, 
o Owen costuma aceder. Ele resmunga, mas o Harry f-lo danar ao som da sua msica. Pela minha parte, fico satisfeito se o levardes convosco. Mas sois vs e a me 
dele quem deve decidir o que  melhor para ele.
- Eu penso que o melhor seria o Harry dedicar-se de vez ao seu ofcio - disse Adam, num tom sombrio. - E juraria que a me dele pensa como eu. Sabeis, senhor, porque 
tanto quer ele ir  corte? Meteu naquela cabea teimosa uma ideia louca quanto ao senhor de Parfois. Era ele quem o Harry queria apanhar, naquela emboscada no Kerry... 
soubemos disso por acaso, numa noite em que sonhou alto... e podeis apostar que, como falhou dessa vez, ele quer ir  corte para o encontrar.
- Isso prova que o esprito dele  leal, apesar de ser verdade que  ainda demasiado novo para tal empresa - comentou Llewelyn. - Eu nem havia pensado em tal coisa. 
Pensava que ele estava apenas morto de curiosidade por ver o mundo, como todos os rapazes.
- Assim sendo, com a vossa permisso, levo-o comigo para Nanhwynain e fao-o descarregar os ardores a cortar pedra. - Adam

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ps-se de p, sacudiu o p da viagem das meias e acrescentou:
- A Gilleis vai dormir muito melhor, sabendo que ele est comigo,
do que imaginando-o em Westminster, a pavonear-se diante de Isambard, com aquela espada enorme que vs lhe destes.
- Confesso que eu tambm. H muito que haveria posto o velho lobo fora do seu alcance, se Gales no me houvesse mantido to ocupado. Mas Talvace era do sangue dele, 
no do meu. Por isso, no esqueais o que vos digo: lev-lo convosco agora  apenas adiar o problema - profetizou Llewelyn, com toda a segurana. - Porque, um dia, 
ele h-de ir; vi isso nele h mais de um ano. No h um de vs, que conhecestes o pai dele, Adam, que o ame mais do que esta criana, que no chegou a conhec-lo. 
Ouviu-nos falar dele tantas vezes e por tanto tempo que se inspirou nele como nas santas escrituras; talvez tambm o haja odiado um pouco ao mesmo tempo que o amava, 
por ficar to aqum de qualquer comparao... pergunto-me se haveremos feito bem em alimentar o seu afecto e a sua determinao.
- Ah, isso no lhe fez mal. Quando pensa nisso, sente-se magoado. Mas a energia dele  tanta que raramente lhe d tempo para pensar.  to saudvel como um jovem 
animal e cansa-se tantas vezes como este de tanto correr.  certo que o Harry prefere trepar s pedras a cort-las. Ah, vai haver muita discusso at ele ceder mas 
a me acabar por o chamar  razo - disse Adam, com uma expresso doce nos olhos azuis.
Em seguida, afastou-se para ir ter com a mulher.
De rosto corado e com um olhar inflamado e colrico, Gilleis ouviu o que ele tinha a dizer. No seu rosto rosa e branco, os grandes olhos pretos soltavam chispas.
- Aquele patife sonso! No me disse nem uma palavra acerca do assunto. Suponho que s ia anunciar-me a viagem na prpria manh da partida, a contar com a promessa 
do prncipe. Eu no era para a chamada! Mas o senhor Harry vai ter uma surpresa  sua espera, quando se dignar parar com a vagabundagem e voltar para casa.
Foi assim que, uma hora mais tarde, ao irromper alegremente pela casa, coberto de contuses e a arfar de cansao, por ter estado a lutar com os companheiros, com 
metade de uma ma na mo e a

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outra metade na boca, Harry deparou com uma recepo mais escaldante do que esperava. Rapidamente passou em revista os seus recentes pecados ocultos, que poderiam 
justificar a expresso irada e afrontada da me. Feito isto, escolheu o pior deles e ofereceu a sua contrio, como quem oferece flores.
-  por causa do cntaro grande? Eu sei, me, desculpa. Parti um bocado do bico. Escorregou-me da mo e bateu na beira do poo. Eu ia dizer-te mas esqueci-me.
No era mentira e, fosse qual fosse a causa da clera da me, era melhor confessar a culpa agora, porque ela ia descobrir o estrago, da prxima vez que fosse buscar 
gua.
- O cntaro? Quem foi que falou no cntaro?  outra coisa o que quero dizer-te e o melhor  ouvires-me. No, no me levas dessa maneira! Larga-me!
Harry j era mais alto do que ela duas ou trs polegadas e suficientemente forte para a erguer no ar. Bastava-lhe abra-la com fora e ela no conseguiria libertar-se; 
mas, desta vez, ela escapou-se-lhe dos braos e levantou a mo, para lhe dar uma bofetada. Harry segurou-lhe o pulso e beijou-lhe a palma da mo. Aparar os ataques 
dela fazia parte do jogo, apesar de estes mais parecerem patadas de um gatinho brincalho.
- Deixa-me, Harry!  melhor que saibas que no estou a brincar. Na verdade, no parecia estar a brincar: libertou-se e enfrentou-o, com um olhar chamejante.
- Que histria  essa de ires como pajem do David, na visita dele  corte do rei Henrique? Sim, meu patife, j me chegou aos ouvidos. Mas no por ti! A ltima pessoa 
a saber ia ser a tua me. A ideia era estar tudo arranjado, sem eu saber de nada, no era?
De sbito solene, Harry deixou cair os braos e olhou alternadamente para a me e para Adam.
- Eu sabia que no me deixareis ir - confessou, com toda a honestidade. - Esperava conseguir convencer-vos, se o prncipe consentisse. Qual  o mal? O David  o 
meu prncipe e meu irmo, porque no haveria eu de ir com ele? Pensai s na oportunidade! O grande triunfo do David, com toda a corte inglesa a honr-lo, e eu no 
vou estar l para ver? Oh, me, no ides ser assim cruel!

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- E o senhor de Parfois? Qual  o papel dele nos teus planos? Ah, o senhor no sabe o que dizer! Eu no sou assim to fcil de enganar.
Apesar de vrias vezes ter achado que ela era bastante fcil de ludibriar, Harry no discutiu. A me ficava muito bonita zangada: parecia uma rapariguinha ruborizada 
mas no era altura para lhe dizer isso. Lanou um olhar suplicante a Adam, que fora muitas vezes seu aliado, quando ele precisava do apoio de um homem.
- No vale a pena, meu amigo - disse Adam, abanando a cabea. - Desta vez, nem mesmo o prncipe est disposto a ajudar-te a levar avante a tua vontade. Vais comigo 
para Nanhwynain, ajudar a construir os novos celeiros dos frades. Ser esta a tua excurso de So Miguel.  melhor habituares-te  ideia.
Harry lanou-lhe um olhar furioso.
- No vou! - exclamou, recuando um pouco para olhar bem para os dois, num desafio.
- Ai no? Isso  o que vamos ver! - replicou Gilleis, respirando fundo para recuperar a calma. - Chegou a altura de deixarmos as coisas bem claras, de uma vez por 
todas, Harry. Viveste a vida toda com prncipes e, embora Deus saiba que sempre lhes estive agradecida pelo bem que te faziam, isso no te ajudou nada a saber aquilo 
que s e qual o caminho que deves seguir. Mas tu no s prncipe nem gals e, quanto mais depressa o admitires, melhor para ti. No te compete perder tempo com dvidas 
de sangue, no  dever teu vingares-te do senhor de Parfois. Esquece essas grandes ideias e dedica-te s tuas verdadeiras obrigaes. Se queres honrar o teu pai, 
precisas de aprender a sua arte e de crescer com as suas virtudes.
- Honrar o meu pai! Enquanto o homem que o mandou para a morte continua vivo e leva uma vida tranquila? No haveria um nico homem em Gales que no me cuspisse na 
cara! E sois vs, minha me, quem me diz isso? No haveis vs falado muitas vezes de vingana? No amaldioastes tantas vezes Parfois, quando falveis do meu pai?
- Que Deus me perdoe! - disse Gilleis, empalidecendo. Vrios anos se haviam passado desde os tempos em que deixara transparecer a sua amargura diante do filho. At 
onde ia a

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memria dele, para vir agora procurar junto dela a justificao do seu prprio dio?
- Se o fiz, cometi um erro. A vingana pertence a Deus e no anos.
- E no poder ser Dele e nossa? Deus no precisa de instrumentos para armar a Sua mo? Oh, minha me, no me retenhais. Vs no! Ele tinha vinte e nove anos e ainda 
muitas maravilhas para criar... vs dissestes...
- E, se te aplicasses, poderias cri-las, no lugar dele - interveio Adam. - Herdaste uma parte dos dons do teu pai. Usa-os por ele. Realiza a sua obra.
- Mas eu no sou o meu pai! Preciso de seguir o meu prprio caminho e uma das coisas a fazer  cuidar de Ralf Isambard. Se ele morrer na cama dele, eu no sou um 
homem nem nunca serei. A dvida  minha e no vossa. Nem vossa, minha me... minha! No podeis pedir-me que a deixe por pagar.
- H melhores maneiras de honrar a memria do teu pai - observou Adam, pacientemente. - Aprende bem a sua arte e procura ser melhor do que ele, se puderes. Se o 
fizeres, ele sentir-se- mais orgulhoso de ti do que de um grande homem de armas. Ns no somos nobres, filho, para nos ocuparmos da vida e da morte. Somos artesos. 
Foi apenas por acaso e por caridade real, que cresceste numa cama de prncipe. Chegou a altura de enfrentares a tua verdadeira condio.
- O meu pai nasceu nobre - protestou Harry. - Quantas vezes me dissestes isso?
- Isso e o resto. Ele abandonou a nobreza e decidiu ser artfice.  o teu prprio pai quem te aponta o caminho.
- Mas no  mister que eu faa a mesma escolha. Sou filho dele e no a sua sombra. Cuidais que no me lembro de tudo quanto me dissestes dele? O meu pai julgava 
e agia como um senhor, apesar de renegar o seu nascimento. Tratava a sua arte como se fosse um senhorio. E morreu por isso, pelos seus direitos e pela palavra dada. 
Que prncipe poderia fazer mais?
Harry gritava de fria e andava de um lado para o outro a grandes passadas, de pernas afastadas, como se caminhasse sobre o

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cadver do pai e quisesse afast-las para estas no o desfigurarem. Adam e Gilleis trocaram um olhar de surpresa, reconhecendo honestamente a justeza dos argumentos 
de Harry e a sagacidade da sua anlise. Parecia-lhes haver chegado a um ponto em que apenas lhe poderiam dar uma resposta que no era satisfatria para ningum.
- Seja como for, vais fazer aquilo que te dizem - decretou Gilleis, com um olhar to flamejante como o do filho. - E no quero mais disparates. No vais a Londres 
e acabou-se. Vais com o Adam e trata de fazer de boa vontade aquilo que ele te mandar fazer. Se no, espero que ele cuide de que te arrependas.
Dito isto, Gilleis amoleceu e, com a mo a tremer, limpou uma prola de sangue seco de um dos arranhes que Harry arranjara na sua segunda lia.
- Oh, Harry - disse ela, rindo, por entre as lgrimas que lhe queimavam os olhos. - Queres tu desafiar um homem como Isambard, quando ainda no s capaz de resistir 
a Meurig!
Harry afastou furiosamente a mo da me e correu para a porta, com os olhos toldados pelas lgrimas.
- No vou! No vou!
Com as suas passadas largas e cadenciadas, Adam foi atrs dele, agarrou-o pelo brao e, com a outra mo, grande a calejada, deu-lhe uma palmada ao de leve na cara 
e obrigou-o a voltar-se. No valia a pena lutar; Harry ficou quieto, mantendo a sua dignidade. Adam poderia segur-lo com uma s mo, obrigando-o a submeter-se sem 
qualquer esforo mas Harry no recordava uma nica ocasio em toda a sua vida, em que aquelas mos hbeis houvessem feito mais do que dar-lhe uma palmada simblica. 
Tal como outrora o pai, fosse qual fosse a provocao, o Talvace filho nunca sofreria qualquer violncia s mos de Adam Boteler.
- No vais? - perguntou Adam, bem-humorado, mantendo-o junto de si e sacudindo-o s uma vez com mais fora. - Vais sim, Hal, e hs-de trabalhar, no duvides. O que 
fars depois disso, veremos e parece-me que haver algumas surpresas para todos ns. Mas, por enquanto, ainda no s senhor de ti prprio e  melhor que te convenas 
disso.

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Harry lanou-lhe um olhar breve e avaliador e desviou os olhos mas, sob as mos de Adam, os seus msculos tensos relaxaram um pouco.
- Agora, vais inclinar-te diante da tua me e beijar-lhe a mo, como um bom filho, e vamos acabar com os gritos e com os: "No vou!"
De rosto crispado, Harry aproximou-se de Gilleis mas, quando lhe tocou, abraou-a apaixonadamente, depois do que se libertou e saiu do quarto a correr, to zangado 
consigo mesmo como com ela.
Gilleis seguiu-o com os olhos, o rosto crispou-se-lhe de ansiedade e apreenso mas no disse mais nada. S  noite, j deitada na penumbra fria de Setembro, ao lado 
do marido, que sabia acordado e atento, se voltou subitamente e murmurou:
- Ele vai partir, Adam. Ele vai partir. Como o Harry. Vai deixar-me e correr para defender a honra e eu no vou poder det-lo.
- Calma! - disse Adam, estendendo o brao e puxando-a para si. - Bem sabes que no haverias sido capaz de o levar a agir de outro modo e, mesmo agora, uma parte 
de ti luta do lado do teu filho. Mas, pelo menos, vamos conseguir segur-lo, at ele ser adulto. Alm disso, nesta altura, Isambard ter cinquenta ou sessenta anos 
e pouco tempo de vida lhe restar. O tempo h-de dar conta dele e j h-de estar no tmulo, quando o Harry escapar para ajustar contas com ele.
- Ests certo - disse Gilleis febrilmente, agarrando-se a ele. -  verdade que Isambard est velho. Est velho. Oh, Adam, se eu perco o Harry!
Tal como Adam, Gilleis usava o nome para uma imagem nica, que umas vezes era o pai outras vezes era o filho, mas sempre com um amor sem limites.
- No vais perd-lo - tranquilizou-a Adam, com a boca entre a cascata dos cabelos dela. - No tenhas medo! Dorme, amor, e deixa de te preocupar.
Continuou abraado a ela, at ela adormecer, o corpo delicado aninhado contra o seu corao. A fragilidade dela causava-lhe uma comoo dolorosa e as suas mos apertadas 
contra ele eram um sofrimento doce; Adam sabia que o que aquelas mos procuravam

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nele era ainda a imagem tnue, os traos que Harry Talvace ali deixara, a marca de anos de amor e fraternidade. Muitas vezes, nas primeiras noites do casamento de 
ambos, Gilleis estendia as mos para ele, a dormir, chamando-lhe Harry. E que direito tinha ele de se ressentir desse ou de qualquer outro sinal da sua subservincia, 
uma vez que casara com ela para firmar a sua ligao perptua aos dois Harries, o vivo e o morto?
Mas catorze anos  muito, muito tempo para duas pessoas, que vivem da mesma luz secreta, caminharem delicadamente lado a lado, confiando uma na outra e poupando-se 
mutuamente. E, agora, ao apert-la com doura contra o peito e ao sentir a cadncia suave da respirao dela contra o pescoo, Adam sabia que havia qualquer coisa 
entre ambos, que era mais do que ternura e melhor do que indulgncia. Sentia que era amor; por quem era algo que no procurava saber.

CAPTULO TRS

Aber: Pscoa de 1230

No incio de Abril, Adam escreveu de Nanhwynain, com a caligrafia desenhada que aprendera na Abadia de Shrewsbury, muitos anos antes, e que nunca esquecera:
"Por aqui tudo vai bem e o trabalho est muito adiantado, pois as geadas acabaram cedo. As paredes esto libertas do tojo e bem tratadas e os irmos satisfeitos 
com os seus celeiros; Vossa Senhoria beneficiar decerto das suas oraes de gratido. Desde que viemos para aqui, estou muito satisfeito com o rapaz. Adaptou-se 
bem ao trabalho neste lugar, onde no abundam as diverses. No possui os dotes de escultor do pai mas os resultados do seu trabalho so bastante razoveis,  dotado 
de bom olho para as linhas e propores e de desejo de perfeio e, no geral, quando resolve fazer uma coisa e no est de m vontade  to bom como os melhores 
aprendizes. Se Vossa Senhoria o autorizar,  minha inteno ficar aqui at depois da festa da Pscoa, caso o tempo se mantenha favorvel para a construo, e j 
que  tanta a urgncia dos irmos em ver acrescentada a sua casa. No me esquecerei de rezar pela sade e prosperidade de Vossa Senhoria e de pedir as bnos de 
Deus para a unio que muito em breve coroar a vossa felicidade."

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Quando faltavam apenas alguns dias para a Pscoa, Llewelyn respondeu:
"Uma vez que estais satisfeito com o Harry, como eu j sabia que aconteceria se ele assim o quisesse, julgo que ele bem merece umas frias. Deixai-o regressar a 
casa para as festas e ele trabalhar ainda de melhor grado quando o mandarmos de volta para a. Lorde de Breos trocou a corte do rei pela minha para esta ocasio, 
pois o rei decidiu seguir para Portsmouth, de onde embarcar para Frana, e perguntou especificamente pelo rapaz, que  um dos seus favoritos. , decerto, um acto 
cristo dar satisfao a ambos e, por isso, deixai-o vir."
E Harry l partiu de viagem, munido da autorizao relutante de Adam e da bno do prior. J se resignara a passar uma Pscoa frugal com os monges e a participar 
diligentemente nas viglias de Sexta-Feira Santa mas todos os pensamentos devotos levantaram voo, como pssaros assustados, quando a bem-vinda ordem do prncipe 
se insinuou entre eles. Ao cabo de trs milhas de caminho pelo vale, enfiara j o capuz no bolso e galopava como uma criana acabada de sair da escola, cantando 
enquanto cavalgava. Umas frias agora, outras por ocasio do casamento de David e o Mundo a desabrochar, to belo e variegado!
Harry s comeara a descobrir-lhe as subtilezas quando principiara a esculpi-las. Fazer uma folha era, na verdade, ver uma folha pela primeira vez. Imagine-se quantas 
delcias no haver Deus experimentado! E ento haver criado o Homem! Uma obra como, por exemplo, lorde de Breos, to expressivo e maravilhoso nos seus movimentos, 
to admirvel nas propores e nas formas. Reviu mentalmente o movimento suave mas firme dos msculos em volta da boca graciosa, quando esta ia exibindo o seu extraordinrio 
repertrio de sorrisos, desde o quase imperceptvel tremor dos lbios  exploso de riso alegre e sonora; e as plpebras arqueadas a descobrirem, lenta e harmoniosamente, 
os olhos escuros, espantados, nessa primeira alvorada, sobre a erva, na margem do Mule. Uma verdadeira escultura de mestre, muito para alm do seu alcance mas que, 
todavia, poderia tambm ser feita em pedra, e esta forma secundria no seria menos satisfatria. Harry comeava a amar a pedra.

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A cavalgada era longa, porm, e quando chegou a meio caminho de Aber os dedos de Harry haviam perdido todo o sentido da criao e no mais pensou na pedra. Havia 
outros modos de olhar para aquela mquina maravilhosa de carne e osso e sangue, outras formas de se comprazer com ela. Era muito melhor v-la articulada, activa 
e consciente de si mesma do que imvel e definitiva, por mais bela que fosse. Braos capazes de lutar e de abraar, mos capazes de empunhar armas, pernas capazes 
de danar e de cingir um cavalo. Era melhor ver de Breos lanado a galope uma nica vez do que fazer dez imagens de pedra, dele e do seu cavalo em movimento - era 
prefervel ouvi-lo rir alto uma nica vez do que desenhar, ainda que com perfeio, os mecanismos desse riso.
Harry chegou s portas de Aber, encantado por existir e agir e contente por haver deixado a outros o cuidado de trabalhar os materiais.
A populosa aldeia  volta do castelo vibrava de azfama e a luz do sol tremeluzia sobre a erva das colinas, sobre as quais os fetos novos se desenrolavam, como as 
prodigiosas folhas recortadas esculpidas que sustentam as abbadas das igrejas. No terreiro reinava grande azfama, cor e movimento por todo o lado e, nas cozinhas, 
um verdadeiro frenesi. Os estbulos estavam a abarrotar de cavalos e viam-se novos pavilhes adossados ao pano da muralha, para albergar os cavaleiros vindos de 
Brecon. Desta vez, de Breos viajara com pompa e um squito impressionante, e a sua libr luzia em toda a parte, dos canis aos prados.
Era Quinta-Feira Santa e os dois magnficos senhores, ambos morenos, regressavam da missa, lado a lado; a mo de de Breos pousava com familiaridade no ombro de Llewelyn 
e, atrs deles, vinha uma dzia de membros de cada comitiva. A princesa caminhava ao lado de de Breos, silenciosa, alta e delgada, vestida de azul e branco. Parecia 
uma flor a desabrochar, apesar de haver criado cinco filhos e resistido a vinte e cinco anos de preocupaes, intrigas e viglias. Caminhava com os olhos fixos no 
horizonte, sorrindo levemente quando o veludo da sua manga roava o brocado da dele; o orvalho e a luz da Primavera brilhavam nela como um raio de sol sobre as colinas.

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O corao de Harry derreteu-se de amor ao v-la. Desceu apressadamente da sela e correu ao encontro deles, caindo de joelhos aos ps do prncipe.
- Ah, meu pequeno arqueiro! - exclamou de Breos. - Senti a tua falta,  porta, para me receber.
Llewelyn levantou-o e beijou-o afectuosamente.
- J no  assim to pequeno. Este ano cresceu como um feijoeiro num Vero chuvoso e muito mais desde que o vistes pela ltima vez. Est quase a fazer quinze anos 
e, como depressa vos dareis conta, foi dotado de um vozeiro que parece o de um novilho.
No seu ntimo, de Breos sentiu um arrepio secreto correspondente ao da tenso de prazer que atravessou o corpo esbelto do jovem, quando chegou a vez de Joan o abraar.
- A tua me vai ficar contente, Harry. Temos sentido a tua falta. Ento, senhor, achai-lo muito mudado?
Manteve-o afastado de si, pegando-lhe pelo brao, para que o admirassem: um adolescente de quinze anos, alto e magro, que comeava a adquirir as formas e as propores 
de um homem adulto. Tinha ps e mos geis e longos mas sentia-se ainda inseguro do seu corpo e movia-se com os movimentos bruscos, incertos e imperfeitos dos animais 
jovens. Acima dos olhos verdes, as sobrancelhas, pretas e horizontais, eram to direitas como a sua boca grande e decidida. Os olhos e a boca sorriam juntos, de 
prazer, por aquele ms de Abril e por ser tempo de frias, por estar com pessoas que, para Harry, representavam uma grande parte da sua alegria de viver. Corava 
facilmente, de excitao e de prazer, no por timidez.
- Muito mais prximo daquilo que sempre quis ser - disse de Breos, lanando por cima dos ombros do jovem o brao que, com tanta graciosidade, pousara momentos antes 
nos ombros de Llewelyn. - No vejo outra diferena, graas a Deus! Quando o conheci, j era homem demais para mim. E em que hs andado ocupado, Harry, durante todo 
este tempo desde a ltima vez que te vi? Trouxeste outra vez adversrios vencidos, como teus prisioneiros?
- No houve mais guerras desde o Kerry - respondeu Harry, com pragmatismo.
- O qu, nem mesmo entre senhorios?

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- No, senhor. Gwynedd j no faz incurses. Isso era noutros tempos.
- Ento gostaria que dissesses isso ao meu intendente, que sofre de um estranho pesadelo: sonha que h uns galeses atrevidos que, de vez em quando, atravessam a 
fronteira e rapinam algumas cabeas de gado em proveito prprio. E como te vens dando com o teu trofeu de guerra? Agora, j tens comprimento de perna suficiente 
para ele.
- Maravilhosamente, senhor - exclamou Harry, radiante, e tomava flego para gabar o seu cavalo castanho, mas Joan ps-lhe a mo no brao e recordou-lhe, docemente:
- A tua me espera-te, Harry.
- Vou j ter com ela, senhora. Com vossa licena, senhor! Quereis vir ter comigo s cavalarias, mais logo, e ver com os vossos prprios olhos como o hei tratado? 
Sou eu que o escovo e, comigo, mantm-se imvel como uma pedra mas com os moos de estrebaria  um demnio!
- Irei de boa vontade - disse de Breos, rindo, ao ver o rapaz retirar-se de um salto, precipitando-se para ir ao encontro da me, para logo a seguir recuar, com 
certa relutncia, ainda com os olhos fixos neles. Por fim, voltou-se e, com uma ltima inclinao da cabea, desatou a correr em direco aos apartamentos da princesa, 
onde quela hora deveria por certo encontrar Gilleis.
Irrompeu pela sala onde a me se encontrava, debruada sobre a mesa de trabalho, a cortar as mangas estreitas, de feitio complicado, do novo vestido da princesa. 
Harry lanou-se nos braos dela com tanta impetuosidade que pouco faltou para se ferir na tesoura comprida que a me empunhava. Gilleis afastou a tesoura para longe 
dele, largou-a sobre a mesa e abraou-o, rindo e chorando ao mesmo tempo. O rapaz considerou merecida esta recepo e ficou apenas o tempo suficiente para despejar 
todas as novidades sobre si mesmo e sobre Adam, antes de voltar a sair. Dirigiu-se  despensa e convenceu as criadas a darem-lhe comida, para saciar a sua fome permanente 
e, a seguir, foi at s cavalarias para ver se o seu favorito estava a ser devidamente tratado. Tal como prometera, de Breos foi ter com ele e ficou encostado  
ombreira da porta, a v-lo

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escovar o cavalo, sem se importar com as suas vestes vermelhas e douradas.
- Mantm-lo em boa forma. Vejo que est em boas mos. Afagou o pescoo reluzente com palmadas leves e, com as
pontas dos dedos finos e sensveis, acariciou a estrela branca sobre a testa castanho-avermelhada.
- Harry - disse, a meia voz - preciso que me faas um recado, se fizeres o favor de ser meu confidente num segredo muito especial.
- De bom-grado, senhor! - respondeu Harry, lisonjeado. - Que quereis que faa?
- Uma coisa simples e, para ti, fcil. Tenciono dar um presente ao prncipe, quando David casar com a minha filha. Queria oferecer-lhe duas boas ninhadas dos meus 
galgos, cinco casais que vo nascer das minhas melhores cadelas galgo escocs e cujo pai  um galgo rabe que Gloucester trouxe do Oriente. So os melhores e mais 
rpidos caadores que alguma vez vi. J os vi derrubar um cervo sozinhos. Mas sinto um desejo infantil de manter este presente em segredo e trazer para c os ces 
sem ningum saber, para fazer uma surpresa ao prncipe no dia do casamento. Isto s  possvel com a ajuda da princesa.
- A princesa ajudar-vos- com todo o prazer - disse Harry, endireitando-se por instantes para despir a cota.
Emergiu do meio das vestes, corado e despenteado, e perguntou:
- E ela sabe das vossas intenes?
- Ainda no. Como nunca a vejo sem ser na presena do prncipe, gostaria que fosses tu a dizer-lho por mim, Harry, quando estiveres a ss com ela, porque tens esse 
privilgio. Pede-lhe o favor de tentar arranjar um momento para que possamos falar os dois sobre o assunto e ver como havemos proceder. Se ela me avisar quando chegar 
o momento certo, podemos levar os ces para os canis e prepar-los para o prncipe, sem ningum dar conta.
- Hoje mesmo falarei com ela - respondeu Harry, cheio de boa vontade. - Nunca deixo de ir dar-lhe as boas-noites, depois de ela sair do salo.

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-  assim que agem os amigos devotados! Mas lembra-te: nem uma palavra, a ningum. Nesta casa, basta um murmrio para, no dia seguinte, todos os ajudantes de cozinha 
j saberem do que se trata.
- Confiai em mim! Se algum vier a saber disto antes do dia, para alm de ns trs, podereis ficar outra vez com o meu Barbarossa.
- Essa  uma garantia de monta! E sers o seu mensageiro? Trar-me-s a resposta dela? S precisaremos de meia hora juntos para combinar tudo,
- Serei o mensageiro dela.
- Um dos cachorros da prxima ninhada ser teu - prometeu de Breos, calorosamente, e estendeu uma mo imperiosa por cima do pescoo arqueado do cavalo. - D-me um 
trapo, Harry, no consigo estar aqui sem pr as mos em cima dele.
Acabaram de tratar do cavalo em conjunto, partilhando um grande contentamento, como dois garotos, sem se importarem com o forte odor a cavalaria que impregnava 
os brocados de de Breos, quando terminaram.
- No faz mal - disse este, encolhendo os ombros com atrevimento. - A minha mulher no est c para me repreender.
Nessa noite, no meio do brilho e do clamor do salo, de Breos sentou-se ao lado de Llewelyn e estiveram a beber e a rir os dois, juntos, tal como tinham feito tudo 
nesse dia: cada gesto e cada palavra um novo impulso para aquela amizade recente.
- Era capaz de dar este anel - disse de Breos - para ver o de Burgh entrar agora por aquela porta e ver-nos to amigos.
- Duvido que essa viso lhe fosse agradvel - respondeu Llewelyn.
- Mas a cara dele proporcionar-me-ia assunto para um ms! No desejo mal ao nosso corregedor mas um revs no lhe faria dano. A nossa unio ser vista como uma barreira 
a um poder que se estava a tornar demasiado insolente, e no apenas em Gales. No fazia parte dos meus desgnios cair nas vossas mos e lanar esta flecha, meu senhor, 
mas desejo, tanto quanto vs, que ela acerte no alvo.  sem dvida do hidromel - acrescentou de Breos, rindo -

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mas comeo a sentir-me contente por o vosso pequeno arqueiro me haver atingido no vau do rio Mule. Por minha f, sinto-me to bem-disposto que comeo a achar que 
fiz um bom negcio.
Vindo do salo, o dbil som da msica flutuava na escurido e, ondulando na brisa ascendente, chegava s janelas da torre. Joan estava de costas, com os cabelos 
soltos sobre as costas, a ouvir os passos ligeiros em volta da cama.
- No precisas de ficar  espera, Gilleis - disse, sem virar a cabea. - Estou cansada e vou deitar-me cedo. Vai deitar-te tambm.
- Depois de tantas noites a deitar-me tarde, no vai saber-me mal ficar mais tempo na cama - concordou Gilleis, sorrindo enquanto abria a cama da princesa. - E atrevo-me 
a dizer que a vs tampouco, senhora. Ainda que no possa dizer que me agrade dormir sozinha. Sinto a falta do Adam, quando ele fica fora tanto tempo. E onde dormir 
o prncipe esta noite? Vai ficar em Degannwy?
- No, vai regressar a Aberconway e passar l a noite. Tem assuntos a tratar com o prior.
Naquela noite Joan mostrava-se taciturna, a sua voz soava fria e distante. Continuava a desagradar-lhe que Llewelyn resolvesse, ao seu modo brusco, ter um gesto 
de ternura para com o filho mais velho, que no era filho dela. Ficava indiscutivelmente ressentida por ele roubar um dia e uma noite  festa para ir visitar Grifith, 
no seu retiro forado. No que o prncipe alguma vez houvesse vacilado na firme determinao de fazer de David o seu nico sucessor. No, era um receio mais irracional 
que a tornava to implacvel face ao mnimo reconhecimento daquele parentesco; medo da lei galesa, que atribua ao bastardo direitos idnticos aos do irmo, medo 
da perversidade dos Galeses, que o preferiam obstinadamente, porque a me dele era uma senhora de Rhos e no a filha de um rei ingls, e tambm porque Griffith tinha 
o temperamento impetuoso e insubordinado como o deles e uma querela bem ao gosto gals.
- No deveis importar-vos por ele gostar desse seu filho, to diferente - disse Gilleis que, com a sua voz alegre e meiga, podia

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penetrar em terrenos proibidos s outras mulheres. - Seria uma vergonha se no quisesse bem aos que so do seu sangue. E sabeis bem que ele no  rival de David. 
O prncipe tomou todas as disposies para garantir que David seja o seu nico herdeiro.
- J uma vez deu Meirionydd e Ardudwy a Griffith - recordou Joan.
- E voltou a tirar-lhas rapidamente, quando descobriu que ele saqueava as suas terras como qualquer invasor estrangeiro. No  verdade que o mandou fechar a sete 
chaves, mal as ameaas de Griffith contra David se tornaram mais ousadas? Sabeis que ele nunca admitir que Gwynedd caa noutras mos que no as de David.
Sim, Joan sabia-o. S David, parente prximo do rei ingls e senhor indisputado de um ttulo legitimado pelas leis inglesa e galesa, teria hipteses de manter unido 
o principado e de perpetuar o que o pai comeara. Mesmo que amasse de igual modo os dois meios-irmos - e o mais velho, rebelde e desafiador, tanto atraa como repelia 
as amizades, devido s suas parecenas com o pai - o prncipe colocaria sempre o futuro nas mos de David. Se outra motivao no houvesse, pensou Gilleis, enquanto 
observava a figura alta e esbelta com um sorriso afectuoso, em ateno  me, o prncipe depositaria no colo de David todas as suas conquistas, todos os seus feitos.
- No lhe guardeis rancor por causa de um s dia, agora que David tem Gwynedd e Builth, uma noiva e tudo o mais - disse.
- Mostrei-me zangada quando o prncipe me disse que ia visitar Griffith?
- No, graas a Deus. Desejastes-lhe uma boa viagem.
O que em si mesmo era to digno de nota que Llewelyn no deixara de reparar. Gilleis vira o olhar rpido e penetrante que este lanara  esposa: os seus nicos trejeitos 
de desagrado, os seus nicos silncios hostis, tinham sempre a ver com Griffith.
- Agora deixa-me, Gilleis. E diz ao Harry que venha j dar-me as boas-noites, pois vou dormir daqui a pouco.
Gilleis beijou-lhe a mo e a face e foi procurar Harry ao salo. Ainda era cedo e, na ausncia do prncipe e da sua comitiva mais

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chegada, os cavaleiros de Brecon, os homens livres galeses e os homens privilegiados da guarda pessoal haviam ocupado o salo e danavam ao som da flauta e da harpa, 
e das palmas. Afogueado e sem flego, Harry foi ter com a me, para ouvir o recado, num stio onde ela conseguia fazer-se ouvir.
- Depois, podias vir dormir comigo esta noite, Hal. Se o David e o Owen foram a Aberconway com o prncipe, por que razo hs-de ficar a guardar aposentos vazios?
Mas sabia que ele no iria: prezava demasiado os seus privilgios. Gilleis suspirou, riu-se e beijou-o.
- Anda, vai l ter com a princesa.
E atirando a capa sobre a cabea, foi-se embora a correr pois comeara a cair uma chuva miudinha, que se colava ao ar nocturno como se fosse orvalho.
Quando Harry entrou no quarto, Joan estava sentada em frente ao espelho, como tantas vezes a vira ultimamente, a olhar em silncio para o seu prprio rosto. Pareceu-lhe 
que, nessa noite, o toque dela tinha uma ternura especial, e que lhe era difcil falar, embora, quando o fizesse, a voz fosse baixa e calma, como sempre fora.
- Harry, recordo-me que h uns dias me pediste uma audincia privada para o senhor de Breos, por causa daqueles seus galgos magnficos.
- Ouvi dizer que possuem todas as qualidades de que ele falou - interveio Harry, ansiosamente, pensando ter notado um leve tom irnico na voz adorada. - Ouvi outras 
pessoas, sem ser o prprio de Breos, falar deles. Ser um presente digno de um prncipe.
- Nunca duvidei disso - respondeu ela, com uma sombra a toldar-lhe o sorriso. - Bem, ainda  cedo e a ocasio presta-se: o senhor de Breos que venha ter comigo, 
j que tanto insiste no segredo. Proporcionemos-lhe esse prazer infantil de fazer uma surpresa ao prncipe, se assim o quer. Vai busc-lo e acompanha-o at aqui. 
Mas discretamente: lembra-te que vem tratar de um assunto secreto. Tr-lo pela passagem da armaria, ele no ser capaz de descobrir esse caminho sozinho.
- O senhor de Breos ainda est no salo - disse Harry, levantando-se imediatamente. - Vou j busc-lo.

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- Deixa-o dar as boas-noites e fingir que vai para a cama, para ningum ir depois  sua procura ou perguntar para onde se dirige. J que o jogo  dele,  mister 
que o joguemos  sua maneira.
- Ele consegue sempre que as coisas joguem a seu favor - observou Harry, rindo. - Est a chover e ningum ir sair.
- Ainda bem. Harry!
- Senhora? - perguntou, voltando-se, j com a mo estendida para a porta.
- Nem uma palavra, a ningum.  mister que guardemos fielmente este segredo.
- Juro pela minha vida! - respondeu o rapaz com ardor, embora meio a brincar.
Harry desceu as escadas a correr, metendo-se  chuva e voltando a entrar discretamente no salo.
O tempo, a hora, a ocasio, tudo lhe era favorvel. Os mais idosos j se haviam retirado e, achando que as diverses galesas exigiam demasiado da sua resistncia, 
alguns cavaleiros haviam acabado por lhes seguir o exemplo. Os homens de armas e as criadas, os cervejeiros, os padeiros, os caadores e os palafreneiros haviam 
levado consigo a msica, para junto da lareira. Como tinham de se levantar e comear a trabalhar logo ao nascer do dia, no iriam por certo prolongar muito mais 
o sero.
Procurou de Breos, mas o senhor de Brecon no estava na mesa principal. J desempenhara o seu papel e, na mais perfeita ignorncia, retirara-se para o seu quarto. 
Harry foi encontr-lo semidespido, deitado de barriga para baixo no leito coberto de peles, com o queixo apoiado nas mos, sem conseguir adormecer e aborrecido consigo 
mesmo. Recebeu o rapaz alegre e ruidosamente, pegando-lhe no brao e puxando-o para si.
- Senhor, sou portador de uma mensagem para vs. Da princesa Joan.
De Breos soergueu-se de rompante, fazendo rodopiar a coberta de peles com a veemncia do impulso.
- Deus te abenoe, Harry! - A luz da candeia, o seu rosto apresentava-se animado, os olhos brilhantes e solenes. - Que manda a Princesa Joan?

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- Manda-me que vos acompanhe at junto dela.
- Agora? Ah, vieste mais uma vez dar-me sorte!
Leve e rpido como um gato, ps-se de p, alisou o cabelo preto diante do espelho e enfiou os ps nos sapatos de couro macio.
- D-me a minha cota, Harry! Ainda vais dar um bom pajem. Ora bem, estarei apresentvel?
Estava muito mais do que isso, resplandecia na luz difusa, a sorrir, sob os olhos espantados do rapaz - que apenas uma vez, e por breves instantes, vira uma ligeira 
falha na sua perfeio.
- Ento, vamos l! No devemos fazer esperar a princesa.
Saram para a chuva miudinha, persistente, e de Breos entregou-se nas mos do rapaz. Seguiu-o pelo percurso tortuoso por onde foi levado, por trs dos novos pavilhes, 
pela passagem que conduzia  armaria, mergulhada na escurido, sem ver nada naquela noite sem lua, at chegar  torre. Durante o resto da noite, Harry continuou 
a sentir os dedos dormentes do aperto daquela mo comprida e forte, durante todo o tempo que o amigo caminhou, confiante, colado aos seus calcanhares.
Subiram as escadas sem rudo. Joan estava sentada numa cadeira de espaldar alto. Quando eles entraram, levantou-se e avanou alguns passos, para os receber. A longa 
trana do seu cabelo loiro descia-lhe at  cintura, contrastando com o azul-escuro do vestido, e o seu rosto estava plido e luminoso.
- Senhora, eis aqui o senhor de Breos.
- Pedistes para me ver, senhor - disse ela, num murmrio que mal se sobrepunha ao da chuva.
- Era esse o meu desejo, senhora.
- Entrai, meu primo, e sede bem-vindo.
Em tom baixo e pausado, acrescentou, dirigindo-se a Harry:
- Agora podes ir para a cama, meu filho. Boa-noite!
E deu-lhe um beijo. Nunca antes Harry sentira tanta doura nos lbios de Joan, nem nunca o seu contacto fora to terno e demorado.
- Boa-noite, senhora! Boa-noite, senhor!
Feitas as despedidas, deslizou pelas escadas com o corao a rebentar de orgulho e de prazer: era o confidente da sua senhora, o

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amigo fiel do senhor de Brecon. No salo, os archotes ainda ardiam mas a msica j terminara e as chamas iam-se extinguindo uma a uma.
Debaixo de chuva, Harry correu at ao seu quarto, vazio e silencioso, mas estava demasiado excitado e desperto para conseguir deitar-se. Na ausncia de Owen e David, 
no havia ningum para o obrigar a faz-lo. Atirou-se para cima da cama sem se despir e ali ficou, envolto no contentamento do seu segredo, to feliz na sua insnia 
solitria que no deu pelo passar do tempo, nem pela diminuio dos rudos  sua volta  medida que o castelo ia mergulhando no sono. Por fim, tambm ele adormeceu, 
to suave e inocentemente como uma criana.
Foi o ladrar de um co que o acordou: uma exploso breve e selvagem, rapidamente aplacada e logo reduzida ao silncio. Mas, para o ouvido apurado de Harry, foi o 
suficiente. Levantou-se com um frmito de concentrao, alarmado mas sem medo. No sabia quanto tempo dormira e os seus sentidos sondaram a quietude e o silncio, 
na expectativa da repetio do som que o despertara. Porque ladrara o co? De noite, os ces nunca ladravam sem motivo. Se andava por ali algum que despertara o 
animal, porque motivo este se calara subitamente, como se tivesse ficado satisfeito? Algum falara com ele e o co conhecia bem esse algum.
Harry deslizou para fora da cama e foi at  porta, perscrutando a escurido, para os lados da porta do castelo. Algures nessa direco soou um rumor de vozes, baixas 
e rpidas, as passadas abafadas dos cascos de um cavalo sobre a terra dura, logo seguidas pelas de outras montadas. Quem conseguiria entrar em Aber pela calada da 
noite e fazer calar os ces com uma simples palavra?
S havia uma resposta possvel mas Harry saiu a tremer para a escurido, para se certificar, com o corao a bater descompassadamente. O frio penetrante provocado 
pelo sbito despertar fazia-o tremer da cabea aos ps. Da esquina da armaria, avistou uma lanterna junto  porta do castelo e dois guardas a segurar nas rdeas 
dos cavalos, que lanavam vapor pelas narinas. Viu ondular a capa do cavaleiro que vinha  frente e reconheceu as passadas longas e ligeiras, que tinham a energia 
das passadas de uma criana, embora pertencessem a um homem j a envelhecer. Bastaram-

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-lhe dois passos, mesmo na escurido; comeava a nascer uma luz dbil e cintilante, que suavizava o negrume, e a chuva persistente cessara.
Harry no era capaz de adivinhar a razo daquela mudana de planos, to incaracterstica, mas afinal Llewelyn desistira de passar a noite em Aberconway e regressara 
a casa, ao seu castelo e  sua cama.
Mesmo antes de saber porqu, Harry deu por si a correr, confuso mas determinado. Haviam-lhe confiado um segredo que deveria ser preservado. De Breos poderia j estar 
a dormir nos seus aposentos mas talvez no houvesse ainda decorrido muito tempo. Porque decidira o prncipe voltar para casa? Seria que acabara de tratar os assuntos 
com o prior mais cedo, a tempo de poder cobrir as milhas que o separavam de casa e vir descansar o resto da noite na sua cama? Se fosse muito tarde haveria pernoitado 
l, como previsto. Tanto quanto Harry sabia, ainda no passara meia hora desde que levara de Breos  presena da princesa e talvez ainda no houvessem concludo 
os seus planos.
Na escurido, dirigiu-se  torre real fazendo um desvio. O prncipe no podia apanh-los desprevenidos nesta altura e estragar tudo. A velocidade com que partira 
da casa da guarda, era mais que certo que devia estar a dirigir-se para os seus aposentos. O prncipe podia ir a direito mas Harry precisava de ser sorrateiro e 
de se manter escondido. Se de Breos houvesse partido havia muito e a princesa j estivesse a dormir, no se perderia mais do que alguma energia e algum flego, coisas 
que Harry tinha de sobra, mesmo  meia-noite.
Confiante, correu pela passagem por trs da armaria e mergulhou na soleira da porta de entrada - e nos braos de Llewelyn.
Soltou um grito agudo e dbil, no de medo, apenas de espanto. Agarrou-se ao corpo forte e delgado com os braos, para manter o equilbrio, e arquejou:
- Senhor!
A exclamao sara num soluo rouco, mais de riso que de alarme. Se l dentro estivessem duas pessoas e precisassem de um

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aviso, ento este alvoroo mesmo  porta seria suficiente. S precisava de tirar dali o prncipe por alguns minutos e tudo estaria bem.
- Harry, tu aqui? - perguntou Llewelyn.
As grandes mos do prncipe agarraram-no e empurraram-no para dentro. Atrs dele, havia trs ou quatro pessoas, que Harry no foi capaz de reconhecer na escurido. 
Mas nenhuma delas era David ou Owen. Porque os deixara para trs, se regressara a casa?
- Que ests a fazer levantado, a estas horas?
Pela primeira vez, Harry sentiu-se assolado por uma dvida, indistinta mas aterradora como uma nusea. Nunca aquelas mos o haviam agarrado daquele modo: magoavam-lhe 
os braos, provocando um formigueiro que descia at s pontas dos dedos. A voz, sonora e orgulhosa, que tantas vezes lhe gritara sem o atemorizar, era agora tensa, 
baixa  glida. Mas Harry no se deixou atemorizar. Mentiu arrojadamente:
- Eu ouvi-vos chegar, senhor. Ouvi os ces. No quereis vir aos canis por um instante? Fui ver a Marared e estou preocupado com ela.  a primeira ninhada e ela est 
inquieta e a ganir. Receio que no esteja a passar bem. Se quissseis vir ver...
Junto  porta brilhou uma tocha, empunhada por algum que, na sua perturbao, Harry no conseguiu identificar. Por que estariam todos to silenciosos? Llewelyn 
obrigou-o a voltar-se e a encarar a luz e o rapaz viu ento, em contraluz mas suficientemente ntido, o rosto de perfil de falco que tanto amava e respeitava. Fitava-o 
com uma expresso terrvel, sob o cenho franzido, os olhos penetrantes a sond-lo, a boca larga fechada numa linha rgida. Com os dedos dormentes, tentou agarrar-se 
 manga do prncipe, sem compreender o que se passava, assustado.
-  isso que andas a fazer, a meio da noite, vestido e bem desperto? Porque me mentes? De que te servem agora as mentiras?
- Porque havia eu de mentir? A cadela est com febre, se pudsseis ir v-la, sabereis melhor do que eu o que  preciso fazer.
As mos que o agarravam obrigaram-no a voltar-se e empurraram-no para a escada.
- Senhor! - implorou, com a voz transformada num lamento infantil. - Que aconteceu? Que fiz eu?

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- Sim, que fizeste tu? Vem j e veremos!
Harry foi impiedosamente empurrado pelas escadas acima, a tropear e a ofegar, mas j em silncio como os demais, perdido num terror tal que nem percebia bem o que 
estava a acontecer. O prncipe prendeu-o pelo ombro com uma mo e, com a outra, escancarou a porta do quarto.
Sobre o leito houve um sbito movimento convulsivo que, com um grito, se dividiu em dois. Os amantes, nus, soergueram-se bruscamente, separaram-se e encararam a 
luz das tochas com os olhos dilatados de horror.
Harry soltou uma espcie de grito mudo e ficou sem flego, como se houvesse sido atingido por um punho fechado, mesmo abaixo do corao. A dor, fsica, aterradora, 
toldou-lhe o olhar e enfraqueceu-lhe os ossos. As suas pernas cederam e ele caiu, como um trapo de carne, em estado de choque, aos vmitos, apertando o estmago 
com os punhos. Na sua agonia, gemia "No! No! No!" uma vez e outra, num protesto frentico, mas faltava-lhe flego para conseguir gritar.
- Isto foi o que tu fizeste, Harry. Olha! Olha bem! Llewelyn agarrara-o pelos cabelos e obrigava-o a levantar a
cabea, puxando-o para a frente, at o encostar aos ps da cama. No podia desviar a cabea, no podia voltar a cara. No havia, porm, nada que no houvesse j 
visto naquele primeiro relance, que ficara gravado nos seus olhos, estivessem eles abertos ou fechados, e que, mesmo enquanto estivesse a dormir, lhe iria causar 
terrveis pesadelos. Impotente, ali ficou sob a mo que o aprisionava, sentindo crescer dentro de si uma angstia sombria, cada vez mais lancinante, que o penetrava 
at s pontas dos dedos, at s pontas dos cabelos.
Harry havia idolatrado Joan, olhara-a como se ela fosse uma estrela no cu - e agora via apenas uma mulher dissoluta apanhada em flagrante, uma infeliz mulher, nua, 
aterrorizada e envergonhada, que se cobria com os cobertores para esconder os seios plidos e gastos, descados sob o peso dos quarenta anos. Pela primeira vez, 
Harry notou as linhas em volta da boca, naquele rosto cansado e enrugado,

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a flacidez do pescoo descorado, o aspecto seco e sem brilho dos cabelos compridos. Era um rosto envelhecido, amarfanhado, que bem poderia ser o de um cadver, no 
fora a expresso fixa e aterrada dos olhos cinzentos. A seu lado, o homem estava encolhido, tenso como um belo animal selvagem perseguido at  exausto. A longa 
trana do cabelo dela cara sobre o ombro do homem e descia-lhe pelo peito nu. Os olhos negros, muito abertos, encaravam Llewelyn, num assomo de audcia desesperada. 
Mas Harry viu neles o medo, to nu como o corpo admirvel. A imagem de ambos penetrou e ficou indelevelmente impressa na mente de Harry.
Joan falou, pela primeira e nica vez nessa noite:
- Deixai o rapaz ir-se embora. - A sua voz era incrivelmente pesada e lenta, como se as palavras fossem pedras que mal conseguia levantar. - Ele est inocente, no 
sabia de nada. No sois capaz de ver isso? Deixai-o ir!
Harry sentiu os dedos fortes que o seguravam pelos cabelos relaxarem o aperto e, momentos depois, soltarem-no. Caiu contra as saias da cama mas l conseguiu levantar-se, 
com movimentos alquebrados e desajeitados, e correu como um louco para fora do quarto, aos tropees, por entre os homens silenciosos, que se afastaram para lhe 
dar passagem. Os outros ouviram a correria irregular pela escada abaixo, mais rpida e impetuosa  medida que se ia afastando. Por fim, Harry mergulhou na escurido 
e na quietude da noite e todos se esqueceram dele. Se algum se lembrou dele foi a mulher, que continuava muda e queda entre os estilhaos do seu mundo despedaado.
De Breos estendeu uma mo quase firme em direco  sua cota.
- No - disse Llewelyn, com aspereza. - Deixai-a onde est e levantai-vos, senhor. Quero ver que encantos oferecestes a essa mulher, a ponto de a levardes a ceder.
Sobre a face plida, as delicadas mas do rosto tingiram-se de rubro. Devagar, de Breos afastou as cobertas e levantou-se da cama. Manteve-se aprumado e olhou em 
frente, recusando-se a admitir a vergonha, enquanto o prncipe o olhava da cabea aos ps, e de novo nos olhos.

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- Julguei que homem algum neste mundo seria capaz de fazer o que vs haveis feito, senhor. Que isso vos sirva de consolao. Nem todos os nobres ingleses conseguem 
um feito sem precedentes antes de morrer. Vesti-vos. No voltareis a consegui-lo. A mim, no me deslumbrais.
De Breos envolveu-se na sua cota com as mos a tremer de um medo renascido, um medo palpitante que recusava um tal fim. Ultrapassara a primeira morte, chamando em 
seu auxlio tudo quanto possua: Brecon, Builth, Hay e todas as complexidades mul-tifacetadas da sua honra. Devia sentir-se espaldado por uma hoste dos seus homens 
mas sentia que estes estavam numa outra dimenso, incluindo aquele punhado que, naquele preciso momento, ressonava nos novos pavilhes de Llewelyn.
Tentou olhar para Joan mas no conseguiu suportar por muito tempo aquilo que viu. Joan no se mexera: os seus grandes olhos, cinzentos e vazios, como se fossem de 
vidro, fitavam Llewelyn sem mudar de expresso. L no fundo, porm, nascia uma centelha inquietante e de Breos teve o pressentimento de que seria melhor desviar 
o olhar, no ver essa centelha, evitar a todo o custo entender o seu significado.
Llewelyn voltou a cabea para o lado e os presentes viram-lhe a boca contorcida, num esgar de terrvel sofrimento.
- Pelo amor de Deus cobri-vos, senhora! - disse, em voz sufocada.
Joan arrastou-se para fora da cama, como se estivesse infinitamente cansada, e enfiou o vestido, com movimentos cegos das mos que j nem conseguiam tremer. No 
mostrava medo: o medo era agora irrelevante, depois de haver feito desabar o tecto sobre a prpria cabea. Ficou de p, muda e imvel, a olhar para Llewelyn. Por 
detrs do olhar vazio, assomava a compreenso: mais alguns instantes e esta tornar-se-ia visvel.
- Sempre era verdade o que me contaram - disse Llewelyn, descobrindo o rosto orgulhoso e sombrio, que no voltaria a tra-lo.
A princpio, ri-me. Depois fiquei furioso, por me julgarem to tolo que pudesse acreditar numa tentativa to inbil de minar a fora que nos unia. Fiz esta experincia 
para provar que era mentira e

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consegui afinal provar que era verdade. Pois bem, falai! No haveis nada a dizer em vossa defesa?
Os lbios dela mexeram-se para dizer "Nada!" mas no se ouviu qualquer som.
- Chamai a guarda - disse Llewelyn, sem voltar a cabea. - Ordenai-lhes que prendam e ponham a ferros todos os cavaleiros de Brecon que vieram com este criminoso 
e ladro. Depois, que venham buscar estes dois.
- Senhor, os meus homens nada tm a ver com isto, sou o nico responsvel por este crime.
De Breos humedeceu os lbios secos com a lngua, spera como couro. Dois dos homens que permaneciam em silncio atrs de Llewelyn voltaram-se e saram do quarto.
- Senhor, os vossos homens vo pagar por serem companheiros de um traidor, como vs pagareis por serdes um traidor, por haverdes destrudo a casa onde fostes recebido 
como convidado.
O rosto lvido e desfeito no podia empalidecer mais e tambm no havia nada capaz de fazer voltar o sangue quelas faces.
- No nego nenhuma das minhas faltas - disse de Breos. - Assumo todas as culpas daquilo que fiz e peo-vos que a considereis to atraioada como vs. O que aconteceu 
foi obra minha, fui eu que planeei tudo e que consegui seduzi-la. Peo-vos a clemncia de me deixardes defender-me pela espada.
- No ousaria pedir nem mesmo ao mais humilde dos meus guardas para vos defrontar. Haveis-vos colocado para l da clemncia dos homens de honra. Respondereis perante 
a lei, como os demais criminosos.
- Seja! - respondeu de Breos, endireitando as costas. - Porm, deixai que vos diga, senhor, que no me arrependo do que fiz. Nunca, custe o que custar! Tudo quanto 
possuo nada vale, se comparado com o amor que me foi concedido pela vossa senhora e com aquele que lhe dedico. Fazei de mim o que quiserdes mas sabei que a amei, 
que a amo e continuarei a am-la at ao ltimo dia da minha vida.
Estas palavras foram dirigidas a Joan mas ela no as ouvira e recusava-se a olh-lo. Era o nico, o derradeiro conforto que ele

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poderia receber, no abismo da sua desventura, e Joan recusava-se a conceder-lho. Fitava Llewelyn e avaliava os estragos que provocara: no fundo dos seus olhos, a 
luz ardente transformara-se numa angstia de tal clareza que iluminava, aos olhos dele, a perdio eterna de ambos. Sob aquela luz, tinha por fim uma viso fria 
e ntida: todas as provas estavam reunidas, todas as peas encaixavam. Durante a sua breve relao, no houvera um s momento em que ela no se houvesse sentido 
capaz de sacrificar de Breos e o muito que lhe queria para afastar uma simples ruga da testa de Llewelyn.
Joan nem sempre tivera conscincia disto, mas sabia-o agora; no rosto do marido, era possvel medir e ler tudo o que havia perdido, tudo o que havia posto em perigo, 
quebrado e destrudo. Joan rasgaria de bom-grado o seu corao e o do amante para poder voltar atrs.
Nas escadas do piso inferior soaram passos, pesados e hesitantes. Uma dzia de homens armados entrou no quarto, evitando fazer rudo com as armas ou barulho com 
os ps, assombrados com a catstrofe inimaginvel que se abatera sobre Aber. Com uma suavidade implacvel, seguraram de Breos e olharam para Llewelyn,  espera de 
ordens, hesitando em tocar em Joan. Ela fora, durante tanto tempo, carne dessa carne principesca, agora ultrajada, que ao subjug-la quase lhes parecia estar a atacar 
a soberania de Gwynedd e a blasfemar contra as regras e contra Deus.
- Levai-os - ordenou Llewelyn.
De Breos no ofereceu resistncia quando o levaram at  porta. Passou junto de Joan, olhando com ardor para o seu semblante impassvel: ela desviou a cabea para 
evitar que, mesmo por um segundo, ele a impedisse de ver o rosto de Llewelyn.
- Se ao menos soubsseis, senhor... - disse de Breos, com um sorriso crispado. - A vossa dvida para comigo acaba de ser Paga...
Harry passou a noite enroscado debaixo das cobertas da sua cama solitria, tenso e dorido pela insnia, torcendo-se numa confuso de dor que no o deixava descansar 
um s instante. Mesmo ali, a escurido no era suficiente, mesmo ali no se sentia em segurana,

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pois quando o dia nascesse teria de se levantar e encarar a luz, que estava  espera dele para o atacar. Esfregou os olhos com os punhos fechados mas no conseguia 
apagar o que vira. Aquela recordao devorava-lhe o crebro como uma corroso insuportvel, impossvel de debelar. Com a cara enterrada na almofada, soluou sem 
alcanar o alvio de verter uma lgrima, enroscou-se sobre o fardo do amor - e do dio e da vergonha e da raiva - como um animal selvagem ferido de morte.
Fora vilmente trado, a sua adorao e a sua confiana haviam sido usadas por eles para conseguirem os seus fins odiosos. Pior: haviam-no levado a trair o seu prncipe 
e pai adoptivo. Quem iria acreditar que agira em total inocncia? E, ainda que todos acreditassem, em que  que isso o ajudava? Haver sido um instrumento cego e 
crdulo era quase pior do que ser um traidor. Como pudera Joan fazer semelhante coisa? Como pudera destruir a imagem que Harry construra, a imagem imaculada sobre 
a qual no podia haver dvidas? Desconfiar da princesa? Questionar as suas escolhas? Haveria sido o mesmo que duvidar da integridade do prprio Deus! Em toda a sua 
vida de majestade, ela nunca deixara de ser ntegra e incorruptvel.
Mais profundo do que a ferida infligida no seu orgulho - que ainda assim lhe cortava o corao - mais profundo do que a perda da honra e o abalo da sua f, fora 
o golpe desferido no seu amor por ela, ainda no totalmente compreendido mas que experimentava com todas as fibras da carne e do esprito.
Fora pelo menos isto o que sentira no incio daquela noite interminvel. Mas, quando esta chegou ao fim, quando a luz comeou a infiltrar-se pelas dobras das cobertas 
e a ferir-lhe a sensibilidade em carne viva, como golpes de faca, a desonra assumira o primeiro lugar no catlogo dos seus martrios. Custasse o que custasse, precisava 
de se redimir aos olhos do prncipe, precisava de justificar os seus actos, por mais insensatos, por mais infantis e crdulos que houvessem sido, e de recuperar 
a confiana que at ento merecera. No pretendia evitar a acusao - era o primeiro a acusar-se - nem o castigo, se fosse julgado merecedor de castigo maior do 
que aquele que j estava a sofrer. Mas no conseguiria suportar ser

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tomado por um vil traidor; uma tal afronta ao seu amor-prprio era intolervel.
A tremer, arrastou-se para fora da cama, arranjou-se e foi tentar pedir uma audincia a Llewelyn. A sua determinao era to forte que conseguiu passar pelos guardas 
postados junto  escada privativa e encontrava-se j no meio do grupo agitado de dignitrios que enchiam a antecmara quando o camareiro reparou nele e o deteve, 
puxando-lhe por um brao.
- Deixai-me ir ter com ele - protestou Harry, furioso. - Sempre tive livre acesso  sua presena, no podeis impedir-me de entrar.
- Hoje, no. E, se fosses sensato, no havias de querer entrar. Vai e deixa o prncipe em paz. Isto no  lugar para ti - disse o camareiro, aborrecido, empurrando-o 
porta fora.
Harry voltou a entrar, mais discretamente e, sem que ningum o visse, deslizou encostado  parede at ao canto mais escuro, com o ouvido atento aos murmrios assustados 
dos homens presentes na sala. Parecia que David e Owen haviam sido deixados em Aberconway e ainda no sabiam daquela desgraa. Tudo fora feito de propsito para 
poupar David ao horror de ver a me cada em desgraa e para ter o irmo ao seu lado, a apoi-lo, caso a notcia se espalhasse e o alcanasse. Harry ficou com as 
orelhas a arder de indignao, ao ouvir mencionar o seu nome. O papel que desempenhara era conhecido mas, pelas palavras soltas que ouviu, no conseguiu perceber 
qual o julgamento que dele faziam. Os homens falavam das consequncias polticas da catstrofe, do casamento ameaado de David, da sombra do rei Henrique pairando 
como um escudo sobre a cabea do seu importante vassalo, da hiptese de uma guerra, da notcia que se espalhava velozmente pelo Pas de Gales, e dos velhos inimigos 
do cl de Breos que se haviam lanado alegremente a galope, em direco a Aber. William teria de se despojar de muito mais do que um castelo para conseguir salvar-se 
desta embrulhada, diziam.
Harry esgueirou-se at  porta interior e estava a encolher-se atrs dela quando Ednyfed Fychan, de semblante carregado, saiu para despachar um mensageiro. Antes 
que algum lhe pudesse

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deitar a mo para o segurar, o rapaz passara pelo vulto lento do juiz da corte e estava diante de Llewelyn, lanando-se de joelhos aos ps do prncipe.
- Fazei-me justia, senhor! Deixai-me falar! Castigai-me como vos aprouver, mas no me julgueis um traidor!
O prncipe baixou os olhos para Harry - uns olhos encovados, a arder no rosto cadavrico, que a raiva e o desgosto faziam parecer o rosto de algum prestes a morrer 
de fome. Propositadamente, nessa manh, arranjara-se e vestira-se com esmero: a barba sedosa, que lhe rodeava os lbios e contornava os ossos fortes do maxilar, 
estava bem aparada e o cabelo escuro e ondulado cuidadosamente penteado. At o aceno da mo dirigido a Ednyfed, quando o senescal voltou a entrar nos aposentos, 
foi comedido e controlado, aparentemente desapaixonado. Todavia, todos sentiram as convulses titnicas do fogo reprimido e deram um prudente passo atrs, mantendo-se 
afastados do seu raio de alcance.
- Ponde-o daqui para fora - ordenou Llewelyn.
- No devias estar aqui, rapaz - disse Ednyfed, aborrecido, mas sem severidade. - Ouviste o que disse Sua Graa. Sai!
Ao lado de Ednyfed encontravam-se trs pessoas: o capelo, o juiz e o chefe da guarda pessoal, o conselho superior do tribunal de Llewelyn. Todos olharam para aquele 
rapaz de olhos desvairados e, com um franzir de cenho, indicaram-lhe que sasse, mas ele ignorou o aviso. Assim que Ednyfed, cuja pacincia se esgotara, lhe pegou 
no brao, Harry lanou-se para a frente num gesto desesperado e agarrou-se aos joelhos de Llewelyn.
- Fazei-me justia, senhor! Juro que no vos tra, no sou um miservel como julgais, eu no sabia...
A cadeira do prncipe produziu um rudo agudo sobre as tbuas do soalho, quando este a empurrou para trs com brusquido, para se colocar fora do alcance de Harry.
- Disse-te que te fosses embora. Ser preciso repetir as minhas ordens? Sai imediatamente!
O capito da guarda levantou-se e agarrou Harry pelo outro brao mas o rapaz debateu-se at se soltar e seguiu Llewelyn, de joelhos, soluando intensamente.

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- Se no acreditais em mim, matai-me, senhor! No posso aceitar que me julgueis um traidor e no me levantarei at que me ouais! No sabia que eles... que ela... 
Ambos me mentiram!
Os olhos profundos, que a recordao daquela longa noite afundara nas rbitas, fulminaram-no como um raio. Llewelyn cerrou o punho e recuou o brao; e viu o rosto 
exaltado e angustiado do rapaz estremecer de apreenso e empalidecer, mantendo a sua posio,  espera do golpe. Levantou-se da cadeira de um salto e aproximou-se 
da parede coberta ao lado da estreita janela, agarrando com fora a tapearia at sentir passar-lhe o mpeto assassino.
E tudo por causa da honra nascente, insignificante, desta criana, que no devia doer-lhe mais do que uma dor de dentes, enquanto o mundo que outros haviam levado 
uma vida inteira a construir se desmoronava  sua volta e as fibras dos seus coraes eram cortadas uma a uma! Havia de chegar o dia em que justia lhe seria feita 
como queria, o dia em que ele seria reconfortado, mas no agora: Harry era a lembrana viva de uma dor e de uma perda insuportveis, era-lhe impossvel olhar para 
ele ou falar-lhe sem sentir repulsa.
- Levai-o - disse Llewelyn, em voz rouca, sem voltar a cabea - antes que eu me esquea de quem ele  filho e lhe bata. Por Deus, ele envergonha a memria do pai!
O punho nunca poderia ter desferido um golpe to mortfero. Pela segunda vez, Harry encolheu-se, atordoado, com os olhos a turvarem-se e as foras a abandon-lo, 
sentindo a pesada angstia do desespero a invadi-lo, quente e avassaladora como chumbo derretido. Incapaz de falar ou opor resistncia, foi posto fora sem brutalidade 
e ouviu fechar-se a porta atrs de si. Em todo o caso, no havia nada mais a fazer, nada mais a perguntar. J ouvira o pior que podia ouvir.
Quando conseguiu que as pernas dormentes lhe obedecessem, refugiou-se no canto mais escondido dos canis e escondeu-se na palha, para debater consigo mesmo as consequncias 
daquela rejeio to absoluta.
Estava desacreditado e desonrado, proscrito para sempre das mercs do prncipe. Perdera a sua dignidade, mesmo aos seus

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prprios olhos. Envergonhara a memria do pai! Isto exasperou-o e amargurou-o ao ponto de todo o seu sangue Talvace se erguer para o acusar. Podia nunca mais voltar 
a redimir-se aos olhos do prncipe mas, se quisesse continuar a viver consigo mesmo, precisava de fazer algo de prodigioso para se redimir aos seus prprios olhos 
e lavar tamanha afronta. S havia uma maneira de provar ao mundo at que ponto respeitava a memria de seu pai e at que ponto era digno de a preservar.
No podia ficar ali por mais tempo: Aber expulsara-o. Afinal, Harry j era um homem: seu pai tinha a mesma idade quando fugira de casa para salvar o irmo adoptivo. 
Era tempo de assumir a luta de seu pai, que havia tanto tempo o esperava, o desafiava e o censurava. Veriam como no envergonhava a sua memria!
A dor e o desespero provocaram-lhe um acesso de energia furiosa, que no lhe permitia estar quieto nem por um instante e que o levou de volta ao seu quarto vazio, 
para ir buscar a capa e o pouco dinheiro que possua, e a seguir at s cavalarias, para selar Barbarossa, com mos trementes e apressadas. Se interrompesse aquela 
actividade febril, cairia de imediato num pranto incontrolvel; mas, se se forasse a continuar em movimento, conseguiria manter a dignidade e lanar-se no caminho 
da expiao e da reparao. No se despediria de ningum. Era melhor no pensar na me, to delicada, bonita e adorada, nem em Owen, nem em David.
Lembrar-se de David, que cavalgava a caminho de Aber, numa feliz ignorncia da calamidade que o aguardava, era-lhe insuportvel. Como ltimo recurso, dedicou-se 
s ltimas pequenas dificuldades - as correias dos arreios que resistiam sob as suas mos, uma fivela partida, um n na crina vermelha - para aliviar o fardo da 
ira e do desgosto que sentia.
As suas armas resumiam-se a uma adaga, mas teria de se contentar com ela. No podia levar a espada: era de Llewelyn e no tocaria em nada que pertencesse ao prncipe 
que o condenara e o expulsara. Por instantes, apoiou o rosto no pescoo reluzente de Barbarossa e soluou alto. Pelo menos o cavalo era seu, ganhara-o lealmente 
e no precisava de o deixar para trs.

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Na porta do castelo, no o mandaram parar. Sempre tivera liberdade para entrar e sair quando queria e, nesse dia, havia coisas mais urgentes para fazer em Aber do 
que levar Harry de volta a casa, se este tentasse escapar.
Gilleis estava com Joan na priso onde esta havia sido encerrada: era a nica pessoa que l deixavam entrar. Como poderia abandonar aquela presena silenciosa e 
aptica e preocupar-se com as idas e vindas do seu prprio filho, antes de conseguir ao menos arrancar um som, uma palavra,  sua senhora e amiga, algo que demonstrasse 
que ainda havia nela um esprito consciente? Alm do mais, Gilleis s soube o resto da histria daquela noite terrvel ao meio-dia do dia seguinte, quando a deixaram 
sair do quarto guardado para se lanar nos braos ansiosos de Owen, que a esperava nas escadas do salo.
Owen deixara David a ss com o pai havia menos de dez minutos e sabia a histria toda. Abraou Gilleis como se ela fosse a sua prpria me:
- Onde est o Harry? - perguntou, ansioso.
Havia suficientes cabeas pensantes em Aber a debruar-se sobre os assuntos de Estado mas apenas um homem tivera tempo para pensar no rapaz.
- No sei. Estive toda a manh com a princesa. Deus nos acuda, Owen, j nem sei o que fao, nem em quem devo acreditar. Se ao menos ela falasse!
Reparou na perturbao e na ternura especial espelhadas no rosto de Owen e soube que lhe eram dirigidos.
- Que se passa? Que aconteceu ao Harry? Que tem ele a ver com tudo isto?
Owen contou-lhe o que sabia: foi o suficiente.
- Deus do Cu! - exclamou Gilleis, apavorada. - Fui eu mesma quem lhe levou a mensagem dela, ontem  noite. O que a ter levado a engan-lo de forma to cruel? E 
como puderam pensar que ele seria conivente?
- Ento, ento, ningum acredita que o Harry soubesse o que estava a fazer. Nem mesmo o prncipe. E a nossa senhora no permitiria de modo algum que o acusassem 
injustamente. E de Breos

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tampouco, se fosse esse o caso. Seja l o que for, no  um homem to vil que fizesse sofrer o rapaz.
- Mas foi ele o instrumento! - disse Gilleis, desesperada. - Meu Deus, vai ficar com o corao despedaado.  preciso avisar o Adam e faz-lo regressar a casa.
- Assim faremos - respondeu Owen. - Primeiro,  preciso encontrar o Harry. No ficarei sossegado at o encontrarmos.
Procuraram nos canis, nos estbulos, em todos os cantos do castelo, mas no conseguiram descobri-lo. O rapaz de sentinela  porta do castelo admitiu haver visto 
Harry sair a cavalo, de manh, mas afianou que este no poderia haver-se afastado muito. Owen, menos confiante, pegou num cavalo e vasculhou todos os esconderijos 
dos rapazes que havia em Aber: a oficina de ferreiro perto da gua, o moinho e as margens da represa, os trilhos ngremes que levavam s veredas do planalto. Mas 
em lado algum se avistava o cavalo vermelho escuro de Harry sobre a erva primaveril, verde plida, das colinas. H-de voltar para casa ao anoitecer, disse Owen a 
Gilleis, com mais confiana do que na verdade sentia. A fome e a escurido ho-de traz-lo de volta, para perdoar e ser perdoado. Porm, a noite desceu sobre os 
pntanos salobros e sobre os campos rasos de Aber e Harry no voltou.

CAPTULO QUATRO

Aber: Maio de 1230

Os dois casebres situavam-se num sulco de terreno, ao lado de uma fonte, vrias milhas para alm dos redis mais altos que abrigavam os rebanhos de Llewelyn. De um 
lado e do outro, estendiam-se os planaltos verde cinza, cobertos de ervas speras, cuja continuidade era quebrada por afloramentos rochosos e pelas manchas acastanhadas 
das turfeiras. Mas, naquele mundo desolado, a pequena ondulao do solo onde ficavam os casebres estava protegida dos ventos e voltada para o Sol.
A cela do Santo Clydog era uma simples cabana de estacas, barro e turfa, com uma porta ogival voltada para Oriente, para a Terra Santa. A de Madonna Benedetta tinha 
uma slida forma Quadrangular em pedra talhada, com duas janelas voltadas para k e uma escultura sobre o lintel da porta. Fora Adam Boteler que a construra, depois 
de ela haver decidido retirar-se para uma vida de eremita, e era tambm ele quem cuidava das reparaes. Tinha um quarto e uma sala de fora, e John o Frecheiro, 
que ia envelhecendo ao servio de Madonna Benedetta, dormia ante da porta dela, durante a noite, e, durante o dia, pescava e cozinhava.

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Benedetta mandara-o embora vrias vezes, declarando que, ao seu servio, ele era e sempre fora um homem livre e que era imprprio de uma eremita ter um criado. Mas 
John recusava-se a partir e apelava a Santo Clydog, como sempre fazia, quando queria que ela cedesse em qualquer discusso. O Santo Clydog era rabugento por natureza 
e, em qualquer disputa, tomava sistematicamente o partido oposto ao de uma mulher. Alm disso, decretara sem apelo que era obrigao de um eremita dispor de um criado 
para lhe fazer os recados, uma vez que um eremita no pode abandonar a sua cela e que a clarividncia que o seu estado de graa especial lhe confere poderia, a qualquer 
momento, requerer que fossem enviados avisos ou exortaes a pessoas que, em muitos casos, viviam bem longe.
Em tempos, o velho eremita tivera um servo para esse fim mas o pobre rapaz cansara-se de tanto correr ao sabor dos assuntos sobrenaturais do seu amo e, um dia, cansado 
daquela vida, continuara a correr at encontrar outro servio; qual teria sido esse servio fora coisa que os dons de clarividncia do Santo Clydog nunca haviam 
sido capazes de esclarecer. Desde ento, o eremita reclamava uma pequena parte do tempo de John o Frecheiro, moderando as suas exigncias para dar prioridade a Benedetta. 
De um modo geral, sentia-se melhor assim: teria precisado de todo o tempo que lhe restava de vida nesta terra para se habituar a um novo rosto.
Estavam ambos sentados no exterior batido pelo sol brilhante daquele primeiro dia de Maio: o Santo Clydog voltado para Oriente, passando as contas do rosrio entre 
as mos unidas no bolso do hbito, e Benedetta voltada para o sol, a bordar um pano de altar para a igreja dos monges de Beddgelert. Muitas vezes, sentavam-se ali 
tardes inteiras, sem dizer palavra; conheciam-se havia muito tempo e o silncio no era um entrave  comunho entre ambos.
- H dez dias que estais sempre a olhar para o caminho de Aber - disse abruptamente o santo. - E eu sei porqu.
- No duvido - concordou Benedetta, enfiando a agulha. O sol obrigava-a a semicerrar os olhos mas nem isso a fazia
voltar o rosto. O sol era um amigo e compatriota que s raramente a visitava, naquele clima brumoso do Norte, e o seu calor era como

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se fosse a saudao de uma voz italiana numa terra estranha, onde os pastores rudes que lhe traziam o leite e o po tinham nomes to difceis de pronunciar que ela 
levara anos a aprender a diz-los; por seu turno, estes evitavam dizer o dela, chamando-lhe simplesmente "a mulher santa".
- Lembro-me de, ao fim de uma semana na vossa companhia, haver dito que no havia santo mais conhecedor das coisas do mundo. Continuo a dizer o mesmo mas tambm 
no h santo mais indiscreto.
- Isso  porque  mister estar sempre ocupado com os assuntos de Deus, mesmo em vosso nome - respondeu o santo Clydog, sem perder a compostura. - Estais ansiosa 
porque o vosso filho no veio visitar-vos pela Pscoa.
- Ele no  meu filho - replicou calmamente Benedetta.
- Em esprito, ele  filho de muitos pais, um dos quais sois vs. Receais que algo o haja impedido de vir.
Benedetta no respondeu e continuou a bordar. Em cerca de quinze anos, havia bordado jardas de panos de linho semelhantes quele, ela que antes nunca dera um ponto 
num vestido e que, mesmo hoje, no o faria de bom-grado, se no fosse esse o preo a pagar pela vida que escolhera. Em paralelo com a tranquilidade e a segurana 
da sua vocao, aceitara de boa vontade a imobilidade e a monotonia e, tambm, a obrigao de aperfeioar aquela aborrecida arte. Quando se firma um contrato com 
Deus, no podemos regatear.
- J perguntei muitas vezes a mim prprio quantos dias mais se passaro at fazerdes as malas e irdes em busca de novas dele, se ele continuar sem aparecer - prosseguiu 
o santo, lanando-lhe um penetrante olhar de relance, sob as sobrancelhas brancas e fartas.
- O meu lugar  aqui. No h nenhum outro. Ser que vos hei parecido assim to impaciente, desde que escolhi esta vida?
- No haveis tomado votos. E eu sempre pensei que no ireis passar a vida toda aqui. Vs, com a vossa cara de santa e os vossos cabelos de demnio.
- Que sabeis vs dos meus cabelos de demnio? Benedetta conservava sempre os cabelos ocultos por uma coifa
branca e, agora, quando os soltava sobre os ombros, no segredo do

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seu quarto, a cor escarlate apresentava-se semeada de fios prateados e a textura um pouco seca e spera, como se, dentro dela, a seiva houvesse atingido o Outono 
ainda antes de o Vero acabar.
- Cabelos de demnio, cabelos de Judas, na cabea mais leal que jamais se dedicou a pensar nos outros - respondeu o velho, encolerizado. - Os desgnios de Deus so 
insondveis.
- Sempre soube que leis em mim - disse Benedetta, com serenidade. - Culpais-me por haver feito um acordo com Deus?
- No vejo em vs qualquer pecado. A mulher, tal como o homem, deve agir o melhor que puder segundo as circunstncias. Quanto  validade da vossa santidade  a Deus 
que cabe julg-la e no a mim. E Ele assim far, quando chegar a altura.
- Porque vos preocupais ento com a constncia da minha vocao?
Num sbito acesso de simplicidade, desarmante e atordoadora como a de uma criana, Santo Clydog respondeu:
- No posso sentir desgosto  ideia de vos perder?
E, sem lhe dar tempo de reagir, acrescentou, no seu habitual tom rezingo:
- Olhai para o caminho agora. Como poder ser que, ao fim de todos estes anos passados ao meu lado, no sejais ainda possuidora do sentido do tempo e dos acontecimentos?
Benedetta olhou e viu dois cavaleiros, que galopavam sobre a faixa de pedra cinzenta que era o caminho de Aber. Poisou o trabalho no colo e ficou tensa, a v-los 
aproximar-se; e, quando eles ainda pouco mais eram do que pontos coloridos e mveis, na paisagem montona, disse sem hesitar:
- No  o Harry.
- H outros homens neste mundo.
Ela observou-os fixamente, at os dois cavaleiros se aproximarem o suficiente para ser possvel reconhec-los. O que vinha  frente, um homem alto, slido e louro, 
era Adam Boteler; o segundo, moreno e jovem, era Owen ap Ivor. Quando se aproximaram ainda mais, Benedetta viu que a expresso de ambos era grave, apercebeu-se da 
sua pressa e foi ao seu encontro, deixando cair o bordado.

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- Que vos traz aqui, Adam? H dias que estou  espera do Harry. Ele est doente?
Adam, que comeara a desmontar, deteve-se. J obtivera a resposta  pergunta que lhe ia fazer.
- Ento, ele no esteve aqui. No veio c depois da Pscoa? Adam tirou o chapu, por deferncia para com o Santo Clydog
e inclinou-se para beijar a mo de Benedetta. Conhecera-a antes de ela encontrar o pai de Harry e lhe entregar o corao para sempre; uma vez beneficiara mesmo dos 
seus favores mas, agora, ambos tinham a sensao de que isso acontecera a duas outras pessoas, mortas havia muito.
- Espervamos que nos dsseis notcias dele mas  mais uma esperana que se desfaz. Suponho que ento no sabeis o que aconteceu, aquando das festividades em Aber. 
Deus sabe que no houve tempo para fazer visitas.
- No sei de nada. Ningum veio aqui antes de vs. Que aconteceu?
A inquietao f-la baixar a voz e o seu corpo ficou maravilhosamente imvel. Ergueu para Adam os seus olhos grandes e afastados, que conservavam a pureza e a intensidade 
da cor, um cinzento to rico e denso como o tom prpura de que a ris se tingia no escuro. O seu rosto, de ossatura larga e boca de expresso resoluta e provocante, 
continuava a parecer feito para frequentar cortes e parques, e no celas de eremitrios; apesar de o velho eremita dizer que ela tinha cara de santa. Mas quem poderia 
saber com exactido o que entendia o Santo Clydog por santidade?
- Foi uma histria triste, em toda a conscincia. O Owen pode cont-la melhor, pois esteve mais prximo da tempestade do que eu.
- No suficientemente prximo para ser de alguma utilidade - disse Owen, em tom sombrio, ao mesmo tempo que desmontava para apresentar as suas saudaes. - Nem para 
o prncipe, nem para o Harry. Em resumo, a princesa foi surpreendida na cama, com William de Breos. E, sem haver cometido nenhuma falta, o Harry viu-se envolvido 
nesta triste histria, da qual saiu com alguma culpa e um enorme desgosto. Depois, fugiu para sarar as feridas e no conseguimos encontr-lo.

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- Que dizeis?! - exclamou Benedetta, perplexa, procurando recuperar a serenidade, perante a concluso que se impunha. - Sou demasiado velha para choques como este.
- Receio haver sido demasiado brusco - admitiu Owen, envergonhado. - Mas, nos ltimos dias, eu e o Adam havemos feito tudo to depressa,  procura dele, que perdi 
o hbito de agir com calma.
- A princesa e de Breos! Sentai-vos aqui e contai-me tudo. Acabaremos por poupar tempo.
Chamou Owen para junto de si e, uma vez sentado, este narrou de bom-grado a lamentvel histria, libertando o esprito de pormenores que o envenenavam havia vrios 
dias. Adam deitara-se no cho, junto dele, com um ar cansado e, de vez em quando, acrescentava uma ou outra palavra, numa voz arrastada. Sem se mexer e com as mos 
paradas sobre as contas do seu rosrio e os olhos fixos no cu, a Oriente, o Santo Clydog escutava em silncio.
- S Deus ou o diabo sabe que alquimia utilizou de Breos para conquistar a princesa. Se no me houvesse sido contado por quem foi, eu nunca acreditaria. E s Deus 
sabe quem foi que soprou nos ouvidos do prncipe mas h por certo alguma malcia em tudo isto. H quem tenha boas razes para querer evitar a todo o custo a aliana 
com Brecon: de Burgh, em Inglaterra, e tambm Griffith, em Degannwy, se por acaso lhe foi parar s mos uma arma to fatal. Quanto a culpar o Harry por confiar neles, 
 conversa de tolos, porque, a sangue-frio, ningum o julga culpado. E ningum pode faz-lo, porque qualquer de ns haveria acreditado na palavra da princesa e cumprido 
a sua ordem sem fazer perguntas. Seria o mesmo que suspeitar que, por empunhar uma espada, era desgnio da mo direita do prncipe atentar contra a sua vida.
- Mas foi isso que aconteceu - observou Adam, em tom sombrio. - A princesa est encarcerada, o David dividido entre os dois e o Harry desaparecido. Quem me dera 
hav-lo retido junto a mim, em Nanhwynain, onde estaria a salvo. Mas que podia eu fazer, se o prncipe o mandou chamar?
- Desde ento que o Adam anda em busca dele sem cessar e que eu passo todo o tempo que posso roubar ao servio do prncipe

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ou  companhia de David a ver se o encontro. E nem uma palavra acerca dele em lado algum. Onde poder ele haver ido? Todos os seus amigos esto aqui.
- Talvez no fossem os amigos quem ele procurava - disse Benedetta, de sobrolho franzido e o queixo entre as mos, como se falasse consigo mesma.
- A verdade  que os amigos lhe causaram dor suficiente para o levar a fugir - admitiu Adam. - Mas penso que nem mesmo de Breos desejava fazer-lhe mal.
- O que eu queria dizer era outra coisa - prosseguiu Benedetta. - Imaginem o peso do fardo do qual o Harry, com aquela idade e aquele temperamento arrebatado, precisa 
de libertar o corao. Ser junto dos amigos que ele querer libertar-se? Se bem o conheo, ele h-de preferir um inimigo com quem lutar a um amigo que o conforte. 
Se fosse apenas desgosto o que sentia, sereis vs, Adam, quem ele procuraria, ou correria para a me, mas nunca o faria se se sentisse em desgraa. Nesse caso, 
iria em busca de algum a quem pudesse fazer pagar bem cara essa desgraa, para depois a poder apagar. O prncipe recusou-se a ouvi-lo, no foi o que dissestes?
- Lembrai-vos de que o prncipe estava sob forte presso - argumentou Owen, corando pelo pai adoptivo. - A ferida ainda estava fresca e Deus sabe que no h homem 
que haja recebido golpe mais duro e menos merecido. Sem contar que Gwynedd, a herana de David, a que ele dedicou toda a sua vida, estava ameaada. Haver-vos-eis 
apercebido da dor do Harry, se vos encontrsseis esmagada por tamanho desgosto pessoal? Ademais, no  esta a nica nem a melhor desculpa do prncipe por haver mandado 
embora o Harry, pois se o fez foi para bem do prprio Harry. Inocente ou no, o Harry foi o instrumento de toda esta lamentvel trapalhada e o prncipe no estava 
em condies de olhar para ele e de lhe falar com justia. E ele no queria ser injusto. Dou-vos a minha palavra que,  noite, quando o pior estava j passado, o 
prncipe mandou chamar o Harry e ficou to desolado como todos ns, quando soube que ele desaparecera. A partir de ento, deu-me homens e autorizao para o procurar 
e haveria feito muito mais, se

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o equilbrio entre a guerra e a paz no continuasse a pesar sobre os seus ombros. Os nossos prncipes galeses, que acorreram a Aber, como ces que farejavam o cheiro 
do sangue, s queriam forar-lhe a mo e, Deus  testemunha de que lha foraram. Agora, ainda que desejasse recuar, ainda que pensasse que isso era mais sensato, 
o prncipe no poderia faz-lo. Nem mesmo ele.
- Nunca me ocorreu culp-lo - replicou Benedetta, calmamente. - O mundo desabou-lhe de repente sobre os ombros e no  de espantar que no haja prestado ateno 
ao desgosto do rapaz. E o Harry no conseguir ver mais nada seno esse desgosto, pelo menos enquanto a dor no abrandar um pouco. Penso que foi a afronta  sua 
honra que o atingiu mais duramente e que mais preciso h de ser aplacada. E o demnio soprou ao ouvido do prncipe palavras que seria melhor calar, se houvesse 
tempo para pensar, antes de as dizer. Essa meno ao pai do Harry... fizestes bem em perguntar a Ednyfed quais haviam sido as palavras exactas... pois receio que 
elas sejam mais importantes do que Llewelyn desejava ou imaginava. "Ele manchou a memria do pai." Foi mais do que suficiente para levar o Harry a agir.
Adam soergue-se bruscamente sobre a erva.
- Pensais que ele as entendeu como uma acusao por no haver cumprido o seu dever de filho? Que ele foi salvar a honra, afrontando Isambard? No me havia lembrado 
disso. Toda esta terrvel histria afastou-me essa ideia do esprito; mas, no Outono passado, o Harry andou outra vez a falar de vingana e ficou muito zangado por 
no o havermos deixado acompanhar o David  corte do rei, onde ele esperava poder avaliar o senhor de Parfois. Podeis muito bem estar certa!
- E para onde a memria do pai o chama. O desafio que o espera desde que nasceu. Se o que ele queria era um feito para lanar  cara de todos quantos duvidaram dele, 
foi para l que ele foi. Para vos mostrar que no desonra a sua linhagem.
Adam ergueu-se como que impulsionado por uma mola.
- Vou largar tudo e parto amanh para os lados do Severn. Se estais certa, ele deve parar em Strata Marcella e pode ser que ainda o apanhemos.

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Adam no acrescentou: "O pai dele est l enterrado." Mas Benedetta adivinhou-lhe o pensamento. Harry s poderia depositar o desgosto e a raiva no altar do tmulo 
de seu pai. Era ali que ele se dirigiria primeiro.
- Acompanhar-vos-ia de bom-grado, mas ainda no posso ir para to longe de Aber - disse Owen, em tom desolado, levantando-se tambm. - O prncipe mandar-me-ia ir, 
mas o David... no pode passar sem mim, no estado em que est. No me agrada, todavia, a ideia de irdes sozinho.
- Levai convosco John o Frecheiro - sugeriu Benedetta. - Ele h-de gostar de ir e j no receia deixar-me sozinha. Vou cham-lo e pedir-lhe que vos acompanhe.
Benedetta correu para a porta e chamou John, que preparava o fogo na chamin, na previso do frio da noite. John apareceu  porta, a limpar as mos  cota curta 
de tecido grosseiro; era um homem rstico e slido como um carvalho, j entrado nos anos, de pernas ligeiramente abauladas, que caminhava em passadas tranquilas. 
Bastava a simples meno de Parfois ou de Isambard para reacender nos olhos de John a antiga chama selvagem: tinha duas velhas contas ainda por ajustar com o senhor 
de Parfois, uma em nome prprio e outra, mais mortal, em nome de Benedetta.
- Se haveis mister de um companheiro de viagem, mestre Boteler, aqui haveis um. A minha senhora no ter grande preciso de mim durante algum tempo. Aqui, est em 
segurana e poder passar sem mim.
- Ento vem e cr que s bem-vindo - disse Adam. - Se o Harry estiver l, ns encontr-lo-emos. Vem at Aber esta noite e, de madrugada, teremos tudo pronto para 
partir.
Quando os dois visitantes se afastaram, mais contentes por terem descoberto mais um lugar possvel onde procurar, Benedetta seguiu-os com os olhos durante muito 
tempo; o seu rosto estremecia, como um lago agitado pelo vento vindo do mar. Voltou a pegar no bordado e sentou-se ao lado do eremita silencioso; mas a luz do dia 
j no era suficiente para dar pontos minsculos. Voltou a poisar o trabalho e ficou imvel, a sua quietude habitual perturbada pela indeciso.

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- O que me espanta  no escutardes o vosso corao e no irdes com eles - observou o Santo Clydog, fazendo uma pausa nas suas oraes, que em geral rezava com gravidade 
e concentrao. - E se o rapaz foi meter a cabea na boca do lobo? Contentar-vos-eis em ficar aqui, a rezar por ele?
- Quem falou em contentamento? - perguntou ela, numa voz que, tal como o seu rosto, denunciava alvoroo e tentao. - Eu pago as minhas dvidas e honro os meus compromissos. 
Que vos importa se me sinto contente?
- Podeis perguntar o mesmo a Deus - replicou o Santo Clydog. - Ou cuidais que Ele tambm no se importa?
A noite, Benedetta deixou a porta aberta para a noite estrelada, a fim de ter pelo menos a sensao de que a proximidade do eremita povoava a solido, na ausncia 
de John; e, rompendo o silncio, ouviu o ritmo montono da voz do velho eremita, que rezava em voz baixa diante do crucifixo, sob o tecto inclinado da sua pequena 
cela.
-  tarde, meu amigo - disse Benedetta, do limiar da sua porta. - No ides dormir?
- Esta noite no - respondeu o Santo Clydog, deslocando de um joelho para outro o peso do corpo. - Preciso de ficar de viglia com um moribundo.

Tiraram de Breos da priso a meio da manh,  hora em que havia mais luz e  vista de toda a gente, para tornar mais enftica a afirmao do poder e da audcia do 
prncipe de Aberffraw e senhor de Snowdon e conferir um carcter mais deliberado ao seu desafio a todas as autoridades dissidentes. Nada foi feito em segredo nem 
 pressa. De Breos fora condenado pelo tribunal da corte. O seu fim foi presenciado por mais de oitocentas pessoas, entre as quais os cavaleiros do seu squito, 
cujo cativeiro terminaria quando terminasse o espectculo a que assistiam; era preciso que regressassem e fizessem um relato fiel do que acontecera.
Llewelyn traara o seu caminho em linha recta, at onde o conduzira a dor e a clera. No aplicar a justia absoluta hav-lo-ia

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deixado exposto  suspeita de fraqueza e timidez, iria encorajar investidas dos ingleses e confundiria os seus prprios vassalos, que haviam acorrido de Snowdon 
a Aber; como corvos atrados pela morte. Quando alcanou a paz de esprito suficiente para poder encarar a hiptese de um acto de piedade, era demasiado tarde para 
pensar nisso; no que Llewelyn houvesse ponderado essa hiptese por muito tempo. Alis, tal soluo s podia ser encarada segundo um ponto de vista superficial. 
Mais valia, de longe e em todos os aspectos, manter-se firme nos seus direitos de homem e de soberano e, de uma vez por todas, provar aos olhos de toda a gente e 
perante a Inglaterra, esses mesmos direitos, que no entanto ningum ousaria negar-lhe.
E foi assim que a histria terminou, naquela manh melanclica do segundo dia de Maio, no terreno sobranceiro aos pntanos salgados, com as gaivotas a gritar sobre 
as guas e o vento forte que agitava o estreito a atirar as nuvens para o pedao de cu por cima do cadafalso. Entre algumas abertas de sol, caa uma chuva leve 
e perversa. A escada luzia e, no exterior do crculo formado pelos homens de armas, a relva espezinhada no se distinguia da lama escorregadia.
Os galeses livres, que haviam percorrido muitas milhas para ver morrer de Breos, soltaram um suspiro de contentamento, quando o viram aparecer, a cavalo entre os 
seus guardas, no caminho de Aber; diante deles encontrava-se o descendente odiado de uma famlia odiada, no qual, no ntimo, nunca haviam visto um aliado. Vinha 
de cabea descoberta, com as mos desamarradas, mas era um dos guardas que conduzia o seu cavalo, no fosse dar-se o caso de, na derradeira hora, lhe ocorrer lanar-se 
numa v tentativa de fuga. Vestia com esmero e elegncia e aparentava uma calma remota, quase ausente. Havia vrios dias que sabia que ia morrer e que vivia em to 
grande intimidade com esse pensamento que se habituara a ele, com uma espcie de atordoamento progressivo que, no entanto, nunca se aproximara da resignao. William 
de Breos no sabia como alcanar a resignao mas conseguira atingir a exausto. Tinha trinta anos e, mesmo nesta dura prova, mesmo mortalmente plido e macilento, 
continuava a ser um regalo para os olhos. No eram poucas as mulheres que se apiedavam dele.

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Ao chegar junto da escada, olhou para trs, na direco de Aber, e viu as nuvens que rolavam sobre Moei Wnion e a linha longa e escura do pano da muralha, que se 
esbatia, l em baixo, na fissura do vale do rio. Destacando-se acima da muralha, viu a silhueta curva da torre real, mas o local do seu triunfo breve e da sua queda 
eterna no se revestia agora de qualquer significado, porque Joan j no estava l. Estava algures, na estreita galeria de celas, longe dos olhares, enclausurada 
com as suas recordaes, nas quais no havia lugar para ele.
Ningum ficara a ganhar. Apenas uma perda irremedivel e insuportvel; e, para si, a morte ignominiosa de um ladro e de um hspede traidor, apanhado em flagrante.
De Breos subiu a escada, com passos cansados mas firmes, pois sabia que no havia outra sada. Aqueles irredutveis homens dos cls, que murmuravam entre si e clamavam 
pelo seu sangue, no sabiam que todas as suas dvidas haviam sido pagas. Aquilo que lhe iam tirar era bem pouco, porque ele j fora despojado de tudo. Quem haveria 
de pensar que um jogo, iniciado com tanta ligeireza, iria ter um fim to terrvel?
Ao contacto das mos do carrasco, inclinou docilmente a cabea, sem mesmo se dar conta do que fazia: todos os seus sentidos estavam concentrados no local onde Joan 
se encontrava; e, graas a Deus, os seus olhos estavam cheios de lgrimas no momento em que a escada foi brutalmente retirada.
- Porqu ele? - disse Joan. - Porqu ele e no eu? Ser que fui menos culpada? Poderei sentir-me grata por a minha vida haver sido poupada, se fui condenada a carregar 
comigo o fardo da sua morte? A escurido era quase total, na cela onde se encontrava detida; ela preferia assim. As duas velas delgadas eram tudo quanto podia suportar 
e, nem mesmo quela plida luz, era capaz de encarar o prprio rosto. Mas, pelo menos acabara por falar, umas vezes com ironia, outras com sentido prtico, por vezes 
pronunciando palavras amargas e apaixonadas, como agora, mas sempre calmamente. A primeira vez que quebrara o silncio fora para afirmar a total inocncia de Harry 
quanto  cumplicidade no seu crime e para ditar toda a

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histria do modo como ele fora usado. E isso era uma coisa que Gilleis nunca iria esquecer. Todo o rancor corrosivo que, ao mesmo tempo que a lamentava, abrigava 
dentro de si contra a sua senhora diluiu-se na tinta que serviu para inocentar o seu filho. Harry andava perdido, mas no estava desonrado.
- Fomos dois a fazer o voto de morrermos juntos - disse a princesa. - Mas um iludiu o voto e sobreviveu e, agora, a morte do outro pesar para sempre na sua alma. 
E o pior, Gilleis,  estar feliz por viver assim, olhar para trs e ver como era pequeno e frgil aquilo em que jogmos a nossa vida.  essa a ofensa mais cruel.
- Ento porqu? - perguntou Gilleis, sem soltar a escova que tinha na mo. - Ah, quantas vezes desejei fazer-vos esta pergunta! Que havia nele, por bem-parecido 
que fosse, para provocar em vs tamanha atraco? Porqu tamanha perda para todos ns... porqu?
- Ser que eu prpria o sei? Tudo aconteceu por si mesmo, como um fado, um acto de Deus. De Breos chegou num momento que lhe era propcio e em que eu no dispunha 
de meios para o pr  distncia. No fui capaz de resistir. Ser que eu prpria o sei?
Com quarenta anos j feitos, Joan chegara  etapa de viragem onde o Inverno inicia o seu longo declnio e William de Breos, dez anos mais novo, belo e alegre, parecera-lhe 
uma espcie de perpetuao mgica da Primavera que a abandonava para sempre. Um ano mais tarde e ele nada teria significado: ela haveria j firmado os ps no caminho 
descendente e estaria absorvida pela colheita. Um ano mais cedo e ela no haveria sentido necessidade dele, nem cado no erro doloroso de acreditar que a beleza 
e a juventude podem prolongar-se para alm do seu perodo de graa temporria e enganosa. Mas ele aparecera no momento adequado para preencher o instante de desespero 
e insegurana com o fascnio mgico do seu riso. E morrera por causa disso.
- S quando j no havia escolha percebi que houvera possibilidade de escolha e que eu havia feito a escolha errada - prosseguiu a princesa. - Para todos ns. Percebi 
que o pecado mais terrvel havia sido o meu e no o dele. Que dizem agora de mim? Que dizem agora da justia de Llewelyn? Que ele ousou castigar o vassalo do rei 
Henrique, mas no ousou tocar na irm do rei Henrique?

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- No - replicou Gilleis. - Ningum diz que ele no ousou. Nem mesmo os ingleses.
- Que dizem ento? Como explicam que eu esteja viva?
- Ningum tem preciso de explicar.
Valeria mais diz-lo ou calar-se? Num caso ou no outro, o resultado seria sempre dor: uma dor aguda ou uma dor surda.
- Nesta terra, todos sabem quanto ele vos ama - acabou por dizer Gilleis.
- Amou - corrigiu Joan, aceitando a dor sem vacilar.
Do comeo ao fim, no fizera mais do que lamentar-se, mas o desastre que se abatera sobre ela era obra sua.
- Eu sei o que perdi e o valor daquilo que lhe roubei.  tarde demais para o lamentar mas, pelo menos, no o fiz perder mais do que o preciso. Por favor, Gilleis, 
 mister que sejais os meus olhos e os meus ouvidos, agora que eu estou surda e mergulhada na escurido.
At ento, no fizera perguntas mas havia coisas que tinha de saber. J sabia, o que no era pouco, para que areias movedias lanara Llewelyn. Uma plida sombra 
do antigo fogo a brilhar-lhe nos olhos, pela primeira vez desde a sua queda, Joan levantou-se com esforo.
- O meu irmo partiu para Frana?
- Partiu sim, senhora. A frota saiu de Portsmouth no primeiro dia de Maio.
- Ele soube o que aconteceu, antes de partir?
- Diz-se que a nova chegou at ele dez dias antes. Pelo menos, deu ordens sobre a tutela do feudo do senhor de Breos antes do fim de Abril.
- Mas no questionou a condenao que pesava sobre ele. Joan absteve-se de acrescentar: "E sobre mim!" Mas os seus
lbios contraram-se num sorriso sem alegria. Afinal, conhecia o irmo: no iria ser a preocupao com ela que o levaria a agir contra Llewelyn, como chegara a recear. 
Talvez houvesse sido ingenuidade sua imaginar que, apenas para tomar a defesa de uma meia-irm em apuros e de um senhor das Marcas demasiado impetuoso, ele iria 
diferir o sonho tantas vezes adiado de invadir a Frana e,

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qual imperador guerreiro, percorrer triunfalmente o Poitou e o Anjou. A lealdade nunca atrapalhara Henrique. E os seus afectos eram sempre caprichosos.
Por certo que, durante algumas horas, vociferara e invectivara os pobres oficiais que o rodeavam, embora mais por haver visto ferida a dignidade prpria e pelo carcter 
sagrado de todas as coisas que eram suas do que pelo que dizia respeito  liberdade de William ou  vida de William. Depois, entregara o assunto nas mos de outra 
pessoa - muito provavelmente Ralph Neville, uma vez que, apesar de renitente, de Burgh iria acompanh-lo at  Bretanha - e voltara a concentrar a sua ateno nos 
gloriosos brinquedos que eram os navios, os motores, os homens e os seus sonhos de reconquista.
O fraco brilho que animava os olhos de Joan acendeu-se mais um pouco, animado por uma paixo que vinha do mais profundo do seu ser.
- E que aconteceu depois? Houve alguma troca de cartas entre o prncipe e a coroa?
- O prncipe escreveu ao chanceler e recebeu uma carta em resposta. No sei o que ele escreveu, mas parece-me que Ednyfed estava bastante satisfeito. E os ingleses 
no fizeram nada. Mostram-se at muito discretos. J passaram cinco dias e continua tudo calmo.
Cinco dias desde que o pobre corpo mutilado fora apeado do cadafalso e enterrado sem honras. Toda aquela energia, toda aquela arrogncia, toda aquela alegria conspurcadas 
e destrudas. E o mundo ficara mais pobre por isso. Nunca houvera verdadeira maldade em William de Breos. A malcia que emanava dele era um dom natural, para o mal 
e para o bem. Mas parecia que ningum se preparava para o vingar. Henrique, que se encontrava na Bretanha, podia no saber ainda que o seu vassalo fora morto; mas 
o chanceler Neville sabia e respondera  notificao brutal em termos aparentemente corteses e prudentes. O que era uma indicao clara de qual o lado para onde 
pendia a balana.
Segundo parecia, os factos eram demasiado claros para serem discutidos. A ousadia da justia do prncipe talvez houvesse pasmado e alarmado todo o reino de Inglaterra 
mas ningum podia negar que era justia. Portanto, tambm no iriam fazer nada por

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ela. Se aceitavam sem protestos a morte de William de Breos, dificilmente poderiam acusar Llewelyn pelo castigo que lhe aplicara a ela.
O alvio que sentiu fez Joan respirar melhor e, dentro de si, aquele primeiro e tnue raio de calor atenuou um pouco o frio de pedra. Se havia algum capaz de se 
sair bem de um tal desafio ao poder de Inglaterra, esse algum era Llewelyn, com a sua firmeza frrea e as suas tiradas directas como flechas; e a recente e assustadora 
memria do Kerry ainda reverberava como um eco das suas palavras. No corao de Joan, o calor transformou-se numa dor lenta e incisiva: Llewelyn j no precisava 
dela e podia muito bem jogar a partida sem ela. Todavia, foi com reconhecimento que acolheu aquela dor.
- Ele escreveu  viva?
Uma morte era uma morte, mas um casamento era um casamento e os assuntos slidos no podiam depender dos desgostos pessoais.
- Sim - respondeu Gilleis, com tristeza, pensando nas quatro jovens que haviam ficado sem pai. - E ao irmo dela, o conde Marshall, sob cuja tutela iro por certo 
ficar as meninas e os senhorios.
- Sabeis o que foi que ele lhes escreveu?
- S sei aquilo que se diz na corte. Dizem que o prncipe lhes explicou que a ofensa e o castigo eram um assunto que apenas dizia respeito a ele e ao senhor de Breos, 
e que se encontrava resolvido. Tambm disse que no guarda qualquer rancor contra a casa de Breos e que, pelo seu lado, continua a desejar que o casamento de David 
se faa segundo o contratado.
Parecia justo. Seria isso mesmo que ela lhe aconselharia, quer a pobre mulher de Brecon, duplamente ferida pela morte do esposo e pela infidelidade deste, aceitasse 
ou recusasse a proposta. Quanto mais terrvel  o que est em jogo e mais perigosa a aposta que nele se faz, mais inflexvel e audaciosa deve ser a posio que se 
assume. Nem um passo atrs, nem um olhar para o lado.
- E ouvi dizer que o prncipe tenciona enviar um mensageiro ao chanceler para reclamar oficialmente o castelo de Builth, como parte do dote da donzela.
Joan sorriu; foi um sorriso plido e fugaz, mas foi um sorriso. O instinto de Llewelyn era sempre infalvel. Aos pagamentos que

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ele exigia nada podia ser abatido, tal como nada faltava nas dvidas que ele saldava. E Llewelyn pagara, e continuava a pagar, um preo bem mais longo do que a breve 
e terrvel agonia s mos do carrasco.
- Eles j responderam?
- Ainda no houve tempo, senhora.
- Eles vo negociar com o prncipe - disse Joan, com convico. - E ele vai ganhar o jogo. - Dividida entre o desejo e o medo de fazer a pergunta seguinte, hesitou 
por breves instantes mas acabou por se decidir e, em voz baixa e pouco firme, disse: - Como est ele? Est bem?
O som das suas prprias palavras f-la estremecer, perante o peso da mutilao irremedivel que a afectava e a certeza quanto  que afligia Llewelyn. Gilleis desviou 
o olhar e procurou em vo uma mentira piedosa.
- No, no respondais! - disse Joan. - Eu sei a resposta. Que Deus me acuda!
A tremer, esforando-se por afastar de si o terrvel remorso, a princesa aconchegou o brial sobre os ombros. No era possvel desfazer o que estava feito. No era 
possvel voltar atrs.
- J tivestes notcias do Adam?
- Ainda no - respondeu Gilleis em voz baixa, com os lbios trmulos. - Ainda s partiram h seis dias.  muito cedo.
- Muito me espanta serdes capaz de no me odiar - observou Joan. - Sois sempre to boa.
De sbito, a sua cara contorceu-se, numa convulso de dor incontrolvel, que a fez baixar a cabea e cobrir os olhos com as mos magras e plidas.
- Oh, Gilleis - murmurou, por trs dos dedos rgidos. - Se, ao menos, eu pudesse reparar esse erro! De todas as traies que cometi contra a minha vontade, aquela 
de que mais me arrependo  do mal que fiz ao Harry. Oh, Gilleis, trair uma criana e, para mais, uma criana que me amava e confiava em mim...
Gilleis estendeu os braos e puxou a cabea loira contra o peito, afirmando, por entre as lgrimas, que Harry ia voltar, que, Adam e John iriam encontr-lo e traz-lo 
para casa.

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- Ele h-de voltar e no vos guardar rancor para sempre. Tudo passa e tambm isto h-de passar.
Que mais podia prometer-lhe? No podia mentir.
- Ah, no vos atormenteis! Quando voltar de Frana, o rei Henrique ir por certo interceder por vs e sereis liberta deste triste lugar.
- Liberta? - perguntou Joan, soltando-se bruscamente dos braos que a rodeavam e erguendo o rosto marcado pelo espanto, pelo escrnio e pelo desespero. - Que posso 
eu fazer com a libertao? No seu castelo ou numa das suas prises, a minha casa  onde Llewelyn estiver.

CAPTULO CINCO

Parfois, Maio de 1230

O crepsculo cara j quando, cansado e a sonhar com uma bela cama, Harry franqueou as portas de Strata Marcella. A bruma cobria os terrenos alagadios que ladeavam 
o Severn e, sobre a crista negra de Long Mountain, do lado ingls do rio, flutuava uma lua vaporosa. Ia ter de esperar pela manh para conseguir distinguir outra 
coisa que no fosse aquele dorso sombrio de lagarto, recortado contra o cu e a bruma azulada que pairava a meia altura.
Ali ningum o conhecia e Harry no fazia a mnima teno de usar o seu verdadeiro nome, que, em quase todo o Norte do Pas de Gales, o identificaria como filho adoptivo 
do prncipe de Aberftraw.
Junto ao porto, desmontou do cavalo sem aparato, descobriu a cabea perante o frade que saiu ao seu encontro e, com a devida humildade, pediu guarida por uma noite. 
Mostraram-lhe onde ficavam os estbulos e, uma vez ali chegado, como todo o bom viajante, ocupou-se da montada, antes mesmo de pensar no prprio conforto. A luz 
da lanterna suspensa no ptio da estrebaria, dois servos ostentando as armas facilmente reconhecveis do conde Ranulf de Chester preparavam os cavalos, assobiando.

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Instintivamente, com o corao a bater com mais fora, Harry recuou para uma zona menos iluminada. O velho Ranulf conhecia-o desde que ele era criana e, quando 
visitava Aber, costumava levar-lhe pequenos presentes: um jovem falco ainda coberto de penugem, sado das suas gaiolas privadas, ou uma lana finamente trabalhada. 
Se visse o filhote de Llewelyn a vagabundear sozinho por aquelas paragens, to longe de casa, o mais certo seria querer aprofundar o assunto e acabar por o levar 
de volta a Aber por uma orelha.
Mas era demasiado tarde para recuar. No havia melhor maneira de chamar as atenes sobre si mesmo do que sair dali, a toda a pressa, quela hora da noite. Por isso, 
continuou a alimentar e a cuidar de Barbarossa, evitando que a luz lhe incidisse no rosto e, s no momento em que tentava reunir coragem para entrar na sala dos 
comuns, se deu conta de que os seus receios eram infundados. O conde Ranulf no podia encontrar-se ali, em Strata Marcella: encontrava-se bem longe, na Bretanha 
ou no Poitou, com a hoste do rei.
Claro que eram muitos os homens do conde que conheciam bem o filho adoptivo de Llewelyn mas, com eles, o perigo de ser arrastado para casa, como uma criana fugitiva, 
era menos grave. Contudo, eles podiam levar a notcia at Chester, que depois a transmitiria a Aber. Portanto, mais valia manter-se longe da vista deles e evitar 
que ouvissem a sua voz.
Harry entrou discretamente na sala e foi sentar-se entre os viajantes mais humildes, no canto reservado a bufarinheiros e servos artfices. Os palafreneiros do conde 
Ranulf estavam na mesa mais alta, a uma boa distncia. A eles haviam-se juntado trs outros homens com as mesmas armas mas, por sorte, Harry no conhecia nenhum 
deles, o que queria dizer que eles tambm no o conheciam.
Na mesa principal, as vozes subiam de tom. A certa altura, Harry ouviu o nome da princesa Joan e o seu corao revoltou-se, sob a lmina aguada e cruel da memria.
- A princesa de Gwynedd? - dizia acaloradamente um peregrino gals. -Ah, deixa-te disso, homem! O mundo est cheio de linguarudos capazes de evocar o nome da Santa 
Virgem em vo, se

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isso servir os seus propsitos. Mas isso ser razo para os encorajares? Ns, em Gales, conhecemos a princesa. Disso podes ter tu a certeza. Quem inventou essa histria 
acerca dela bem pode engoli-la sozinho. Aqui, no h ningum que a engula.
Arrastado pela indignao que sentia, o peregrino elevara a voz e captara a ateno de todos os que se encontravam na sala.
- Poupa a tua clera, amigo - aconselhou um dos homens de Chester. - H um ms, eu haveria dito a mesma coisa sem pensar duas vezes e ainda o diria, se, infelizmente, 
no soubesse o que aconteceu. A histria j correu toda a Inglaterra e todo o Pas de Gales. Por onde hs andado que no ouviste nada?
- Eu ainda fiz melhor que tu, quando a notcia chegou a Chester - acrescentou o seu companheiro, em tom sombrio. - Desatei a rir.
- O prncipe tambm se riu, quando lhe foram assoprar aos ouvidos. Mas, agora, j no sente vontade de rir.
De mansinho, Harry levantou-se da mesa, afastou-se e enrolou-se no manto, no canto mais escuro da sala. A mgoa, que o vento frio de Maio e as bem-vindas dores que 
lhe afligiam o corpo haviam conseguido afastar, voltara com a mesma fora, apertando-lhe de tal modo a garganta que mal era capaz de respirar. A imagem que conservava 
gravada na memria ressurgira com uma clareza insuportvel.
Numa voz lenta e solene, o peregrino perguntou:
- No  uma impostura?
- No.  mesmo verdade.
- Que Deus tenha piedade de ns! - bradou o gals. - E que aconteceu  princesa?
- Est prisioneira, em Aber. O prncipe recusa-se a falar com ela e nem quer ouvir o seu nome.
- E o senhor de Brecon?
O palafreneiro mais novo passou um n imaginrio  volta do pescoo e imitou o terrvel esgar de agonia de um enforcado.
- Enforcado?! - exclamou um dos artfices. - William de Breos foi enforcado? O nobre mais poderoso das Marcas? Santo Deus! Ele no ia atrever-se a tanto! Nem mesmo 
Llewelyn!

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Morto! Harry no pensara na morte. Previra tudo: priso, reparaes, longas batalhas legais de um lado e do outro da fronteira, bispos a correr de l para c, emissrios 
do rei galopando para acalmar e pacificar as relaes. Mas no imaginara aquela simplicidade extrema, a execuo directa e sem retorno. Agoniado e em estado de choque, 
encolheu-se no seu canto.
- Deus sabe que ele ousou. J est feito. Foi ontem de manh e a notcia chegou a Chester ao cair da noite. De Breos est morto e enterrado. Cabe agora aos oficiais 
do rei agir como melhor entenderem.
- Enforc-lo assim, sem esperar mais! Um senhor to poderoso! Como um vulgar ladro ou assassino.
Harry j vira homens serem enforcados: dois bandidos de estrada que haviam atacado os peregrinos que se dirigiam a Bed-dgelert, roubando e matando trs ou quatro, 
antes de serem apanhados. Ficara abalado e cheio de nuseas, perante a viso dos corpos suspensos que se contorciam, da luta tenaz por uma ltima lufada de ar. Todos 
lhe haviam dito que aquele era o castigo que os malfeitores mereciam e ele concordara que assim era, mas o facto no o fizera sentir-se melhor.
- Deus tenha piedade da sua alma! - disse o peregrino, numa atitude bastante generosa para um gals, que se sentia afrontado na pessoa do seu prncipe.
A sua prece foi acolhida com um murmrio, meio respeitoso, meio reticente:
- men!
Morto e enterrado. O belo corpo atltico que caminhava com tanta energia e que montava to bem a cavalo. O riso estrangulado na garganta redonda e tisnada, as plpebras 
descidas para sempre sobre os olhos risonhos e arrogantes. Era certo que apenas recebera o castigo que merecia. Descera  categoria do mais vil dos ladres, violara 
as leis da hospitalidade, trara a sua amizade. Todavia, como haviam eles podido fazer-lhe tal coisa? Como podiam haver decidido destruir uma criatura to viva e 
to bela?
- Ests muito calado, jovem - comentou um dos bufari-nheiros, deslizando pelo banco encostado  parede, para se aproximar, e inclinando-se, para o observar melhor.

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Os olhos estreitos e sagazes do homem detectaram de imediato o seu desejo de passar despercebido. Harry julgara-se suficientemente neutro e vulgar para no se fazer 
notado mas, de sbito, sentiu-se dolorosamente consciente do punho de prata da sua adaga, da modesta pregadeira de ouro que lhe prendia o manto e, at, do tecido 
de boa qualidade e do corte elegante da sua cota e das suas meias. A voz insinuante perguntou delicadamente:
- Andas  procura de trabalho para estes lados? Eu conheo muitos mestres de Pool que esto dispostos a contratar jovens com talento. Talvez possa dar-lhes uma palavra 
em teu favor.
- Pensei em tentar a sorte mais a Sul - respondeu Harry, apalpando com cautela a bolsa contra a coxa, a coberto das pregas do manto.
Manter a voz firme e o esprito alerta era um grande esforo.
- Talvez para os lados de Hereford - acrescentou. - A menos que haja por aqui um patrono que precise dos servios de um aprendiz de pedreiro.
- Ho-de querer saber como foi que deixaste o teu antigo mestre - disse o bufarinheiro, arreganhando os dentes quebrados, num sorriso que se tornava mais insinuante 
 medida que se aproximava mais.
O homem estava do lado oposto ao da bolsa mas, pelo sim pelo no, Harry no afastou a mo do dinheiro. O grupo que estivera sentado na mesa principal dispersara, 
os homens que dele faziam parte preparavam-se para se deitar e a maior parte das tochas fora apagada.
- Fui aprendiz de um bom mestre, nos ltimos trs anos, mas ele morreu h um ms e no deixou ningum que o substitusse. No h nada para eu aprender em Pool. Em 
Hereford, talvez arranje trabalho nas obras da catedral. Mas gostava mais de trabalhar para um patrono laico, se encontrasse algum. Ouvi dizer que o senhor de Parfois, 
do outro lado do Severn, tem pedreiros prprios a trabalhar Para si. Valer a pena ir at l?
O cansao e a angstia provocavam-lhe dor de cabea, mas o Melhor era saber o que queria junto de um informador voluntrio, embora fosse bem pouca a franqueza e 
a confiana que estava disposto a dar em troca.

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- Por certo que no vais querer como patrono algum como lorde Isambard. Deus sabe, rapaz, que  um senhor bem cruel.  melhor vires comigo para Pool, amanh. Arranjo-te 
lugar junto de um mestre canteiro que saiba do ofcio e trate bem os seus homens.
"E se eu fosse contigo", pensou Harry, orgulhoso por a fadiga e o abatimento no lhe haverem feito perder a perspiccia, "iam dar comigo numa valeta qualquer, sem 
um centavo, com a cabea partida, vestido s com a camisa e as meias... se me deixasses ficar com elas."
- Obrigado pela oferta - disse Harry. - Foi muito amvel da vossa parte, mas vou tentar a sorte em Parfois antes de ir mais longe.
- No vale a pena, rapaz. Lorde Isambard est fora de Inglaterra, com todos os seus cavaleiros. E at o seu mestre canteiro est fora, a trabalhar na demolio do 
castelo de Erington.
Fora dito com demasiada segurana para ser mentira e Harry deveria ter pensado nessa possibilidade. O rei convocara todos os cavaleiros de Inglaterra para a hoste 
que o acompanharia na expedio a Frana. Onde mais poderia estar o senhor de Parfois? Apesar disso, a notcia deixou Harry desconcertado. A ausncia do seu inimigo 
fora um golpe que no previra.
Que ia ser agora da sua promessa de limpar a honra? Era impossvel calcular quanto tempo iria o exrcito ficar em Frana. Ouvira Llewelyn dizer que as campanhas 
eram muito caras e, contudo, os assaltos rpidos e directos dos galeses de Gwynedd eram baratos, em comparao com a marcha triunfal que o rei pretendia realizar 
em Frana. Disporia do bastante para aguentar l o Inverno? E a rainha-me francesa e os seus conselheiros deixariam que ele levasse a sua avante? Por certo que, 
quando o Inverno chegasse, o rei iria trazer a sua frota de volta a Inglaterra, contentando-se com as vitrias que houvesse alcanado at ento. Mas, mesmo que isso 
acontecesse, Harry precisaria de manter intactas, durante meses, a coragem e a determinao e, sobretudo, de se bastar a si prprio enquanto esperava. A menos que 
estivesse disposto a voltar a Aber, com o rabo entre as pernas.
Era demasiado para ele. Sentiu que as lgrimas tentavam saltar-lhe dos olhos e, furioso consigo mesmo, desembaraou-se prontamente do seu informador.

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- Nesse caso, vou at Hereford - declarou, levantando-se. O movimento fez cintilar a adaga com um brilho sugestivo,
para que os olhos que to atentamente observavam o seu punho vissem bem que ela tambm era uma arma, dotada de lmina, e no um ornamento.
- Sozinho! - acrescentou Harry, num tom que a falta de firmeza de voz tornava ainda mais agressivo.
- Como queiras, meu caro, como queiras - acedeu apressadamente o bufarinheiro.
E afastou-se, com um olhar demorado que desceu como gua gelada pelo perfil de Harry e se deteve na coxa, onde estava escondida a pequena bolsa.
A ltima tocha apagou-se. Harry deitou-se, enrolou o manto em volta do corpo e, protegido por aquele abrigo, escondeu a bolsa, atando-a ao cinto das meias, por baixo 
da camisa, de maneira que, mesmo com uma faca, seria impossvel tirar-lha sem o acordar. Depois, sentindo que as lgrimas irresistveis eram demasiadas para poder 
cont-las, cobriu o rosto com uma prega do manto e cravou os dentes no tecido, para reprimir os soluos que o sacudiam.
Estava tudo a correr mal. Tudo! Tudo o traa: o tempo, a oportunidade e os homens, incluindo os melhores e que lhe eram mais caros. Os acontecimentos conspiravam 
contra si, obrigavam-no a fazer figura de tolo e levavam o seu inimigo para longe do seu alcance, deixando-o atolado no pntano da sua desgraa. Mas no ia voltar 
para casa. Era um homem, um homem com um ofcio de homem, e havia de mostrar a Adam que era capaz de viver do seu trabalho; tal como havia de mostrar a Llewelyn 
que, no que dizia respeito  honra, a sua no ficava atrs da de seu pai. Podia muito bem fazer aquilo que fingira ser sua inteno: procurar um mestre e ganhar 
a vida, at Isambard regressar a Parfois. No iria nunca voltar a Aber, antes de a sua vingana haver sido levada a termo.
Deixou-se ficar ali deitado, com o rosto oculto entre as mos, sobre o tapete de junco, ao canto da sala, permitindo que as tenses demasiado complexas do seu desgosto 
se libertassem nas lgrimas; at que, gradualmente, as complexidades se desvaneceram e ficou sozinho com o pensamento de de Breos morto: aquela mquina

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admirvel destruda, aquele esprito audaz silenciado. Ento, de um modo que escapava  sua compreenso, sentiu-se reconciliado com o traidor e esqueceu o rancor 
que contra ele guardava. E as lgrimas brotaram mais livremente, por haverem sido reconhecidas por aquilo que eram: uma dor infinita por um homem que ele amara e 
admirara e que, lamentavelmente, estava agora perdido para sempre.
s primeiras horas do dia, Harry acordou, repousado e calmo, do sono absoluto dos jovens. Sem rudo, abriu caminho, do calor confortvel da sala para o ar frio da 
manh. Junto  fachada leste da igreja, havia um tmulo que queria visitar.
Nunca estivera em Strata Marcella, mas sabia exactamente onde ficava: mesmo junto  parede. Apesar de ficar entre os tmulos dos abades, naquele tmulo no havia 
uma inscrio que o identificasse. Apenas uma folha esculpida na beira da pedra lisa, uma folha pequena que se desenrolava com a fora suficiente para suportar um 
baco invisvel. Ajoelhado sobre a relva, Harry seguiu os contornos da folha com a ponta dos dedos. Quem no soubesse da existncia daquela folha podia passar por 
perto sem dar por ela. Fora Adam quem a esculpira havia muito tempo. O musgo amarelado aninhara-se delicadamente nas reentrncias do desenho, como se o artista houvesse 
usado ouro nos contornos do seu trabalho.
Solene e concentrado como nunca se mostrara na vida, Harry disse as suas oraes. E, quando acabou, continuou ajoelhado, de mos postas, a olhar para o pequeno smbolo 
gravado na pedra. Em voz alta, no foi dita uma s palavra, no foi feita nenhuma jura mas, quando se levantou, Harry prometera quele jovem pai misterioso e multiforme 
que no descansaria enquanto no enfrentasse Ralf Isambard para o fazer pagar pela sua morte prematura.
O sentido daquela promessa encheu Harry de paz e determinao. O seu olhar estendeu-se para l das plancies alagadias, para Leste, para alm dos charcos prateados 
que, depois das cheias da Primavera, o Severn deixara nas covas do solo, para l da margem do rio e das suas leves grinaldas flutuantes de bruma, at  linha negra 
da crista de Long Mountain, rasgada em meia dzia de pontos do seu vasto flanco arborizado por vales sinuosos pelos quais as

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correntes se precipitavam, antes de se lanarem no Severn. Para alm da crista, a Oriente, o cu mostrava-se claro e lmpido como as Primaveras e, recortando-se 
contra aquele fundo brilhante, dura e negra por entre a orla frgil de rvores que ornavam a crista, ao longe, sobre a sua plataforma rochosa e voltado para Gales, 
erguia-se a silhueta imponente do castelo de Parfois.
Enquanto Harry olhava naquela direco, os primeiros raios do sol ainda escondido pairavam sozinhos, tremendo como um bando de pssaros iridescentes, sobre o ponto 
mais alto do cume. O castelo continuava mergulhado na sombra mas, bem perto dele, brotou de sbito um jacto dourado, que, abraando e refractando a luz vibrante, 
se prolongou a si mesmo numa esplndida e ambiciosa linha de fora que subia para o cu.
Pela primeira vez na sua vida, Harry contemplava a torre da igreja do mestre Harry Talvace. Espantado por aquela apario, Harry experimentou a sensao de, tambm 
pela primeira vez, ter uma viso fugaz do pai, no pelos olhos de Llewelyn, de Owen, de Gilleis, de Benedetta ou de Adam, apesar de todos eles o haverem amado e 
respeitado, mas na sua prpria carne, falvel e vulnervel, no seu sangue quente e infortunado, o sangue que, para o melhor e para o pior, ele legara ao seu nico 
filho.
Abaixo de Parfois, os bosques eram densos, o que obrigava Harry a seguir junto  margem do rio, onde se abria um carreiro estreito, que serpenteava a coberto da 
vegetao. Desde que partira de Buttington, onde atravessara a corrente a vau, e at ento, as rvores haviam ocultado os seus movimentos. Segundo pensava, encontrava-se 
agora perto do local onde desaguava o curso de gua que descia pelos socalcos do rochedo do castelo e, algures para a sua esquerda, l no alto, os baluartes do pano 
da muralha de Isambard recortavam-se contra o cu do meio-dia.
O rio deixara as marcas da enchente da Primavera nos arbustos encharcados e na erva achatada, aqui e ali rasgada por escarpas, ocupadas pelo turbilho perptuo de 
gua acastanhada e espumosa. Harry contornava um desses charcos, quando se apercebeu de um movimento entre os arbustos e ficou a saber que no se encontrava

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sozinho. No cometeu o erro de parar, o que revelaria que tomara conscincia da presena de algum. Prosseguiu lentamente o seu caminho, conduzindo Barbarossa pelo 
carreiro sinuoso. Os arbustos voltaram a agitar-se, acompanhando o seu avano.
Portanto, no se tratava de uma lontra. Uma lontra, ou qualquer outro animal, haver-se-ia afastado dele, em vez de o seguir. Aquela zona da fronteira era conhecida 
por ali haver bandidos das florestas, aos quais, em caso de perseguio, o rio proporcionava uma boa via de retirada; e o ingls que pretendiam roubar podia, ali, 
tornar-se um aliado. Harry retirou a adaga da bainha e ps-se  escuta dos sons quase inaudveis que o seguiam.
Esperou at ir dar a um local onde uma vista mais desafogada do rio lhe permitiu parar sem despertar suspeitas e olhar para a gua batida pelo sol que, naquele ponto, 
corria sem obstculos junto a uma margem mais desimpedida, apesar de ladeada por rvores. Com cautela, Harry fixou o macio de arbustos que estremeceu levemente; 
e, largando as rdeas de Barbarossa, lanou-se de rompante contra os arbustos, suficientemente baixo para apanhar o observador pelos joelhos.
As suas mos tocaram em carne macia e nua, que lhe escorregou entre os dedos como se fosse um peixe, e um corpo frgil escapou-se para o meio dos ramos. No instante 
seguinte, ouviu o som claro do corpo do observador a mergulhar no rio.
Arranhado, mas decidido, Harry levantou-se e foi atrs dele. Perto da linha de gua, semioculto por um arbusto, encontrou uma pilha de roupas de tecido grosseiro 
castanho, colocadas ao lado de umas sandlias de couro toscamente cosidas. Debruou-se para pegar nas roupas, com um grito de triunfo, e deu um pontap nas sandlias, 
atirando-as ao ar; eram muito pequenas e, ao v-las, Harry soltou uma gargalhada de alvio. Tanto trabalho para acabar por assustar uma criana, um mido demasiado 
curioso.
Ainda a rir, olhou para o rio. A dez passos da margem, uma cabea pequena emergiu cautelosamente da gua, rodeada por um halo de cabelos.
- Sai da! - gritou Harry, num tom tranquilizador. - Eu no te fao mal.

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A cabea boiava, aparentemente indiferente  corrente. Pelo movimento na superfcie da gua, Harry adivinhou que, para flutuar, o rapaz se limitava a mover ligeiramente 
os ps. A avaliar pela facilidade com que se movia, devia haver passado metade da sua curta vida dentro de gua.
- Pensei que fosses um servo em fuga e no uma criana. E o meu cavalo  bom demais para eu o perder. V l, sai da! Pareo-te algum que queira fazer-te mal?
A cabea e um ombro nu afrontaram a corrente e o rapaz aproximou-se um pouco, embora, visivelmente desconfiado, se mantivesse a uma distncia prudente da margem. 
Atravs da gua turva, Harry avistou a pele cor de mel; no rosto inquieto, uns grandes olhos claros espiavam todos os seus gestos. Os cabelos que flutuavam na gua 
apresentavam o mesmo tom de castanho das pequenas sandlias de couro; quando secassem deveriam ser de um louro escuro. O rapaz parecia ter onze ou doze anos e ser 
to arisco como uma lebre. Mal Harry fez um imprudente gesto brusco com a mo, a cabea mergulhou instantaneamente na gua, deixando atrs de si apenas um leve remoinho, 
e reapareceu  superfcie a algumas jardas de distncia.
- Vais acabar por voltar - observou Harry, sorrindo. - Eu tenho as tuas roupas.
- Deixa-as no cho - disse a cabea, pouco disposta a mostrar-se socivel. - Vai-te embora e deixa-me sair daqui em paz.
- Se eu fizesse isso, tu fugias de mim. E eu quero falar contigo.
Uma criatura claramente familiarizada com aqueles bosques e com aquele rio era o aliado de que Harry precisava. E tratar-se de um rapazinho era tambm uma vantagem.
- Eu no fujo - prometeu o nadador.
O tom que utilizara no inspirava grande confiana nem denotava que o rapaz experimentasse alguma.
- Se no te importas, vamos assegurar-nos disso. Aqui esto as tuas roupas. Vem c busc-las.
- No posso! - gritou o garoto, exasperado. - Olha bem para o que tens na mo, grande estpido!

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Harry continuava sem compreender. Pegando nas roupas por uma ponta, deixou que estas se desdobrassem e, aos seus ps, em vez das meias, camisa e tnica de que estava 
 espera, caram uma tnica comprida e uma camisa de mulher. Largou a ponta que ainda segurava como se esta lhe queimasse os dedos e, vagamente indignado, recuou 
a toda a pressa para o interior do bosque. Mas, antes de chegar ao carreiro, olhou para trs, por cima do ombro. Foi apenas uma viso fugaz e parcial, por entre 
os ramos, mas viu o corpo brilhante dela emergir da gua, viu-a sacudir os cabelos  volta da cabea como se fossem chicotes e, antes de desviar rapidamente o olhar, 
viu que ela se ria.
E isso foi estranho porque, quando ela reapareceu no carreiro, uns cinco minutos mais tarde, a expresso do seu rosto era severa. Enrolara o cabelo molhado e prendera-o 
no alto da cabea. Apesar de o tecido do vestido apresentar alguns rasges e de a saia haver sido enrolada quase at aos joelhos, ela saiu do meio dos arbustos como 
se fosse uma rainha a sair da sua sala de vestir. Trazia as sandlias na mo; as partes dos seus ps pequenos e nus no maculadas pela lama do rio apresentavam a 
mesma tonalidade de mel que o brao, o ombro e o pescoo comprido e magro que Harry entrevira momentaneamente a sair da gua. A rapariga lanou-lhe um olhar pensativo 
e outro, mais pensativo ainda, a Barbarossa; depois, os seus sagazes olhos azuis-claros voltaram a fixar-se nele, mirando-o da cabea aos ps, para chegar a misteriosas 
concluses sobre a sua origem, a sua condio e o que andava ele a fazer ali, na floresta. As faces coradas e a dignidade excessiva de Harry no lhe passaram despercebidas. 
E no era to nova como ele pensara: devia ter apenas menos um ano do que ele.
- Porque foi que me seguiste? - perguntou ela, em tom acusador, como que para provar  partida a sua feminilidade intransigente.
- Eu segui-te? Foste tu quem me seguiu.
- Eu s estava a tentar chegar s minhas roupas. E, ento, tu atacaste-me.
Continuava a fit-lo com uma expresso grave mas, na verdade, ele no lhe fazia medo: as concluses que tirara do seu exame

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atento haviam-lhe despertado a curiosidade, mas haviam tambm afastado os seus receios iniciais.
- Que andavas tu a fazer? - perguntou ele, no menos curioso. - Ainda est frio para nadar.
- Andava a pr armadilhas para enguias. A migrao comeou h trs semanas. E tu? Que andavas a fazer aqui?
- Vives na floresta? - inquiriu Harry, ignorando a pergunta dela.
- Vivo. Um pouco mais para montante do rio e um pouco mais longe da margem. Vivo com o meu pai - acrescentou enfaticamente, para ele ficar a saber que no estava 
desprotegida.
Fazia girar entre os dentes brancos um pedao de erva tenra que colhera. Os olhos dela, sombreados por longas pestanas de um louro escuro, eram azuis como o znite, 
observou Harry; e, depois de secarem, os seus cabelos pouco mais escuros seriam do que a testa. Ela mirava-o sem disfarce e, tambm, sem perder um pormenor. Nem 
mesmo o insistente bufarinheiro de Strata Marcella fizera um inventrio to rpido e acurado do seu vesturio e da sua pessoa.
- Chamo-me Aelis - disse ela. - E tu?
- Harry.
Conteve-se mesmo a tempo de evitar dizer o nome completo. Para qu facilitar a tarefa a quem viesse fazer perguntas a seu respeito? Era pouco provvel que aparecesse 
algum a procur-lo naquele lugar selvagem, mas qualquer descuido seria tolice.
Harry esperava que, perante uma to brusca mudana de atitude, a rapariguinha lhe perguntasse qual era o seu outro nome. Mas ela limitou-se a sorrir, como se ele 
lhe houvesse revelado muito mais do que pensava.
- De onde s tu, Harry?
- De Chester - mentiu.
E sentiu a necessidade de lhe contar toda a histria que engendrara: o mestre morto, a aprendizagem interrompida. At podia ser bom aperfeio-la enquanto a narrava, 
antes de a contar a algum de esprito menos crdulo. Mas a verdade era que a subestimara mais uma vez. Os seus olhos vivos e directos detiveram-se 

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expressivamente no cavalo e nos arreios luxuosos do animal, deslocaram-se em seguida para o tecido fino da sua manga e para o punho trabalhado da sua adaga e, com 
um brilho de desafio, fixaram-se depois nos olhos dele. E ela desatou a rir. Harry percebeu que, se quisesse passar despercebido no seu destino final, seria necessrio 
trocar de roupas e separar-se de Barbarossa.
- E que procuras tu aqui, na floresta? - perguntou Aelis, aproximando-se.
J que, com ela, as mentiras no resultavam, restava-lhe dizer uma parcela da verdade.
- Ando  procura de um stio para me esconder - respondeu. - S por algum tempo. Uma semana ou duas.
Era o tempo de que precisava para explorar e reconhecer o terreno que rodeava Parfois. Depois disso, precisava de ir para Pool e procurar trabalho, porque o contedo 
da bolsa no iria dar para muito tempo. Chegara a pensar ir at Shrewsbury, que era uma cidade franca onde os fugitivos costumavam ser acolhidos sem perguntas; mas 
Shrewsbury ficava demasiado longe da fortaleza que, naquele momento, era o centro das suas atenes. Era em Pool que teria que procurar forma de ganhar a vida, fosse 
ela qual fosse.
Desta vez, Aelis no se riu, nem tentou saber mais do que o que ele estava disposto a revelar-lhe: presenteou-o com um sorriso caloroso e disse, num tom indulgente:
- Porque foi que no disseste que andavas fugido? Quando te vi, a menos de dez passos de mim, fiquei to assustada que pensei que vinhas do castelo. Se soubesse 
que eras um fora-da-lei, no fugia de ti.
Brilhantes de curiosidade, os olhos azuis de Aelis perscrutavam-no, sondavam-no, mas ela no fez mais perguntas. Todos aqueles que andavam fugidos da justia, da 
servido, das dvidas, das famlias, eram seus aliados naturais. Aelis e o pai sempre haviam vivido de forma precria, mais ou menos  margem da lei, arrancando 
legalmente magras colheitas a um cercado que rodeava dois ingratos campos desbravados, apanhando peixe no rio, lebres e coelhos nos bosques, ou mesmo, quando os 
riscos no eram muitos, um ou outro veado.

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- Eu no disse que era um fora-da-lei - protestou Harry, pouco -vontade em tal papel.
- Ah, podes confiar em mim - replicou Aelis, com desdm. - No vais ser o primeiro a esconder-se em nossa casa, nem vais ser o primeiro que ns ajudamos a atravessar 
o rio, se  isso que queres. No precisas de estar de p atrs comigo. No quero saber dos teus segredos. Quanto menos soubermos, menos podemos deixar escapar. Tu 
 que sabes. H um barco no moinho, se no quiseres que te vejam no barco de travessia ou na passagem.
Pela primeira vez, Harry tomou conscincia de que ela partira do princpio que ele era ingls e o facto deixou-o terrivelmente espantado. Era como se, de repente, 
olhasse para a sua prpria imagem no espelho e deparasse com um estranho. Como  que ela sabia? Ele nem sequer se sentia ingls, apesar do nome e do sangue, apesar 
da educao latina do seu pai, na confortvel abadia beneditina de Shrewsbury, apesar dos antecedentes da me, numa famlia de comerciantes londrinos. Conhecia a 
realidade da sua linhagem, mas esta no afectava a imagem que fazia de si mesmo: um jovem gals, solidamente ligado  casa real de Gwynedd pela adopo. E agora 
aquela rapariga selvagem olhava para ele, vestido e equipado como qualquer filho de Gales, e dizia que ele era ingls. Quisesse ou no, parecia que iria ser necessrio 
admitir as suas outras razes, ligar-se a novos modelos de lealdades por laos que, at ento, nunca reconhecera como uma realidade. Cada novo passo aproximava-o 
mais do pai. Naquela margem do Severn, at a terra o reconhecia.
- S preciso de um lugar para me esconder - disse. - Posso pagar.
- Ah, pagar! - exclamou Aelis com ironia. - E quanto  que nos vais custar? Ajudas-me a montar as minhas armadilhas e ficamos quites. Vem comigo. Vou levar-te ao 
meu pai. Ningum nos incomoda. Vivemos afastados do caminho do moinho e a mais de uma milha da estrada para Parfois. E estes campos so pobres em caa. Os do outro 
lado da montanha so melhores. Ningum vir procurar-te aqui.
Antes de avanar pelo carreiro estreito, Aelis voltou a prender num n o cabelo que comeara a soltar-se; as pontas que entretanto

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haviam secado apresentavam um brilho dourado. Harry seguiu-a, conduzindo Barbarossa pela rdea. De repente, todas as coisas lhe pareciam novas e estranhas, cheias 
de promessas inesperadas e excitantes. Pela primeira vez na vida, no fazia ideia do que lhe ia acontecer, nem de que personagens terrveis iriam atravessar-se no 
seu caminho. Sentia-se assustado, mas feliz. Nada - nem mesmo o velho mundo familiar e aprazvel - o faria voltar para trs.
A farta cabeleira voltou a desprender-se, caindo solta sobre os ombros dela. Por um instante, Harry foi assaltado pela recordao que o seu esprito tentava em vo 
apagar: a cascata de ouro brilhante transformou-se em tranas loiras cadas sobre os seios com veias azuladas e a lmina do dio, da clera, do amor voltou a ferir-lhe 
o corao. Depois, recuperou a calma e, abalado mas resoluto, deixou que a fugaz viso de Aelis, orgulhosa e confiante na sua nudez jovem, fresca e virginal, lhe 
afastasse do esprito a inesquecvel conspurcaao da imagem imaculada.

-  aqui - anunciou John o Frecheiro, lanando um olhar satisfeito ao campo estreito, cercado por uma vedao, e  cabana de tecto baixo, aninhada entre as rvores 
do bosque. - A minha memria no est assim to mal: mesmo ao fim de quinze anos, s me enganei duas vezes. E, graas a Deus, o homem est l. Foi aquele homem que 
me ajudou a tir-los do rio: ele morto e ela s com um sopro de vida. Enquanto vnhamos para c, receei que, por esta altura, j estivesse morto e enterrado. Quinze 
anos  muito tempo, para no se saber de um homem e vir encontr-lo pouco mudado.
Haviam atravessado o Severn em Pool e cavalgado na direco da foz, sem demasiadas esperanas mas decididos a esgotar todas as hipteses que se apresentassem. Se 
o porteiro de Strata Marcella, no se lembrasse do cavalo, nunca saberiam se estavam ou no no bom caminho. E, depois de haverem passado a pente fino todas as aldeias 
da margem galesa e todas as ruas de Pool, John decidira dirigir-se ao casebre para onde o mestre Harry fora levado depois da sua morte. Era um stio onde o destino 
j uma vez lhe valera e podia ser que voltasse a acontecer o mesmo.

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E agora tinham diante de si a cabana - uma loja no subsolo e, por cima, a diviso nica - o terreno esgotado pelo cultivo ininterrupto, o recanto reservado ao fraco 
pasto. Quando os viu aparecer, o homem escondeu rapidamente na subloja as armadilhas para coelhos. Devia ter uns quarenta anos, a idade para ser o mesmo taciturno 
homem da floresta que ali vivia quinze anos antes. Mas a rapariga que, no recanto de pasto, ordenhava uma vaca magra no tinha mais de catorze ou quinze.
- E ali est o cavalo que ns procuramos - disse Adam, soltando um suspiro profundo e apontando para um canto escuro da loja, onde uma cabea vermelha mergulhava 
com satisfao num monte de feno. - Fomos ou no fomos guiados at aqui? Ele est c!
Desconfiado, de olhos sem expresso, o homem aproximou-se deles. O castanho da barba curta e hirsuta apresentava agora duas manchas grisalhas mas, quanto ao resto, 
pouco mudara.
- Boa-tarde, senhores - saudou, num tom inexpressivo. - Andais perdidos? Este caminho no vai dar a lado nenhum.  melhor seguirdes ao longo do rio.
- Boa-tarde, Robert - respondeu John o Frecheiro. - No estamos perdidos. Graas a Deus, encontrmos o nosso caminho.
- Conheceis-me? - espantou-se o homem, recuando um passo, ao mesmo tempo que olhava de relance para a filha.
Esta pegou na selha do leite e aproximou-se. A expresso do seu rosto era alegre e inocente mas os seus olhos eram vivos e atentos.
- Tempos houve em que vos conheci e vs me conheceis tambm. Mas j passaram quinze anos e receio haver mudado mais do que vs.
John puxou o capuz para trs e aproximou-se, mas o homem olhou para ele e abanou a cabea.
- A luz j est um pouco fraca - prosseguiu John. - Mas a memria h-de voltar, quando eu vos contar tudo. Lembrais-vos de um dia, mais ou menos por esta poca do 
ano... mas, nessa Primavera, as cheias vieram mais tarde... em que vs e eu pescmos dois peixes bem estranhos no Severn?
Os ombros largos do homem retesaram-se e o seu rosto barbudo ergueu-se para voltar a olhar para John.

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- Claro que vos lembrais: um homem e uma mulher nus e atados um ao outro: o homem estava morto e a mulher pouco menos. Haviam sido atirados  gua por Isambard, 
para apodrecerem juntos...
John nunca falava do que acontecera, mas a recordao daquele dia mantinha-se intacta na sua memria, que no esquecera um nico pormenor. Esperara todos aqueles 
anos para saldar a dvida e, mal deixara que a sua boca pronunciasse aquelas palavras, o velho rancor no saciado f-lo estremecer.
- Pelo amor de Deus, homem, no pronuncieis tal nome - pediu Robert, em voz baixa. - Eu e vs sabemos quem fez isso e  quanto basta. Ento, sois mesmo vs, ao fim 
de tantos anos! Nunca pensei voltar a ver-vos. Como est a senhora? Ainda  viva?
- Est viva e de boa sade. Deixei-a h duas semanas, a salvo em Gales. E a vossa esposa?
- Morreu vai para sete anos. A febre do Outono levou-a. Esta  a minha filha, Aelis, que me ajuda, no lugar da me.  uma boa rapariga.
- Lamento a vossa perda - disse John. - Era uma boa alma. Ainda me lembro de como ela cuidou da minha senhora, horas a fio, quando ns pensvamos que nunca conseguiramos 
traz-la de volta  vida. A pequena  parecida com ela, se a memria no me falha. Os cabelos dela tambm eram loiros amarelados.
- Pois eram. Agora, estou a lembrar-me de tudo. H uns bons dez anos que no pensava no assunto. Foi um ano antes de a Aelis nascer. Entrai, entrai ambos, se no 
vos incomoda partilhar o fogo e a comida de um homem pobre.
- Com todo o gosto - agradeceu John, desmontando. - Este  o mestre Adam Boteler, que era irmo de leite de mestre Harry, o homem morto que ns trouxemos para aqui, 
naquele dia. O mestre Adam casou com a mulher dele e tem cuidado do seu filho. Na verdade, Robert, parece que ireis ser mais uma vez o nosso salvador porque, desta 
vez, perdemos o rapaz. E tudo indica que fostes vs quem o encontrou.
Robert ficou esttico, com a mo pousada no estribo de Adam.
- Rapaz? Porque pensais que eu sei de algum rapaz?

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- Por causa do cavalo dele - respondeu Adam. - O alazo com uma mancha branca que est na vossa loja. No h nada que enganar. Se duvidais da nossa honestidade, 
podemos contar-vos a histria daquele cavalo, at  altura em que saiu de Aber a galope, com o Harry montado nele. Desde ento que andamos  procura dele.
Aelis aproximou-se mais do pai e puxou-lhe pela manga. Robert hesitou e os seus olhos semicerrados saltaram de um para o outro.
-  verdade que, agora, sois o pai dele? Ento, porque foi que ele fugiu de vs? Que mal fez ele?
- No fez mal nenhum. Fugiu porque sofreu um grande desgosto e no por haver feito mal algum - garantiu Adam. - Ningum est contra ele e, quando o levarmos para 
casa, todos iro dar-lhe as boas-vindas. Nesta idade, os rapazes levam tudo muito a peito, bem sabeis. Cuidais que poderamos querer outra coisa que no fosse o 
bem dele? Ele  filho de Talvace. Pelo amor de Deus, no nos deixeis mais em nsias: dizei-nos se ele est convosco.
Robert j se decidira.
- Ele est aqui - disse. - Est connosco h quinze dias - acrescentou, afastando a mo que lhe puxava insistentemente pela manga. - No te preocupes, rapariga. So 
amigos, no ests a ver? Bem, senhores,  esta a verdade. Desde que ele chegou que dou voltas  memria, sem conseguir lembrar-me de onde  que j havia visto aquela 
cara. Agora, depois de me dizerdes de quem ele  filho, j sei. Entrai, entrai! Deixai os cavalos junto  cerca. Ele anda pela floresta... Onde  que ele foi, Aelis?
Claro que ela sabia: conhecia todos os planos e preparativos de Harry, embora ainda no soubesse qual o fim a que se destinavam todos aqueles estranhos passeios 
de reconhecimento. Numa vozinha tensa, respondeu:
- Foi tentar escalar o rochedo do castelo, do lado que  a pique. Eu disse-lhe que era impossvel, mas ele riu-se na minha cara. Disse que havia praticado muito 
em Snowdon e que, antes de a noite cair, havia de escrever o nome dele nas pedras da Torre da Rainha.
Adam e John trocaram um longo olhar inquieto.

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-  isso que ele tem feito desde que est aqui convosco?
- perguntou Adam, fitando a rapariga com um olhar ansioso. - Escalar e fazer planos para chegar a Parfois?
Aelis, que comeava a sentir-se assustada, embora sem saber porqu, anuiu. Puxando para trs a trana que lhe caa sobre a testa, fitou Adam com os seus olhos azuis, 
grandes e solenes.
- Ele vai l todos os dias. Umas vezes, para o lado da ravina entre o castelo e a igreja, outras vezes, para o lado mais ngreme. E faz desenhos, que grava nos rochedos 
e fica horas sentado, a pensar. O que  que ele est a tentar fazer? O que  que ele quer?
- perguntou, contagiada pela ansiedade dos dois recm-chegados.
Robert olhou para Adam e, depois, para John e abanou a cabea.
- Estou a ver muito bem o que ele quer! Se eu soubesse o que lhe ia na mente, haveria arranjado maneira de o fazer desistir e de vos prevenir. Mas ns no costumamos 
fazer perguntas a quem no quer partilhar os seus segredos connosco. Nem sequer lhe perguntei como se chamava. Entrai em casa e esperemos por ele. Pelo andar das 
coisas, parece que chegastes mesmo a tempo.
Aos ltimos raios de luz do dia, Harry desceu a falsia de Parfois; apesar de no se encontrar mais prximo de atingir o objectivo que se propusera, sentia-se satisfeito 
pelo seu desempenho. A praa parecia inexpugnvel. O caminho habitual e nico, o longo carreiro inclinado aberto quando a fortaleza fora construda, era guardado 
a meio caminho pelas duas atalaias e, a partir da, era ladeado por duas falsias de grs. No seria difcil para Harry escal-las, mas faz-lo no representaria 
um grande progresso, pois a escalada lev-lo-ia apenas at  plataforma sobre a qual a igreja fora construda e, entre esta e a porta do castelo, existia uma ravina 
com uns quarenta ps de profundidade, que s podia ser atravessada pela ponte levadia, entre as torres da guarda. O afloramento rochoso sobre o qual se erguia Parfois 
era uma ilha suspensa no ar, rodeada de escarpas por todos os lados; e o pano da muralha flanqueado por seis grandes torres parecia brotar da rocha.
A escarpa mais a pique, por baixo da Torre da Rainha, era tambm a de menor visibilidade, o nico lado que no era vigiado a partir

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dos baluartes e que s podia ser observado por quem se debruasse das insolentes janelas lanceoladas de Isambard e olhasse na vertical para o fundo da falsia. Eram 
vantagens de que Harry tirara partido mas, depois de haver conseguido escalar esse lado, encontrara acima da cabea vinte ps de slida muralha de pedra que o separavam 
das primeiras seteiras; e nem mesmo os homens das montanhas de Gales que o haviam ensinado a iar-se at ao cimo dos rochedos a pique de Eryri haviam descoberto 
uma maneira de caminhar sobre pedra lisa.
Tal como prometera a Aelis, Harry gravara as suas iniciais na base da obra de alvenaria e isso era feito suficiente para um dia. Como escalar a muralha era um problema 
sobre o qual era preciso pensar melhor. Apesar de tudo, estava bem-disposto, enquanto se esgueirava por entre os arbustos para chegar  floresta, a caminho da ceia 
e da cama; por isso foi um choque, quando chegou  orla da clareira e viu dois cavalos junto  cerca. A luz fraca do crepsculo, o ruano passara-lhe despercebido 
at se mexer e relinchar baixinho; recortado contra o que restava de luz, o cinzento mais parecia o desenho de um cavalo. Harry reconheceu um e o outro.
Deteve-se instantaneamente e recuou para o meio das rvores. O mais assustador era que, agora que eles o haviam descoberto, uma parte de si, at ento controlada, 
erguia-se numa vaga de gratido e num impulso de correr para eles; mas a outra parte de si, na qual habitava o orgulho, era mais forte e no tardou a esmagar a criana 
carente e aliviada. No ia voltar. Era uma certeza.
Ele era Harry Talvace e era direito seu estar ali, para tratar dos assuntos do pai. Deveria ser capaz de entrar na cabana, de lhes dizer isso mesmo e de se manter 
firme na sua posio. Deveria ser capaz de os mandar para casa sozinhos ou mesmo de lhes exigir obedincia naquilo que se propunha fazer. O problema era que no 
se fiava muito na sua autoridade. Deixar-se vencer e ser arrastado para Aber contra a sua vontade seria humilhante, fosse em que situao fosse, mas, diante dos 
olhos de Aelis, seria insuportvel.
Indeciso, esmagou com o p os cogumelos que rodeavam o tronco de uma rvore. Seria claramente injusto pensar em Adam como um pai autoritrio: Adam nunca perdera 
a pacincia com o filho ou com o aprendiz e conservara em si uma parte do rapaz que

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ele prprio fora e que lhe permitia lidar com bondade com os outros rapazes. Mas no deixava de ser verdade que, sempre que entrara em conflito com Adam quanto a 
qualquer assunto, sempre que ambos se haviam fitado olhos nos olhos, numa prova de fora, fora sempre Adam quem levara a melhor.
No, no podia correr o risco de lhe fazer frente. Tinha tudo a perder. J no se tratava apenas de uma questo de honra, nem de um gesto de desafio a todos quantos 
duvidavam dele: uma parte da sua herana e, at, da sua identidade, encontrava-se no interior das muralhas de Parfois e, enquanto no se apoderasse dela, no seria 
um homem completo.
Todavia, no era nada fcil dar meia volta e embrenhar-se na floresta, deixando-os  sua espera. Era preciso pensar em Robert e em Aelis. Haviam-no acolhido como 
filho e irmo, sem fazer perguntas, porque acreditavam que ele estava a ser perseguido e carecia de abrigo. Contrara para com eles uma dvida que no poderia pagar, 
a menos que aceitassem a pregadeira de ouro que retirara do manto para dar menos nas vistas. E, se aceitassem, poderiam tentar vend-la sem problemas, mesmo em Shrewsbury? 
Por menos, j algumas pessoas haviam sido suspeitas de roubo e banditismo. Mas podiam vender as roupas boas que ele trocara por roupas de Robert; pelo menos essas 
no eram suficientemente luxuosas para provocar desconfianas. Se ao menos Aelis sasse da cabana!
E, quando ele j quase perdera a esperana e comeava a embrenhar-se na floresta, olhando frequentemente para trs, ela saiu. A sua figura apareceu de repente, recortada 
contra a luz que saa pela porta, e deu a volta  casa, para fechar a capoeira onde guardava as suas poucas galinhas escanzeladas. Aquela distncia, Harry no se 
atrevia a assobiar: os homens que se encontravam dentro da cabana ouvi-lo-iam. Mas sentiu um medo terrvel de a ver desaparecer. No entanto, em vez de voltar para 
dentro, Aelis dirigiu-se apressadamente para a orla do bosque e avanou para o meio das rvores, parando de vez em quando,  escuta. Harry percebeu que ela o procurava. 
Aelis conhecia-o muito bem e sabia que ele no iria entrar.
Harry esperou at ela se encontrar a poucos passos dele e, ento, chamou-a em voz baixa e ansiosa.

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- Aelis!
A sua prpria voz pareceu-lhe desagradavelmente fraca e queixosa, assustadoramente indecisa. Mas ela ouviu-o e correu ao seu encontro. Harry agarrou-a pelos ombros 
e puxou-a para si, na escurido.
- Eles esto l, Harry! Vieram  tua procura. Ns no amos dizer nada, mas eles reconheceram o Barbarossa.
- Eu sei - respondeu ele arrebatadamente. - Conheo os cavalos deles to bem como eles conhecem o meu. Eu no vou entrar, Aelis. No posso ir-me embora com eles.
- Mas eles no querem fazer-te mal, s querem levar-te para casa. No precisas ter medo...
- Eu no estou com medo - replicou Harry, ofendido. - Mas h coisas que eu preciso de fazer. No posso voltar para casa, antes de estarem feitas.
- Vem l - pediu ela, pousando os dedos frios no brao dele. - Pelo menos vem falar com eles. Eles esto muito preocupados contigo. No podes deix-los ir sem uma 
palavra.
-  preciso. Se eu for l, eles levam-me para casa e eu ainda no posso voltar para casa. No lhes digas nada. Tu no me viste nem sabes onde eu fui. Um dia, quando 
eles houverem deixado de me procurar, eu venho ver-te. Toma, Aelis... fica com a pregadeira do meu manto...  para ti, se arranjares maneira de te ser de algum uso. 
E as minhas roupas...
- Eu posso trazer-tas - props Aelis. - No podes ir a lado nenhum com esses trapos com que tens andado pelo bosque. E tambm podia soltar o Barbarossa...
- No. Vou melhor sem ele. Tenho de ir a Pool, procurar trabalho. E como podia um aprendiz de pedreiro explicar uma tal montada? E as roupas tambm...  melhor levar 
estas. Mas ouve, Aelis, eu volto. Prometo que volto...
O tremor da voz indicou a Aelis que Harry estava  beira das lgrimas e terrivelmente tentado a no partir.
- Eles vo ficar muito tristes - protestou, tambm ela quase a deixar-se vencer pelo pranto.
- Eu sei! Um dia, hei-de reparar esse mal, mas agora est na hora de partir. Toma conta do Barbarossa at eu voltar.

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- E se eles quiserem lev-lo? - perguntou Aelis, limpando os olhos  manga.
- Que levem. Ele tambm fica bem com eles. Mas talvez eles o deixem ficar, na esperana de que eu volte para o vir buscar. Nesse caso, eles vo querer que tu lhes 
mandes uma mensagem, se eu voltar. Mas promete-me, Aelis, que no fazes isso, a menos que eu te diga...
- Eu fao o que eu quiser - replicou Aelis, amuada, escondendo o rosto na curva do brao, para abafar um soluo. -  melhor haver algum que pense por ti, j que 
s to idiota que nem conheces os teus amigos. A tua me est l,  tua espera, a chorar de desgosto...
- Deixa l a minha me! - exclamou Harry, a tremer de raiva, afastando-a de si com brusquido.
Mas, logo a seguir, cheio de remorsos, abraou-a.
- Oh, Aelis, Aelis. No posso fazer nada! Logo que possa, mando-lhes uma mensagem, prometo que mando. Mas no assim. Agora no posso parar.  mister que eu v em 
frente. No h escolha...
Do outro lado da clareira, a silhueta de um homem recortou-se contra a luz que saa pela porta e a voz calma de Robert chamou:
- Aelis!
- Adeus! - sussurrou Harry, antes de desaparecer entre as rvores, numa pressa febril.
- O que ests tu a fazer a, rapariga? O que foi?
- Era uma raposa - respondeu Aelis, em voz bem alta. - Andava a rondar o galinheiro e fugiu que nem uma flecha, quando vos viu aparecer. So precisas armadilhas 
para apanhar bichos como este.
Aelis tinha esperana de que a sua voz chegasse at Harry e o deixasse com as orelhas a arder. Tinha esperana de que ningum lhe desse trabalho e ele fosse obrigado 
a rastejar de volta. Ento, veria se ela fazia ou no o que lhe apetecia. Era bem feito que eles o levassem para casa, de orelha cada, em vez de o tratarem como 
um homem e seu igual.
No entanto e apesar de lhe custar, Aelis no abriu a boca e manteve o rosto sem expresso, ao entrar em casa. E, na intimidade da cama, enquanto, com o cair da noite, 
os homens viam desvanecer-se as esperanas, ensopou de lgrimas a almofada dura e rugosa.

CAPTULO SEIS

Parfois, Novembro a Dezembro de 1230

S VOLTOU A V-LO PASSADO MEIO ANO. Com as mos cobertas de farinha at aos pulsos, Aelis estava a tender o po quando, por trs de si, uma sombra ocultou parcialmente 
a luz que entrava pela porta. Mesmo antes de se voltar, soube que no era o pai, que regressava depois de ter montado as suas armadilhas. Ele parou  entrada da 
porta, desconfiado, a olhar para ela. S ao cabo de alguns instantes deu um passo em frente e perguntou:
- O teu pai no est c, pois no? Ests sozinha?
- Santo Deus! - exclamou Aelis, recuperando facilmente a indignao, apesar de j haverem passado seis meses. - Isso so maneiras de entrar na casa de uma rapariga, 
a quem no apareceste nem mandaste dizer uma palavra durante todo este tempo? Devias trazer o chapu na mo e pedir autorizao, antes de entrares nesta casa. No 
sei se vou deixar-te passar de onde ests.
Mas, enquanto dizia isto, estendera-lhe a mo e puxara-o para dentro, porque a humidade de comeos de Novembro estava a molhar-lhe os ombros e ele parecia gelado 
e mais magro.
- No vais tentar reter-me aqui? - perguntou Harry, desconfiado, olhando-a nos olhos sem sorrir.

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- Nunca hei-de tentar reter um homem que no queira ficar. No penses que senti assim tanto a tua falta. Passmos muito bem sem ti, estes meses todos, e podemos 
continuar a passar.
Obrigou-o a sentar-se na pedra junto ao fogo e limpou-lhe a humidade dos cabelos, esforando-se por no mostrar demasiada delicadeza. E, como Harry no fez meno 
de a impedir, despiu-lhe o manto e pendurou-o a secar.
- Ests com fome? Nem sei porque estou a ralar-me com isso, depois da forma como te foste embora.
Algum tempo antes, se algum lhe falasse daquele modo, Harry negaria ter fome, ainda que os seus olhos dissessem o contrrio. Agora, parecia haver adquirido o bom-senso 
suficiente para no mostrar demasiado orgulho, com demasiada rapidez e sem proveito algum.
- Estou - respondeu, quase com humildade. - Mas no quero privar-vos das vossas reservas, depois de haver chegado aqui de mos vazias. No posso ficar muito tempo. 
No quero que o teu pai saiba que eu voltei, porque receio que tente reter-me aqui.
- Tu s senhor de ti prprio - argumentou Aelis, abanando a cabea.
Trouxe-lhe um pedao de po, queijo e leite e, no sem alguma satisfao, ficou a v-lo devorar a comida.
- Quem te vir, h-de dizer que no te alimentam muito bem, l por onde tens andado - comentou. - Encontraste o trabalho que querias?
- Encontrei - respondeu Harry, com a boca cheia. Encontrara e vira o que custava, e ficara a saber o que era ser
aprendiz s ordens de um mestre que no era Adam. E aprendera mais: talvez no sobre o ofcio de pedreiro, mas acerca de como controlar o temperamento e ficar de 
boca calada, mesmo perante a injustia. Fora forado a escolher entre aguentar o que se lhe apresentava e voltar a correr para Aber, onde beneficiava de privilgios 
e proteco. E, para Harry, tal escolha no existia. Se queria atingir o seu objectivo, precisava enfrentar os inconvenientes da viagem, por mais desagradveis que 
fossem.
- Entraste ao servio de um mestre?
O RAMO VERDE 139
- No - respondeu Harry, sem mais explicaes.
Como podia ele assumir compromissos, se no sabia nem o dia nem a hora em que Isambard iria voltar para casa? Era impensvel dar a sua palavra em conforme ficaria 
por um perodo determinado, quando podia no ser capaz de a cumprir.
- Ento, eles s te aceitaram como pau para toda a obra.
Aelis sabia o que isso significava, quando aquele que trabalhava sem tarefas especficas era jovem e inexperiente como Harry. Observou-o atentamente, em busca de 
sinais de servido, ignorando o olhar furioso que lhe proibia tal exame.
Harry ainda trazia vestidas as meias e a cota do pai dela, a mesma cota castanha curta que ela tantas vezes remendara. E estava a precisar de ser outra vez remendada. 
Desde a ltima vez que ela o vira, Harry crescera mais de uma polegada, ou talvez parecesse que assim era por estar bastante mais magro. Tinha as faces cavadas e 
as mos estragadas e sujas.
- Estou a ver que, alm de os fazer trabalhar duramente, ele mata os seus homens  fome - comentou Aelis.
O seu olhar perspicaz deteve-se no canto da boca dele, onde uma pequena cicatriz vermelha parecia o prolongamento dos lbios, e em seguida na ma do rosto, marcada 
por um hematoma azulado revelador.
- E, alm do mais, bate-lhes - acrescentou.
- Que te importa isso? - perguntou Harry, em tom de desafio, voltando a cara para ocultar a face. - Disseste que no te ralavas.
- Oh, Harry! - exclamou Aelis, num lamento inesperadamente infantil.
Ajoelhando-se ao lado dele, envolveu-o nos braos. O pedao de po escapou-se da mo de Harry e caiu na beira da lareira. Aelis apanhou-o, sacudiu as cinzas, esforando-se 
por no chorar.
- V l. No foi assim to mau - disse Harry, envergonhado, pousando timidamente a mo sobre o ombro dela, para a puxar para si. - O mais difcil foi manter as mos 
longe da adaga e a boca fechada. J se sabe que o mais novo apanha sempre pancada dos outros. Um dos servos artfices era bom homem, ensinou-me o que

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sabia e esteve ao meu lado sempre que pde. Mas tu fizeste-me falta, para conversar, quando dispunha de uma hora de descanso. O tom era ligeiramente condescendente, 
mas Aelis no se queixou. J era de espantar que Harry houvesse confessado tal coisa. Alis, devia ser isso que ele estava a pensar, porque corara at  raiz dos 
cabelos. Devia querer dar-lhe qualquer coisa boa para ela se lembrar ou, ento, o calor do corpo dela nos seus braos arrancara-lhe aquela confisso desajeitada, 
sem lhe dar tempo para pensar. Estava quase arrependido de a haver feito e parecia-lhe inadequada e indigna: no dela mas quanto ao seu prprio mrito. No entanto, 
quando ela o olhou, espantada, mostrando sem reservas o prazer que sentira, ficou contente por haver falado.
- No vais voltar para l, pois no? - perguntou Aelis, inquieta. Harry abanou a cabea.
- Ento, para onde vais, se no queres ficar aqui connosco? Que trazes tu na ideia, Harry?
- H uma coisa que preciso de fazer - respondeu ele. Talvez tivesse havido um tempo em que tudo no passara de
um capricho, mas esse tempo passara: a prova estava l,  sua espera, barrando-lhe o caminho e no havia outra forma de chegar  maturidade.
- Voltas aqui, quando o que precisas de fazer estiver feito?
- Volto - prometeu Harry. - Quando estiver feito, volto. E quando estiver feito, eu conto-te.
- Quem me dera que me levasses contigo - disse Aelis, a coberto dos seus cabelos compridos, loiros e despenteados, num tom de voz que ele nunca lhe ouvira.
- No posso. Mas eu volto. Ouve... quero que fiques com isto.  muito pouco, mas  tudo quanto consegui poupar e quero que o uses at eu voltar. Eles levaram o Barbarossa?
A palavra "eles" trouxe consigo uma nova tenso  voz de Harry. Recordar Aber representava um esforo imenso e um golpe agudo de dor.
- No. Ele est l em baixo, na loja. Deixaram-no ficar para ti. Harry baixou os olhos para o fogo e as suas pestanas compridas projectaram-lhe sombras sobre o rosto.

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- Esperaram muito tempo por mim?
- Mais de uma semana. Procuraram-te por todo o lado. Mas acabaram por partir. No fazia sentido continuarem aqui. Disseram que havias de voltar para vir buscar o 
cavalo e o meu pai prometeu que os avisava.
- E tu? - perguntou ele, com um sorriso triste.
- Eu no prometi nada.
E tambm no lhe prometia nada a ele. Harry percebeu o que ela queria dizer, mas no pediu nada. Cabia-lhe a ela julgar, mas ele pensava que Aelis confiaria nele 
e o deixaria agir como queria.
- Podias voltar a vestir as tuas roupas - sugeriu Aelis, guiada pelo seu esprito prtico.
Os olhos de Harry brilharam e Aelis ficou contente. Sim, pelo menos podia apresentar-se como ele prprio, no stio onde ia agora: o seu rosto era apresentao suficiente 
e as roupas ficariam a condizer. Aelis foi buscar as roupas cuidadosamente dobradas e, em seguida, enquanto Harry vestia os seus bons trajes galeses, cortados  
sua medida, ocupou-se a cuidar do forno. As mangas da cota estavam um pouco curtas, mas isso no fazia grande mal.
- Esto limpas e secas - disse Aelis, por cima do ombro. - Pelo menos ficas apresentvel. E no te esqueas do manto. Eu escondo estes trapos. O meu pai no vai 
saber que estiveste aqui.
Alertada pelo silncio que se seguiu ao rumor dos movimentos dele, Aelis voltou-se; Harry estava parado  porta, fitando-a com um olhar estranho, em que se misturavam 
a relutncia e a determinao.
- Agora que j obtiveste aquilo que querias, podes partir.
- Aelis...
- Vai. E trata de cumprir a promessa de voltares depois. Harry hesitou por alguns instantes e, depois, pegou-lhe nas
mos, inclinou a cabea e beijou-a solenemente nos lbios; antes mesmo de Aelis ter tido tempo para se refazer da surpresa e de, num gesto de espanto, tocar nos 
lbios com as pontas dos dedos, Harry j sara da cabana e atravessara a clareira em direco ao bosque.

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Durante as horas do crepsculo, Harry manteve-se agachado sob um macio de arbustos, abaixo do rebordo acidentado do planalto sobre o qual se erguia a igreja,  
escuta dos rudos das idas e vindas da guarnio excitada de Parfois, que se afadigava nos preparativos para o regresso do seu senhor.
Desde o desembarque em Portsmouth, com o rei Henrique, em finais de Outubro, a companhia avanava a bom ritmo. A nova da sua aproximao chegara a Pool, pouco antes 
de eles aparecerem em Ludlow. Segundo os rumores que circulavam pelas ruas de Pool, naquela noite acampariam em Montgomery e, de manh, cobririam a curta distncia 
que os separava de Parfois. Naquele mesmo momento, a nova soprava como um vento frio e mortal sobre todas as aldeias prximas de Long Mountain. Dizia-se que o chacal 
de Guichet era bastante mau, mas que os seus poderes tinham limites; em contrapartida, o velho leo no reconhecia quaisquer restries dentro do seu feudo e o seu 
domnio era to absoluto como a peste. A notcia do seu regresso levava os prprios animais selvagens a procurar refgio nas respectivas tocas.
A subida no representara qualquer problema para Harry, que crescera entre os penhascos de Snowdon. Nenhum ponto daquele promontrio em forma de cunha, que ia dar 
 plataforma isolada sobre a qual se erguia o castelo, era completamente a pique e, apesar de no poderem dar cobertura a uma aproximao em grupo, as rvores raquticas 
que cresciam de forma precria nas suas fendas haviam bastado para ocultar um rapaz solitrio. Faltava, todavia, resolver o problema que atormentara a mente de Harry 
ao longo dos meses durante os quais esperara o regresso do seu inimigo: como entrar no castelo propriamente dito? S havia uma maneira: pela ponte levadia, entre 
as torres da guarda. Dera cabo do crebro em busca de uma alternativa, mas no existia nenhuma, a no ser para quem arranjasse um aliado dentro das muralhas e isso 
era uma ideia que estava fora de questo. J que s havia uma maneira de entrar, seria essa que ele utilizaria.
Em tempos normais, seria quase impossvel entrar sem ser detectado mas, na manh seguinte, quando o senhor de Parfois regressasse de Frana com os seus quarenta 
cavaleiros e respectiva

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escolta e todos os habitantes do castelo sassem ao seu encontro para os acompanhar na entrada, mais um rapaz insignificante podia muito bem juntar-se discretamente 
 multido e passar pelos guardas sem ser notado. Uma vez l dentro, podia ir atrs dos habitantes excitados, sem nunca se deter em lado nenhum o tempo suficiente 
para despertar suspeitas, at arranjar maneira de se encontrar a ss com Ralf Isambard. O que aconteceria depois era coisa que Harry no se dera ao trabalho de tentar 
imaginar. Podia at no haver depois. Fosse como fosse, no podia deixar escapar aquela oportunidade e isso era tudo quanto lhe interessava.
Os rudos de Parfois comeavam a ser-lhe familiares. Ouvia o martelar das ferraduras e o som mais abafado e contnuo de ps sobre as tbuas da ponte levadia. Ouvia 
as vozes de pessoas que seguiam pelo caminho da ponte at  rampa. Ouviu tocar as vsperas no escuro crepuscular da igreja que o seu pai construra e, dentro de 
si, o corao acalmou-se, maravilhado, como se sentisse que estava a aproximar-se do mago de um mistrio.
Gelado, com os membros entorpecidos, sem se mexer do seu esconderijo, Harry escutava os sons do dia que, um a um, iam cedendo lugar ao silncio, at se ouvirem apenas 
os passos cadenciados da sentinela, no caminho da ronda, entre as duas torres da entrada. Finalmente, as correntes da ponte levadia rangeram contra as roldanas 
e Parfois preparou-se para a noite, no interior das suas muralhas inexpugnveis. Harry continuou sem se mexer durante mais algum tempo: no havia pressa e, agora 
que chegara o momento, descobriu que sentia medo. Ali, alm de haver alguma coisa a descobrir, podia haver tambm alguma coisa a perder.
Quando, havia longos e glidos instantes, j nada perturbava o silncio, Harry abandonou o seu refgio e subiu devagarinho as ltimas jardas de rocha acidentada, 
at  erva alta e aos arbustos que ladeavam o planalto. As estrelas estavam visveis, mas no havia lua e o cu sem nuvens era de uma escurido fria. Quando emergiu 
da orla das rvores, distinguiu os contornos denteados do pano da muralha, com os seus merles recortados contra as estrelas; e, entre eles e Harry, quebrando a 
linha sinuosa da muralha, erguia-se a silhueta da igreja.

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Ao olhar para cima, as formas afiladas atraram os seus olhos para o cu, apesar da escurido, e Harry adivinhou a torre alta que prolongava a ascenso daquelas 
formas, em direco s estrelas. De dia, apresentara-se-lhe como uma haste esculpida que, com os seus jorros de luz e sombra, ia estreitando passo a passo em propores 
mgicas, que perdia peso e ganhava mpeto  medida que se elevava. Agora, de noite, era um pilar de sombra, que o ocultava ao olhar da sentinela, quando emergiu 
de entre as rvores e atravessou decididamente o espao aberto coberto de ervas.
Na porta ocidental, havia uma portinhola. Harry agarrou na argola com as duas mos e rodou-a: a portinhola cedeu ao seu empurro cauteloso e ele entrou.
Uma vez l dentro, avanou na escurido fria at s escadas estreitas que iam dar ao trifrio e subiu-as, tacteando a pedra com as mos nervosas. Tantas haviam sido 
as vezes que Adam desenhara diante de si os planos e as elevaes daquela nave que Harry conhecia todas as suas escalas e era capaz de se orientar no seu interior, 
mesmo de noite. No fora apenas pela sua posio conveniente nem pelos muitos esconderijos que oferecia que decidira passar ali a noite de espera. Ao alvorecer, 
antes do regresso dos soldados, iria por certo ser finalmente presenteado com pelo menos um vislumbre do esprito de seu pai: uma imagem pessoal, a acrescentar s 
muitas facetas de mestre Harry que recolherajunto dos que lhe haviam sido prximos.
s apalpadelas, percorreu a estreita passagem do trifrio at ao fundo, at junto da janela leste que apresentava um padro de lancetas estreladas recortado contra 
a escurido. Ali chegado, enrolou o manto  volta do corpo e aninhou-se no canto, com as costas contra a parede. Era difcil algum deitar-se ali mas tanto melhor, 
porque assim no corria o risco de adormecer.
Apesar disso, durante as longas horas da noite, houve alturas em que chegou a ceder a uma sonolncia desconfortvel; mas nunca por mais de alguns minutos de cada 
vez. Estava gelado at aos ossos e, aos primeiros e frgeis raios de luz da alvorada, levantou-se e comeou a andar para trs e para diante na passagem, batendo 
com os ps enregelados nas tbuas.

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O dia nascia lentamente.  sua volta, as paredes emergiam da escurido em gradaes de cinzento, que se iam tornando mais claras e consistentes e assumiam propores 
e formas. Os pormenores abriam-se como se fossem flores e, nas cabeas esculpidas nos modi-lhes ao longo da passagem, despontavam cabelos e feies que sorriam 
e faziam caretas, quando se aproximava. A procisso de capitis da nave explodia numa vegetao exuberante, cada folha nascendo de outra folha, com o vigor da prpria 
vida. Mesmo na grande janela da fachada leste, a cor s surgiu mais tarde. Primeiro, era apenas uma luminosidade global; depois, gradualmente, comeou a divisar-se 
o gradeado, um rendilhado de formas sem significado at ao momento em que o calor do dia nascente fez brotar os vermelhos, os azuis e os verdes escuros que, a cada 
minuto, adquiriam um brilho e uma luminosidade cada vez mais puros. Ento, quase abruptamente, a cor brotou da prpria pedra e o cinzento tingiu-se de laivos dourados. 
Sobre a cabea de Harry, indistinto e misterioso, flutuava o esboo da quilha invertida de um navio.
Exercitadas no mesmo mistrio, as suas mos curvaram-se e os seus dedos estenderam-se no vazio, reproduzindo involuntariamente a tenso e a preciso da abbada. 
Tal como as nervuras que brotavam dos pilares da nave pareciam estremecer de alegria, movidas por uma energia prpria, tambm as mos de Harry se abriam e projectavam 
com deleite, no seu complicado mecanismo prprio de ossos e tendes. Nesse instante, a nuvem escura que ocultava o sol nascente dissipou-se e, pela janela oriental, 
entrou um raio de luz directa que inflamou de cores intensas o rendilhado da roscea e correu como uma lana de um extremo ao outro da igreja, despertando da sombra 
as nervuras fortes e elegantes que cobriam a abbada de grandes flores estreladas, transformando em ouro a viga do tecto, e brincando entre os caracis das cabeas 
de todos os querubins que cantavam nas bossagens pintadas.
Extasiado, Harry contemplava as gradaes da luz que danava sobre o tecto, sem saber o que tanto o comovia: se a hora, a grande beleza das propores e espaos 
que o rodeavam ou o sentimento maravilhoso e assustador de haver chegado to perto da fonte do seu prprio ser. Olhava e o que via exercia um efeito calmante. Estava

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to concentrado no que se lhe apresentava que no ouviu o martelar das ferraduras sobre a plataforma rochosa, nem o rudo das correntes da ponte levadia quando 
esta foi apressadamente descida. S comeou a sair do transe em que mergulhara, quando, l em baixo, as fissuras rochosas repercutiram o som surdo do ferro sobre 
as tbuas, tomando ento conscincia de que uma companhia de cavaleiros estava a entrar em Parfois.
J? No, era impossvel: quela hora deviam eles estar a partir de Montgomery. Para qu tanta pressa? Tenso, Harry ficou quieto, de ouvido atento. O rudo cavernoso 
no durou muito tempo. Deviam ser uns vinte cavaleiros, no mais. Depois, o silncio voltou a instalar-se. Talvez fosse um destacamento avanado, com ordens quanto 
aos preparativos para receber Isambard. O melhor era deixar-se ficar escondido, at  chegada do grosso das tropas, altura em que todos os habitantes do castelo 
sairiam ao seu encontro. Um grupo de vinte homens, para mais a cavalo, no era de qualquer utilidade: Harry precisava de centenas.
A portinhola da porta ocidental abriu-se sem rudo; Harry s deu por isso quando o batente tocou suavemente na parede. Embora discreto, o som foi ampliado pela altura 
da abbada. Assustado, com o corao a bater com fora, Harry recuou para as sombras do trifrio, no momento em que um homem entrava na igreja.
Era alto e magro, uma silhueta sombria e esguia que envergava uma cota castanha escura ou preta, curta, prpria para montar. Junto  anca, via-se a salincia da 
guarda de uma espada; Harry ficou a v-lo tirar as luvas compridas, cujos anis de ferro cintilaram com um brilho sombrio. Um dos homens da guarda avanada de Isambard 
e, pelo seu aspecto, devia ser algum importante. As suas vestes eram austeras, mas ricas e amplas e envergadas com a autoridade que apenas o nascimento confere; 
os seus movimentos possuam o cunho inconfundvel da nobreza, a convico absoluta de quem nunca precisou de hesitar ou de recorrer  prudncia ou  humildade para 
aplacar os poderosos; todo ele emanava uma graa altiva e natural. O homem avanou at ao meio da nave central e, a, parou, a olhar em frente, para um ponto qualquer 
acima do altar-mor. O seu rosto estava na sombra e Harry, receoso mas fascinado,

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no resistiu a debruar-se um pouco, do seu ninho de guia, para o ver melhor.
O desconhecido no podia haver visto o movimento, mas sentiu a deslocao do ar; ou talvez fosse dotado do ouvido de um animal selvagem, de que possua tambm o 
porte, e fosse capaz de detectar o mero roar de uma manga contra a pedra.
- Quem est a? - perguntou, numa voz cortante, ao mesmo tempo que inclinava a cabea para trs, para olhar para a abertura do trifrio.
Encolhido no seu abrigo de pedra, Harry viu o rosto subitamente iluminado. Cabelos curtos e frisados, grisalhos, mas ainda fartos, cobrindo, como se fossem um elmo, 
a cabea magnfica e delicadamente desenhada, e cortados a direito sobre a testa alta e descarnada. Um rosto normando glabro, com um nariz comprido e direito, queixo 
arrogante e olhos com um brilho sombrio, em rbitas cavadas. Era um velho! A pele dura e tisnada estava seca e curtida. E, todavia, era belo. A sua beleza essencial 
transparecia em tudo e conferia-lhe uma espcie de intemporalidade que se harmonizava com os seus movimentos. Atravs da pele amarelada da testa alta, cada trao 
da ossatura irradiava uma graa inaltervel; sob o cabelo espesso, o crnio impunha a nobreza da forma. O olhar profundo brilhava como uma lanterna admirvel e inextinguvel; 
dir-se-ia que um ser estranho e selvagem habitava a morada abandonada por um anjo.
Ento, Harry compreendeu que quem se encontrava diante de si era Ralf Isambard, senhor de Mormesnil, Erington, Fleace e Parfois.
O encontro dera-se demasiado cedo. Harry sentiu que os joelhos lhe cediam sob o peso do corpo e os seus dedos crispados agarraram-se  coluna atrs da qual procurara 
abrigo.
- Ento, ests a? - perguntou a voz, clara e distinta, apesar do tom baixo. - No mesmo local e  mesma hora. Vais descer ao meu encontro ou queres que eu suba? 
Quem  que dita as regras hoje?
Harry encostou-se  parede, para escapar queles olhos inquisidores, e deixou-se ficar ali por instantes, tentando controlar a respirao.

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- Muito bem - disse Isambard, no mesmo tom de voz. - Como no vens at mim, vou eu at ti.
O som dos sapatos de montar pontiagudos sobre o empedrado no era descoordenado, mas curiosamente hesitante, como se se tratasse dos passos de um coxo, cujo coxear 
s se nota quando ele se esquece de o controlar. Os passos aproximaram-se da escada, sem pressas, e comearam a subir. Era preciso ter cuidado com uns sapatos como 
aqueles, nos degraus estreitos. Polegada a polegada, Harry foi recuando at ao fundo da passagem estreita, onde ficaria protegido por paredes  esquerda e  direita, 
e encostou-se ao vo, sob o ltimo capitel esculpido. Fez girar o cinto, para colocar o punho da adaga ao alcance da mo e retirou a lmina da bainha.
Interiormente a firmeza era pouca, mas a sua mo no tremia. Mais valia ser agora do que depois de haver passado vrios dias escondido,  espera. Era melhor assim. 
Os seus ossos voltaram a conseguir suportar o peso do corpo. O corao inchou-lhe no peito, no por sentir esperana ou medo, mas por lucidez e aceitao. Chegara 
o momento; no seria necessrio esperar por ele e estava contente por isso.
Os passos ligeiramente vacilantes haviam parado; Isambard detivera-se algures, longe da vista. Porqu?
A resposta atingiu-o como uma punhalada, quando se atreveu a espreitar: a silhueta alta chegara j ao cimo dos degraus e avanava silenciosamente e sem pressas pela 
passagem de pedra. Isambard limitara-se a parar para descalar os sapatos. Os seus ps compridos, cobertos apenas pelas meias castanhas e justas no produziam qualquer 
som. Avanava e sorria, se  que se podia chamar sorriso ao esgar que lhe transformara a boca numa linha, com o canto esquerdo erguido.
Na mesma voz ardente e baixa, perguntou:
- Era isto que esperavas de mim, Harry? Ou deveria haver trazido comigo a cruz do altar?
O corao de Harry comeou a bater desordenadamente. O homem era o diabo em pessoa. Se assim no fosse, como podia ele saber tudo: o seu nome, as suas intenes, 
tudo? At onde deveria deix-lo aproximar-se, antes de o enfrentar? Precisava de espao para se movimentar, de alguns passos de distncia entre ambos. Claro que

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era jovem e, por isso, estava em vantagem, mas precisava de espao para poder recuar. Aquele homem era velho, velho: segundo os clculos de Adam, devia ter uns cinquenta 
ou sessenta anos.
Agora, pensou Harry, retesando os msculos. Respirou fundo e saltou do nicho onde se refugiara para o meio da passagem. A ltima cabea esculpida pelo seu pai parecia 
espreitar por cima do seu ombro, Harry no lhe prestou ateno, porque a luz do dia ainda mal a aflorava; mas Isambard vivera numa quase intimidade com ela durante 
quinze anos e conhecia-a trao por trao. Viu a cabea de pedra e a cabea de carne e osso, espantosamente semelhantes, e imobilizou-se por um instante, como se 
ele prprio se houvesse transformado em pedra. Depois, os dois rostos que lhe haviam parecido quase iguais revelaram-lhe de sbito as diferenas existentes entre 
eles. Mas as parecenas persistiam. Mestre Harry dera provas de fortes poderes divinatrios, mas esculpira o rosto de um homem e, afinal, o ser de carne e osso no 
passava de um rapaz, no princpio da adolescncia. Apesar de vivo e jovem, o rosto de pedra denotava uma segurana que o rapaz ainda no podia reclamar como sua. 
Um estava feito, o outro ainda a caminho disso. Agora, Isambard sabia quem se encontrava diante de si.
- Ora muito bem! - exclamou docemente. - S bem-vindo. H muito que esperava por este momento.
- Eu tambm! - replicou Harry.
Levou a mo ao cinto e puxou para a frente o punho da adaga, num gesto que no dava lugar a dvidas. Bem apoiado sobre os ps afastados, o olhar fixo no seu inimigo, 
esperou que Isambard puxasse da espada. O sorriso diablico e oblquo voltara a rasgar o rosto descarnado, como se fosse uma cicatriz. Quando, finalmente, levou 
as mos  cintura, Isambard no as colocou na guarda da espada, mas nas fivelas das quais esta pendia. Sem pressas, sem deixar de sorrir, desapertou-as e atirou 
a espada e a bainha pela abertura do trifrio. O rudo que estas fizeram, ao cair l em baixo, sobre as lajes do presbitrio, abalou Harry dos ps  cabea e, por 
um breve instante, perturbou a sua concentrao. Num gesto significativo, colocou a mo sobre a adaga.
- Estamos em igualdade, senhor.

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Isambard seguiu o gesto com o olhar e soltou uma gargalhada, enquanto baixava a mo para a adaga que trazia  cinta. O sorriso retorcido era fixo e ostensivo. Harry 
no esperou mais. Todos os anos de expectativa, de apreenso e de esperana afluram s suas mos cerradas, s suas pernas flectidas e trementes. Empunhou a adaga 
e lanou-se sobre o inimigo, com todo o seu peso e com todo o seu saber.
O choque do embate arrastou ambos uns dois passos para trs. A lmina rasgou a cota de Isambard menos de uma polegada abaixo do corao, mas este agarrara o punho 
de Harry com a mo esquerda, torcendo-o para fora e para baixo, pelo que a adaga cortou a cota e a camisa ao nvel das costelas, provocando apenas um inofensivo 
arranho superficial. Isambard no puxara da adaga; mesmo no calor do assalto, Harry apercebera-se do facto, o que o enraiveceu terrivelmente e lhe deu foras redobradas. 
Um brao direito comprido, duro como ao, rodeou o corpo de Harry, aprisionando-lhe o brao esquerdo acima do cotovelo, e, com um movimento de torso, Isambard arremeteu 
violentamente contra ele, fazendo-o perder o equilbrio. Ao sentir que ia cair para trs, Harry lanou o calcanhar contra o peito do adversrio e, sem parar de se 
debater, arrastou-o consigo na queda.
O tombo cortou-lhes a respirao. Harry conseguiu libertar o pulso e voltou a atacar, mas o seu brao foi novamente imobilizado e, desta vez, o golpe no fez correr 
sangue. Isambard pregou-o ao solo, deixando cair sobre ele todo o seu peso e, deliberadamente, ergueu o brao do rapaz e baixou-o em seguida, com fora, contra o 
pavimento.
A dor desceu do ombro at s pontas dos dedos e todos os seus msculos gritaram e vibraram de impotncia. Harry lutou por manter os dedos sobre a adaga, mas estes 
no lhe obedeciam. Tentou segur-la com a mo esquerda mas Isambard manteve-lhe os braos afastados e o corpo colado ao solo at, mau grado a luta e os soluos, 
a adaga se soltar lentamente dos seus dedos. Ento, sempre a sorrir, Isambard agarrou os dois pulsos do rapaz com uma s mo, magra, musculada e impiedosa, enquanto 
com a outra apanhava a adaga e a atirava para junto da sua prpria espada.

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- J acabaste?
Mantinha-o imobilizado com uma s mo, divertido com as suas tentativas vs para se libertar. Mas, mal Isambard lhe soltou os pulsos e se apoiou nos calcanhares 
para se erguer, Harry estendeu o brao para a adaga que o prprio Isambard no quisera utilizar. J quase a retirara da bainha, quando o joelho do velho senhor se 
abateu sobre o seu brao, esmagando-o mais uma vez contra as lajes.
- Ser que preciso despojar-me de tudo, para tu gritares por piedade? - perguntou a voz irnica, que a luta corpo a corpo no perturbara.
E era um velho!
Harry deixou-se ficar deitado, sem se mexer, tentando recuperar o flego e engolindo a frustrao. O dio que at ento nunca sentira realmente inflamava-lhe agora 
o corao como um fogo ardente. Lutar servia apenas para o enfraquecer: no era capaz de desviar o peso que o esmagava nem de quebrar o punho que o imobilizava. 
Continuavam os dois sozinhos na igreja, frente a frente, e apenas as vozes de ambos podiam quebrar o silncio. Harry inspirava o ar em lufadas longas e furiosas, 
atento, mudo e perigoso como um animal encurralado no covil. Mais cedo ou mais tarde, Isambard seria obrigado a solt-lo. E ele no prometera nada, no pedira trguas, 
nem fizera acto de submisso. Ainda no estava tudo acabado.
- Assim est melhor! - resmungou Isambard, soltando-o para se pr de p, num movimento rpido.
Mas, desta vez, conservou a mo sobre a adaga e girou sobre si mesmo, para colocar a anca fora do alcance do rapaz.
Pondo em aco toda a energia e toda a raiva, Harry lanou um olhar ao perfil negro, esguio e bem definido que se recortava contra a luz, enquadrado pelo vrtice 
do trifrio, e  altura de pelo menos trinta ps entre a figura de Isambard e as lajes de pedra do coro. Feito isto, rolou o corpo e assentou o seu peso no joelho, 
num nico movimento, lanando-se em seguida contra o adversrio, que agarrou com os dois braos ao nvel das coxas e arrastou consigo em direco  abertura.
No primeiro instante, Isambard foi apanhado desprevenido, mas havia sessenta anos que habitava aquele corpo, que exercitara

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e no qual aprendera a confiar e, em situaes de emergncia, os seus prprios msculos pensavam por si. O seu brao direito rodeou a coluna que se encontrava atrs 
de si e os ps descalos firmaram-se no cho de pedra para resistir ao impulso. A sua posio era inamovvel e o peso de Harry apenas o fez oscilar ligeiramente 
e foi o rapaz e no o homem quem, por um longo e penoso instante, ficou suspenso sobre o vazio. Mesmo ento, em vez de tentar segurar-se para ficar fora de perigo, 
Harry no largou o adversrio, tentando arrast-lo consigo na queda.
Isambard inclinou-se para trs e fez fora. Passou a mo livre por trs do pescoo de Harry, agarrou firmemente a cota e a camisa e torceu o tecido at as faces 
do rapaz ficarem arroxeadas e os seus olhos comearem a revirar-se. Sufocado, Harry soltou Isambard, para levar a mo  garganta e, no mesmo instante, o pulso forte 
que o estrangulava iou-o brutalmente e atirou-o para lugar seguro, junto  parede. Mas, desta vez, o velho senhor no o libertou: a presso sobre a garganta parou 
de imediato, mas a mo que a exercera agarrou-o pelo brao.
- J chega! - resmungou Isambard, voltando ajuntar os pulsos magoados de Harry e segurando-os com toda a fora.
Em seguida, debruou-se sobre o rapaz e, deliberadamente, sem clera aparente, abriu a mo e deu-lhe trs sonoras bofetadas na cara. Nem sequer eram verdadeiros 
golpes que um homem pudesse receber com dignidade: eram uma espcie de castigo premeditado como aquele que algum aplicaria a uma criana que houvesse abusado da 
sua pacincia.
- Isto  por haveres desprezado a prpria vida, grande tolo - anunciou calmamente. - Para aprenderes a matar como um homem razovel, quando for preciso, e no como 
uma mulher a quem o despeito fez perder o juzo.
Ainda sem flego, o rapaz encolheu-se, fulminando-o com o olhar. As marcas brancas deixadas pelas bofetadas comeavam a ficar rosadas. Rangeu os dentes, sem dizer 
palavras, mas os seus olhos eram eloquentes.
- Estou a ver que ele gerou um ser de dios fortes - comentou Isambard, observando Harry com ateno e sorrindo, aparentemente

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satisfeito com aquilo que via. - Eis um memorvel regresso ao lar! Tu e eu, rapaz, vamos obter um acolhimento caloroso em Parfois. Anda, vamos sabore-lo.
P-lo de p, separou os dois pulsos que no deixara de segurar, voltou ajunt-los atrs das costas do rapaz e empurrou-o brutalmente  sua frente, ao longo da passagem 
que conduzia s escadas. Foi ento que se ouviram passos junto ao prtico da igreja e vozes que falavam num tom reverencial, embora no por respeito  santidade 
do local.
- De Guichet! - chamou Isambard, visivelmente satisfeito. - Estou aqui e comigo est tambm um convidado para vs. Chamai os guardas e dizei-lhes que tomem bem conta 
dele.  um agitador impetuoso.
Trs ou quatro cavaleiros haviam acorrido, ao ouvir a voz do seu senhor.
- Conheceis esta cara? - prosseguiu Isambard, voltando a cabea de Harry, para que todos pudessem ver-lhe o rosto.
Quando, num movimento altivo, Harry virou a cara, Isambard ergueu-lhe o queixo, para que a luz o iluminasse melhor. Apesar de pouco ortodoxo, o breve corpo a corpo 
matinal, deixara de excelente humor o senhor de Parfois.
- Ento, senhores? Mesmo que o rosto esteja um pouco esbatido na vossa memria, o temperamento deveria bastar para o identificar.
Depois de olhar bem, atnito, um dos homens, um cavaleiro robusto e barbudo que, pelos seus modos, podia muito bem ser o senescal de Guichet, disse:
-  um Talvace, sem dvida nenhuma.
- Sem dvida nenhuma! Deve ser a criana que eles levaram para Gwynedd.  excessivamente parecido e os sinais so demasiados para poder ser filho de outro homem. 
Em Parfois, ns sabemos receber um Talvace, no sabemos? Levai-o! Cuidai de que fique bem instalado na Torre da Guarda. E dai-lhe de comer - acrescentou Isambard, 
negligentemente, depois de um olhar inquisidor ao rosto rebelde de Harry. - No queremos que ele possa dizer que matamos  fome os nossos visitantes, esperados ou 
inesperados. Vai ser mais divertido, depois de alimentado. Est magro demais.

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Os homens no esperaram segunda ordem e levaram-no com eles, atravessando a esplanada, onde o gelo cobria os espaos no preenchidos pela erva hmida. E foi assim, 
no como apenas mais um entre algumas centenas, mas como o centro e ponto de mira de um pequeno grupo de uma dzia de guardas, que Harry atravessou a ponte levadia 
e entrou em Parfois.
Isambard estendeu as pernas compridas sobre o cho de pedra da cela e, sem pressas, perguntou:
- Qual deles  que te mandou aqui, para me matares? Aquela mulherzinha ardente que  a tua me? Ou Llewelyn? ramos bons inimigos, o grande prncipe e eu, mas, nos 
ltimos tempos, essa inimizade esfriou um pouco. Ele tem muito com que se ocupar e eu tambm. No, duvido que haja sido Llewelyn. Penso que ele te criou como verdadeiro 
gals, fiel aos seus deveres, e que te ensinou que as dvidas de sangue so sagradas, mas no acredito que te haja mandado aqui, sozinho, em tal misso. Ento? No 
dizes nada?
Nada. O rapaz no dissera nada, desde que o haviam encerrado naquela cela subterrnea de pedra, com uma nica vela e uma cama estreita. No por estar demasiado amuado 
ou assustado: quando tivesse alguma coisa para dizer, di-lo-ia alto e bom som. Sentia-se apenas terrivelmente perdido. No compreendia o que se passava, no lhe 
restava qualquer certeza.
Que tencionariam fazer com ele? Isambard no se ralaria nada de enforcar um rapaz que atentara contra a sua vida, para mais tratando-se de um rapaz pelo qual no 
precisava de responder perante a justia do condado nem perante a coroa, de um rapaz que no tinha ningum que o defendesse em Inglaterra. Mas, se queriam mat-lo, 
porqu esperar? Para qu mant-lo ali, naquela cela, em condies sumrias mas sem grande desconforto? E, sobretudo, por que viera o prprio Isambard visit-lo depois 
da ceia, envergando aquelas vestes sumptuosas e cerimoniais de brocado castanho e ouro, e acompanhado por servos que transportavam uma cadeira dourada e por um pajem 
para lhe servir vinho? E por que mandara embora todos os membros do squito? Se pretendia apenas divertir-se com o prisioneiro, que importava haver ou no quem assistisse?

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- Ou foi Benedetta? - perguntou Isambard.
Harry no respondeu; limitou-se a fit-lo, desconfiado, por entre as plpebras quase fechadas de fadiga.
- Vejo que conheces o nome, Harry. Estou certo em chamar-te Harry? No sou capaz de imaginar que te possam haver dado outro nome. V l: podes responder a isto, 
sem revelar os segredos de ningum.
- O meu nome  Harry - respondeu o rapaz de m vontade, numa voz ligeiramente rouca, devido  desconfiana e  falta de uso.
- Bom. Estou a ver que no perdeste a lngua. Cheguei a pensar que a havias engolido. J vi que conheces a Madonna Benedetta. Ela ainda  viva?
Silncio. Mas talvez Isambard houvesse lido a resposta no rosto alerta, porque sorriu e, no fundo dos seus olhos, brilhou uma centelha.
- Foi ela quem te encarregou da misso de ajustar contas comigo?  verdade que ela tem contas a ajustar. Mas, noutros tempos, ela encarregaria um homem adulto de 
fazer os seus recados e pagar as suas dvidas.
Perante aquela observao sarcstica, os lbios de Harry crisparam-se de clera, mas no se abriram para responder.
- E o Adam Boteler ainda  vivo? E aquele servo de Benedetta, que a ajudou a chegar a Shrewsbury, no dia em que os galeses conquistaram a cidade? Passaram-se quinze 
anos, Harry, e, como vs, no me esqueci de nada. Os galeses no tardaram a bater em retirada. Shrewsbury nunca voltar a ser galesa por mais de alguns dias e Llewelyn 
possui inteligncia suficiente para reconhecer isso.  certo que  uma cidade exposta, mas  inglesa at  medula e nada pode alterar isso. Tal como Poitou, Anjou, 
a Normandia e a Gasconha, todas as belas terras onde tolamente passmos tantos meses e gastmos tanto dinheiro, so francesas e continuaro a ser francesas, faamos 
ns o que fizermos. Podemos voltar a conquist-las, a um preo cem vezes superior quele que elas valem para ns, por alguns meses ou mesmo por alguns anos, mas 
elas continuaro a ser francesas e ns acabaremos por ser forados a retirar. E o mesmo acontece com a Bretanha, apesar da homenagem de Peter de

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Mauclerc ao nosso rei e senhor. Mauclerc bem pode declarar que a Bretanha  um feudo ingls, se lhe aprouver, mas so apenas palavras e no alteram a realidade. 
E foi tudo quanto trouxemos da nossa ruinosa viagem. Graas a Deus e  nossa vigilncia. Porque, se a derrota nos sai cara, a vitria haver-nos-ia custado muito 
mais, a ns e aos nossos herdeiros. O rei Henrique teve a sua marcha triunfal, que tanto desejava. Agora, talvez aqueles de entre ns que fazem o que  mister fazer 
aqui, na nossa terra, fiquemos com as mos mais livres.
Isambard ergueu os olhos do copo de vinho, deparou com os olhos verdes estupefactos, intrigados e perplexos de Harry e soltou uma gargalhada.
- Que maneira de olhar, Harry! No devo pensar em voz alta, na tua presena? O teu pai acabou por se acostumar. Confunde-te ser eu a falar e tu a ouvir? Ento fala 
e eu calar-me-ei.
Esperou um pouco, os lbios deformados pelo seu sorriso oblquo, mas Harry no disse nada.
- Sendo assim, vou ter de culpar todos eles por este atentado contra a minha vida, no  verdade? O meu brao chega muito longe, no te esqueas, e a minha memria 
 terrvel.
- Eu vim por minha livre vontade - declarou Harry, com brusquido. - Ningum me mandou. Eles tm andado  minha procura, para me levar de volta.
Isambard sorriu e reclinou-se na cadeira.
- Ah! Afinal, sempre respondes, quando te convm. O teu dio contra mim  to grande que concluo que eles te contaram a histria do teu nascimento. E que mais te 
ensinaram eles acerca do teu pai? H muito mais a dizer sobre ele, alm da forma como morreu. Herdaste alguma parte da sua arte? J vi que s dotado do mesmo temperamento 
irreflectido.
Harry sentiu que no havia nada de til a dizer quele homem espantoso e aterrador que, alis, no lhe exigia que falasse. O destino que lhe estava reservado, fosse 
ele qual fosse, no dependia de qualquer provocao da sua parte e nada do que ele pudesse fazer, numa tentativa de conciliao, iria servir para o poupar. Era melhor 
ficar calado. Estava muito cansado. S queria ficar sozinho, para se

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acomodar  sua sorte. E pensar que quase havia conseguido! Uma polegada mais acima, uma reaco mais rpida e poderia haver abandonado Parfois, vingado e livre, 
com todas as contas saldadas.
- Na verdade,  uma pena pensar que, neste momento, eu poderia estar morto e tu a umas dez milhas daqui, a caminho de casa - acrescentou Isambard, sorrindo para 
Harry. - Mas hs-de
descobrir que, de vez em quando, a vida de um homem sofre reveses como este. Deus h por certo as Suas razes. Bem, vamos ver se conseguimos levar-te a falar outra 
vez. Como foi que passaste pelo primeiro posto da guarda? Ser que preciso de mandar enforcar toda a guarnio por te haver deixado passar?
- Eu no passei pela guarda - replicou Harry, que se sentiu na obrigao de clarificar as coisas. - Escalei as rochas.
- Bem, bem. Estou a sentir-me encorajado. Quase dez palavras seguidas! Ento, s mais uma pergunta.
Antes de prosseguir, Isambard colocou as mos magras, de dedos compridos, sobre os braos da cadeira e a luz da vela incidiu sobre os rubis dos seus dois anis, 
que pareceram incendiar-se. Os seus olhos encovados adquiriram tambm um brilho vermelho.
- Onde foi que eles enterraram o mestre Harry, depois de o haverem retirado do rio?
Harry susteve a respirao: aquele era o primeiro indcio que talvez pudesse esclarec-lo. O tom de voz quase no mudara, mas sentiu de imediato que daquela vez 
era diferente: daquela vez, Isambard queria mesmo uma resposta.
Portanto, o dio seguia o inimigo para alm da morte. Quinze anos depois, Isambard mantinha viva a querela contra o seu mestre canteiro e no estava disposto sequer 
a deixar que os ossos dele repousassem em paz. De sbito, Harry sentiu que a cela era demasiado pequena para conter o seu prprio medo e o seu prprio rancor, quase 
no lhe permitindo respirar.
- Para que quereis saber do tmulo do meu pai? - perguntou, numa voz abafada pela blis que lhe aflura  boca. - Vs destes-lhe a morte e outros cuidaram de lhe 
dar sepultura. Deixai-o em paz.
- Em nome da justia - replicou Isambard, imperturbvel - deve dizer-se que foi John o Frecheiro quem lhe deu a morte e

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Benedetta quem encarregou John de o fazer. Mas no vou discutir a tua verso, Harry. A verdade vai alm dos factos nus e crus. Eu matei-o. Agora responde  minha 
pergunta. Onde est ele enterrado?
- Num local onde nunca ireis perturb-lo, senhor. A salvo de vs, como vs estais da sua vingana...
- Pode ser que assim seja - concordou Isambard, com um sorriso sombrio.
- ...mas no da minha, senhor! Enquanto me permitirdes que eu viva, esperarei o momento de poder deitar as mos a uma arma e de vos encontrar ao meu alcance. - A 
intensidade do dio fazia tremer Harry e a sua voz era abafada pela paixo. - Sempre ouvi dizer que reis um lobo, mas nunca ningum me disse que descereis ao ponto 
de violardes o descanso dos mortos. Com a ajuda de Deus, perseguir-vos-ei at ao fim, tal como vs o perseguis a ele e hei-de ver-vos num tmulo antes de conseguirdes 
colocar as mos sobre o dele.
- Calma, calma! - protestou Isambard, numa voz complacente, mas irritada. - Ests a desperdiar as tuas diatribes, pois no est aqui ningum para as ouvir.  melhor 
deixares de me dar boas razes para te mandar enforcar sem mais delongas. Posso ser tentado a faz-lo e no h ningum a quem isso mais possa desagradar do que a 
ti mesmo. Nunca uses as palavras como fichas de um jogo, a menos que possas pagar depois, em dinheiro sonante. A tua sorte  eu pensar que ainda me podes ser de 
algum uso. H uma coisa que quero que me digas, antes de seres enforcado. Quando isso estiver resolvido, veremos. Vamos l, decide-te. Eu quero uma resposta.
- Nunca a obtereis - replicou Harry, cerrando os dentes. - Ah, vou obter, vou, Harry. E vais ser tu quem ma vai dar.
No duvides.
A voz parecia de veludo, mas gelou o sangue de Harry. Transmitia uma determinao frrea que, num momento de pnico, o forou a rever a sua prpria resoluo, para 
o caso de esta conter qualquer fraqueza de que no suspeitava. Como podia ele saber at onde iria a sua coragem virginal? Esta nunca fora testada. Humedeceu os lbios 
secos e calou-se, fixando os olhos muito abertos e apreensivos no rosto de Isambard.

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- Dispomos de recursos infinitos e de todo o tempo do mundo. - disse o senhor de Parfois, delicadamente. - Podemos permitir-
-nos negociar com toda a tranquilidade. Por que ordem queres abdicar dos pequenos confortos que te proporcionmos, Harry? Digamos que, amanh, podemos retirar-te 
a comida. No dia seguinte, a gua. Depois, talvez o calor e, por fim, a luz.
As pestanas compridas do rapaz bateram por um instante e a boca contraiu-se-lhe num rito de medo. Isambard riu-se. Sem querer, despertara no esprito atormentado 
de Harry, a recordao da voz de outro homem, dizendo com amargura: "A luz  a ltima coisa a que um homem pode renunciar. Sem contar com o ar."
- Uma semana sem nada do que acabei de dizer e quem sabe que cantiga irs tu cantar? Nada de recorrer a meios mais cruis, at ser preciso. No ests disposto a 
mudar de ideias e a dizer-me, esta noite, aquilo que eu quero saber?
Com a certeza de obter uma recusa, Isambard levantara-se da cadeira.
- Nem esta noite, nem nunca - replicou Harry, valentemente.
- Ah, a noite  boa conselheira. Amanh, a tua coragem pode estar abalada e a tua mente mais lcida - contraps Isambard, num tom tolerante, antes de o abandonar 
 sua solido.
- No! - disse Harry.
Havia trs noites que dizia a mesma coisa. E, se desta vez, a sua voz soava menos firme, era por estar com frio e no por medo. No fim do primeiro dia, tinham deixado 
de lhe trazer comida; no dia seguinte, retiraram-lhe a reserva de gua, cuidadosamente poupada; e a terceira recusa custara-lhe as mantas speras e a palha que cobria 
a cama de tbuas. A isto juntava-se a crueldade de Isambard, que nunca fazia a pergunta duas vezes. O "no!" desdenhoso de Harry era sempre aceite sem comentrios 
e sem qualquer tentativa de persuaso. Mas, todas as noites, um ligeiro sorriso atormentador acolhia a relutncia cada vez maior e a arrogncia cada vez menor com 
que ele cuspia a negativa.
- Muito bem! - suspirou Isambard.
E estendeu a mo para retirar a vela do candelabro de ferro pousado na salincia da parede. O rapaz estava sentado na beira da

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cama, de costas curvadas e ombros rgidos; inquietos, os seus olhos verdes seguiam os movimentos lentos e deliberados da mo elegante e musculada do seu captor, 
em direco  vela; a passagem daquela mo f-lo sofrer os tormentos da relutncia e da tentao. Cruzara os braos sobre o estmago, torturado pela fome. Trs dias 
sem comida so tempo de mais para um rapaz de quinze anos. Mas o que ele mais receava era a falta de luz. Os seus olhos detiveram-se ansiosos sobre a chama e seguiram 
o trajecto desta quando Isambard a ergueu. As sombras vacilaram sobre as suas faces cavadas e o seu corpo encolheu-se mais um pouco.
- Daqui a trs dias, volto a fazer-te a pergunta - anunciou Isambard. - Desta vez so trs dias e no um.
Nem uma palavra. Mas o rosto crispado denunciava claramente a enorme angstia que o rapaz experimentava. Por cima da chama da vela, o sorriso oblquo de Isambard 
denotava simpatia. Quando queria, a sua voz e a sua expresso eram de uma gentileza diablica.
- Ainda dispes de tempo para pensar, antes de eu sair, Harry. Algumas palavras e poders sair desta cela, comer, aqueceres-te e ficar instalado num stio melhor. 
No precisas de te condenares a ficar s escuras.
A luz que, a partir de baixo, iluminava o rosto de Isambard destacava a ouro e negro todos os pormenores da testa alta e conferia  boca tentadora uma beleza penetrante 
e doce; mas o demnio continuava a habitar o fundo dos seus olhos.
- Fala e poupa-te a ti prprio.
Com um n na garganta, Harry engoliu as lgrimas e agarrou-se desesperadamente  obstinao que se alimentava de uma coragem que ia diminuindo.
- No! - repetiu.
E, quando os seus lbios pronunciaram a palavra, o alvio foi tal que comeou a tremer e desmaiou.
O rosto, a mo e a vela bateram em retirada, ainda a sorrir para Harry; o sorriso parecia envolver os trs, como se a luz que se afastava emanasse do homem e no 
da chama. A porta fechou-se lentamente. Restou apenas um estreito fio de luz que em breve desapareceu,

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dando lugar  escurido, uma escurido que iria durar trs dias. A partir de agora, no haveria forma de distinguir o dia da noite e o tempo, tal como a esperana, 
o prazer, a companhia dos homens e todas as coisas humanas para as quais servia de medida, haviam parado.
Uma mo tocou-lhe no ombro para o acordar. Momentaneamente sem saber onde estava nem o que estava a acontecer, Harry ergueu-se, soltando um grito. A cela fora invadida 
por homens e tochas. A tremer, Harry agarrou-se ao leito desconfortvel que, agora, lhe parecia ser a nica coisa segura de que dispunha, mas foi arrancado dali 
e impelido em direco  porta, ainda atordoado de sono e frio. Seria possvel haverem passado trs dias desde que fora deixado s escuras? Ou seriam apenas trs 
horas?
Aos tropees, empurraram-no por umas escadas talhadas na pedra e, depois, por um corredor, at uma diviso grande, cheia de fumo, escura, sem outros objectos que 
no fossem alguns aparelhos e instrumentos, encostados s paredes, e uma braseira, colocada ao centro. Isambard estava de p, impassvel, junto ao fogo e, ao seu 
lado, encontrava-se de Guichet. Vagamente, com uma sensao de pesadelo e irrealidade, Harry reconheceu a forma alongada do ecleo com as suas cordas e roldanas, 
os ferros escurecidos colocados junto  braseira e os chicotes pendurados na parede. Sempre soubera que iriam acabar por chegar quele ponto. Segundo parecia, Isambard 
no fora capaz de esperar trs dias.
Agora, nada mais lhe restava a no ser o conflito de paixes entre o terror e o seu orgulho feroz, que se entregavam a uma luta sem trguas nas suas entranhas. No 
ia falar: mesmo que eles desfizessem todas as articulaes do seu corpo, mesmo que lhe arrancassem a carne,  chicotada ou queimando-a. No mais pelo pai, no mais 
pela sua honra, mas apenas porque preferia morrer a deixar que Isambard levasse a melhor. Era capaz de suportar ser renegado e desonrado mas no poderia suportar 
ser derrotado.
- Calculo que saibas para que servem estes instrumentos - disse Isambard. - Olha bem para eles! Sabes para que servem?
- Sei - respondeu Harry.

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O som rouco que saiu da sua garganta foi quase inaudvel. Sim, ele sabia; a sua carne sabia; e no havia esperana de ser poupado a um nico suplcio.
- Eu quero que me ds uma informao e vou obt-la. Queres ceder agora ou mais tarde, a um preo maior?
Desta vez, apesar do desespero, Harry conseguiu exprimir-se numa voz mais forte e relativamente firme:
- No vou ceder.
Isambard acenou com a mo aos homens que seguravam o rapaz pelos braos e estes levaram-no at junto do ecleo. Ento, Harry abdicou todas as mostras de dignidade, 
excepto da dignidade do desafio e comeou a debater-se como um gato selvagem, arranhando, mordendo, cansando-se em esforos inteis. Mas, de facto, ganhou alguma 
coisa com isso: uma espcie de aturdimento confuso que, quando eles o martirizaram, daria um certo conforto aos seus msculos doridos e lhe libertaria o esprito 
atormentado da lucidez total. Foi deitado de costas com os braos abertos, voltado para o tecto enegrecido pelo fumo; sentiu que lhe apertavam correias  volta dos 
pulsos e dos tornozelos.
- Pela ltima vez, Harry!
- No!
Foi um grito rouco. E, mesmo ento, Harry ainda conseguiu pensar que devia ser por graa de Deus o terror animal poder, numa situao extrema, produzir um grito 
de respeitvel raiva humana.
Harry soergueu-se e lutou contra as correias, respirando com dificuldade, tentando encorajar-se a si mesmo, antecipando a agonia antes de esta chegar.
Mas ela no chegou. Por momentos - longos e estranhos momentos que mais pareciam fazer parte de um sonho - no se registou qualquer som nem qualquer movimento. Depois, 
ouviu-se a voz fria e controlada de Isambard:
- Erguei-o!
Desta vez, Harry sentiu-se completamente perplexo e perdido e o medo que se esforara por conter sacudiu-o da cabea aos ps, quando eles o libertaram das correias 
e o ergueram. Mal conseguia manter-se de p e teve de agarrar-se a um dos braos que o haviam

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levantado. Os seus olhos muito abertos, nos quais brilhavam lgrimas de confuso, fixaram-se em Isambard.
- Deveis levar as coisas mais longe, senhor - disse de Guichet, observando atentamente o rapaz que tremia. - Um pouco de dor verdadeira f-lo-ia ceder melhor do 
que todas as ameaas.
- Subestimais o temperamento obstinado deste jovem louco. Bem podeis cort-lo em pedaos que ele no falava - replicou Isambard, franzindo o sobrolho com uma expresso 
pensativa.
- Pelo menos, podamos p-lo  prova por alguns minutos, senhor - insistiu de Guichet.
Entretanto, o senescal retirara do suporte da parede um dos chicotes e, sem esperar resposta, ergueu o brao a chicoteou Harry no rosto.
Harry soltou um grito de espanto e recuou um passo, levando as mos  face que sangrava. O que aconteceu a seguir, ele no viu. Foi sempre uma confuso, um espao 
em branco, mas de uma coisa estava ele certo: houvera outro grito, mais alto e mais espantado do que o seu, o impacto sbito de um golpe, o som de um chicote a cair 
por terra. Quando limpou o sangue do rosto e voltou a abrir os olhos, viu Isambard pisar o chicote com um dos ps e a lanterna de bronze do seu rosto ardia numa 
fria silenciosa, to intensa e perigosa que o prprio Harry, que deixara de estar ameaado, recuou num movimento solidrio de susto. Plido e atnito, de Guichet 
fitava o seu senhor com um olhar receoso.
- Pensei que podia obter aquilo que desejais, senhor, e que nunca obtereis pela via da pacincia - protestava, tentando defender-se, mas com laivos de ressentimento 
na voz.
- Pensastes! Disse-vos porventura que levantsseis a mo contra o rapaz?
- No, senhor, mas...
- Ento, no lhe toqueis sem eu mandar.
De repente, a chama extinguiu-se e a cabea de bronze ficou quieta. Voltou-se para os guardas que seguravam Harry e, por alguns minutos, olhou para o prisioneiro 
em silncio. Em seguida, compondo a cota como que para assinalar o fim da sesso, ordenou calmamente:
- Levai-o de volta para a cela.

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O rapaz foi conduzido para fora da sala. Os seus olhos grandes, dilatados pela exausto, olhavam em volta como que desfocados, com o olhar perdido de uma criana 
assustada rodeada de estranhos.
- E deixai-lhe uma luz - acrescentou Isambard.
Sem dvida como reaco ao terror, mal o deixaram sozinho com a abenoada vela, Harry foi-se abaixo e chorou at cair num sono quase mortal. Mas, quando acordou, 
estranhamente fresco e revigorado, recuperara a calma e estava em condies de pensar na fuga. Uma coisa era certa: Isambard no abdicara de modo algum dos seus 
intentos e se, no ltimo minuto, impedira a experincia de terror, no fora por qualquer sbito impulso de piedade, mas porque os seus clculos lhe haviam indicado 
serem poucas as probabilidades de tais mtodos conduzirem ao resultado pretendido. No fora o remorso a det-lo, mas um sentido agudo de economia, que o impedia 
de desperdiar inutilmente tempo, esforos e sofrimento.
Este raciocnio contribuiu em muito para que Harry recuperasse a auto-estima. O que acontecera significava que Isambard estava seguro do silncio obstinado da sua 
vtima, mesmo sob tortura; verdade fosse dita, mais seguro at do que o prprio Harry se sentira, no pior momento. E tambm explicava as provaes menores por que 
passara e que lhe davam coragem para o futuro. Porque, se estivesse certo, aquela acalmia pressagiava um novo e menos directo assalto contra a sua pessoa e cabia-lhe 
a si preparar-se para ele.
Mas, apesar de tudo, naquela manh, sentia-se quase alegre. Haviam voltado a trazer-lhe luz, mantas e comida e cada movimento fazia-o sentir uma conscincia aguda 
da elasticidade dos msculos ainda doridos, da forma harmoniosa e admirvel como as articulaes se dobravam. De repente, cada um dos seus dedos passara a ser uma 
maravilha e um motivo de alegria. Agora, que brilhavam como pontos de luz por entre uma escurido esmagadora, todos os prazeres eram importantes. No confiava em 
ningum nem esperava nada, mas os pequenos deleites que lhe surgiam pela frente por acaso mereciam ser apreciados.
Com os sentidos bem alerta, Harry ficou  espera do que viria a seguir; e o que veio era to transparente que lhe foi difcil no se

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rir resolvendo antes tirar partido de um estratagema que no enganaria nem mesmo uma criana de colo. Dois dos seus guardas mais jovens e mais simpticos comearam 
a passar muito do seu tempo, de dia e de noite, na cela de Harry, para melhor o vigiarem. Isambard pensava por certo que um rapaz de quinze anos daria mais facilmente 
a sua confiana, ou pelo menos uma pequena parte dela, a pessoas com uma idade prxima da sua e que haviam recebido ordens para conquistarem as suas boas graas. 
Mesmo que no estivesse disposto a trair directamente o seu segredo, Harry poderia deixar escapar alguma coisa que lhe desse uma pista. Mas isso no iria acontecer! 
Tanto mais que estava de sobreaviso.
Harry acolheu-os de braos abertos, conversou livremente com eles, jogou s damas com o mais novo e aprendeu a jogar gamo com o mais velho. Apreciava a companhia 
deles, mas no lhes contou nada. Quando Isambard, veio fazer-lhe a pergunta habitual, formulada com um sorriso seco e impessoal, como se a breve agitao da noite 
anterior no houvesse ocorrido, Harry respondeu da forma tambm habitual, sem sentir o medo a revolver-lhe o estmago. A resposta foi aceite sem comentrios. O senhor 
de Parfois deu meia volta e foi-se embora.
No dia seguinte, e no outro, a cena repetiu-se, sem que nada acontecesse. Harry sentia-se pouco -vontade com aquela calma anormal mas foi tendo cuidado com a lngua 
e esperou. Na tarde do quarto dia, os seus guardas irromperam subitamente na cela e ordenaram-lhe que se levantasse e sasse com eles.
- Onde me levais? - perguntou Harry, sentindo o j familiar n no estmago.
Era evidente que a experincia com os guardas fora abandonada por no produzir resultados. Que viria a seguir?
- Vais ser mudado l para cima - anunciou um dos guardas, sorrindo perante a sua desconfiana. - Boa cama, bom ar e o espao todo para ti. Vais sentir-te como se 
estivesses num palcio.
Perversamente convencido de que ia ser transferido para um buraco frio e hmido, onde nem sequer poderia pr-se de p ou deitar-se ao comprido e onde ficaria acorrentado 
no escuro, Harry sentiu que a coragem lhe faltava. Mas, quando o levaram para o piso

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mais alto da Torre da Guarda e o fecharam na sua nova priso, verificou com espanto que eles haviam dito a verdade. Havia uma boa cama, junto a uma das paredes do 
pequeno quarto quadrado, um banco, uma mesa de madeira macia e at uma braseira. O mais maravilhoso de tudo era a janela, estreita, com grades e sem portadas; mas 
se deixava entrar o vento tambm deixava entrar a luz e o sol. Dormira muitas vezes em stios piores, quando escoltava David, nas suas viagens sazonais por Gwynedd.
De p no meio do quarto, Harry olhou em torno de si, desconfiado, morto por saber porque mereceria tais favores. Estaria Isambard a tentar lev-lo a ceder pela gentileza? 
A sua estratgia mudava com uma rapidez desconcertante, mas uma coisa era certa: tudo quanto ele fazia tinha em vista a mesma finalidade. Quando aparecesse, nessa 
noite - tornara-se quase impensvel haver uma noite em que ele no aparecesse - talvez Isambard deixasse escapar uma palavra que explicasse o porqu daquela mudana.
O senhor de Parfois visitou Harry mais tarde do que era costume. O seu rosto apresentava-se sereno; Harry nunca o vira to contente. Isambard inspeccionou a diviso 
e pareceu satisfeito.
- Ests confortvel aqui, Harry? Precisas de alguma coisa?
- Preciso da minha liberdade - replicou Harry.
- Errado, rapaz. Tu queres a tua liberdade, no  uma necessidade. Vieste at aqui por tua livre vontade e vais ter de ficar em obedincia  minha. Mas, embora em 
cativeiro, podes pelo menos estar confortavelmente instalado.
Afastou-se da janela, que ficava  altura da sua cabea, e aproximou-se de Harry.
- Volta-te para a luz. Assim!
Ergueu a mo e os seus dedos, bruscos e impessoais, que no entanto tinham um toque surpreendentemente leve, apalparam a ferida que o chicote de de Guichet deixara 
na face macia.
- Est a fechar bem. A tua carne sara com facilidade e no vais ficar com uma cicatriz.
- Estais preocupado com a minha cara? - perguntou Harry, com um trejeito irnico.

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- O que me interessa  que ningum a estrague a no ser eu. Tu s a minha presa e de mais ningum. De Guichet  zeloso, mas tende a exagerar. A proporo  fundamental, 
como por certo aprendeste na tua arte, e os excessos so quase sempre desnecessrios, como acontece neste caso. - Sorriu e afastou-se sem pressas. - Se precisares 
de alguma coisa, podes pedir. Vou deixar-te descansar. Boa-noite, Harry!
Era inconcebvel, mas estava a acontecer. Isambard encontrava-se junto  porta, ia-se embora sem fazer a pergunta. Era mais do que Harry era capaz de suportar.
- Senhor!...
Isambard voltou-se, de cenho franzido, numa interrogao. A satisfao que se lia nos seus olhos gerou uma leve centelha de malcia e divertimento.
- Sim?
- Que jogo  este que vos apraz jogar comigo? Encarcerais-me debaixo do solo, ameaais-me com a fome e a tortura, perguntais e voltais a perguntar sempre a mesma 
coisa e depois, de repente, isso acaba. E sem razo! Depois de tanto perguntar o mesmo, no haveis nada a perguntar agora?
- Ah, isso! - respondeu Isambard, sorrindo. - No te preocupes mais com isso, Harry. No vais voltar a ser incomodado.
- No?... - Apanhado de surpresa, Harry ficou boquiaberto. - Se vos arrependeis das vossas...
- Eu nunca me arrependo, Harry. No  preciso aborrecer-te mais. Eu sei aquilo que queria saber.
- Sabeis?
Era um truque, s podia ser um truque. Todavia, a voz de Isambard, o seu sorriso e, at, o contacto da sua mo, transmitiam uma espcie de quietude satisfeita.
- No acredito! - exclamou Harry com violncia. - No podeis saber. Quem mais poderia dizer-vos? E eu sei que nunca conseguistes arrancar-me uma palavra.
- Ests certo disso? - perguntou Isambard, com um sorriso suave a provocador.
- Cuidais que deixei escapar alguma coisa diante daqueles vossos servos que registavam tudo o que eu dizia? No, senhor, no

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conseguis enganar-me. Eu sei o que disse e o que no disse. Estou to certo disso como da morte.
- Est bem, tu ests seguro.  bom possuir convices assim, slidas que nem uma rocha. Invejo-te. Boa-noite, Harry!
Ele no podia ir-se embora assim. Harry correu para ele e agarrou-lhe no brao, cravando desesperadamente os dedos nas pregas da manga ampla de veludo.
- Mentis! Tem de ser mentira. No podeis saber. Eu nunca disse uma palavra que me trasse. Mal acordava, ficava logo alerta...
- E a dormir? - perguntou Isambard, sorrindo. - Ningum sabe aquilo que pode deixar escapar a dormir, Harry. Alguma vez pensaste nisso?
Harry s queria gritar desdenhosamente que era tudo mentira, mas a terrvel verdade cortou-lhe a respirao. Como podia ele, como podia quem quer que fosse, estar 
seguro do seu silncio durante o sono? Com um peso to grande no esprito, no poderia ele haver murmurado alguma referncia confusa, enquanto dormia? A sua mente 
rebelava-se furiosamente contra tal ideia mas ela voltava para instalar a dvida. Como podia estar certo?
- Eu no te disse que havia de saber o que queria por ti e por mais ningum? - insistiu Isambard, rindo da sua expresso acabrunhada.
Sem brusquido, libertou a manga dos dedos do rapaz, virou-lhe as costas e saiu calmamente.
A porta que fora aberta apressadamente para ele sair rangia ruidosamente, quando Harry conseguiu arrancar-se ao nevoeiro de dvida e consternao e correr em sua 
perseguio, num ataque de raiva e desespero.
- Demnio! Demnio! Corvo maldito!
Agarrou-se ao batente da porta que se fechava, mas o cabo de uma lana encostado brutalmente s suas costelas, atirou-o para trs sem flego e a porta fechou-se 
diante do seu rosto desfeito. Ouviram-no bater furiosamente na almofada da porta e gritar em voz rouca:
- Que quereis dele? Se ofenderdes os restos mortais do meu pai, eu mato-vos. Ouvis-me, Isambard? Eu mato-vos! Deixai-o em paz, demnio! Deixai-o em paz!

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Isambard parara no corredor, virando-se, de sobrolho ligeiramente franzido, tentado a voltar atrs. Mas acabou por no o fazer. Limitou-se a esperar durante algum 
tempo,  escuta, at que, a pouco e pouco, a torrente de provocaes comeou a ser bizarra-mente entrecortada e atenuada por splicas. Ento, sorriu, satisfeito 
com o seu poder de persuaso. Por fim, a voz abafada por trs da porta deu lugar a um silncio de desespero.

CAPTULO SETE

Parfois: Dezembro de 1230 a Janeiro de 1231

De manh, quem lhe levou comida no foi nenhum dos homens de armas, mas um jovem que Harry nunca vira e que, pelo seu aspecto, devia ocupar um lugar por trs da 
cadeira de Isambard, no salo nobre, ou estar afectado ao seu guarda-roupa para o ajudar a vestir-se. Era loiro, tinha um rosto bonito e atrevido, no devia ter 
mais de dezassete anos e os seus modos para com os guardas, na antecmara, indicavam que devia ocupar uma posio privilegiada. Era provavelmente um pajem pertencente 
a uma famlia de cavaleiros, pensou Harry, olhando-o distraidamente, atravs da cortina opaca das suas prprias preocupaes. O jovem dirigiu-se-lhe com uma condescendncia 
amistosa e obteve uma resposta taciturna.
- Podias ser bem-educado - disse o jovem, ofendido. - Eu no te fiz mal nenhum.
- Pois no, eu sei. Peo desculpa - retorquiu Harry, arrancando-se  letargia e ao desespero.
Ficara acordado toda a noite, remoendo dvidas e medos, incapaz de encontrar uma sada que lhe desse alguma esperana. Daria tudo para acreditar que Isambard mentira. 
Mas por que haveria ele de mentir? S para o atormentar? No podia haver outro motivo e,

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todavia, isso no se quadrava com a placidez do seu rosto e da sua voz, nem correspondia  imagem que Harry comeava a formar. Tudo quanto Isambard fazia era feito 
com mtodo e tinha uma finalidade. E, se estivesse a dizer a verdade, que terrvel dano haveria ele causado involuntariamente e que profanao cruel e incompreensvel 
iria resultar da? Fora feito prisioneiro, estava impedido de agir e com os nervos abalados pelos muitos e amargos pensamentos que ocupavam a sua mente. Oprimido 
pela teia de ansiedades e medos, observou aquele rapaz de aspecto bem cuidado, afvel, bem-intencionado e perguntou a si mesmo por que haveria de fazer o esforo 
de lhe responder, cortesmente ou no.
O pajem sentou-se no banco, ao lado de Harry, e, num gesto cheio de confiana, assentou os braos sobre a mesa. A porta pesada do quarto fechou-se mas, apesar disso, 
ele baixou a voz, reduzindo-a quase a um murmrio, e disse:
- E podia ser bom para ti escutares-me. A menos que queiras apodrecer aqui. A mim pouco me importa, se queres ou no falar comigo como deve ser.
O rosto desconfiado de Harry voltou-se lentamente para ele. O jovem riu-se, embora sem maldade, ao ver o olhar de dvida.
- Que queres dizer?
A voz de Harry denotava m vontade: no queria alimentar esperanas, depois de tantas confuses e frustraes.
-  melhor comeres. Isso d-me uma razo para ficar aqui. E se, at amanh, mostrares algum juzo, bem vais precisar de te alimentar.
No soava como uma ameaa; as suas palavras pareciam mesmo conter uma espcie de promessa. Harry puxou o prato de madeira para si e partiu o po.
- Tu s um homem dele - replicou, sombriamente.
- Ento, no me oias, j que s to desconfiado. Eu no sou um homem de Isambard. Sou to livre como ele e, se queres saber, o meu pai  cavaleiro ao servio de 
Gloucester, e no dele. Alm de mal-educado, s parvo.
Ressentido, o jovem empinou o nariz, pequeno e bem desenhado, e levantou-se de um salto, mas Harry segurou-o pela manga.

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- Est bem, no te ofendas! Estou to abatido que desconfio de todas as pessoas que se aproximam de mim. Que querias dizer? Deus sabe que no quero apodrecer aqui, 
se descobrir uma maneira de fugir.
Apaziguado, o pajem voltou a sentar-se. O rosto que, num gesto de confidencialidade, se inclinou para Harry brilhava de triunfo e auto-satisfao.
- Ele confiou-me a tarefa de velar pelas tuas necessidades e de te fazer companhia. Ests autorizado a, de vez em quando, ir comigo at ao terreiro, para apanhar 
ar e fazer exerccio. Mas no penses que te vo deixar ir alm das torres de vigia. Nunca ningum foi. No h maneira de sares por ali. - Em seguida, num murmrio 
quase inaudvel, acrescentou: - Mas eu conheo uma maneira.
Harry susteve a respirao e o seu corao cedeu  esperana.
- Uma maneira de sair de Parfois? Para mim? S de pensar nisso comeou a tremer.
O rapaz louro retirou a mo fechada da abertura da cota e abriu-a orgulhosamente, junto  beira da mesa, revelando um pequeno selo de bronze cinzelado.
- Sabes o que  isto?  o selo pessoal de Isambard, aquele que ele s vezes utiliza para conferir autoridade aos seus mensageiros pessoais. Entregou-mo para eu poder 
entrar aqui e sair  vontade. Quem o usa - acrescentou baixinho, num tom importante - pode ir onde lhe aprouver e dar as ordens que quiser, dentro de Parfois, sem 
ningum lhe fazer perguntas.
- Com selo ou sem selo, podes estar seguro de que te faziam perguntas, no posto da guarda, se eu fosse contigo - observou sombriamente Harry.
- Eu sei. Mas ns no vamos passar pelo posto da guarda. Eu conheo outra maneira de sair de Parfois. No  usada h anos, mas ainda  praticvel, se soubermos procur-la. 
H uma sada por baixo da rocha. E o velho Ralf no sabe que eu sei onde fica. Que dizes tu a isto? - perguntou, inclinando-se para trs, radiante de triunfo.
- Deixavas-me sair? - sussurrou Harry, com a boca seca. - Porqu? Porque farias tal coisa? E como? Mal descobrissem que eu havia fugido, a tua vida no valeria nada.

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Era uma armadilha. Tinha de ser uma armadilha. Todavia, se houvesse a mnima hiptese de a oferta ser sincera, como gostaria de a aproveitar!
- Mas eu tambm me vou embora! No ficarei aqui para ser interrogado e acusado. Quer venhas comigo quer no, vou sair de parfois esta noite. Foi graas a ti que 
me foi dada esta oportunidade, porque no haveria eu de partilhar os seus benefcios contigo? Mas, se no confias em mim, deixa-te ficar e vai para o diabo. Que 
me importa?
- Espera. No  preciso ofenderes-te com tanta facilidade - implorou Harry. - Confiarias facilmente em algum, se estivesses no meu lugar? Porque te vais embora? 
Que maus-tratos recebeste tu aqui?
Involuntariamente, os seus olhos detiveram-se nas vestes ricas que o seu visitante envergava, no seu aspecto prspero. O rapaz riu-se, com um certo agrado.
- Ningum me maltratou. Mas no gosto de estar aqui e as razes para querer partir so muitas. Se quiseres, conto-te. O meu pai  Sir Humphrey Blount, cavaleiro 
do conde Gilbert de Gloucester, que morreu no ms passado. O meu irmo mais velho quer casar com uma rapariga que eu conheo, e a minha famlia tambm quer o casamento, 
mas ela gosta mais de mim, eu gosto dela e os pais dela no vo obrig-la a casar contra vontade. Por isso, no Vero passado, quando foi obrigado a partir, o meu 
pai pensou que era melhor mandar-me para aqui, para junto de lorde Isambard, para me afastar dos calcanhares do meu irmo, at ele haver casado com Isabel. O velho 
Ralf gosta de mim e, desde que estou aqui, sempre me mostrei muito servial e prudente. Eles cuidam que estou resignado, mas a verdade  que s esperava uma oportunidade 
como a que tu me proporcionaste. At agora, s estava autorizado a ir alm dos terreiros sob escolta, e sei que devo isso ao meu pai. Chegar  passagem que eu sei 
existir no  fcil mas, agora, com esta chavinha, posso abrir todas as portas. Decidas tu o que decidires, vou-me embora esta noite.
- Mas o teu pai vai mandar-te de volta para aqui - observou Harry, ainda na dvida. - Para qu ento? Ou isso ou manda-te para outro lado qualquer, para longe do 
teu irmo.

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- No manda, porque este Vero, depois de me haver colocado aqui, tomou a cruz e foi juntar-se ao bispo de Winchester, na Terra Santa - contraps o jovem Blount, 
muito satisfeito. - E a minha me est do meu lado e h-de dar a volta ao meu tio. No tarda nada, estarei noivo de Isabel. Para os pais dela, tanto faz que ela 
case comigo como com o Humphrey e ela j manifestou qual era a sua preferncia.
O quadro era to completo que comeava a tornar-se convincente e, no peito de Harry, o corao comeou a bater com mais fora, cheio de esperana e receio.
- Ests a falar a srio? Levas-me contigo? - perguntou Harry, agarrando a mo fina que segurava o selo de Isambard.
- Porque no? No devo nada ao velho Ralf. No fui eu que lhe pedi para ele confiar em mim e nunca jurei ser-lhe leal. Mas, quando chegarmos l fora, no vou poder 
ajudar-te. Vou direito a Shrewsbury e sei onde posso arranjar um cavalo quando l chegar.
- Depois de estar l fora, no preciso de ajuda - sussurrou Harry, pensando ansiosamente na sepultura junto  igreja de Strata Marcella, com uma pequena folha esculpida 
na pedra tumular ameaada.
Se Isambard no houvesse mentido, talvez j fosse demasiado tarde.
- Leva-me para fora destas muralhas e eu trato do resto. E ficar-te-ei grato para o resto da vida.
- Ateno - advertiu o pajem. - A descida  difcil, mesmo depois da ravina. Precisamos de ir de noite para no sermos vistos. A descida pela encosta Leste, que 
 para onde eu vou,  um pouco menos ngreme mas, do outro lado, a descida  muito escarpada e arriscada. Para que lado vais tu? Voltas para o Pas de Gales?
- Volto. Mas eu conheo o caminho. J subi por ali. Leva-me para fora das muralhas:  s o que te peo.
Harry comeara a tremer. Odiava pensar nas longas horas que o separavam do momento por que tanto esperara.
- Quando partimos? - perguntou.
- Logo depois da ceia. Seno, eles vo ficar de sobreaviso por eu vir ter contigo. Vou dizer que recebi ordens para te levar ao velho

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Ralf e os guardas vo acreditar. Mas agora cautela, estamos a falar demasiado alto e eu j estou aqui h muito tempo.
Blount levantou-se e presenteou Harry com um sorriso de conspirador nato.
- Volto aqui  tarde, depois de estar tudo preparado. Juro que estou muito contente por haveres deixado de pensar que eu estava a estender-te uma armadilha - acrescentou, 
num sussurro. - No estou habituado a que desconfiem de mim. Juro que nunca mais volto a ver a Isabel, se no te levar, so e salvo, para fora de Parfois. Que dizes? 
No  a melhor jura que posso fazer?
No ltimo instante, quando a luz deixou de se filtrar pela janela com barras, quando os sons do terreiro quase se haviam extinguido, Harry foi assaltado pelo medo 
de que, afinal, aquela noite acabasse por ser igual a todas as outras e de que Isambard entrasse na sua cela, com o seu sorriso de escrnio e as suas ironias sagazes 
que feriam como lminas. Mas, fiel  palavra dada, quem veio foi Thomas Blount, com o seu nariz empinado e a sua expresso de fanfarronice. Parou no limiar da porta, 
fazendo oscilar duas chaves que trazia na mo, e nem se deu ao trabalho de entrar.
- Recebi ordens para te conduzir aos aposentos privados de lorde Isambard. Podes acompanhar-me como um homem civilizado, se quiseres, mas aviso-te de que vamos ser 
seguidos por um arqueiro. Por isso, aconselho-te a no tentares escapar-te. Eras capaz de te arrepender.
Com um gesto imperioso, mandou afastar do seu caminho os homens de armas que se encontravam na antecmara e dirigiu-se para a sada, sem sequer voltar a cabea para 
ver se Harry o seguia.
- Faz uma expresso mais sombria, imbecil - murmurou dissimuladamente, quando chegaram ao terreiro exterior, escuro e frio. - E arrasta os ps. No vais a caminho 
de um casamento. No h nenhum arqueiro, podes estar descansado. Foi s um floreado, em benefcio dos guardas.
Ainda havia bastante gente no terreiro exterior mas, depois de atravessarem o arco para o terreiro interior, foram rodeados pelo silncio, quebrado apenas pelo rudo 
distante de passos. Harry nunca

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estivera ali. Diante de si, reinavam as trevas, povoadas por sombras gigantescas que se recortavam contra os merles do pano da muralha, dominados pelas bocarras 
da alta torre de menagem hexagonal. Flechas de luz brotavam das seteiras, cortando a noite e destacando a negro e branco as frestas abertas na cantaria.
- Onde vamos? - murmurou Harry, a tremer, ao lado do seu guia.
- A torre do velho Ralf, conforme disse. Ah, no te preocupes! - acrescentou, impaciente, ao sentir que os dedos agarrados  sua manga se contraam de clera e suspeita. 
- No vamos sequer aproximar-nos dele. Ele no vai incomodar-nos. Vamos  torre dele porque a porta que ns queremos fica ali. H outra na torre de menagem, que 
tambm poderia servir mas, com ou sem selo, era preciso inventar uma histria melhor para os convencer a darem-me a chave da torre de menagem. Esta abre a cave de 
vinhos do velho Ralf e esta a cave onde esto guardadas as melhores colheitas. Eu disse que ele queria um dos seus vinhos franceses preferidos. Como, esta noite, 
ele recebe um emissrio do chanceler, a histria era plausvel, apesar de ele nunca me haver mandado buscar vinho.
- H muitas portas entre a guarnio e a poterna, para os casos de ataque - observou Harry a meia voz.
- Parfois nunca foi atacado. Nunca foi preciso us-la. Mas o av de sua senhoria era um homem prudente e quis construir uma sada secreta, para o caso de vir a precisar. 
Chiu, o Langholme est a sair dos aposentos do seu senhor. Fica perto de mim e mostra-te amuado.
Blount fez rodar ostensivamente as chaves na mo para que todos vissem, saudou com amabilidade o escudeiro de Isambard e soltou umas gargalhadas que mais pareciam 
de uma rapariga, quando eles se afastaram.
- Ali para dentro! E logo a seguir para a direita, onde est muito escuro.
Como sombras, esgueiraram-se pela grande porta da Torre da Rainha e ao longo de um corredor escuro de pedra, at uma porta baixa, de carvalho, rasgada na parede 
interior. Thomas abriu-a com a maior das duas chaves e, retirando do suporte a ltima das

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tochas que ardiam no corredor, ps o p no primeiro degrau de uma estreita escada em espiral e, sem hesitar, comeou a descer para as profundezas.
- No fechas a porta  chave? Algum pode experimentar abri-la. E se eles quiserem mesmo vinho da cave?
- No. Primeiro, vou levar-te at  ltima cave e, depois, volto para devolver as chaves ao intendente. Se eu ficar muito tempo com elas, ele pode desconfiar. Por 
isso,  preciso deixar as portas abertas. Mas  menos arriscado do que ele vir  minha procura, daqui a um quarto de hora, como aconteceria de certeza.
- E as tuas coisas? Onde esto? Vais-te embora de Parfois de mos a abanar?
- Deus nos acuda - suspirou Thomas, magoado, mas paciente. - Nunca vi ningum to desconfiado como tu. Quando j fores a descer a montanha, ainda vais continuar 
a pensar que eu montei uma armadilha para ti, num lado qualquer. J que queres saber, h quatro horas que atirei o meu bornal por cima da muralha, para o bosque 
que fica l em baixo, do lado Leste da ravina. Achas que podia ir buscar-te com as minhas coisas debaixo do brao? Sei muito bem onde hei-de encontr-las depois. 
Vem.  por aqui.
A segunda chave levou-os a uma adega com arcadas de pedra. De tocha na mo, Thomas tacteou a parede por trs de uma pilha de barris de vinho e afastou as teias de 
aranha que cobriam uma porta baixa e insignificante.
-  aqui!
Thomas puxou os trincos ferrugentos, rodou a argola de ferro e a porta abriu-se com um rangido de protesto. Para alm dela reinava uma escurido avermelhada de grs; 
o ar era frio e cheirava a terra.
- Agora esperas aqui por mim, s escuras, enquanto eu vou devolver as chaves. E no penses que te fechei aqui, para morreres  fome. Aqui tens um penhor em como 
vais sair daqui. Toma, podes ficar com a minha bolsa at eu voltar. Podes estar certo de que no a quero perder.
- No preciso de penhores - respondeu Harry, envergonhado. - Eu espero.

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Apesar de lhe haver parecido uma eternidade, no precisou de esperar muito tempo. Thomas voltou passado um quarto de hora, muito satisfeito com as suas artimanhas 
e, juntos, cruzaram a pequena porta, fechando-a atrs de si. A partir desse instante, passaram a respirar melhor, sem medo de falar mais alto do que em murmrios 
e sem se preocuparem com o eco dos prprios passos. Parfois parecia haver ficado para trs e Harry quase perdera o receio angustiante de, a cada passo, poder aparecer 
algum que o agarrasse pelo ombro e o levasse de volta ao cativeiro.
Do tecto pendiam teias de aranha, mas a tocha abria caminho entre elas. O tnel estreito e baixo escavado na rocha era um caminho seguro e secreto pelo qual a guarnio 
poderia bater em retirada para Shrewsbury, em caso de ataque, receber mantimentos ou reforos, em caso de cerco, ou sair para contra-atacar o inimigo pela calada 
da noite.
- Isto vai dar ao lado Leste da ravina. Para desceres para Oeste, precisars de passar por baixo das torres de vigia. Aconselho-te a vires comigo e a dares a volta 
mais longe.
- No - recusou Harry, que j se estava a ver a descer os rochedos, na escurido, em direco ao Severn.
Seria melhor ir primeiro  cabana de Robert? No. Isso seria perder mais tempo do que aquele que ganharia e o cavalo de pouco lhe servia, porque ia seguir para jusante 
at ao vau. No. Amanh havia tempo para ir buscar o Barbarossa e rever os amigos. Esta noite, era preciso chegar o mais depressa possvel a Strata Marcella, certificar-se 
de que o tmulo do pai no fora violado e avisar o prior do malvolo interesse que a sepultura despertava em Isambard. Costumava haver um barco amarrado junto ao 
moinho e a corrente ajud-lo-ia a descer o rio e lev-lo-ia rapidamente aos terrenos alagadios perto da abadia. E se, por acaso, o barco no se encontrasse l ou 
estivesse demasiado bem acorrentado, iria a nado. O Outono fora seco e o nvel do rio devia estar bastante baixo. E o frio seria facilmente suportvel, por mor da 
causa em que estava empenhado.
- Como queiras - disse Thomas, com desenvoltura. - Se queres arriscar o pescoo  contigo mas, se  por uma questo de tempo, ests certo. Dar a volta levar-te-ia 
umas duas horas.

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O tnel por onde seguiam fora mudando gradualmente de aspecto, mas Harry no dera por nada, at ao momento em que tropeou numa das irregularidades rochosas do solo, 
at ento bem nivelado. Ergueu os olhos e a luz vacilante da tocha mostrou-lhe uma caverna abobadada que os instrumentos manejados pelo homem no haviam tocado. 
Encontravam-se numa cave natural profunda e a fraca luminosidade que agora quebrava a escurido provinha de uma estreita fresta que se abria para a noite de Dezembro.
-  melhor deixarmos a tocha aqui - observou Thomas. - Algum pode olhar da torre de vigia nesta direco e reparar no brilho. E, a partir daqui, no fales alto. 
Quando sairmos para a ravina, vai para a direita e, se te mantiveres junto aos rochedos, no haver nada a recear, pois a inclinao  bastante grande.
Harry tremia de alegria e alvio. At ao ltimo momento, receara uma armadilha mas, agora, estava prestes a sair para o ar livre, para o ar da ravina entre a igreja 
e o castelo, que to bem conhecia e que era protegida por rocha de um lado e do outro. O desaparecimento da luz da tocha, apagada contra a parede, deixou-o momentaneamente 
cego e foi a tactear que procurou a mo de Thomas para a apertar.
- Nunca vou esquecer-me do que fizeste por mim. Deus esteja contigo e espero que cases com a tua Isabel.
Saram para o ar frio e vivo da ravina, sob o cu estrelado. Era ali que se separavam, no canal rochoso: Thomas ia para a direita e Harry para a esquerda, em direco 
ao Pas de Gales. Abraaram-se, mas no disseram palavra, com medo de que o ar puro arrastasse consigo mesmo que fosse um sussurro. Thomas tremia de riso, como uma 
rapariga, mas, depois da experincia por que passara, Harry nunca mais seria assolado pelo riso com a mesma facilidade.
Soltaram as mos e mergulharam na noite.
Harry avanava lenta e prudentemente pela ravina, tacteando o caminho a cada passo, at os seus olhos se habituarem  obscuridade e serem capazes de avaliar as distncias 
e distinguir as formas das placas rochosas, desgastadas pela eroso, que iam surgindo sobre a sua cabea. A dado momento, apercebeu-se de que se encontrava por baixo 
das torres de vigia, porque avistou as formas redondas, negras

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e sem estrelas que os balestreiros projectavam contra o cu. Mas no ouviu qualquer som, nem mesmo o dos passos da sentinela no caminho da ronda entre as torres. 
Estava sozinho e a noite era sua.
A ravina era agora mais larga e, l no alto, a massa escura e imponente da muralha descrevia uma curva para a direita, afastando-se dele. Harry encontrava-se sobre 
a parede rochosa que j conhecia de anteriores escaladas e algures nas superfcies mais protegidas e lisas estavam os planos que ele desenhara e sobre os quais ponderara, 
vrios meses antes. Comeou a descer. Certo de que se encontrava agora suficientemente longe de Parfois para no ser ouvido, abandonou as cautelas e lanou-se encosta 
abaixo a toda a pressa. Por vrias vezes, feriu as mos e arranhou as canelas e, a certa altura, desequilibrou-se e galgou vrias jardas at que, no ltimo instante, 
conseguiu segurar-se, com os dedos, os joelhos e os calcanhares, tendo ficado assim suspenso sobre o vazio at recuperar o flego.
Mas a velocidade nunca lhe parecia ser suficiente. A esperana e a apreenso lutavam dentro de si e impeliam-no para a frente; s ficaria em paz quando chegasse 
junto do tmulo do pai e o encontrasse ainda intacto, o que significaria que Isambard mentira. Mas, mesmo ento, era preciso avisar os frades para ficarem de atalaia. 
O senhor de Parfois ditava as suas prprias leis. Se alguma vez descobrisse onde mestre Harry estava sepultado, nem o Severn, nem a fronteira do Pas de Gales e 
nem mesmo a santidade da igreja o impediriam de perseguir os mortos com o seu dio vivo e virulento.
Aos rochedos seguiram-se terras desoladas onde cresciam ervas e arbustos. Conseguira completar a descida ao preo apenas de meia dzia de arranhes. Harry conhecia 
aquelas pastagens de carneiros e os bosques que ficavam ao fundo. Chegou ao rio bastante depressa e, a partir dali, havia um carreiro que ia dar ao moinho. O barco 
estava l, amarrado, a oscilar ao sabor do movimento suave das guas. No estava preso com correntes; dando graas por isso, Harry desamarrou-o sem rudo.
Ia a meio da corrente quando as nuvens que haviam ocultado a Lua se afastaram, deixando ver  distncia, do outro lado do rio, os contornos imponentes e graciosos 
da Strata Marcella, que pareciam

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carneiros a pastar num prado prateado. Harry manobrou at chegar  corrente da margem, deixou-se arrastar at junto da igreja e, ento, acostou o barco e saltou 
para terra.
Uma vez ali, baixou a cabea e lanou-se numa corrida veloz, tropeando nos tufos de ervas que surgiam diante dos seus ps, recuperando o equilbrio e seguindo em 
frente. Chegou  sepultura annima, como um pombo que regressa ao pombal, e caiu de joelhos junto dela, com um profundo suspiro de alvio. O solo no fora remexido 
e a pedra no fora violada. Isambard mentira. Estava absolvido: no faltara ao seu dever, nem acordado nem em sonhos.
A tenso acumulada abandonou o corpo de Harry. Encostou a cabea  pedra e, de sbito, sentiu-se to cansado e to satisfeito que lhe pareceu que no havia mais 
nada a desejar na vida nem mais nada por que tivesse de lutar. Tencionara dizer uma prece de agradecimento pela sua fuga e pela graa concedida mas apenas conseguiu 
estender os braos sobre o tmulo, num gesto protector, e ficar ali, respirando a plenos pulmes, abraando o pai, to sereno e apaziguado como se se houvesse lanado 
nos braos vivos de mestre Harry.
Por trs de si, a erva agitou-se quase sem rudo; mas Harry ouviu e ergueu vivamente a cabea. As nuvens tinham voltado a avanar em direco  Lua e as suas sombras 
incidiam sobre as pedras tumulares dos abades, encobrindo a aproximao dos homens que o haviam seguido desde o rio. Eram seis e rodeavam-no em crculo, cercando-o 
por todos os lados.
Harry abriu a boca para lanar um grito de alerta aos frades, que repousavam no dormitrio distante; se no houvesse passado muito tempo depois das laudas, talvez 
estivessem a acordar e o ouvissem. Mas, antes de poder emitir um som, uma mo tapou-lhe a boca e um brao prendeu-lhe por trs o ombro e o torso, imobilizando-o 
contra um peito forte. Embrulharam-no num manto para o impedir de se debater e amordaaram-no com fora, com as pregas do manto.
Isambard avanou sem pressas para a zona, cada vez menor, iluminada pelo luar, at ficar cara a cara com o rapaz imobilizado e amordaado. A pele esticada e lustrosa 
das mas do seu rosto e a

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testa bem desenhada apresentavam um brilho dourado; os olhos encovados luziam. Sorria como um demnio feliz, quase com ternura.
- Muito bem, Harry! - disse docemente. - Eu no te disse que ia obter a resposta por ti e por mais ningum?
Por um longo momento, continuou a sorrir, fitando os olhos enraivecidos que o teriam morto se pudessem. O seu olhar percorreu o crculo dos seus servos e, em seguida, 
fixou-se na pedra tumular nua e annima, no momento em que um ltimo raio de luar iluminava o pequeno desenho da folha nela gravada. Ento, inclinou-se e seguiu 
demoradamente os contornos da folha com a ponta de um dedo.
- Levai-o! - ordenou, por cima do ombro, sem voltar a cabea. - J me disse o que eu queria saber.

Antes do amanhecer, brilhavam ainda algumas estrelas, todavia j tingidas pela fraca claridade dourada do sol que ainda no nascera, Aelis saiu de casa e mergulhou 
na noite glacial para fazer a ronda das suas armadilhas para coelhos, no alto da colina. A jovem viu a pequena procisso de cavaleiros a subir a encosta, em direco 
a Parfois, e embrenhou-se entre as rvores para ver mais de perto, porque lhe parecera que o quinto cavaleiro - o do meio - ia amarrado e que quem segurava as rdeas 
do seu cavalo, era o que seguia ao seu lado. O grupo passou perto dos arbustos atrs dos quais ela se ocultara: quatro homens envergando librs da casa de Isambard 
e um, mais pequeno e mais magro do que eles, estreitamente apertado numa capa escura, a parte inferior do rosto encoberta e os ps amarrados por baixo da barriga 
do cavalo.
Bem podiam ocultar-lhe o corpo e o rosto, mas ningum era capaz de esconder Harry Talvace de Aelis. Bastar-lhe-ia olhar para a sua silhueta e para a sua cabea, 
mesmo que encoberta e imobilizada, para o reconhecer fosse onde fosse. Sempre a coberto da vegetao, Aelis seguiu o triste cortejo at este passar o primeiro posto 
da guarda e desaparecer na rampa ladeada de rvores. Depois, deu meia volta, recolheu os coelhos das armadilhas e correu para casa, levando consigo a m nova.
Onde poderia haver estado Harry durante todo aquele tempo, at ela o ver, naquele dia, ser levado como prisioneiro para Parfois?

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Que fizera, onde dormira, quem lhe dera de comer? A primeira e nica certeza era que ele atrara sobre si a clera de Isambard e fora levado para o cativeiro. E, 
mesmo que o prncipe de Gwynedd mandasse um exrcito para o libertar, como iriam eles tir-lo daquela fortaleza inexpugnvel? Aelis recordou-se dos planos que Harry 
traara na pedra, da sua intensa concentrao e, pela primeira vez, compreendeu que toda aquela obstinao era totalmente dedicada  ideia de entrar em Parfois. 
Mas, agora, ia ser preciso um milagre de engenho para o fazer sair de l.
Quem lhe dera haver trancado a porta atrs da qual ele mudara de roupa, naquele dia de Novembro, retendo-o em casa, at o pai dela chegar! Antes de mais, nunca deveria 
haver permitido que ele se escapasse para Pool: deveria haver-se agarrado a ele, na floresta, e gritado pelos homens para eles o dominarem. Seria prefervel ser 
alvo da sua clera e do seu desagrado do que deix-lo cair nas garras do senhor de Parfois.
Sem motivo aparente, lembrou-se de repente da ndoa negra no rosto de Harry, da ligeira cicatriz que ele tentara esconder-lhe e comeou a chorar enquanto corria.
Menos de uma hora depois, Robert partia rio acima, em direco ao vau de Pool, para levar a notcia ao castelo de Castell Coch, na outra margem do rio. E a manh 
no terminara ainda quando um mensageiro partiu para a corte de Llewelyn, em Aber.
Harry ficou deitado na cama todo o dia, sem dizer palavra a nenhuma das pessoas que vieram v-lo, sem comer nem beber. A noite, Isambard em pessoa abriu a porta 
do quarto e, apesar de mergulhado no seu inferno pessoal de dio, desespero e auto-recriminao, Harry soube quem acabara de entrar e ps-se de p, numa posio 
rgida. No voltara sequer a cabea  entrada de ningum mas, na presena do seu inimigo, agora verdadeira e irrevogavelmente seu inimigo pessoal e no apenas o 
inimigo de seu pai, endireitou as costas e ergueu a cabea.
-  verdade o que ouvi dizer? - perguntou Isambard, no tom de voz extremamente corts que costumava utilizar para dar ordens. - Recusas-te a comer e viras as costas 
ao mundo? Nenhum homem

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deve agir assim, a menos que se envergonhe dos seus actos. Ests envergonhado? No vejo nenhuma razo para tal.
- E vs, senhor? - retorquiu Harry, entre dentes.
- Toda a gente sabe que no sou dado a vergonhas. Mas por que hs-de tu de culpar-te por haveres sido enganado por uma artimanha bem preparada e por um grande mentiroso? 
O Thomas mente com a mesma naturalidade com que os outros homens respiram e, se alguma vez dissesse a verdade, estaria a ser infiel a si prprio. Pode no ser uma 
virtude, mas h alturas em que  uma vantagem. Ele e eu deveramos estar de cabea baixa, no tu.
- Que tencionais fazer, depois de me haverdes levado a cometer esta traio? - perguntou Harry, lanando-lhe um olhar feroz, sob as sobrancelhas franzidas. - Se 
tocardes na sepultura do meu pai, se o desonrardes, juro por Deus que no me darei descanso enquanto no vos matar. No h nome vil bastante para as pessoas como 
vs, senhor, que cospem o seu dio sobre os mortos. Que mal vos h ele feito, enquanto vivo, que no podeis ter a generosidade de o deixar descansar em paz, depois 
de morto?
- Um grande mal - respondeu Isambard, com um sorriso sombrio. - Um mal to grande que, nem mesmo agora, nenhum de ns pode deixar o outro em paz. Mas, neste momento, 
a nossa preocupao s tu. E esse  um problema diferente. Ests muito enganado, rapaz, se cuidas que vou permitir que mergulhes nessa tua vergonha idiota e envenenes 
o corao at morreres de desespero. Agora, vais levantar-te e pr-te apresentvel... vou encarregar a 1 rouparia de arranjar roupas que te sirvam... Vens jantar 
na minha mesa e ocupar o teu lugar entre os teus pares. Vais portar-te como um homem e como um Talvace e no como uma rapariguinha doente e amuada. 
- No! - exclamou Harry.
O espanto transformara a exclamao num grito de dor ardente. 
- Mas eu digo que sim. Vens, rapaz, porque, se no vieres, mando que te arrastem  fora at l. E vais comer, porque, juro por Deus, que, se recusares, mando algum 
meter-te a comida pela garganta abaixo, como se faz para tratar de um co doente. Vais suportar a tua humilhao... j que no h nada que te convena de que

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ela no existe... em silncio e com valentia, como muitos outros homens foram obrigados a aprender a fazer. E, por mais mentiroso que ele seja, vais pr de lado 
a tua querela com o jovem Thomas e abster-te de lhe apertares o pescoo. Ele no  capaz de medir foras contigo e no quero que seja castigado por fazer bem a nica 
coisa que sabe fazer. Ests a ouvir?
Com um gesto imperioso, Isambard tocou ao de leve no rosto de Harry, para o obrigar a virar-se para ele. Os dois trocaram um longo olhar. Isambard sorriu.
- Deixa a caa mida em paz, Harry. Guarda esse belo e vigoroso dio para mim. Aqui, sou eu o nico inimigo digno da tua adaga.

CAPTULO OITO

Aber, Parfois: Janeiro a Abril de 1231

Deus  testemunha de que isto no poderia acontecer em pior altura - disse Llewelyn, tamborilando com os dedos compridos nos braos da cadeira, num ritmo rpido 
que denunciava sempre as angstias com que se debatia. - Bem, faremos o melhor que pudermos. Em memria do seu pai, o meu dever para com Harry  sagrado, mesmo que 
no lhe quisesse como se fosse do meu sangue... e Deus sabe quanto lhe quero.
- Bem sei que assim , senhor - disse Gilleis em voz baixa. Sim, sabia-o e nunca o culpara. Porm, era culpado: nunca fora sua inteno magoar ou assustar o rapaz, 
mas o que fizera estava feito e no podia ser desfeito. Pelas janelas abertas, Llewelyn olhou para o cu cinzento de Janeiro sobre o estreito, onde as ilhas haviam 
desaparecido sob um nevoeiro gelado. O mar gemia e chorava sem descanso sobre os baixios, a mar enchente sussurrava sobre o local onde a tragdia se consumara. 
Durante a ltima Primavera, quando o que j no podia ser desfeito fora feito... O destino do rapaz era a ltima e a menor das reverberaes daquele trovo catastrfico, 
embora no a menos lamentvel.

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- Mais cedo ou mais tarde ele havia de partir - disse Gilleis.
- Durante estes ltimos trs anos, a mais pequena coisa poderia
lev-lo a partir e o resultado final seria o mesmo.
No pronunciara uma palavra de censura. Como poderia Gilleis censurar a educao galesa tradicional que Harry recebera, quando ela prpria no se sentia totalmente 
inocente? Quisera proporcionar-lhe segurana e proteco, mas tambm desejara vingana. Agora, abdicaria de todos os ressentimentos que ainda sentia, de todos os 
dios persistentes e amargos, para ter o rapaz de volta  bancada de Adam, simplesmente a cortar pedra.
- O local  inexpugnvel - disse David, sombriamente. - No h maneira de aproximar as mquinas de cerco das muralhas.
- Se no  possvel, no posso atacar. No estou em posio de entrar em guerra com nenhum dos senhores das Marcas. O meu dever , em primeiro lugar, para com Gales 
e, neste momento, j so suficientes os perigos que ameaam Gales. Deus me livre de lhes acrescentar um outro. De Burgh vem sendo digno e amistoso no seu trato connosco, 
mas est a esmagar as fronteiras  nossa volta com as duas mos. Nem no prprio rei me agradaria ver tamanha ambio por terras e castelos... e este homem  muito 
mais perigoso do que o rei.
- Mas no  um guerreiro - disse Owen, com um ligeiro esgar, lembrando-se do Kerry,
Absorto, Llewelyn esboou por breves instantes o seu sorriso radioso.
- Isso  apoucar a nossa proeza. Reconheo que conseguimos det-lo uma vez, e voltaramos a faz-lo; mas no penseis nunca que haveis visto o verdadeiro de Burgh 
no Kerry. Ele  capaz de muito mais. No  o guerreiro que devemos temer. De Burgh consegue as suas conquistas sem batalhar por elas e ns vamos ficando cada vez 
mais cercados. Se a concesso vier a ser confirmada - e s-lo- - de Burgh haver conseguido um novo senhorio das Marcas, com poder sobre Cardigan e Carmarthen. 
H um ms apenas, sabei-lo to bem como eu, obteve duas vitrias sem desferir um golpe. John de Breos, em Gower, j no  feudatrio da Coroa mas sim do novo feudo 
de de Burgh. E depois da morte de Gilbert de Clare na Bretnha,

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no regresso da campanha em Frana, o condado de Glouces-ter e todas as terras que lhe pertenciam foram herdadas por uma criana. Ora, esse rapaz e esse ttulo foram 
entregues a de Burgh, o que faz dele senhor de Glamorgan. O que Marshall deixou que restasse de Gales, no Sul, est a ser devorado por Hubert e ser apenas uma questo 
de tempo at ele comear a mover-se para Norte. Sinto uma comicho neste brao, com que manejo a espada, que me diz que no falta muito.
- Talvez fosse melhor atacar primeiro, antes de o tempo se esgotar por completo - opinou David. - Vamos acabar por ser forados a faz-lo.
- Talvez fosse, mas no Parfois, a Oeste, e no neste momento. Quando chegar a nossa hora, precisarei de uma boa causa, de todos os meus homens e de toda a minha 
velocidade. No posso tocar em Parfois. Se enviasse as minhas tropas contra um senhor da fronteira, por causa de uma querela privada, estaria a lanar Gales nos 
braos de Hubert. Na melhor das hipteses, dar-lhe-ia a oportunidade de atacar em qualquer outro stio enquanto eu estivesse de costas voltadas, e na pior... e ele 
no deixaria de o notar... dar-lhe-ia um pretexto para voltar contra mim todo o poder real. Hubert ordena e Henrique obedece.
- Isso  verdade - reconheceu Owen.
Nem mesmo pelo jovem Harry se poderia pedir a Llewelyn que abandonasse Gales, que pertencia por direito a David. E ningum ficaria mais amargamente indignado se 
ele o fizesse do que o prprio Harry, que tinha mais orgulho no seu prncipe e era mais cioso dos direitos deste do que os familiares directos de David.
- Mas a fronteira est cheia de foragidos e se mais uns quantos se juntarem a estes, nos prximos dias, quem poder censurar-vos por tal? - continuou. - Deixai-me 
partir: se eu me meter em sarilhos, podereis lavar da as vossas mos.
- E pensas que uma dzia de foragidos consegue entrar em Parfois? Se nunca ningum o conseguiu, mesmo com catapultas e trabucos, muito menos conseguirs tu com os 
teus arcos.
- No ser pela fora - admitiu Owen. - Mas pode haver outras maneiras de l entrar... ou de fazer sair a caa...

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- Se Harry deu a sua palavra de honra, pode ser que o deixem sair das muralhas - disse David, sem grande convico.
- Harry nunca daria a sua palavra.
Ningum contestou esta afirmao: todos conheciam bem Harry.
- Bem, faremos o melhor que pudermos - disse Llewelyn, pesaroso. - H algo que posso fazer s claras: enviar um emissrio para negociar abertamente. Pode ser que 
Isambard o deixe partir a troco de um resgate. Est mais velho e talvez menos difcil, desde que me obrigou a rebentar os meus melhores cavalos por tua causa, Owen. 
E, mesmo que recuse, sempre ficaremos a ganhar. O caso ser trazido  luz do dia e tornar-se- perigoso para ele fazer alguma coisa ao rapaz s escondidas. Hoje 
a nossa relao com a Inglaterra  diferente da que havia no tempo de Joo e um prisioneiro pelo qual ofereci um resgate no pode desaparecer sem que por ele sejam 
pedidas contas. Se Isambard no quiser negociar, vamos enviar uma notificao formal ao rei Henrique e cuidar de que a justia tome conhecimento do assunto.
Adam disse, com ar infeliz:
- Receio que Harry haja ido para Parfois com intenes de matar e a sua situao perante a justia pode no ser a que mais desejaramos. Ademais, o poder real quase 
no chega s Marcas e, assim sendo, como poder ele arrancar um criminoso das garras de um senhor como Isambard?
- Isso pode ser verdade, mas a fora do poder real  suficiente para garantir que o criminoso no seja enforcado  revelia da lei.
Llewelyn viu Gilleis agarrar-se ao brao de Adam e ocultou o rosto entre as mos, desejando poder retirar o que dissera.
O Pas de Gales era bem diferente. As Marcas podiam ser uma zona de casteles sem lei, s pretensamente ao alcance da justia real, mas a sombra do descontentamento 
real representava pelo menos um freio. Mas embora rendesse formalmente homenagem a Henrique, seu suserano, Gwynedd era um principado livre, que podia dar abrigo 
a fugitivos e agir com impunidade contra os criminosos que capturava. E este era um feito seu: o enforcamento de um criminoso, decidido de forma autnoma, fora a 
afirmao final e absoluta da sua soberania.

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Mais cedo ou mais tarde, pensou Llewelyn, todos os nossos actos se voltam contra ns. Todavia, Henrique no se envolveu no destino do meu prisioneiro: embarcou para 
Frana e abandonou-o, sem estremecer sequer. Mas, nas mos de Isambard, encontra-se um pedao do meu corao e ele vai-me manobrando, ao puxar as cordas do hbito, 
da gratido, do amor e do remorso. Ainda assim, recuso-me a ceder. Tal como Henrique, em nome do sonho de um imprio. Mas o sonho dele era um passeio ao sol por 
terras conquistadas, em solo estrangeiro, entre gentes que falam uma lngua que ele at conhece, mas que no  a sua. E o meu  o de uma terra preservada e perpetuada, 
povoada por gente do meu sangue, que fala a minha lngua materna, que  obra minha e cujo fruto pertencer a David e aos Galeses, aps a minha morte. Oh, meu Deus, 
bastar isto para justificar a minha existncia?
- H outra coisa que posso fazer disfaradamente, nas minhas prprias costas e sem quebrar a paz - disse Llewelyn. - Leva os teus homens, Owen, e vai para a Marca. 
E eu envio Philip ap Ivor a Parfois para negociar a libertao do Harry. Qualquer que seja a resposta, o Philip encontrar-se- contigo em Strata Marcella, quando 
sair do castelo de Isambard e se este no quiser negociar, ento poders agir como melhor te aprouver.
- Quantos homens posso levar? - perguntou Owen, radiante e ansioso.
Alm de prtico, era da mais elementar justia que Owen fosse incumbido da tarefa. J estivera prisioneiro em Parfois, conhecia o castelo e a rea em redor e escapara 
de l com vida, graas a mestre Harry e a mais ningum.
- O melhor  no exagerares no nmero. Leva uns doze e, se mais te forem precisos, manda busc-los.
- Queres incluir-me nesses doze? - perguntou Adam.
- No h outro que eu mais deseje levar comigo. Foste aceite e s bem-vndo!
- Quando desceres, diz ao Philip que venha ter comigo, Owen. Vamos p-lo a caminho ainda hoje e tu partirs assim que o dia nascer. Gilleis!

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Gilleis levantou-se e Llewelyn pegou-lhe na mo, num daqueles seus gestos quentes e enternecedores que nasciam de repente do mais ntimo da sua realeza e o ligavam, 
pelo corao, ao mais humilde daqueles que o rodeavam. Gestos como este haviam ligado muitos homens a Llewelyn para toda a vida e, depois deles, os seus filhos.
- Nunca duvideis que ele h-de voltar para vs, so e salvo, minha filha. E esfomeado como sempre, depois de haver praticado tiro ao arco ou luta, quando vos preocupveis 
tanto com os seus atrasos.
- Deus o permita! - respondeu Gilleis, segurando por breves instantes aquela mo comprida, quente, cheia de vitalidade, que mesmo naquela ocasio conseguia dar-lhe 
uma alma nova.
Adam deu-lhe o brao e conduziu-a para fora da sala, pois os olhos de Gilleis estavam turvos de lgrimas. Perdera demasiado em Parfois para acreditar facilmente 
que algo que lhe pertencesse pudesse de l sair inclume.
Quando ficou a ss com o pai, David aproximou-se da braseira para aquecer as mos e ficou a olhar para os carves incandescentes com uma expresso sombria.
- Philip  um bom homem e tem peso - disse, devagar. - J tratou muitas vezes com o rei e no lhe falta autoridade, mesmo junto de Isambard. Mas...
- Ento? - perguntou Llewelyn, carrancudo, pois sabia o que David estava a pensar.
- H algum com maior peso ainda e que podia desempenhar este encargo com melhores resultados.
As suas sobrancelhas estavam franzidas e o seu rosto imvel; a luz reflectida da braseira dava um tom avermelhado s suas feies, habitualmente louras e plidas, 
mas mesmo assim a parecena era notria. Llewelyn sentiu que o corao se lhe apertava e no havia armadura que lhe valesse.
- Se ao menos quissseis recorrer a ela - disse David, voltando as costas e dirigindo-se para a janela, onde ficou a olhar fixamente para a praia gelada e o mar 
agitado, sob o nevoeiro.
- Deposito toda a confiana em Philip ap Ivor - replicou Llewelyn, em voz dura e seca.

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Tentava encontrar as palavras que deveriam seguir-se, esse primeiro passo to difcil como a morte... ou, mais exactamente, to difcil como voltar a nascer. E, 
todavia, tudo poderia ser dito de uma forma to simples. A hora h-de chegar dentro de semanas, de dias, amanh. E ento, antes de me lanar na batalha com o destino 
de Gales nas minhas mos, vou precisar dela e utiliz-la. E ento, libertar-me-ei deste atordoamento que me prende a lngua e serei capaz de lhe dizer o que precisa 
ser dito e que ainda no sou capaz de dizer.
Entreabriu os lbios, lutando para afastar o orgulho e a amargura que o emudeciam, mas o leve rugir da tapearia da entrada falou primeiro, e de modo eloquente: 
quando levantou os olhos, David sara, deixando a pairar no ar, a separ-los, o nome que no podia ser pronunciado.

Isambard estava a tomar banho, a libertar-se do suor da caada, quando lhe vieram anunciar que estava na casa da guarda um pajem, fardado com a libr de Llewelyn, 
a pedir um salvo-conduto para um enviado de Aber. Atirou a cabea para trs e riu-se, com um riso jovem e enrgico, at as gotas de gua reluzirem nas madeixas hmidas 
do seu cabelo grisalho.
- Os deuses no so dotados de imaginao - observou, enquanto saa da banheira e se enrolava nas toalhas espalhadas sobre os tapetes defronte do espelho, entregando-se 
nas mos hbeis de Langholme. - Esto sempre a repetir-se.
O senhor de Parfois era conhecido como homem devoto, patrono de peregrinos e coleccionador de relquias e, havia muitos anos abraara mesmo a cruz dos cruzados. 
Quando lhe dava para blasfemar, virava-se para a sua educao clssica e respectivos mltiplos deuses, aos quais atirava as suas farpas.
- Ento a notcia j se espalhou, no  assim? - prosseguiu. - Pergunto a mim prprio como foi que eles souberam to depressa. Juraria que o rapaz veio sozinho e 
ele mesmo me afirmou que a iniciativa havia sido sua. Parece que Llewelyn pode contar com bons servidores por estas bandas. Bom, ide buscar o de Guichet. Vou mand-lo 
organizar uma escolta para ir at ao rio buscar o

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nosso convidado com toda a cerimnia. Dizei aos camareiros para prepararem aposentos na Torre do Rei, os melhores que houver. E agora deixai-me, Walter, vou vestir-me 
sozinho, pois hei outras tarefas para vs. Levai o jovem Harry para onde no o vejam... para a armaria, se quiserdes. Ele est ansioso por fazer exerccio e no 
levantar problemas. Arranjai-lhe companheiros suficientes para o manter ocupado at  ceia e cuidai de que ningum lhe diga que havemos um visitante de Aber. S 
mais uma coisa, Walter! J junto  porta, Langholme voltou-se.
- Senhor?
- Deixai que ele se atrase para a ceia. Cuidai disso. Vamos apanh-los aos dois desprevenidos.
Todos correram em vrias direces, para dar cumprimento s ordens de Isambard. Este ficou a exercitar o corpo que conservava em forma  custa de duros exerccios 
e de uma vida austera, disfarada sob uma capa enganadora de luxo. Nessa noite, no haveria  sua mesa homem que comesse ou bebesse menos do que ele. Olhou-se dos 
ps  cabea, avaliando sem vaidade a beleza que em tempos lhe proporcionara um sincero prazer, observando sem medo as mudanas que, agora, se operavam todos os 
dias no seu corpo. Fizera o necessrio para que as carnes no ficassem moles com o tempo, nem perdessem o vigor e a elasticidade, mas os anos haviam conseguido vingar-se 
como podiam. Os flancos elegantes e os ombros largos conservavam a elegncia de formas e movimentos, a pele no apresentava rugas, excepto as rugas de expresso 
que se haviam gravado no seu rosto; mas a carne comeava a ficar mais plida e seca, a endurecer sob a pele curtida e os ossos bem formados. As coxas altas e direitas 
estavam a ficar mais magras e um pouco rugosas, a caixa torcica arqueada salientava-se sob a carne mais delgada, deixando ver o desenho das costelas sob a pele 
retesada. A mquina magnfica ainda era forte e hbil, mas a flexibilidade e a seiva dos longos msculos comeavam a secar, a cabea j era uma caveira. Sorriu: 
era ntimo da morte havia tanto tempo que esta j deixara de o aterrorizar.
- J agora, podiam mandar-te um padre - disse  sua imagem, enquanto estendia a mo para a camisa lavada que Langholme deixara preparada.

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Philip ap Ivor chegou a Parfois um pouco antes do crepsculo do segundo dia de Fevereiro. Durante os anos em que, discreta e sinuosamente, vinha desempenhando o 
papel de clrigo emissrio de confiana de Llewelyn, raras vezes tivera uma recepo to grandiosa. Enquanto desmontava, no terreiro exterior, perguntava a si mesmo 
o que pressagiaria tal recepo. Por certo no um xito fcil, pensou. Ningum se daria ao trabalho de ataviar desta maneira o seu assentimento. Os seus argutos 
olhos castanhos percorreram todas as impressionantes ramificaes do castelo preferido de Isambard: Philip perguntava a si prprio qual dos buracos de pedra subterrneos 
albergaria o jovem Harry.
Sobre o assunto que ali o trouxera no foi pronunciada uma palavra at se sentarem  mesa, no salo de Isambard, onde foi oferecido ao emissrio o lugar de honra, 
 direita do seu anfitrio. A direita de Philip ap Ivor havia um lugar vazio que seria sem dvida ocupado por algum membro de confiana da corte de Isambard. Tal 
como Philip, este teria o cuidado de colocar discretamente testemunhas que ouvissem o que fosse dito: a contradana havia comeado.
A luz dos archotes e das velas, Philip olhou em volta da mesa de honra e sentiu-se encorajado. Havia cavaleiros que no pertenciam ao squito de Isambard, dois clrigos 
ingleses de alto grau hierrquico que lhe eram desconhecidos e um jovem corpulento, que reconheceu como um dos sobrinhos de Hubert de Burgh. Sabia que o corregedor 
do reino mantinha excelentes relaes com Isambard: se houvesse oportunidade, seria bom despoletar o assunto ali mesmo, em pblico, diante de todas aquelas testemunhas 
independentes. Talvez no conseguissem tirar Harry da priso mas, pelo menos, tornariam mais difcil para Isambard faz-lo desaparecer discretamente deste mundo.
Ambos se mostravam muito corteses um com o outro e respeitadores da etiqueta. O velho lobo no perdera o bom aspecto nem o brilho.
- E qual  o motivo da perturbao de Sua Graa o prncipe de Aberffraw e senhor de Snowdon?
Com extrema delicadeza, Isambard conseguira transformar num comentrio satrico o novo e imponente ttulo de Llewelyn,

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composto pelo antigo nome sagrado, para tranquilidade dos Galeses, e pelo acrescento floreado destinado aos ouvidos ingleses, que nunca haviam ouvido falar de Abberfraw.
.- E em que posso eu servir o prncipe Llewelyn?
Tambm ele parecia desejar que o debate fosse pblico. Havia levantado a voz para se fazer ouvir por sobre o burburinho das vrias conversas que decorriam na mesa 
de honra e conseguira mesmo chegar aos cavaleiros menos importantes, sentados abaixo do estrado.
- Na questo do seu filho adoptivo, que desapareceu da sua corte na ltima Primavera. Chegou aos ouvidos do prncipe, senhor, que o rapaz foi visto h poucos dias 
a entrar em Parfois, escoltado por quatro dos vossos homens. Venho saber se  verdade que ele est aqui  vossa guarda.
- Segundo creio, Sua Graa h mais de um filho adoptivo - replicou Isambard, apoiando-se confortvelmente sobre os cotovelos vestidos de brocado. - Para j no falar 
do filho que mantm  sua guarda em Degannwy. De qual deles estamos a falar neste momento?
- De Harry Talvace, senhor.
Ento, ele queria que os nomes fossem mencionados? Isso queria dizer que abrigava um qualquer desgnio oculto.
- Sim - respondeu Isambard, prontamente - Harry Talvace est aqui.
- Como vosso prisioneiro?
- Como meu prisioneiro.
-Apanhado por haver cometido um delito deste lado do Severn?
- Para dizer toda a verdade, saiba Vossa Reverncia que foi apanhado por haver cometido um delito do lado de c da minha prpria guarda.
- Ah! - exclamou Philip apvor. - No foi isso que constou em Aber. A histria que nos chegou, senhor, foi que o rapaz estaria a ser levado, amarrado e amordaado, 
pela encosta acima, do Severn para Parfois. Portanto, no dentro de muros.
-  exacto. Mas estais a falar do que aconteceu h alguns dias apenas, quando o apanhmos depois de uma tentativa de fuga. O rapaz

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encontra-se sob minha custdia desde Novembro. Quanto ao motivo pelo qual veio ter s minhas mos, podereis perguntar-lho directamente.
- Ento poderei v-lo? - perguntou Philip, rpido a procurar assegurar pelo menos esta concesso.
- Com toda a facilidade, Reverncia. Basta que olheis para o outro lado do salo.
Harry entrara pela porta mais afastada no momento certo e estava a passar por entre as mesas para se dirigir ao seu lugar habitual, entre os seus pares, os jovens 
pertencentes a famlias de cavaleiros. Langholme cumprira as ordens a preceito: o rapaz estava corado e radiante, devido ao exerccio e  pressa; tinha os olhos 
brilhantes e a cara acabada de lavar, estava vestido com uma tnica de rico pano de Flandres que havia muito deixara de servir ao filho mais novo de Isambard e fora 
arranjada para este hspede involuntrio. Se Philip estava  espera de ver um prisioneiro plido, adoentado, esfarrapado e mesmo amarrado, Harry seria sem dvida 
uma grande surpresa.
Avistaram-se ao mesmo tempo. Harry deteve-se bruscamente ao ver o clrigo magro e idoso, de expresso austera e cabelo grisalho, ao lado do esplendoroso Isambard. 
Aquele rosto representava a sua famlia. Empalideceu, corou intensamente outra vez e perdeu por instantes a compostura; mas o leve sorriso avaliador nos olhos de 
Isambard f-lo endireitar os ombros e aprumar as costas. Saiu do seu lugar e deu a volta  mesa de honra para beijar a mo de Philip, que por sua vez o beijou e 
o abraou, aproveitando o momento para recuperar a pose. Temia ter demonstrado a sua surpresa e consternao e viu-se obrigado a rever as suas ideias sobre a misso 
que ali o trouxera.
Nada ali era o que aparentava. O rapaz estava muito longe de parecer maltratado ou de se encontrar encarcerado: aparentemente, levava uma vida normal, ao menos dentro 
das muralhas, ia e vinha como queria, comia no salo como qualquer pessoa da casa. Este tipo de cativeiro era concedido aos prncipes, raras vezes aos comuns mortais. 
Seria inteno de Isambard deix-lo partir sem pedir nada em troca? Haveria alguma razo para ele desejar estar de

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boas relaes com Gwynedd, e estava a utilizar o bem-estar de Harry para alguma jogada rebuscada?
- Esta noite, Harry - disse Isambard - o teu lugar  ao lado de Sua Reverncia. Hs-de querer falar com ele sobre a tua famlia e ele deseja fazer-te algumas perguntas. 
Sua Reverncia gostaria de saber como vieste parar s minhas mos: conta-lhe.
Philip teve um mau pressentimento. Subitamente certo de que qualquer confisso pblica que se seguisse se destinava a favorecer os desgnios de Isambard e no os 
seus, apressou-se a falar, antes de o rapaz poder abrir a boca.
- Talvez devssemos adiar esta conversa para depois da ceia, senhor. No era minha inteno transformar a vossa mesa numa conferncia de negociaes.
- Eu seria incapaz de discutir na ausncia de Harry um assunto que lhe diz directamente respeito - retorquiu Isambard. - E creio que poderemos dar seguimento  conversa 
como pessoas civilizadas. Fala, Harry! Onde foi que te fiz prisioneiro, dentro ou fora do meu domnio?
Harry j perdera as boas cores resultantes de duas horas de jogos extenuantes com espadas rombas; agora, estava plido, de uma palidez ntida, reservada, agressiva. 
E no foi, por certo, o mero excesso de confiana quanto ao bom tratamento de que naquele momento beneficiava que deu aos seus olhos aquele brilho verde insolente, 
nem aquele tom de desafio, claro e cortante.
- Dentro do vosso domnio - respondeu, com firmeza. - Na igreja, onde me havia introduzido e me escondera durante a noite.
- Sem dvida de que com um propsito legtimo, no  verdade, Harry? - sugeriu Isambard, com o habitual sorriso demonaco a tornar-se mais caloroso e terno.
De repente, as palmas das mos de Harry ficaram escorregadias, com um suor frio e inesperado. Compreendia muito bem que estava a ser tentado e com que objectivo. 
O que quer que fizesse jogaria a favor de Isambard, cujas armadilhas eram sempre duplas e sem escapatria. Se confessasse ousadamente em pblico o seu verdadeiro 
objectivo, seria considerado culpado e a sua causa seria indefensvel aos olhos da lei, que ali, nas Marcas s actuava se os

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motivos fossem inatacveis. Isambard no tencionava deix-lo partir a troco de dinheiro e estava a tomar medidas para que a coroa no o retirasse das suas mos pela 
fora. A tentao de iludir a verdade tornou-se subitamente quase insuportvel, to forte era o seu desejo de ir para casa. Mal vislumbrara o padre Philip, sentira 
o corao apertar-se, tal era a dor causada pelas recordaes que o puxavam para Aber, memrias mais antigas do que a amargura e a ira que o haviam levado a partir.
Mas, se mentisse, dizendo que viera a Parfois sem qualquer m inteno e s atacara por haver sido apanhado de surpresa e estar amedrontado, Isambard averbaria uma 
grande vitria. Nem mesmo desmentiria tamanha falsidade. Harry sentia no sangue o repousante prazer e o contentamento com que o seu inimigo aceitaria a mentira que 
faria dele o vencedor. Era isso que ele queria. At valeria a pena entregar a sua presa, depois de a haver levado  ignomnia de mentir para se desculpar. Tudo quanto 
aquele homem terrvel interpunha entre os dois era um teste ou uma armadilha; tentava, com todo o poder da sua vontade, vergar o filho, j que no conseguira vergar 
o pai.
- Segundo a lei que eu conheo, era legtimo - respondeu Harry, em voz alta e clara. - Pelo cdigo gals,  legal matar para pagar uma dvida de sangue. Melhor, 
 uma obrigao! Vim matar-vos, senhor, por haverdes morto o meu pai.
O breve silncio pareceu estender-se at ao fundo da grande sala e agarrar-se com firmeza aos pilares da porta e todos os olhares se fixaram avidamente nas trs 
pessoas sentadas na mesa de honra. Isambard quebrou ao mesmo tempo o silncio e a tenso, dizendo com uma serenidade cuidadosa, e dirigindo-se a todos os presentes:
- Foi uma sorte para ambos que as intenes e os actos estejam, por vezes, to distantes. Como no podem deixar de notar, Harry no me matou.
At aquela oblqua sugesto que Harry tivera receio de pr em prtica o seu intento pareceu a este uma nova cilada contra a integridade do seu dio.
- Fiz o melhor que pude, senhor - retorquiu ferozmente. - Quantas vezes na vossa vida estivestes mais perto da morte?

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Os olhos cavernosos, que guardavam l no fundo longnquas labaredas vermelhas de compreenso e louvor, fitaram-no, risonhos. O senhor de Parfois reflectiu por alguns 
instantes.
- Talvez trs - respondeu por fim, calmamente, como se estivesse a responder  mais simples e mais natural das perguntas.
- Ento fazei-me justia, senhor!
- Est calado, filho - aconselhou Philip, puxando pelo brao de Harry para o reter, embora tivesse preferido puxar-lhe as orelhas se estivesse a ss com ele por 
um segundo.
Como conseguiria algum levar a bom termo a sua embaixada com um fedelho turbulento a seu lado, sempre pronto a dar as respostas erradas?
- Perdoai-me, padre - respondeu Harry, estremecendo ao sentir o toque. - Fizeram-me uma pergunta e eu devo responder com a verdade. No conheo qualquer razo para 
me sentir envergonhado. Fiz como me ensinaram, mas no suficientemente bem!
- Ests a dificultar a misso de Sua Reverncia, Harry. Veio c para investigar o teu caso e negociar a tua libertao e eu estou pronto a ouvi-lo. Mas temo que 
a tua posio perante a lei seja mais vulnervel do que imaginas.  pena o teu cdigo gals no se aplicar aqui, em Inglaterra, onde o crime foi cometido. Porm, 
aceito o teu sentido do dever e estou pronto a esquecer a tua infraco.
-  muita generosidade da vossa parte, senhor - disse Philip, calorosamente.
- Sob condies, evidentemente - continuou Isambard. - Ouvirei a vossa proposta de resgate, se, em pblico, o Harry der por encerrada a sua querela de sangue contra 
mim e assumir o compromisso de nunca mais pensar nela.
- Nunca! - exclamou Harry, alto e bom som, antes que, traioeiramente, a tentao se apoderasse de novo do seu corao.
- O rapaz est esgotado, no pensa o que diz. Poderamos voltar a discutir este assunto mais tarde, em privado? Com tempo e com sossego, ele acabar por ouvir a 
voz da razo.
- No - cortou Harry. -  este o momento e estou a dizer o que sinto, do fundo do corao. A minha dvida no est saldada

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e eu no posso e no quero desistir dela at que seja paga. Se Deus me der outra oportunidade saberei fazer melhor uso dela!
No foi capaz de o evitar: a conteno que to arduamente impusera a si mesmo resvalou-lhe por instantes do rosto, como uma mscara, e a chama amarga do dio flamejou-lhe 
nos olhos dilatados, reverberando ferozmente sobre a fisionomia calma e sorridente de Isambard.
- Dificilmente se poder chamar a isto um discurso conciliatrio - comentou Isambard, com delicadeza. - Como compreendereis, no me apraz libert-lo sem qualquer 
garantia. Prefiro continuar vivo, como qualquer homem razovel.
No faria sentido esperar qualquer ajuda do rapaz; a nica coisa a fazer era exclu-lo da deciso sobre o seu destino por ser um menor irresponsvel.
- Senhor, recebereis do prncipe a promessa que no obtivestes de Harry - disse Philip. - Vamos pois conversar sobre o seu resgate, j que sois generoso ao ponto 
de encarar essa possibilidade, e obterei a garantia total de que Harry ser impedido de voltar a entrar nos vossos territrios e de se aproximar de vs. Se for necessrio, 
o prncipe mant-lo- sob guarda at ele ganhar juzo. Conheceis Liewelyn e sabeis que manter o seu compromisso.
- E conheo igualmente o Harry - respondeu Isambard, rindo. - Tambm no  homem para faltar  sua palavra.
- O prncipe possui sobre ele uma autoridade que ele no pode negar. Estou autorizado a oferecer-vos quinhentos marcos pelo seu resgate e podeis conserv-lo aqui 
at obterdes do prncipe Liewelyn as garantias que desejais.
- No. A menos que o Harry abjure a sua querela pessoal, no posso libert-lo.
Disse-o de forma pensativa, como se encarasse a hiptese de reconsiderar, mas Philip sabia que no era essa a sua inteno. Ainda assim, tentou.
- Em minha opinio, dadas as circunstncias mil marcos seriam um preo mais condizente com o valor da sua libertao. At a, posso negociar.

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- Lamento, Reverncia, no poder aceitar as vossas condies.
- Haveis sido tolerante com o Harry, senhor, e ouso apelar para a vossa clemncia para com este jovem cabeudo: assumiremos a responsabilidade pelo seu bom comportamento 
futuro.
- Ora, se ele pedir a minha clemncia, estou certo de que poder obt-la.
Harry tambm tinha essa certeza, mas a clemncia de Isambard era algo que no podia e no desejava suportar: a simples ideia de dar essa satisfao ao seu inimigo 
f-lo cerrar desesperadamente os maxilares, a fim de evitar que uma palavra ou um som pudessem sair e ser interpretados como um apelo. Philip lanou-lhe um olhar, 
observou os sinais e abandonou a ideia de lhe fazer qualquer pedido.
- Preocupa-me vir encontr-lo neste estado - disse, desviando-se da barreira intransponvel que Harry lhe opunha. - No era este o humor, nem este o estado de esprito 
que lhe conheci em casa. Receio que a sua sade no seja to boa como julgais, senhor. Suponho que lhe permitis passear ao ar livre e praticar exerccio? Talvez 
se pudesse sair a cavalo... sob escolta, naturalmente!
Isambard sorriu.
- J antes perdi outros passarinhos que abandonaram o ninho... mesmo sob escolta - replicou.
- Haveis dito que Harry era um homem de palavra. No aceitareis a sua palavra de honra?
- Aceit-la-ia se alguma vez me fosse dada. Tentai vs, Reverncia.
Fizesse o que fizesse, Philip acabava por ser forado a voltar a Harry. De que lado estava o rapaz afinal? Cerrava os dentes a todas as concesses que poderiam valer-lhe 
a liberdade, decidido a facilitar a tarefa de Isambard, tal como este sempre havia planeado que acontecesse. Harry afirmara, para que constasse, que praticara um 
crime sacrlego e que estava a ser punido por esse facto, com toda a justia. Recusava-se a invocar a sua juventude, a pedir perdo pelo seu acto ou a prometer emendar-se. 
O gals que havia em Philip compreendia-o e apoiava-o, mas o diplomata frustrado hav-lo-ia espancado de boa vontade.

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Reservou o ltimo golpe para o fim da refeio, quando o vinho corria livremente. Mais uma vez, voltando-se de chofre para Isambard, disse:
- Voltando  questo do resgate, senhor: haveis recusado as minhas propostas. Peo-vos agora que me digais qual  o vosso preo e quais as garantias que pretendeis.
Isambard dardejou um olhar penetrante sobre o rosto de Harry e manteve os olhos fitos nele, sem se perturbar com o olhar feroz, de dio e de desafio, que lhe foi 
devolvido. Sorriu, trocista, queles olhos verdes, irados e amargos.
- Como poderei eu atribuir um preo a um Talvace? - respondeu.
Mal o padre franqueou as portas do castelo e dirigiu os passos cansados do cavalo para o ptio das cavalarias, Owen e Adam correram ao seu encontro.
- J estvamos quase a desistir de vos voltar a ver, padre - disse Owen ansiosamente, segurando-lhe no estribo enquanto Adam pegava nas rdeas. - H cinco dias que 
estamos  vossa espera e nem um sinal. Trazeis boas notcias?
- Por Deus, sim! - respondeu Philip ap Ivor, com firmeza. - A primeira e a melhor notcia que podamos pedir e pela qual devemos estar gratos. O rapaz est vivo 
e de boa sade e no foi maltratado.
Era, sem dvida, a primeira boa nova e a mais urgente: Adam e Owen respiraram de alvio, mas perceberam tambm, pelo tom do padre, que a sua misso falhara.
- Mas ele no o deixa partir - disse Adam, sem rodeios.
- Deixaria sob certas condies e  essa a dificuldade. Mas so condies que ele sabe que o rapaz nunca aceitar nem nunca nos deixar aceitar em seu nome. Isambard 
joga com os sentimentos de Harry como se tocasse harpa. Est disposto a esquecer a invaso das suas terras e o ataque  sua pessoa... sim, sim, foi atacado e ao 
que parece com violncia... se o Harry renunciar para sempre  sua vingana. Mas o Harry antes queria morrer. Est pronto a conceder-lhe o seu perdo se Harry lho 
pedir, mas o rapaz preferiria cortar a lngua. Ainda assim, prontifica-se a dar-lhe maior

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liberdade de movimentos, se o Harry lhe der a sua palavra de honra, mas este s est disposto a dar-lhe uma punhalada. Apesar de haver passado estes dias todos com 
o Harry, no consegui meter-lhe juzo na cabea.
- Ento viste-lo e falaste com ele? E Isambard deixou-vos falar  vontade? - perguntou Owen, maravilhado.
- Deixou-me? O homem est to seguro de si mesmo que quase me obrigou a falar com ele e deixar-me-ia tentar persuadi-lo at me dar por satisfeito. A nica coisa 
que no me deu foi licena para falar com ele a ss mas  bvio que, mesmo assim, no haveria conseguido nada. Gastei tempo e saliva inutilmente. Todavia - acrescentou 
Philip, estremecendo quando a desagradvel brisa do Severn lhe despenteou a tonsura grisalha - juro que Harry est a ser bastante bem tratado, melhor do que eu ousaria 
esperar. Porque teima naquele dio especial a Isambard,  algo que no consigo entender. H qualquer coisa de muito pessoal e muito intenso entre eles. A pendncia 
do pai foi motivo suficiente para o levar a agir mas h uma nova ofensa, feita ao prprio Harry, que levou a inimizade ao extremo. No diz uma palavra sobre o assunto, 
no apresenta marcas visveis, mas h qualquer coisa e no sou capaz de adivinhar o qu.
Adam e Owen entreolharam-se por cima da testa franzida do padre e cada um deles viu os prprios pensamentos reflectidos nos olhos do outro.
- Mas ns sabemos, padre, ou pelo menos assim o creio - disse Owen, em tom sombrio. - Vinde ver o que encontrmos quando nos dirigamos para aqui, h seis dias atrs.
Fizeram-no atravessar o ptio grande e dar a volta do claustro, em direco  fachada Leste da igreja, onde ficavam os tmulos dos abades, que se distinguiam pelas 
mitras. Sob os contrafortes cinzentos da parede, uma das pedras compridas fora afastada e o tmulo ao lado dela estava aberto, sob o cu gelado.
Aberto e vazio. Nada restava de mestre Harry a no ser a leve mancha escura sobre a pedra, onde o seu corpo havia repousado, uma sombra esguia delineada pela geada, 
no fundo do caixo.

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Por um longo momento, de cenho franzido e com os lbios apertados, Philip ap Ivor ficou a olhar fixamente para o interior da cavidade vazia.
- Isto  uma profanao - disse com aspereza, quando por fim levantou os olhos. - Uma ofensa sacrlega contra um local sagrado. J houve homens que foram excomungados 
por menos.
-  possvel, padre, quando se pode nomear os responsveis. Mas quem nos ir dizer quem  o culpado disto? No fundo dos nossos coraes, bem sabemos quem foi, mas 
no h provas contra ele.
- A voz de Owen deixava transparecer a raiva que sentir-se impotente lhe causava. - Vede bem, lascaram a pedra quando a levantaram. Estas marcas foram feitas h 
poucas semanas,  certo, mas ningum sabe exactamente quando. Se no fossem os olhos atentos do Adam, nem sequer chegaramos a saber que alguma coisa se passara. 
Veio a correr ter connosco, depois de visitar o tmulo, no dia em que aqui chegmos, para nos dizer que algum l andara a mexer, e quase no acreditmos nele. Fomos 
ver e havia lascas de pedra na erva e estas marcas recentes. Quando convencemos o prior a deixar-nos levantar a lpide, encontrmos isto.
- Conheo esta pedra centmetro a centmetro - disse Adam, ciosamente, inclinando-se para tactear a folha cinzelada com um gesto de ternura irreprimvel. - Se algum 
pisar o musgo que nela nasceu, eu dou por isso. E conheo bem demais os sinais que um p-de-cabra de ferro deixa na pedra para no perceber como estes recortes foram 
feitos. Perdemo-lo - acrescentou, com desgosto. - Nem sequer os seus ossos conseguimos salvaguardar.
- Os irmos no deram por qualquer rudo, mas o mais certo  haver acontecido durante a noite, entre as Laudas e a Hora Prima
- adiantou Owen. - Tempo suficiente para esta malvada tarefa, se soubessem onde o encontrar, como parece. Se assim foi, souberam-no pelo Harry. Como poderia ser 
de outra forma? O local s era conhecido por meia dzia de pessoas.
- O Harry nunca lhes diria - disse Adam, com estoicismo.
- Conheo-o e sei que preferiria morrer.
- A morte j  uma perspectiva suficientemente dura para um velho mas, para um rapaz dever ser insuportvel. Deus sabe que

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no estou a insinuar que o Harry lhes haja dito voluntariamente, pois tambm o conheo e sei que consegue ser to persistente no silncio como qualquer adulto. Diria 
que conseguiram arrancar-lhe a informao, mas quanto  artimanha que utilizaram, sei tanto como vs. E, se eu estiver certo, no h melhor razo para o Harry se 
mostrar to implacvel em relao a Isambard. Mas se soubesse desta afronta - continuou Philip, fitando os seus interlocutores com um olhar interrogativo - o rapaz 
haver-mo-ia dito na presena de Isambard. Digo-vos eu que o Harry cuspiu todo o seu dio contra aquele homem em pleno salo, para todos os pajens e escudeiros ouvirem. 
Est to cheio de raiva que nem sequer sente medo e hav-lo-ia acusado cara a cara.
- Se isto  realmente obra dele, coisa em que acredito com toda a minha alma, Isambard nunca o poria a par do seu feito - disse Owen. - Mas o Harry pode muito bem 
saber que o segredo sobre este tmulo deixou de o ser, por culpa sua. E esse  um assunto que ele gostaria que ficasse s entre os dois, pelo menos enquanto julgar 
que nada de grave aconteceu. Agarrar-se-  esperana de que ns nos encarregaremos de manter a salvo os ossos do pai... e quer Isambard s para si.
- E foi assim que cumprimos a nossa parte - observou Adam, com amargura.
Mordendo o lbio, de cenho carregado, Philip reflectiu.
- No h testemunhas? Ningum ouviu homens por a, durante a noite, ou viu algum atravessar o rio?
- Ningum, pelo menos deste lado do Severn. No nos aventurmos mais alm.
- E que haveis feito at agora?
- Nada. Recevamos prejudicar as vossas negociaes em Parfois ou provocar a ira deles, enquanto Harry no estivesse de novo connosco. Ademais, o prior est relutante 
em acusar Isambard sem dispor de provas consistentes. No lugar dele, no fareis o mesmo? Os irmos so obrigados a viver aqui e a outra margem do rio fica perigosamente 
perto.
-  verdade. No devemos p-los em perigo mais do que o necessrio. Mas este assunto, um acto to sacrlego,  da competncia

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do bispo. Devemos dar-lhe a conhecer dos factos sem fazer qualquer acusao explcita. Deixemos que sejam as autoridades competentes a faz-la, na devida forma legal. 
Preciso de falar com o prior. - Olhou em volta, com ar interrogador, para os lados do rio. - No h qualquer indcio de um barco vindo do lado de Parfois, durante 
a noite? A relva no est pisada? Nenhum vestgio?
- Se os houve, ningum reparou - respondeu Owen. - Como no estvamos  procura deles, at podem haver-nos escapado. Sabemos que Isambard  muito cuidadoso e infunde 
tal temor aos que o servem que estes fazem as coisas to bem como ele prprio as faria. Receio mesmo que a noite em questo j houvesse passado havia muito, quando 
o Adam nos chamou a ateno para o sacrilgio. E, se pistas houve, estas j haveriam desaparecido.
- Bem, agora que aqui cheguei e posso obter formalmente a histria da boca do prprio prior, cabe-me associar-me a ele para escrever ao bispo a inform-lo. Onde 
esto alojados os vossos homens? Espero que no seja aqui. Se quereis ajudar o Harry, no podeis dar a cara.
- Esto em Castell Coch, padre. Achei melhor no sobrecarregar o prior com hspedes to perigosos. Se vier a ser necessrio recorrer a eles, poderamos ser um motivo 
para que deitassem fogo ao mosteiro. Agora, vinde para dentro, est muito frio c fora - continuou, ao ver o padre encolher-se dentro do hbito, como um pssaro 
de penas eriadas. - Queremos ouvir tudo o que haveis para nos contar.
Chegados  esquina da igreja, olharam para trs pois Adam j no estava com eles. Enquanto conversavam, Adam afastara-se pelo estreito trilho marcado na relva pisada, 
em direco  pequena enseada onde os barcos acostavam junto aos prados do mosteiro. Estava de p,  beira de gua, a olhar, com grande intensidade e em silncio 
absoluto, para os refluxos trgidos, cinzento acastanhados, da corrente que flua em direco a Breidden. O seu rosto estava to imvel como o gelo. Chamaram-no 
por duas vezes, antes que os ouvisse e s ento Adam se encaminhou para eles, em passadas rpidas, como um homem aguilhoado por uma dor aguda da qual no conseguia 
libertar-se. Ao ver-lhe a expresso, Philip olhou para

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o rio, na direco em que Adam estivera a olhar, e empalideceu de fria e apreenso.
- Pensas que foi esse o caminho que o cadver levou? Ser possvel que o hajam lanado  gua depois de o tirarem da campa?
- Que outra coisa pode haver acontecido? Ele atirou-o ao rio logo depois de morto e, com ele, Madonna Benedetta, bem viva, para que nadassem juntos ou se afundassem. 
O John o Frecheiro retirou-os da gua e ocultou-os ao seu poder durante algum tempo, mas cuidais que um homem como Isambard alguma vez esquece uma sentena que haja 
pronunciado ou perdoa os culpados? Que havia de fazer ao corpo de Harry, quando por fim o encontrou, se no atir-lo de novo  gua para ser levado pela corrente, 
como ele queria, para que os seus ossos ficassem espalhados pelas margens do Severn, annimos e insepultos? Se alguma vez Isambard voltar a deitar as mos a Benedetta, 
tambm a atira  gua. Este homem  assim - acrescentou Adam bruscamente.
E ps-se a andar  frente deles com passadas enfurecidas, em direco  hospedaria, perseguido por uma dor da qual no conseguia distanciar-se.
Owen e os doze homens que escolhera voltaram a reunir-se em Castell Coch, perto de Pool, num dia de Maro. Trs deles tinham famlia junto desta fronteira e haviam 
passado aquelas semanas de espera paciente a interrogar exaustivamente os primos sobre os hbitos do castelo de Parfois. Outros dois, acompanhados por Adam, haviam 
visitado as aldeias no sop de Long Mountain, do outro lado do rio: de Leighton a Forden, na margem do rio, aos povoados do interior, situados no vale elevado onde 
nascia o curso de gua.
Encontraram homens e mulheres que olhavam atentamente para Adam, mal lhe punham os olhos em cima, e que, quando se apanhavam a ss com ele num local discreto, o 
chamavam pelo nome, hesitantes. Depois do anoitecer levavam-no para suas casas e respondiam s suas perguntas o melhor que sabiam. O nome de mestre Harry Talvace 
depressa vinha  baila e comeavam a reconstruir a imagem dele, havia tanto tempo perdida nas suas memrias. No o

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haviam recordado muitas vezes ao longo daqueles anos, embora ele nunca houvesse estado muito longe das fronteiras das suas vidas rduas. Assim que o seu nome era 
referido, l estava mestre Talvace de novo. Mas no se recordavam dele com as ferramentas na mo, na oficina por baixo da igreja, ou de testa franzida sobre a mesa 
de desenho: viam-no de tronco nu e queimado pelo sol, a ceifar os campos, brandindo uma foice em vez de um macete, um rapaz delgado, com fiapos de erva no cabelo 
escuro despenteado, que bem poderia haver sado de qualquer uma das casinhotas da aldeia. Era esta a imagem mais ntida que conservavam dele. Havia muito que Adam 
no se lembrava assim dele: abraou o calor daquelas memrias com a mesma gratido com que salvaria do Severn qualquer pequeno osso isolado da bem-amada mo direita, 
para voltar a sepult-lo em cho consagrado.
Adam, pelo menos, trouxe de volta algum conforto, um conforto referente ao Harry que morrera, no ao que estava vivo. Quanto ao resto, pouco havia para contar. Juntaram-se 
todos num dos cantos do salo para partilhar as informaes que haviam recolhido durante a sua cuidadosa investigao, com os ces a seus ps, sobre a palha.
- No o deixam pr o p de fora, como j espervamos - disse Owen, quando acabaram. - Nunca mais foi avistado desde que aquela rapariguinha o viu a ser arrastado 
por eles para dentro das muralhas. E a praa-forte  um osso to duro que nem mesmo um exrcito conseguiria ro-lo... quanto mais meia dzia de homens, como ns. 
O Harry no pode sair de l e ns no conseguimos l entrar. Precisamos de encontrar forma de tornear o problema. Se o Harry nunca pode sair e entrar, h outros 
que podem faz-lo. E os refns podem sempre ser trocados.
~ Quem entra e sai de Parfois, raras vezes o faz em pequenos grupos - informou Adam. - Estamos numa regio de fronteira e Isambard nunca alimentou iluses quanto 
 estima dos camponeses pela gente da sua casa. Nestes ltimos dias, voltei a dar-me conta disso: saem em comitiva, seja para caadas ou falcoarias, e sempre em 
nmero suficiente para garantir a segurana.  preciso reconhecer que Isambard protege bem os seus ou, pelo menos, assegura-se

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de que ele  o nico que os pode chicotear ou enforcar. Quanto ao problema do refm, mesmo que tomssemos o de Guichet como refm... vi-o passar no outro dia, engordou 
para o dobro do que era e a barba d-lhe outro aspecto, mas reconheci-lhe o rosto perverso e ambicioso... mesmo que cassemos o prprio de Guichet, cuidais que 
Isambard nos daria o Harry em troca? Jamais! Isambard despreza-o, sempre o desprezou. Poderia querer que lho entregssemos por ele lhe ser to til ou para lavar 
a prpria honra, mas se eu fosse o de Guichet no estaria muito certo disso. No serve de nada ameaar um homem, utilizando algum a quem ele no d qualquer valor. 
Quem poder ser importante para Isambard?
Outrora, pensou, houvera algum at demasiado importante para Isambard mas, graas a Deus e a Llewelyn, essa pessoa encontrava-se em segurana, fora do alcance dele, 
na paz do santurio acima de Aber, um refgio to sagrado como um tmulo e quase do mesmo tamanho. Noutros tempos, houvera talvez outra pessoa que Isambard estimara, 
antes de a afeio se haver transformado em dio; e nem a ltima e mais sagrada de todas as celas havia mantido o mestre Harry a salvo da sua insacivel inimizade.
- No conseguiremos o nosso objectivo com o de Guichet - disse Owen. - Podemos fazer melhor do que isso.
Os seus olhos escuros brilhavam,  luz das tochas. Tambm ele estava a ser assaltado pelas recordaes: ali, to perto de Parfois, o ar estava impregnado delas. 
Lembrava-se de um seio coberto por um pano tecido em casa, spero sob o seu rosto ensonado, de um brao a aconcheg-lo, do balano ritmado do cavalo que os transportara 
nesse dia, durante a longa cavalgada at  fronteira galesa; de como, subitamente,  partida, se apercebera de que ia deixar mestre Harry e nunca mais voltaria a 
v-lo. Lembrava-se de se haver agarrado desesperadamente ao arreio do estribo e de como fora puxado de volta para o aro da sela e consolado - consolado, no enganado. 
Depois fora a vez de Adam lhe pegar ao colo e o tranquilizar, apesar de ele prprio se sentir inconsolvel.
- H pelo menos uma pessoa que sai de Parfois quando quer e quase sem escolta - disse Owen. - Nestes ltimos dez dias, segui todos os seus movimentos fora das muralhas. 
Com o seu

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falcoeiro, sai pelo menos uma vez por semana, ao longo da crista, em direco  estrada romana de Shrewsbury. H muita caa nessas pastagens altas, lembro-me muito 
bem disso, de quando c vivi em criana. E sei de um pequeno bosque, a rematar uma lngua de floresta, que dar boa cobertura para uma retirada at ao rio, com um 
prisioneiro. Ele passa por l sempre que se dirige para aquele velho forte de tijolo, no alto da crista.  a que vamos apanhar o nosso homem. Podamos escalar a 
encosta at  igreja, como fez o Harry, mas voltar a descer carregados com um prisioneiro seria demasiado perigoso e demasiado lento. Vamos antes esperar por uma 
oportunidade c fora, nem que seja preciso esperar um ms ou mais. E no vamos apoderar-nos de um senescal nem de um intendente, mas de algum cuja Uberdade ser, 
mesmo contra a sua vontade, trocada pela do Harry: vamos caar o lobo velho, Ralf Isambard, nem mais nem menos.
Foi no dia quinze de Abril que montaram a emboscada ao senhor de Parfois, dentro das suas prprias terras, num espesso bosque de carvalhos e moitas atravessado pelo 
carreiro estreito que ligava a entrada principal do castelo  estrada de Shrewsbury. Havia trs semanas que viviam escondidos nas florestas abaixo do castelo,  
espera de uma oportunidade; e haviam sido trs semanas penosas, repassadas pelas chuvas maliciosas de Abril que afastavam Isambard das suas actividades habituais. 
Por duas vezes, o sinal de alerta de Iorwerth levara-os a ocupar apressadamente as posies preestabelecidas. Mas, na primeira ocasio, Isambard evitara o bosque 
gotejante e cavalgara pelas encostas mais suaves a Leste de Parfois, com os acompanhantes dispostos atrs de si como contas sobre o fio verde-escuro do trilho marcado 
sobre a erva hmida. E a segunda havia sido uma grande caada, com doze convidados ou mais e perto de cinquenta criados. Owen recuara, no querendo arriscar-se com 
to poucas probabilidades de sucesso.
Tinham esperado, longa e pacientemente, por este terceiro aviso. Chegou a meio da manh: todos deslizaram por entre os ramos e as ervas speras para se esconderem, 
agachados, dos dois lados do carreiro estreito, com os arcos tensos e as flechas ajustadas,

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 espera de ouvir a batida suave dos cascos, que chegou at eles no como um som mas como uma vibrao, propagada pelo solo.
Desta vez, a batida no mudou de direco. Desta vez, faltava-lhe aquele rufar potente e tumultuoso que assinalava a presena de muitos cavalos. Da orla das rvores, 
o grito do pica-pau verde de Iorwerth soou de novo, como uma risada.
- Bom! - murmurou Owen baixinho, ao ouvido de Cynan. A folhagem dos arbustos que ladeavam o carreiro no era ainda muito compacta mas j proporcionava cobertura 
suficiente e o mato era denso naquele local.
- Quando eu der o sinal, dispara uma flecha para o cho diante dele, a uma distncia suficiente para ele a ver a tempo.
Na retaguarda, Iorwerth tinha consigo trs arqueiros, a fim de assegurar que, depois de entrar no bosque, o grupo no pudesse voltar para trs. Mais  frente, Adam 
tinha consigo outros dois, para deter quem conseguisse escapar. No matariam ningum a menos que a isso fossem obrigados: s queriam apoderar-se de Isambard e conseguir 
um avano suficiente para a retirada at ao rio.
Ralf Isambard surgiu ao fundo do carreiro, magnfico, vestido de negro, cavalgando num trote ligeiro. O traje era rico demais para o ritmo estafante das caadas 
habituais e tampouco trazia os trs ces, ou Iorwerth h muito os teria assinalado. No trazia falco no punho nem falcoeiro atrs de si: apenas meia dzia de nobres 
da sua casa, muito aprumados, cavalgando como se se dirigissem para a estrada, a fim de receberem convidados e acompanh-los cortesmente at ao castelo. Isambard 
levava consigo uma espada, mas esta era leve e decorativa, prpria para cerimnias da corte, e no uma arma para os momentos de perigo. Owen contou nove cavaleiros 
atrs de Isambard: trs eram seus escudeiros e os outros seis podiam ser nobres, oficiais ou soldados da sua casa mas, naquela manh de Abril, todos eles aparentavam 
estar animados de intenes pacficas. Era difcil acreditar em tamanha sorte! Teriam de se haver com dez espadas, mas no havia um s arqueiro entre eles e a chuva 
miudinha que caa abafava todos os sons.
Owen deixou cair a mo sobre o ombro de Cynan quando Isambard se encontrava ainda a umas vinte jardas de distncia. A flecha

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soltou-se do arco com leveza, quase com lentido, enterrou-se no solo e ficou a oscilar no meio do carreiro, a poucas jardas das patas do cavalo.
A mo que segurava as rdeas retesou-se sem um sobressalto, a cabea que pendia, pensativa e descuidada, ergueu-se de imediato, todos os msculos espantosamente 
controlados. Sorria ou, ento eram as depresses profundas do seu rosto que lhe davam a aparncia de um sorriso aterrador. Ficou imvel, tenso e alerta, enquanto 
o cavalo ladeava, assustado - mas o cavaleiro no se assustara.
- Alto a, senhor! - gritou Owen, do seu refgio. - Estais cercado por arqueiros: se fizerdes um movimento estais perdido.
Sem voltar a cabea, Isambard levantou uma das mos e fez estalar os dedos, silenciando os murmrios hesitantes e receosos nas suas costas.
- Fazei o que ele diz. Ficai quietos. - A flecha no meio do caminho ainda vibrava, leve e rpida, com um zumbido semelhante ao de uma abelha. - Ento? Que quereis 
de mim?
Na retaguarda da pequena comitiva, um jovem puxou as rdeas, deu meia volta ao cavalo e tentou fugir do bosque. Iorwerth disparou uma flecha e cortou-lhe o caminho, 
fazendo-o desistir da ideia e regressar em tropel para junto dos companheiros. Isambard nem sequer olhou em volta.
- Fazei avanar o cavalo a passo, at eu vos mandar parar - ordenou Owen. - Apenas vs, senhor.
Owen quase esperara que a resposta de Isambard fosse enterrar as esporas no cavalo e lanar-se a todo o galope para terreno aberto e o grupo da frente recebera ordens 
para abater o cavalo, se Isambard o fizesse. Mas, em vez disso, o senhor de Parfois voltou-se suavemente na sela e fez avanar a montada, devagar, em obedincia 
 ordem, como que a danar em volta da flecha oscilante, at ficar praticamente alinhado com o esconderijo de Owen.
- Basta! Agora, desmontai.
Muito devagar, deliberadamente, Isambard tirou os ps dos estribos e inclinou-se para frente, como se fosse desmontar, mas enquanto fazia este movimento enterrou 
com toda a fora a espora direita no flanco do animal e conduziu-o, no em frente, mas para o

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lado, num saco brusco para dentro do matagal. Apoiou-se com as duas mos no aro da sela e saltou l de cima, caindo sobre os arbustos, quase em cima de Owen. 
Podia estar velho, mas enfrentava qualquer situao que se lhe deparasse com a destreza de um rapaz. Caiu sobre os ps, enrolado como uma bola, e utilizou todo o 
peso do corpo e toda a flexibilidade das pernas compridas para saltar outra vez em frente, sobre o inimigo, que tentava manter-se fora do alcance dos seus braos. 
Owen iludiu o abrao, mas Isambard conseguiu lanar um brao em volta de Cynan e do seu arco, antes de este conseguir saltar para trs ou disparar.
Os pequenos ramos partidos devido  queda de ambos saltaram para todos os lados. Rolaram juntos pelo cho, com o arco a gemer e a crepitar entre eles, at que a 
flecha pronta a disparar se partiu contra o cho pedregoso. A cabea ficou espalmada no cho, inofensiva, mas a haste partida perfurou a tnica e a camisa de Cynan 
at s costelas, ferindo-o. Cynan desviou-se para o lado e rolou para longe da punhalada, at conseguir firmar-se nos joelhos, empregar toda a sua fora para se 
erguer e soltar-se dos braos que o agarravam. Num instante, estava outra vez de p e saltava para fora do alcance de Isambard. A corda do arco partiu-se com o estico 
e foi enlear-se com toda a fora em torno do brao deste, como uma mola solta.
No fora isso e Isambard teria desembainhado a espada e o combate que os galeses no podiam permitir-se tornar-se-ia inevitvel. Todavia, a paralisia momentnea 
e os poucos segundos que levou a desenrolar e atirar fora o empecilho fizeram-no perder a oportunidade. Owen aproximara-se por trs e lanou-lhe uma capa sobre a 
cabea e os ombros, enrolando depois com firmeza os braos e o tronco. Cynan atirou-se em voo para lhe agarrar as pernas que se debatiam e Meurig fez uma diagonal 
por entre as rvores para vir ajud-los.
Estava praticamente terminado e Isambard era deles. Owen respirou fundo e correu de volta ao pequeno grupo, que ficara no carreiro, a algumas jardas de distncia. 
Tambm ali se registara uma certa agitao, depois de o seu senhor haver lanado o ataque. Trs dos que seguiam  frente haviam tentado cavalgar em auxlio de

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Isambard. Um deles estava agora pregado a uma rvore, por uma flecha que lhe atravessava o msculo do antebrao direito, que apertava com firmeza com a mo esquerda 
para diminuir a hemorragia. Os outros dois haviam recebido o aviso a tempo e refreado os cavalos. Algures por trs destes, um dos jovens escudeiros havia sido apeado 
do cavalo e estava sentado na erva, estonteado, a segurar a cabea com as mos, demasiado atordoado para causar mais problemas.
Os outros tinham aprendido a lio. Reunidos a meio do carreiro, inquietos sobre as montadas igualmente inquietas, olhavam de rvore em rvore em busca dos assaltantes, 
mas com as mos bem afastadas das espadas.
Por entre os ramos, Owen agarrou nas rdeas do cavalo de Isambard, que abanava a cabea e espezinhava o carreiro, nervoso. Afastou as moitas e puxou o animal at 
onde se encontravam, deixando a Cynan e Meurig a tarefa de iar o senhor de Parfois, deit-lo atravessado na prpria sela e arrast-lo apressadamente por entre as 
rvores, em direco ao rio. Owen voltara para trs, para ordenar ao resto do grupo que desmontasse quando, a curta distncia, uma voz se ergueu subitamente num 
longo brado de desafio.
As cabeas tensas ergueram-se, esperanosas, os corpos submissos retesaram-se, os olhos cautelosos brilharam. O jovem escudeiro que se agachara a segurar na cabea 
deslizou de repente, como uma cobra, refugiando-se no mato, e lanou um grande grito:
- A moi! A moi, Isambard!
Iorwerth saiu de entre as ramagens e apertou-lhe o pescoo at ele se calar, mas o mal estava feito. No fora por acaso que a pequena comitiva lhes parecera uma 
escolta que ia ao encontro de convidados. Subitamente, o ar ribombava e estremecia com o barulho de cascos, que se aproximavam num galope rpido sobre as bermas 
cobertas de erva da estrada romana de Shrewsbury.
S lhes restava tempo para bater em retirada. Owen rugiu ordens e os arbustos agitaram-se, quando os galeses contornaram os seus inimigos e se embrenharam na zona 
mais espessa do bosque, a caminho do vale do rio. No havia tempo para espantar os cavalos e deixar os cavaleiros apeados, nem tampouco isso faria sentido

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pois muitos outros cavaleiros se aproximavam a toda a velocidade e no conseguiriam enfrent-los a todos. A nica soluo era esconderem-se no mato mais espesso, 
onde os cavaleiros no poderiam segui-los, e fugir para o Severn.
Mas at para isso era tarde demais. Curvados e a correr como lebres, os galeses ultrapassaram os companheiros que conduziam o cavalo com o cativo escassos minutos 
antes de serem tambm ultrapassados. Os homens de Isambard queriam a todo o custo provar o seu zelo e as encostas da floresta ainda no eram suficientemente ngremes 
nem o mato suficientemente alto para lhes impedir a passagem. Nos calcanhares destes vinham os recm-chegados, cheios de entusiasmo, cavaleiro aps cavaleiro, nobres, 
escudeiros e criados, vestidos com as cores vermelha e verde do conde de Kent.
Owen acenou furiosamente a Cynan, indicando-lhe que seguisse em frente e voltou-se para enfrentar o ataque. Os arqueiros esgueiravam-se de rvore para rvore, apontando 
e disparando como podiam, os lanceiros visavam os homens e no os cavalos e abateram trs na primeira investida. Ento, os cavaleiros atiraram-se em tropel para 
o meio dos galeses, que se agarravam s rvores que os protegiam, e foi um caos de combates corpo a corpo e correrias sem direco e sem controlo. Um pouco  frente, 
no bosque, um cavalo relinchou e ouviu-se a voz irada de Cynan, num grito de desafio. Os ingleses haviam alcanado o prisioneiro amordaado e dominado os guardas.
Afinal, tudo fora em vo! J no podiam conservar o prisioneiro, apenas podiam tentar sair dali com vida e sem serem reconhecidos. Foras-da-lei das florestas do 
Sul que se haviam tornado demasiado afoitos: deix-los ficar com essa ideia e talvez pudessem ainda fazer uma nova tentativa, com maior xito.
Haviam estado to perto, para afinal falharem!
Adam correu desenfreado colina abaixo, por um carreiro escuro, quase caindo nos braos de um homem que saiu de repente do meio das moitas, de espada na mo. A espada 
estava pronta para o ataque e o homem ria-se. O cabelo curto, da cor do ao, despenteado pela sem-cerimnia com que fora tratado, cobria de caracis emaranhados 
aquela cabea magnfica que mestre Harry tanto

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gostara de reproduzir na pedra. A voz clara e imperiosa, que estivera recentemente amordaada pelas pregas da capa de um arqueiro, cantava baixinho para si mesma 
e no se calou no momento em que o homem se esquivava instintivamente  coliso, com um passo de dana que logo se transformou num impulso que quase penetrava a 
defesa sobressaltada de Adam. Comearam ento a desenhar um semicrculo, separados pelo silvo das lminas das espadas, trocando de posies como se fossem um par 
de danarinos, os rostos separados por um palmo de ar apenas: s ento Isambard reconheceu o seu canteiro.
Afastaram-se de um salto e fitaram-se por instantes, cada um deles consciente de haver sido reconhecido e sabendo que esse reconhecimento clarificara muita coisa. 
Ento, Adam voltou a atacar furiosamente, pressionando o adversrio com uma chuva de estocadas e, por um momento, Isambard cedeu terreno. Aparava os assaltos de 
forma quase mecnica e os seus olhos s se afastavam do rosto de Adam para lanar em torno olhadelas rpidas e penetrantes, E, de sbito, lanou-se sobre Adam, bloqueou-lhe 
a lmina da espada com a sua e, com um movimento violento do punho e do cotovelo, quase lhe arrancou a arma da mo. Adam conseguiu recuper-la mas, por um fugaz 
instante, Isambard poderia hav-lo morto e ambos sabiam isso. Em vez de desferir o golpe, Isambard baixou a espada, recuou rapidamente dois passos e, com as narinas 
dilatadas e um sorriso selvagem nos lbios, voltou-se de repente e desapareceu entre os arbustos.
Confuso e desorientado, Adam correu em direco ao rio e ao encontro de Owen, a quem confiou a inquietao e a incompreenso que lhe iam na alma. Ento, afastaram-se 
tanto quanto puderam, para se esconderem at a noite cair e lamber as feridas. Quando a noite veio, atravessaram o rio no vau de Buttington e foram enterrar a sua 
derrota e o seu desgosto na floresta, sob a crista de Gungrog Fawr,
Owen fora seriamente ferido no antebrao, Cynan tinha pedaos da sua prpria flecha profundamente enterrados nas costas e todos tinham sofrido diversos cortes e 
equimoses; mas haviam deixado atrs de si vrios inimigos feridos por flechas e

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lanas, alguns talvez mesmo mortos. No se podia dizer que os danos fossem pesados. Mas haviam sido reconhecidos, Parfois fora alertado e era preciso comear tudo 
de novo, agora com armas bem desiguais.
Deitado debaixo das rvores, sem conseguir dormir, embrulhado no manto molhado, Adam dizia para consigo: porque continuo eu para aqui, a atormentar-me? Porque foi 
que ele susteve a mo e no me matou?

CAPTULO NOVE

Parfois: Abril a Maio de 1231

- AH, ELES ACABARO POR VOLTAR A DAR SINAIS DE VIDA - observou Isambard, encolhendo os ombros. -Agora estou de sobreaviso e sei com o que posso contar. Por esta 
altura, j eles atravessaram o rio e eu hav-los-ia acompanhado, se vs no houvsseis chegado to prontamente. No me agrada vigiar formalmente as idas e vindas 
deles. Deixemo-los preocupar-se e acabaro por se trair. E, quando esse dia chegar, eu vou estar preparado para avanar. 
Nessa noite, Isambard bebeu mais do que habitualmente. O seu rosto estava mais corado e os seus olhos mais brilhantes. A breve escaramua fizera-lhe bem ao corpo 
e  alma. Retirara-se cedo, com os convidados, porque estes precisavam de partir de manh bem cedo e os assuntos que tinham a tratar com ele no podiam ser discutidos 
no salo, diante de toda a gente.
- Ento, o conde Marshall foi-se. E metade do sul do Pas de Gales vai ser dividido. O irmo fica com Pembroke, quanto a isso no h apelo. Mas a sua tutela sobre 
as terras de de Breos  uma coisa que o rei no est disposto a ceder-lhe de bom-grado, juntamente com o condado. No me espantaria ver o senhor de Kent de mo estendida. 
Todavia, parece que j caiu noutras mos.

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Isambard sorriu, perscrutando os rostos impenetrveis dos diplomatas, que nem mesmo diante dele abdicavam das suas expresses ponderadas e afveis.
De Breos, o pobre tolo temerrio que, um ano antes, por aquela mesma altura, metera o pescoo no lao de Llewelyn, deixara atrs de si um suculento pomo de discrdia, 
composto pelos seus vastos domnios e pelas suas quatro filhas. Desaparecido agora o precioso tio de Pembroke e guardio natural do bolo, havia vrios olhos nobres 
e vidos postos nos seus prsperos senhorios das Marcas. Mas no fora a morte do conde que levara aqueles influentes emissrios de de Burgh a cavalgar pas fora, 
a toda a brida, at Parfois: fora o facto de to cobiada presa haver cado nas mos de Richard de Cornwall. Mas como deixara Hubert que Elfael e Brycheiniog se 
lhe escapassem entre os dedos?
- Que no so as melhores mos - replicou prudentemente Warrenne. - Sua Graa o conde de Cornwall  um jovem excelente mas com pouca experincia para tomar conta 
de um fardo to pesado.
-  verdade - concordou Isambard, com um sorriso oblquo. - Mas  detentor de alguns direitos, bem entendido.
Era intil falar muito sobre aquele ponto. De Burgh sabia perfeitamente que desapossar Richard era uma tarefa que requeria uma enorme subtileza: Richard era irmo 
do rei, o que, dependendo dos caprichos de humor de Henrique, podia torn-lo indispensvel ou impensvel. Mas, para de Burgh, o parentesco tornava mais difcil denegrir 
abertamente a sua intendncia. Alm disso, Richard casara recentemente com a irm do conde William de Breos, o que dava um fundamento familiar  sua aspirao de 
tutela sobre as filhas e as propriedades de William.
- O casamento data de h apenas duas semanas - prosseguiu Isambard, pensativo. - Talvez isso o deixe menos atento a outros assuntos.
Os emissrios mantiveram a mesma calma admirvel, no se permitindo nem a sombra de um sorriso, em resposta ao olhar malicioso que lhes fora dirigido.
- A principal preocupao do corregedor do reino - replicou Warrenne -  ver Brecon e Radnor nas mos de algum que entenda

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a sua importncia para a Inglaterra. Mais do que ningum, senhor, vs sabeis que, neste momento, o Pas de Gales e a Inglaterra se encontram  beira de uma guerra 
e que Brecon e Radnor podem ser vitais para ns. Ningum melhor do que vs poder apresentar esta questo ao rei. Haveis defendido esta Marca contra as invases 
do prncipe de Gwynedd e visto os efeitos das suas incurses contra outros, menos precavidos e capazes do que vs. Ademais, vs pensais na unidade da Inglaterra, 
como o corregedor e, tal como ele, no vedes qualquer vantagem em preservar a todo o custo laos antigos e artificiais com territrios situados no continente. O 
futuro da Inglaterra est aqui, nestas ilhas. Para ser grande e forte, a nao dever crescer aqui, senhor. Para Oeste: para o interior do Pas de Gales.
- E para Norte, para o interior da Esccia - acrescentou docemente Isambard.
- Nunca ningum sugeriu que se ameaasse a soberania do rei Alexandre...
- Ainda no - replicou Isambard. - Mas vai acontecer. Talvez no enquanto eu for vivo, nem durante a vida de Hubert de Burgh, mas vai acontecer.
Levantando-se abruptamente, Isambard comeou a andar de um lado para o outro, com o copo de vinho na mo. Era um hbito seu, quando reflectia.
- Nesse aspecto e como ele muito bem sabe, estou com o conde de Kent. Despojei-me de todos os meus feudos franceses em proveito do meu filho mais velho, com a condio 
de ele se contentar em ser francs, como eu escolhi ser ingls. Um homem no pode ser as duas coisas. E penso, tal como Hubert pensa, que o mar deve ser a nossa 
fronteira. Mas, no interior dessa fronteira, podemos e devemos ser uma entidade nica. Todavia, aconselh-lo-ia a, por enquanto, avanar com prudncia nas Marcas. 
Se obtiver essa tutela, em vez do conde de Cornwall, ser o senhor de um tero de Gales mas dever evitar abusar demasiado da pacincia do prncipe de Gwynedd.
- O corregedor no  animado por ambies territoriais pessoais - atalhou Piercey. - O seu nico pensamento vai para a Inglaterra.

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- O seu pensamento vai para a Inglaterra, mas tambm vai para Hubert - contraps Isambard, sem rodeios. - No vejo nisso nenhum inconveniente, desde que seja por 
esta ordem. Mas, se Hubert levar Llewelyn a agir, as culpas recairo sobre a Inglaterra e ser a Inglaterra a sofrer as consequncias. No deixeis de lhe recordar 
isto.
Fosse como fosse, Isambard sabia que iria tomar o partido de Hubert. Era precisamente aquela viso que o aproximava de um homem com o qual, para alm dela, no tinha 
quase nada em comum. Os outros, incluindo Ranulf de Chester, continuavam a ver apenas os seus prprios domnios, a refor-los e a combater ferozmente as invases 
de que estes eram alvo, sem ver mais longe. Enquanto de Burgh, um homem de baixo nascimento e natureza traioeira, mesmo quando cobiava feudos com a ambio de 
um homem sem terra, mesmo quando invejava os Blundeville e os Marshall e construa em torno de si uma rplica artificial do esplendor hereditrio destes, via de 
certo modo a Inglaterra com os mesmos olhos que Isambard: no como um imprio em decomposio e em desagregao,  imagem do poder em declnio do prprio imperador, 
mas como um imprio slido como um punho fechado, solvente como um tesouro judeu e auto-suficiente como um senhorio bem administrado, uma potncia no confinada 
pelo mar, mas integral e acessvel atravs dele. Por considerao para com aquele verdadeiro homem de Estado, Isambard, que nascera para dominar, perdoava ao coleccionador 
de castelos e aambarcador de feudos. Alm disso, sentia-se perversamente atrado por um homem que suscitava dios com tanta facilidade.
- Todavia - acrescentou, voltando para eles um rosto sereno e determinado -julgo ser realmente necessrio que esta Marca v parar s mos do corregedor do reino 
e no s do conde Richard. O corregedor pode contar com o meu apoio para obter a sua guarda. Podeis dizer-lhe que farei o que ele deseja.
- Ireis ver o rei pessoalmente, senhor? A corte est em Windsor mas, com estas incurses galesas que j atingem o territrio de Brecon, quem sabe quanto tempo poder 
Sua Majestade continuar ali em paz?

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- Irei, logo que haja contido as incurses galesas nas minhas prprias terras - prometeu Isambard. - Se o meu agente conseguir encontrar traos deles entre a guarnio 
de Castell Coch, os meus amigos de Gwynedd partiro a correr para Aber em menos de uma semana. E se, entretanto, o rei abandonar Windsor, o corregedor poder mandar-me 
uma mensagem e eu juntar-me-ei a ele em Gloucester ou onde ele estiver.
- Ele sabia que podia contar convosco, senhor - disse Warrenne calorosamente. - Os vossos conselhos sobre tudo quanto se relaciona com as Marcas so de tal peso 
que o rei no poder deixar de vos ouvir.
- E no haver obstculo - acrescentou secamente Isambard - porque, segundo ouvi dizer, existe, neste momento, uma certa animosidade entre o rei e o irmo. Entre 
os meus argumentos a seu favor e os de Richard contra ele, no duvido que Hubert venha a conseguir o que quer.
Os discretos agentes de Isambard passaram quinze dias em Pool e no ptio hospitaleiro de Strata Marcella at conseguirem detectar traos dos saqueadores galeses. 
Procur-los equivalia na verdade a procurar Adam Boteler, o nico que fora reconhecido; e Adam recebera ordens para se manter escondido em Castell Coch, at estarem 
concludos os preparativos para a segunda tentativa. No fazia parte dos planos de Owen deixar todos os seus homens l escondidos, agora que estavam comprometidos; 
caso fosse feita uma investigao minuciosa, isso seria um indcio da cumplicidade no oficial de Llewelyn na iniciativa e, embora as dvidas quanto a isso devessem 
ser poucas, no era conveniente que tal fosse estabelecido e admitido. Eram e tinham de continuar a ser tropas irregulares, que poderiam ser desautorizadas em caso 
de necessidade.
Por isso, Adam continuava a aborrecer-se em Castell Coch, enquanto Owen e os seus homens acampavam na floresta, para l de Gungrog Fawr,  espera de uma oportunidade 
de voltarem a atravessar o rio. Owen estava a tentar fazer chegar uma mensagem a Harry, na sua priso; alguns homens de Leighton tinham parentes no castelo e, em 
memria de mestre Harry, de quem guardavam

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boas recordaes, talvez aceitassem correr o risco de levar uma mensagem. Mas Abril chegou ao fim e as suas surtidas de reconhecimento confirmavam que os vaus e 
o embarcadouro estavam sob vigilncia e que a margem inglesa do rio ainda era patrulhada dia e noite. Esperaram; Isambard no ia manter eternamente aquelas medidas: 
afinal, no estava assim to inquieto quanto  sua vida e  sua liberdade.
Se, naquele dia de princpios de Maio, Adam no houvesse sado do seu esconderijo, no haveriam sido descobertos. Mas as mensagens enviadas por Llewelyn eram suficientemente 
graves para justificar um risco que, na altura, parecia bem pequeno. Oficialmente encorajadas ou no, as perturbaes nas fronteiras de Brecon haviam atingido propores 
tais que o rei enviara o irmo, o conde de Cornwall, para as Marcas, para lhes pr termo e preparava-se para abandonar Windsor para se lhe juntar. Um sopro bastaria 
para atear um fogo que iria abrasar as Marcas de um extremo ao outro; e o prncipe mantinha uma correspondncia permanente, mas ainda amigvel com o rei Henrique, 
num esforo para resolver pacificamente as dissenses, sem ofender a honra galesa nem a honra inglesa. Fora isto que Llewelyn escrevera de Aber; e, entre as linhas, 
podia ler-se com clareza que, apesar de continuar a defender a paz, o prncipe deixara de acreditar nela e de a desejar realmente. Era apenas uma questo de horas.
Por isso, ao cair da noite, Adam saiu de Castell Coch, para levar pessoalmente a mensagem a Owen, ao acampamento nos bosques acima de Cegidfa. E um mendigo que havia 
dias rondava as portas, fazendo-se alimentar pelas cozinhas, seguiu todos os seus passos. De madrugada, Isambard recebeu a notcia de que estava  espera. E, na 
noite seguinte, enviou dois grupos para a outra margem do Severn, um na direco de montante, outro na de jusante, convergindo ambos para o esconderijo dos galeses, 
num ataque a partir do cume.
O alarme foi dado s trs horas da manh: de vigia no cume, Meurig imitou o piar da coruja e o seu grito rasgou a noite, chegando aos ouvidos de Iorwerth, que se 
encontrava de guarda no acampamento. De nada servira haverem extinguido por completo as

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fogueiras: os atacantes saltaram sobre eles com rapidez e preciso, vindos do Norte e do Sul. Iorwerth acordou Owen e ambos pegaram nas armas em silncio, mas o 
silncio e a escurido no bastaram para os ocultar.
- Ainda bem que no me fui embora - disse Adam, num murmrio, junto ao ouvido de Owen, enquanto tomavam posio entre as rvores. - Havereis um homem de menos.
O assalto lanado de norte surgiu sob a forma de uma lufada de mechas entre as rvores, uma exploso de falhas arrastadas pela brisa. A folhagem verde de Maio no 
ardeu, mas as folhas secas cadas e os gravetos pegaram fogo avidamente e alcanaram-nos to depressa que eles foram obrigados a dar meia volta e a correr, sem terem 
tempo para seguir o caminho mais difcil at ao topo. A sul, Isambard precisou apenas de estender os seus braos compridos para os receber. Por trs deles, o fogo 
breve extinguiu-se, depois de os haver lanado contra as pontas das espadas dos ingleses.
Os arqueiros dispararam s cegas, nas trevas, mas apenas uma vez, para no atingirem os prprios companheiros. Porque, aps o primeiro assalto, tudo se desenrolou 
num combate  fora de pulso, sem arte e desordenado devido  escurido, primeiro com golpes de machado e de espada contra tudo quanto se mexesse, depois num corpo 
a corpo s apalpadelas, durante o qual toda a gente arquejava, pronunciando palavras na respectiva lngua, a fim de escapar aos prprios camaradas, e nem mesmo as 
espadas eram de qualquer utilidade. Debatiam-se e lutavam, procurando alcanar a garganta dos adversrios com as adagas ou com as mos nuas. Houve at quem quebrasse 
as espadas e as usasse como se fossem adagas, contra pescoos e sovacos. Ento, levantou-se vento, que empurrou as ltimas falhas sobre o restolho, e o fogo voltou 
a atear, iluminando os combatentes, que se soltaram dos seus terrveis abraos e recuaram at  distncia da espada ou da lana.
Caprichosas, as chamas, que devoravam o combustvel mais acessvel, ergueram-se entre eles e separaram-nos. Com o rosto contorcido num sorriso demonaco e trazendo 
atrs de si uma chuva de falhas e o odor acre a fumo do inferno, Isambard saltou sobre elas. Por um momento, atacou-os sozinho e Owen lanou-se contra ele

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com alegria, apesar de quase cego pelas chamas e de confundido pelas sombras oscilantes. Ento, o fogo abrandou e os mais timoratos homens de Isambard foram em seu 
auxlio e repeliram os adversrios para o fundo da colina.
Atrs deles, o fogo apagou-se. Cobertos de cinzas, os galeses bateram em retirada a toda a pressa, arrastando consigo os seus feridos ou levando-os s costas, quando 
estes caam. Em nmero trs vezes superior, os seus inimigos perseguiram-nos inexoravelmente por mais de uma milha, por entre os arbustos esmagados e atravs do 
curso de gua a sul de Cegidfa. Os galeses lutavam e corriam, paravam para lutar ainda, cansados, separados, acossados como lebres, at que, junto ao regato, Isambard 
mandou parar os seus homens e lhes deu trguas.
Owen tinha ainda consigo Adam e mais trs homens. Nenhum deles sara inclume mas, pelo menos, podiam andar. Durante o que ainda restava da noite, voltaram atrs 
e, acabrunhados, esquadrinharam o campo de batalha. Encontraram Iorwerth, que se arrastava penosamente sobre a erva, como um caracol esmagado num mar de sangue, 
e dois outros homens que seguiam pela orla do bosque caindo a cada passo. Levaram do acampamento os corpos de trs homens abatidos a golpes de machado e, por fim, 
j ao alvorecer, deram com Meurig no alto da colina, pregado ao solo com a prpria lana. Na altura em que chegaram com os mortos a Cegidfa, Iorwerth estava tambm 
a morrer, com o padre da igreja ajoelhado ao seu lado. E, antes do meio-dia, dois dos feridos mais graves haviam morrido igualmente.
Owen ocupou-se dos vivos, tratando-os o melhor que sabia, e dos mortos, preparando-os para serem sepultados, at cair junto do ltimo, exausto, mas ainda consciente. 
Ento, Adam e alguns dos homens que haviam vindo com o padre para os socorrer levaram-no e deitaram-no para descansar, com calma, numa das quintas. Quando recuperou 
foras suficientes, Owen enterrou a cabea entre os braos, para se furtar  luz. Perdera metade dos seus homens e falhara a tentativa de libertar Harry, que o trouxera 
at ali. No sabia que, desconhecendo o nmero de inimigos que teria de enfrentar e previdente como sempre, Isambard reunira quarenta homens para

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atacar os doze que ele trouxera consigo. Mas, mesmo que soubesse, o facto pouco conforto lhe daria.
A perda de cada um dos seus homens doa-lhe como se lhe houvessem amputado um membro, lorwerth ensinara-o a montar; Morgan fora o dolo da sua infncia devido s 
suas proezas de lutador; Meurig, um homem no livre, mas sempre disposto a combater, queria sempre participar em todas as batalhas, apesar de o seu dever ser apenas 
transportar o equipamento. Esgotado e abatido, Owen revia-os mentalmente, sentia-se sangrar e chorava sem lgrimas. No se mexeu, nem mesmo quando Adam se sentou 
ao seu lado, resmungando contra as dores que sentia nos msculos e nas feridas. Nem descobriu o rosto, quando Adam poisou docemente a mo sobre a sua.

Harry estava to absorvido pelo seu trabalho que nem ouviu a porta abrir-se. Deslocara a mesa de modo a receber luz directa da janela e estava debruado sobre a 
madeira dura e irregular e sobre a faca dificilmente manejvel, de sobrolho franzido e com a respirao pesada. Ao fechar suavemente a porta atrs de si, Isambard 
foi atingido por mais uma das recordaes que o assaltavam sempre que se encontrava perto de Harry. Se o rapaz houvesse gritado por cima do ombro "Afastai-vos da 
luz!", a iluso seria perfeita. Estou a ver, pensou Isambard, que a vida dos homens descreve crculos a que no podemos escapar e que nos traz de volta momentos 
que pensvamos pertencerem ao passado. Porqu? Haver alguma coisa que ainda possa ser mudada? Um desequilbrio que possa ser ajustado?
Em silncio, aproximou-se at ficar junto do ombro de Harry que, de to concentrado no pedao de madeira que tinha diante de si, nem mesmo ento dera pela sua presena. 
Escolhera-o por certo entre os que se destinavam  lareira. Mas onde arranjara a faca?
- Bem se v que s filho dele - comentou Isambard.
O rapaz ergueu bruscamente a cabea e os seus olhos verdes brilharam num desafio j habitual e, em seguida, voltaram a fixar-se ciosamente nos contornos de uma flor 
semiaberta que comeava a emergir da madeira. Num movimento violento, cerrou os

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dedos sobre a faca e, cruelmente, tentou arrancar a flor ao bloco de madeira, como quem corta um pedao podre de uma ma. Mas a madeira era demasiado dura e nodosa 
e a lmina ficou cravada nela; no mesmo instante, Isambard estendeu os braos por cima dos ombros do rapaz, agarrou-lhe nas mos, afastando-as uma da outra, e torceu-as 
at a dor obrigar Harry a largar a faca e a madeira. Isambard apoderou-se de ambas e, de sobrolho franzido, fitou longamente Harry, que massajava os pulsos doridos 
e o encarava com um olhar fulminante, ao mesmo tempo que retesava os msculos, para receber sem pestanejar a bofetada de que estava  espera.
Mas a bofetada no veio. A respirao momentaneamente acelerada de Isambard acalmou e o seu olhar velado fixou-se na flor mutilada.
- Era mesmo necessria uma tal violao para me causar to pouca dor?
De lbios cerrados, o rapaz no respondeu.
- Quem te deu esta faca?
O instrumento tinha um aspecto miservel: tratava-se da lmina quebrada de uma adaga, com uma das extremidades envolvida em trapos, a fazer as vezes de cabo, e que 
Harry afiara o melhor que pudera na pedra da janela. A rea utilizada para tal apresentava-se mais clara. Se lhe houvessem perguntado onde arranjara a lmina, os 
maxilares cerrados num trejeito obstinado no se abririam. Mas, agora, Isambard j sabia como formular as perguntas. Bastava perguntar "Quem te deu isso?", num tom 
de voz ameaador, pressagiador de um castigo.
- Ningum ma deu. Encontrei-a no armeiro e escondi-a. Era para deitar fora.
A faca improvisada tilintou ao cair em cima da mesa, perante o olhar espantado de Harry. Por que no lhe ocorrera us-la para outra coisa, alm de trabalhar a madeira? 
E, se a mesma ideia ocorrera ao seu inimigo, porque lha devolvera ele com tamanha imprudncia?
- Porque no me pediste os instrumentos de que precisas, em vez de quebrares as unhas e te desesperares com madeira para queimar e um bocado de lixo?

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- H-de passar muito tempo, senhor, at eu vos pedir seja o que for.
- Que garoto mais arrogante, santo Deus! - exclamou Isambard, dividido entre o riso e a exasperao. - Queres ser mais orgulhoso do que o teu pai? Ou ser que receias 
simplesmente mostrar aquilo de que s capaz, no mesmo local onde ele deu boas provas, antes de ti?
- Sei melhor do que ningum que no me posso comparar a ele, senhor - respondeu Harry, corando vivamente. - Nunca quis comparar-me a ele. Estava a esculpir s para 
passar o tempo...
A sua voz vacilou lastimosamente: afinal, tambm isso acabara, depois de ser descoberto por Isambard.
- No me posso comparar a ele! No confias em ti mesmo o suficiente para seres nada menos do que o melhor? Quantos se lhe podem comparar? Quantos homens pensas tu 
que h neste mundo que se encontrem entre os primeiros? E, por isso, deveremos todos desistir e ficar parados, em vez de servirmos humildemente consoante os nossos 
mritos? Olha! - exclamou, colocando a escultura mutilada diante da cara de Harry e obrigando-o a olhar para ela. - Ousas dizer-me que no vs aqui nada dele? Que 
as tuas mos no sentem nada, quando trabalhas a madeira? Que no desejas seguir-lhe as pisadas? Nega, se isso for verdade, e eu desisto. Podes apodrecer  vontade 
que no volto a incomodar-te. Para passar o tempo! Foi a primeira mentira que ouvi da tua boca.
Harry permaneceu calado, plpebras descidas, as faces a arder de ressentimento. Mas, quando voltou a olhar para a flor mutilada, no foi capaz de ocultar o remorso 
e a ternura.
- Levanta-te! - ordenou abruptamente Isambard. - Vem comigo. Chegou a altura de descobrires a tua herana.
Harry levantou a cabea, desconfiado, os olhos muito abertos. A sua herana? Que queria aquele homem dizer? Se havia ali alguma coisa que lhe pertencesse por via 
de seu pai, s podia ser na igreja. Mas nunca fora autorizado a ir alm das torres de vigia e no podia acreditar que, agora, lhe fosse feita tal concesso. Apesar 
da recusa em se deixar levar pela esperana, os seus olhos comeavam a brilhar de excitao.

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- Ah, no! - exclamou Isambard, que adivinhou para onde voara o seu esprito e fez questo de o fazer descer  terra. - Isso no! Sem me dares a tua palavra, no. 
Mas vem ver!
Os dedos fortes que lhe rodearam o brao impeliram-no para fora da cela e Harry deixou-se levar, como que num sonho, incapaz de resistir, mas preparado a cada passo 
para ver um alapo traioeiro abrir-se sob os seus ps. Quando Isambard soltava um pouco as rdeas, havia sempre uma armadilha  sua espera e, desta vez, no ia 
ser diferente. Todavia, desceram juntos a estreita escada de pedra sem ele ser mandado de volta para a priso. Atravessaram o terreiro, acompanhados por olhares 
e murmrios que, por momentos, interromperam as actividades do dia.
-  aqui. Entra!
A mo magra que lhe apertava o brao empurrou-o na direco de uma porta, na longa fila de construes encostadas ao pano da marulha, do lado mais soalheiro, onde 
havia melhor luz e o dia durava mais tempo. Era uma diviso grande e sem ornamentos, com grandes cavaletes ao centro e bancadas ao longo da parede. Havia diversas 
caixas, uma prensa grande e, em cima dos cavaletes, encontravam-se alguns desenhos inacabados e vrios instrumentos. No estava ningum na sala, alm deles. Isambard 
impeliu docemente Harry e fechou a porta.
O rapaz olhou em volta, com o rosto tenso e os olhos muito abertos e atentos. A mo de Isambard sobre o seu ombro conduziu-o at  bancada do outro lado da sala, 
onde o cho estava coberto por um tapete de poeira branca e vrios fragmentos de esculturas e blocos de pedra semitalhados haviam sido encostados  parede e postos 
de lado muito tempo antes. Tambm havia alguns desenhos enrolados e alinhados sobre a bancada, junto de uma panplia de ferramentas, macetes, escopros e cinzis, 
dos mais grosseiros aos mais aguados, todos com os cabos polidos e gastos pelo uso.
Os olhos verdes de Harry fixaram-se em Isambard, numa interrogao.
- Sim - respondeu Isambard. - Esta era a sua sala de desenho. E estas so as suas ferramentas.

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O rosto ansioso e altivo do rapaz desviou-se do seu olhar perscrutador.
- O teu pai tinha vinte e quatro anos quando o conheci, na priso do preboste, em Paris. Paguei a multa a que fora condenado, para ficar com ele ao meu servio. 
Ele e o irmo de leite, que tu conheces muito bem.
Ainda estaria vivo, o Adam de quem falava agora? A lio infligida na vspera aos galeses ocorrera durante a noite e Isambard no sabia quantos haviam sobrevivido, 
para ficar a sab-la de cor.
- Penso que tu possuis uma parte dos dotes do teu pai, mas precisas de aprender a no os desperdiares por despeito, s porque eu vivo no mesmo mundo que tu.
Harry respirou fundo para responder ao insulto, mas acabou por no dizer nada: no ntimo, sabia que aquilo era verdade. Quase contra vontade, estendeu a mo, pegou 
num macete e f-lo rodar para testar o equilbrio, agarrou num cinzel ao acaso e, um pouco desajeitadamente porque as mos lhe tremiam, aplicou a ponta do instrumento 
a uma curva de um desenho inacabado do bloco de pedra mais prximo. Com um som suave e pleno, o macete bateu no cinzel. O rapaz esboou um sorriso mas, logo em seguida, 
mordeu os lbios e ficou srio. Os seus olhos contemplavam o cabo do cinzel e, maravilhado, ajustou a mo aos traos ali deixados por outra mo: uma mo hbil, musculada 
e delicada, muito semelhante  sua.
- As ferramentas dele - disse Isambard docemente. - Que sero tuas, se as quiseres.
Harry ouviu-o, apesar de no querer ouvir. Perturbado, poisou o cinzel, que j no era capaz de empunhar com firmeza, e comeou a mexer nos blocos de pedra parcialmente 
talhados, deslocando-os e voltando-os para a luz. Quando o puxava para si, a luz bateu num deles - pequeno, coberto de p e obscuro no canto que lhe fora destinado 
- e revelou-lhe o esboo vigoroso de um rosto que conhecia bem, um rosto que vira havia muito tempo, no trifrio, quando se escondera no ltimo vo do corredor, 
escutando os passos do seu inimigo, que se aproximava. Na altura, no lhe prestara ateno, mas lembrava-se dele.

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-  um estudo para o ltimo busto que ele esculpiu - esclareceu Isambard, atento e paciente, por trs do ombro de Harry
- A sua assinatura no final - acrescentou Harry, num murmrio.
- Era tambm isso o que eu pensava. Quando saste do teu esconderijo e me enfrentaste, este mesmo rosto espreitava por cima do teu ombro. Ento, compreendi. Olha 
melhor! No  uma assinatura no final, Harry, mas uma profecia. No te reconheces a ti prprio?
Harry observou atentamente e, sem poder acreditar, reconheceu o seu prprio rosto. O amor que emanava da pedra para ele apertou-lhe o corao. Fechou os olhos para 
conter as lgrimas mas no fundo de si mesmo, as fontes de ternura choravam inconsolavelmente as mos hbeis e o esprito criativo destrudos para sempre. Sentia-se 
mais velho do que o pai morto e esmagado por um amor protector. Queria proteg-lo de todas as profanaes, desviar dele todos os pensamentos perversos. Acima de 
tudo, queria saber se ele continuava a repousar em paz, na sepultura annima; a pergunta que ansiava fazer queimava-lhe o corao, mas no podia formul-la. Era 
o medo que lhe travava a lngua mas, felizmente, confundiu-o com orgulho, poupando-se assim a um veneno to amargo.
Por um longo momento, ficou ali parado, junto  bancada deslumbrado, acariciando os contornos desconhecidos do seu busto jovem esculpido na pedra e, de repente, 
sentiu que pesava sobre si uma terrvel e maravilhosa responsabilidade.
- Sero as tuas ferramentas, se quiseres. As ferramentas podem ser usadas como armas, Harry, mas se prometeres que nunca as utilizars para outros fins alm daquele 
para que foram feitas, podes trabalhar aqui sempre que desejares. Esta bancada ser tua. O meu canteiro fornecer-te- os materiais e, se quiseres trabalhar com ele 
e aprender com ele, ele arranja-te bastante que fazer. As tarefas de que incumbiria qualquer aprendiz, at haveres dado provas. No beneficiars de nenhuns privilgios. 
Ento?
O silncio que se seguiu parecia no ter fim. Harry pegava num instrumento, depois noutro, poisava-o, passava o dedo sobre os cinzis, sopesava os macetes, debatendo-se 
como um animal encurralado, dividido entre o desejo e a rigidez do orgulho.

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- A menos, evidentemente, que receies aventurar-te num domnio em que temes no ser excelente.
- Dou-vos a minha palavra - disse Harry, numa voz sufocada. - No as utilizarei para outros fins.
- Essas palavras custaram-te tanto como arrancar um dente - comentou Isambard. - Mas o primeiro passo  sempre o mais difcil. Vamos fazer uma nova experincia. 
Amanh, vou partir de Parfois por alguns dias. D-me a tua palavra at eu regressar e dispors de liberdade para circular em Parfois e utilizar esta sala. Caso contrrio, 
receio que hajas de aguardar o meu regresso na tua cela, porque, para te guardar, s confio em mim prprio e em mais ningum. Que dizes? Queres dar-me a tua palavra?
A proposta no lhe agradava e, sem a sua armadura de obstinao, sentia-se to desprotegido que quase lamentava haver feito a primeira promessa. Mas, agora que comeara 
a ceder, era mais difcil do que nunca recuar, O contacto do macete de mestre Harry na sua mo, a forma como o cabo se aninhara na palma da mo haviam despertado 
nele uma ambio e uma impacincia ardentes, que no lhe permitiam esperar vrios dias. A tremer, apertou contra o peito o cinzel mais gasto e tocou-lhe na ponta, 
lutando contra as palavras de aceitao que afloravam aos seus lbios com demasiada facilidade.
- Ento? Ds-me a tua palavra? - repetiu Isambard.
- Sim!
A palavra fora pronunciada com raiva e Harry desviou-se para se furtar ao sorriso malicioso que tanto receava. Quando a pronunciou, o desespero que se apoderou dele 
foi tal que ainda fez uma fraca tentativa de se libertar:
- S at ao vosso regresso! Depois disso, no prometo nada... A nica resposta que obteve foi o silncio. Quando olhou para
trs, encontrava-se sozinho na sala. Isambard aceitara a sua promessa sem uma palavra de triunfo ou de troa e deixara-o a ss, para exultar com o legado, tanto 
tempo adiado, do pai ou para chorar sobre ele. Ento, abraado  imagem visionria da sua idade adulta, com os cabelos despenteados encostados aos caracis de pedra, 
abandonou-se a uma torrente de lgrimas silenciosas.

CAPTULO DEZ

Aber: Maio a comeos de Junho de 1231

Passaram-se muitas horas at os membros do conselho abandonarem a cmara de Llewelyn. Owen no conseguira suportar o vazio da antecmara nem os sbitos murmrios 
das vozes, do outro lado da porta. Por isso, sara e sentara-se no cimo das escadas, como uma criana de castigo,  espera de ser chamada. Ainda estava enfraquecido 
e aturdido pela febre que os mantivera tanto tempo imobilizados em Cegidfa e tornara penosa e interminvel a viagem de regresso; mas as tristes novas que trazia 
da sua misso pesavam-lhe mais no esprito do que as feridas no corpo. Pelo menos dois dos cinco que trouxera de volta consigo estavam pior de sade do que ele; 
e a posio de Adam, talvez o menos ferido de todos, no era de modo algum invejvel, porque, naquele mesmo momento, estava a contar a Gilleis a mesma histria que 
Owen ia contar ao prncipe. Owen pensava com tristeza que a tarefa de Adam era bem mais dura do que a sua. A porta da cmara abriu-se. Levantou-se com dificuldade 
para saudar os mais velhos que por ele passavam e entrou na sala do pai adoptivo.
A reunio do conselho durara muitas horas e Llewelyn no estava menos cansado que Owen. Todavia, isso no o impediu de

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reparar na dificuldade e na dor que causava ao filho adoptivo dobrar o joelho diante de si e ajudou-o a erguer-se antes de ele haver completado a reverncia. O seu 
beijo foi brusco mas caloroso e as suas mos transmitiram uma energia vital de que s ele tinha o segredo.
- No, deixemo-nos de cerimnias. Estamos sozinhos. V, senta-te e no te apresses. Desculpa haver-te deixado  porta,  espera, mas o tempo aperta, Owen, os dias 
passam a correr e h coisas que preciso de resolver, enquanto posso. Recebi a tua mensagem de Meifod.
Era uma maneira de dizer, logo  partida, que conhecia a gravidade dos factos e que s precisava de saber os pormenores.
- Perdi seis homens de valor e no ganhei nada em troca - disse Owen. - Escolhi os melhores e vede o uso que deles fiz.
- Eles censuraram-te? - perguntou secamente Llewelyn. Deitou vinho num copo e atravessou a sala at  cadeira de
Owen, obrigando-o a permanecer sentado, quando ele fez meno de se levantar para receber o copo.
- No houve tempo - respondeu Owen, com amargura.
- Nem desejo de o fazer, sabes isso muito bem. Essas coisas podem acontecer a qualquer um de ns, quando so esses os desgnios de Deus. Conta-me tudo e, se agiste 
mal, ficars a saber.
Owen acomodou o ombro ferido contra a almofada e comeou a contar a histria do seu fracasso. No se poupou e, todavia, as palavras acudiam-lhe aos lbios com maior 
facilidade do que julgara possvel, to absoluta era a confiana que depositava em quem o ouvia. Llewelyn trat-lo-ia como ele merecesse e ficaria grato por isso. 
Nunca depositara uma confiana to grande no julgamento de ningum, excepto por aquele breve intervalo da sua infncia em que estivera  guarda de mestre Harry.
- No sei como foi que eles deram connosco. O Adam pensa que o seguiram desde Castell Coch e, na verdade, talvez haja sido assim. Todavia, no consigo culpar o Adam. 
Como podia ele saber que, mesmo ali, o homem havia plantado as suas criaturas, para o vigiar? Eu devia haver pensado que ele no  um homem comum e que, quando quer, 
 capaz de atacar como um raio. Ele conhecia exactamente a nossa posio.  certo que no podia haver previsto

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a direco do vento... isso foi sorte... mas, quanto ao resto, tudo estava sob o seu controlo. E, apesar de velho, ainda se bate por dez homens. No me parece haver 
pecado por negligncia e os cuidados que tommos bastariam, se o adversrio fosse outro homem. Mas o inimigo era Isambard e o que eu fiz no bastou.
- A sorte favoreceu-o por duas vezes - observou Llewelyn. - Uma vez com o vento favorvel e outra com reforos, quando
mais precisava deles. Ningum te pode culpar por esses dois favores da sorte. O diabo cuida bem dos seus.
- E pensar que chegmos a captur-lo - disse Owen, cansado, com o rosto entre as mos. - No paro de perguntar a mim mesmo se no poderamos hav-lo mantido cativo, 
se eu houvesse vigiado melhor a estrada de Shrewsbury. Eu queria fazer uma segunda tentativa, e melhor que a primeira, fosse atacando-o, fosse arranjando um mensageiro 
que desse um recado ao Harry, em Parfois. Sabeis que ele goza de alguma liberdade...
- Eu sei. Soube-o da boca de Philip ap Ivor. Sei qual  a dvida de Isambard para com o Harry e para comigo, no me esqueci de nada e, a seu tempo, cobrarei o que 
 devido. Um pouco de liberdade para o filho e a mais infame das indignidades para os ossos do pai... que espcie de comportamento  este?
- Ele assusta-me - confessou Owen, febrilmente. -  verdade, senhor, ele assusta-me. Esta indulgncia para com o Harry  demasiado cruel e caprichosa. Se ele odiava 
implacavelmente o pai, em vida e na morte, como podemos confiar na indulgncia que mostra para com o filho? Se acontece alguma coisa ao Harry, por minha culpa...
- No te culpes tanto. A culpa no  tua e no posso permitir que assumas a minha.
A voz do prncipe era dura e acalorada. Quantas vezes na vida admitira ser culpado, perante fosse quem fosse que no Deus?
- Fui eu quem mandou o rapaz embora, quando ele tentou justificar-se. A perda dessas seis vidas  da minha responsabilidade e, se houvesse liberdade para tal, iria 
com um exrcito cobr-las com juros. Mas no sou livre. No faz parte dos meus deveres apaziguar os anseios da minha alma nem reparar os meus erros. Deus age

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segundo a Sua vontade e eu segundo as minhas capacidades. Sirvo uma causa, que me  cara e em nome da qual tu, eu e, se for preciso, o Harry podemos estar destinados 
ao sacrifcio.
- Eles foram assim to mal-acolhidos em Worcester? - perguntou Owen, perturbado, mais pelo tom daquele discurso do que pelo contedo.
Os enviados do prncipe haviam regressado a Aber, aps as ltimas e interminveis conversaes com os representantes do rei, dois dias antes do regresso dos sobreviventes 
de Parfois.
- No, no foram mal recebidos. Os modos deles foram civilizados e as palavras bem medidas e foi marcado um novo encontro para daqui a trs dias, em Shrewsbury. 
Mas isso pouco significa agora, porque a montanha est em movimento e vai acabar por desabar. H duas ideias principais em confronto para se chegar  reconciliao 
e no haver paz, enquanto no houver... no... - Llewelyn deteve-se por instantes. - No diria um acordo mas, pelo menos, um entendimento temporrio, que silencie 
ambos os lados e nos d tempo de recuperar alento para a prxima prova de fora. Por vezes, temo que isto seja apenas o primeiro de muitos compromissos, numa luta 
nova, no na forma mas na extenso.
Llewelyn dirigiu-se  janela e abriu-a, para inspirar com fora o ar da ltima noite de Maio e deixar que este aligeirasse a atmosfera pesada das longas horas de 
clausura naquela sala.
- Sabes que a coroa insiste em no reconhecer o nosso domnio sobre Buiith? A negao pouco importa. O meu alcaide continua na posse do castelo, por mais que seja 
a guarnio do rei a deter o ttulo. Todavia,  um indcio revelador. Eles negam a sua prpria lei, ao negarem o meu direito, e o precedente ir ser utilizado na 
prxima invaso. Pensam que podem comer-me vivo. Mas, juro por Deus, que hei-de ficar-lhes atravessado no estmago at lhes furar as entranhas.
-  obra de de Burgh - disse Owen, erguendo as plpebras pesadas. - Senti um mau pressentimento, quando vi librs com as suas cores em Parfois, pois Isambard est 
de muito boas relaes com ele e os assuntos que haviam a tratar seriam por certo de mau augrio para Gales.

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- Nem imaginas como ests certo! Ainda no sabes? Trouxeram-me a notcia de Worcester. Isambard foi ao encontro do rei a Hereford, em princpios de Maio. Deve haver 
sado de Parfois no mais de dois dias depois da incurso  outra margem do Severn. O rei Henrique respeita muito as opinies dele em tudo quanto diz respeito s 
Marcas. O resultado foi o rei retirar ao conde de Cornwall a custdia das terras de de Breos e entreg-la ao seu querido corregedor. De Burgh cerca-me por todos 
os lados, menos pelo do mar e com a excepo de Chester, onde, graas a Deus, se encontra o conde Ranulf. Agora, a causa assumiu uma nova dimenso e no  preciso 
mais para me provar que o tempo escasseia. S falta a ocasio, que, se Deus quiser, hei-de ser eu a escolher.
- Esperava, pelo menos, aliviar-vos o esprito do problema do Harry, para poderdes dedicar-vos de alma e corao  vossa tarefa - disse Owen, desanimado. - E a nica 
coisa que fiz foi perder seis homens corajosos.
- A minha alma e o meu corao esto empenhados s nela. O pobre Harry vai precisar de esperar a sua vez. Os meus juramentos, as minhas obrigaes, tudo se apaga 
perante isto. Se eu viver, cumprirei todos os meus deveres e, se morrer, no dia do Juzo, responderei por no os haver cumprido.
Apoiando a grande testa de bronze na mo, voltou o rosto para a janela, para receber o ar da noite e, em voz baixa e absorta, como se falasse consigo mesmo, prosseguiu:
- Acredita, Owen, que a nossa empresa ultrapassa aquilo que eu prprio sou capaz de imaginar. Enquanto estive ocupado a construir, aqui, um reino para o meu filho, 
imitei os ingleses naquilo que cuidei adequado. No  possvel ignor-los, como outrora. Paguei pela minha corte e pelas minhas campanhas, pelos meios que eles me 
mostraram, com impostos, rendas e taxas lanadas sobre os habitantes das minhas terras. Abdiquei de terras e privilgios, para obter o servio da hoste, e mantive 
o meu exrcito no campo de batalha, por meio de contratos que os meus antepassados nunca haveriam aprovado. Instaurei o direito de sucesso de acordo com a lei inglesa 
e no com a galesa, para o tornar mais slido e impedir que eles o pusessem em causa. Assim, enquanto os mantinha afastados

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com a mo direita, deixava-os entrar com a esquerda. E agora vejo que, pela esquerda ou pela direita, por uma aliana ou pela conquista, eles ho-de acabar por vir. 
No h maneira de o impedir. Tudo quanto podemos fazer  modelar a sua aproximao e fixar os termos segundo os quais eles vivero connosco, quando chegar a altura. 
Termos que possam permitir-nos conservar a nossa honra e a nossa identidade e sermos vizinhos livres e aliados deles, e no seus vassalos. E sei que, se quisermos 
concluir um tal acordo com os ingleses, precisamos primeiro de saber ns prprios quem somos e o que somos e dar o devido valor ao nosso sangue e  nossa lngua. 
No somente ns, de Gwynedd, no somente os homens de Powis, no somente os poucos que restam em Deheubarth, mas todos ns, os Galeses. E isto  muito mais do que 
a ambio que me animou ao princpio e mais do que a herana do meu filho. Se eu morrer por isto, se o David vier tambm a morrer por isto, no importa. O que importa 
 que a causa sobreviva e a unidade cresa. E se o Harry tambm morrer por isso, a sua morte pesar sobre a minha cabea e, quando chegar o momento, responderei 
por isso perante Deus e perante ele.
Quando se calou, um silncio profundo invadiu a sala. Llewe-lyn voltou-se e deparou com algum ainda mais esgotado do que ele. Owen adormecera sentado na cadeira 
e a sua cabea repousava na almofada vermelha que servia de apoio ao ombro ferido.
Sorrindo, Llewelyn aproximou-se e abanou-o. Owen acordou sobressaltado, com o olhar desfocado e, ao perceber que havia adormecido, empalideceu, mortificado.
- Perdoai-me, senhor! Hoje, cavalguei por muitas horas... e o vinho...
Emagrecera devido  febre prolongada: parecia haver perdido metade do peso e as suas faces descarnadas, habitualmente tisnadas, apresentavam uma tonalidade amarelada. 
Quando se levantou, sentiu-se momentaneamente tonto e foi obrigado a apoiar-se ao brao da cadeira.
- Vai para a cama, Owen - aconselhou Llewelyn, amparando-o com as duas mos. - Podes dormir tranquilo. A tua tentativa no foi bem sucedida, e  pena, mas agiste 
como devia ser. Poucos

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haveriam feito melhor. No cometeste nenhuma falta. Agora vai dormir! Quem sabe se, amanh, no irei precisar de ti?
Na tarde do segundo dia de Junho, chegou a Aber, montado num cavalo que espumava, um correio - o ltimo de uma cadeia de mensageiros - com notcias urgentes de Cydewain. 
Llewelyn estava fechado na sua cmara, com o capelo e Ednyfed Fychan, a ditar missivas e o seu selo fora j aposto s credenciais dos enviados que o representariam 
em Shrewsbury. Todavia, ao ouvir o que o mensageiro tinha para contar, David usou da sua prpria autoridade e conduziu-o  cmara de seu pai, interrompendo a conferncia.
- Que se passa? - Llewelyn ergueu os olhos da mesa, visivelmente descontente. - Eu no disse que no queria ser incomodado?
- Senhor meu pai, sou eu o nico culpado por esta interrupo. Mas isto no pode esperar.
O olhar de Llewelyn deslocou-se do filho para o cavaleiro, coberto de suor e p. Como se soubesse que estes j no tinham qualquer utilidade, o prncipe pousou os 
papis.
- Falai, ento. Que aconteceu?
- Trago-vos uma mensagem da Marca de Montgomery. H uma semana, a guarnio de Montgomery atacou-nos, cercou-nos e capturou uma companhia dos nossos homens.
O homem, que se ajoelhara, ergueu-se. A poeira da viagem fazia-o tossir, enquanto falava.
- Quantos no sei. Mas levaram-nos para o castelo de Montgomery, como prisioneiros.
- Isso sei eu - disse Llewelyn, de rosto sombrio. - Conta-me o resto.
- Ontem, senhor, o conde de Kent chegou a Montgomery e foi ver os prisioneiros. Ordenou a sua execuo imediata, o que foi feito. Foram todos decapitados.
- Decapitados!?
Llewelyn ps-se de p de um salto, derrubando a cadeira, e os pergaminhos espalharam-se e rolaram sobre o tapete.
- Como ousou? Sob os meus olhos! Est a cuspir na minha cara!

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Dito isto, afastou-se deles e atravessou a sala, de um lado para o outro, em grandes passadas raivosas. Depois, abruptamente, voltou-se de novo para eles.
- H mais alguma coisa?
- Diz-se, senhor que as cabeas vo ser mandadas ao rei de Inglaterra - acrescentou o mensageiro, em voz rouca.
- Dois dias antes do encontro marcado entre os enviados do rei e os meus!
- Por mais louco que o homem possa ser, no agiu assim num acesso de loucura - observou David, lvido, olhando para o rosto do pai. - Isto foi um acto deliberado.
- Foi deliberado, sim. Ele pensa que j est preparado. - Llewelyn arrancou a pluma da mo do secretrio e atirou para longe as cartas que ainda se encontravam diante 
de si. - Deixai isso. J no  preciso. No vai haver nenhum encontro em Shrewsbury. Hubert vai ver onde eu vou estar amanh e vou l chegar antes de ele me procurar. 
Ednyfed, cuidai de fazer seguir as ordens de imediato. Cuidai disso!
- H uma semana que eles esto prontos - respondeu Ednyfed Fychan, dirigindo-se sem mais demoras para a porta.
- E mandai vir aqui o meu capito e Rhys tambm. Chegou o momento - disse Llewelyn, respirando fundo. - Ele quis fazer a escolha por mim, no foi? Assim seja! Veremos 
quem leva a melhor. Mas era mesmo preciso matar os meus homens a sangue-frio? No haveria outra forma de me desafiar? Juro por Deus que vai arrepender-se. Vou faz-lo 
pagar bem caro por cada cabea decepada. - Voltando para o mensageiro o seu rosto de falco, duro como uma espada, perguntou: - O conde ainda est em Montgomery?
- Ouvi dizer que j foi para Hereford, senhor.
-  pena, pois gostaria que ele visse arder o seu burgo. Mas no perde pela demora, A minha dvida para com ele ser paga at ao ltimo xelim e obrig-lo-ei a contar 
as moedas em cima das suas runas. Cuida de que este bom homem seja alimentado e acomodado, David, e depois volta aqui. Ainda precisamos de planear algumas coisas. 
Partimos antes da alvorada.

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Contaminados pelo fogo da sua paixo, cada um correu a executar as ordens que recebera. As colunas de apoio e abastecimento haviam sido alertadas muito tempo antes, 
os homens dos cls apenas aguardavam um sinal e o selo de Llewelyn aposto nas missivas enviadas arranc-los-ia s suas casas, como abelhas cuja colmeia houvesse 
sido atacada. Bastava cham-los e eles acorreriam, impacientes e vidos.
- Eu procedi com moderao - disse Llewelyn entre dentes, dobrando as mos grandes e nervosas, como que para medir o desafio que pairava no ar. - Contive-me uma 
vez e outra e at quando eles procuravam levar-me a agir, eu no coloquei exigncias muito elevadas, para manter um equilbrio justo e poupar Gales a hostilidades 
mais profundas. Mas, agora, no podemos ser poupados. Eles pensam haver chegado a hora de se lanarem sobre mim e a mesquinhez do esprito deles lev-los-ia a desprezar-me, 
se eu procedesse com moderao. Agora, vo ver que sou capaz de chegar a extremos e juro por Deus que vo aprender a respeitar Gwynedd, enquanto eu for vivo.
Quando soube o que acontecera, Owen acorreu, a coxear por entre a agitao febril que reinava no castelo, para reivindicar os seus direitos. Mas, no fundo, temia 
ser rejeitado.
- Eu estou bem - insistiu, agarrando veementemente a manga de Llewelyn, que corria como um relmpago do armeiro para os armazns, dali para as cavalarias e depois 
para a sala do conselho, supervisionando tudo. - David  o meu prncipe e eu sei muito bem que, desta vez, no  uma escaramua fronteiria. Onde o David vai  mister 
que eu tambm v. No ides deixar-me para trs, pois no?
Llewelyn, que se encontrava no armeiro a verificar um arns, lanou-lhe um olhar to absorto e to distante que quase parecia no o reconhecer. Mas, de sbito, o 
reconhecimento revelou-se num sorriso caloroso e preocupado.
- Tu! Bem gostaria de te deixar para trs, mas sei que o teu corao sofreria mais, se ficasses aqui, do que o teu corpo poder sofrer no campo de batalha. Sim, 
tu vais connosco, na condio de

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obedeceres s ordens e fazeres o que eu te disser. Nunca te afastaria voluntariamente da companhia de David, tal como no lhe permitiria a ele ir para uma batalha 
sem escudo.
Ao ver Owen corar de prazer, Llewelyn riu-se e passou-lhe o brao por cima dos ombros, esquecendo que o seu abrao era, ao mesmo tempo, uma alegria e um sofrimento 
para o jovem, que conteve com esforo um trejeito de dor.
- E, Owen, preciso de ti j. Vai procurar a Gilleis e o Adam e leva-os  capela. Quero que vs os trs sejais testemunhas de um voto que quero fazer antes de partirmos.
Um quarto de hora depois, Owen regressou acompanhado por Gilleis e Adam. Os rostos de ambos ostentavam expresses graves e os seus olhos estavam vermelhos, de tantas 
noites passadas a pensar em Harry. Ao ver Gilleis aproximar-se, Llewelyn observou que ela emagrecera naquele ano em que estivera privada do filho e que a sua tez 
rosada apresentava agora a palidez prpria dos prisioneiros. Gilleis passava pelo menos metade dos seus dias nos aposentos fechados onde a sua senhora se encontrava 
cativa, e metade das suas noites presa, em imaginao, com Harry. Todavia, nunca se queixava. Os seus grandes olhos negros exprimiam incerteza e esperana, mas no 
censura. E, mesmo agora, pensou Llewelyn, aquilo que posso oferecer-lhe parecer bem pouco.
Apesar de no passar muito do meio-dia, estava escuro dentro da capela de madeira. As velas dispostas sobre o altar simples, coberto de linho, pingavam ligeiramente 
devido ao ar vindo da porta e, quando esta foi fechada, instalou-se um estranho silncio, que bania para uma distncia infinita todos os sons de actividade.
Llewelyn ajoelhou-se e rezou. Depois, ergueu para o altar os olhos bem abertos e o silncio persistiu.
- Sede pacientes comigo - disse. - No sou muito hbil com as palavras, quando os meus conselheiros no esto perto de mim e este assunto  delicado. Quando inicia 
uma jornada, um homem nunca pensa que poder no regressar para enfrentar outro homem. Todavia, e Deus me oia, penso que a minha hora ainda no chegou.
As suas duas mos poisaram sobre o crucifixo que tinha diante de si, num gesto surpreendentemente suave, mas seguro; poisava as

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mos nos objectos sagrados com o mesmo  vontade directo e inocente que o impelia para homens e mulheres.
- Sede pois testemunhas do compromisso que assumo perante Deus e perante vs. Juro que, quando Deus me permitir faz-lo, sem prejuzo dos meus deveres para com Ele 
e para com o meu pas, destruirei o castelo de Parfois pelo mal que foi feito contra o Harry Talvace morto e contra o Harry Talvace vivo. Se o meu filho adoptivo 
ainda l se encontrar, libert-lo-ei com a ajuda do Cu. Se no, nem por isso Parfois ser poupado ao juramento que agora fao. Ajudai-me, Senhor, a cumprir a minha 
palavra para com o meu inimigo e inimigo de Harry.
Owen disse "Amen" mas foi o nico a responder. Adam tambm teria respondido de bom-grado mas estava de tal modo atento  reaco da sua mulher que a ansiedade o 
deixou mudo. Gilleis fitava o prncipe com um sorriso imperceptvel, de uma tristeza infinita, no qual julgou ler afecto e indulgncia mas, tambm, uma ligeira, 
doce e secreta zombaria. Llewelyn desviou os olhos do altar mesmo a tempo de interceptar aquele sorriso intrigante que, no entanto, no o confundiu nem perturbou. 
A experincia que vivia, enfrentando questes de vida e de morte de milhares de pessoas alm dele prprio, levara-o a considerar simples todas as outras coisas. 
Coisas que o haviam desorientado tornavam-se claras como cristal, os problemas que o haviam atormentado e desafiado cediam como fechaduras bem oleadas, abertas com 
a chave adequada. O dom da palavra, que negara possuir, emanava da sua boca como ouro.
- Eu sei, Gilleis, que isto no preenche o vazio dos vossos braos nem o que sentis no corao - disse. - Mas  tudo o que posso oferecer-vos e, mesmo que no vos 
satisfaa, obriga-me moralmente. Aceitai-o como prova da minha f em que Deus tomar Harry  Sua guarda, por mais que ns sintamos a sua ausncia.
- Confio que sim, senhor - respondeu Gilleis.
- Ento, confiai, como dissestes e, com a ajuda de Deus, estareis junto ao altar da igreja de Parfois no dia em que eu honrar o meu juramento e ali enterrar condignamente 
os restos mortais de mestre Harry.

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Gilleis empalideceu e baixou os olhos e, por delicadeza, Llewelyn no disse mais nada. Estava comovido e prometia milagres: a recuperao do que fora perdido, a 
integridade e o carcter sagrado de coisas que haviam sido profanadas. Mas a f que Gilleis declarara talvez no passasse da convico de que a boa estrela do prncipe 
de Aberffraw no o abandonaria e de que Deus atenderia a sua prece e no o impediria de cumprir o seu juramento. Todavia, Llewelyn sentia que eram as foras do Cu 
que o animavam e deixava-se guiar por elas sem hesitaes.
Aquilo que parecera difcil era agora muito simples, o fosso que parecera intransponvel podia ser agora ultrapassado com um salto de criana e desaparecia depois 
de atravessado.
- H ainda outra coisa de que preciso de libertar o meu corao, antes de partir.
Dividida entre a esperana e a dvida, Gilleis fitou-o.
- Ide ter com a vossa senhora e perguntai-lhe se pode receber-me.
Quando ele entrou, ela estava sentada junto  janela estreita com barras. A primeira coisa que viu foi a luz que incidia sobre a cabea dela, agora mais grisalha 
do que loira. A imobilidade forada tornara-a mais pesada, o seu corpo outrora magro e esbelto engordara e movia-se sem a antiga graa negligente. Em contrapartida, 
o seu rosto no estava gordo, mas envelhecido, a pele plida esticada sobre a ossatura delicada, e os olhos pareciam enormes, tranquilos como vidro cinzento. Fitaram-no 
sem deixar transparecer qualquer emoo. As suas mos estavam poisadas sobre os braos da cadeira, como quando outrora se sentava ao lado dele em ocasies oficiais, 
erecta e atenta, pronta a prever as situaes, hbil nas manobras polticas. Estava ricamente vestida. Llewelyn reparou que ela se arranjara para o receber. Fosse 
no seu palcio, fosse na priso, era filha de um rei e esposa de um prncipe.
Durante um ano, Llewelyn no a vira nem permitira que o nome dela fosse pronunciado na sua presena. Agora, pensara que devia aproximar-se dela como um estranho, 
reaprendendo o desenho da sua testa alta e do seu rosto afilado e a sua maneira de abrir muito os olhos, para abarcar da cabea aos ps a pessoa com quem

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falava. Esperara ter de abrir laboriosamente caminho atravs dos longos meses de separao, como quem abre caminho atravs da paliada de um castelo onde quer entrar 
pela fora das armas. Mas bastou ouvir a voz dela para que aquela mulher mudada passasse a ser-lhe familiar e para que o vu do afastamento se rasgasse como um fio 
delgado.
- Sede bem-vindo, senhor - saudou Joan. - No precisais de pedir permisso. As vossas prises esto sempre abertas para vs.
Gilleis sara, fechando a porta de mansinho. Parado no meio da sala, a olhar fixamente para a princesa, Llewelyn foi direito ao assunto, como lhe indicava o seu 
esprito. Para aquilo que tinha a dizer-lhe, as palavras de reserva e cerimnia seriam cansativas de ouvir e difceis de pronunciar. No havia tempo. Llewelyn nunca 
estava em melhor forma como quando se encontrava sob presso.
- Preciso de vs, Joan - disse.
Involuntariamente, Joan estremeceu e Llewelyn sentiu o espanto dela na prpria carne. Se ele houvesse falado de perdo, de piedade ou mesmo de amor, ela estaria 
preparada; mas no previra que ele pudesse precisar dela.
- No pode ser verdade. Passastes muito bem sem mim durante um ano e, agora, tambm podeis passar sem mim.
Falara docemente, sem rancor nem queixume, referindo apenas aquilo que achava ser verdade. Llewelyn percebia agora com quem Gilleis aprendera a ser paciente e a 
suportar o sofrimento.
- Passei sem vs, mas no bem. Sem vs, nada est bem. Preciso de vs. Parto amanh para a guerra contra o rei Henrique e, em especial, contra o conde de Kent, e 
s Deus sabe qual ser o resultado.  uma longa histria.
- No precisais de me contar - atalhou Joan. - J conheo a histria. Pensais que, em todos estes meses, no hei seguido tudo quanto fizestes e tudo quanto vos foi 
feito?
- Se sabeis de tudo, ento tambm sabeis que preciso de vs. De todas as vezes que a minha cabea, o meu pas e a herana do meu filho estiveram em perigo e precisei 
de os defender pelas armas, estivestes sempre ao meu lado, de alma e corao. Estou bem servido enquanto prncipe e possuo entendimento suficiente para o

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reconhecer. Mas quando sou obrigado a partir para enfrentar esta prova, preciso de deixar os assuntos daqui em boas mos, naquelas que me so mais prximas e mais 
caras. No h ningum em quem possa confiar como confio em vs.
Ao ouvir aquela palavra, Joan ergueu a cabea e voltou a fit-lo longamente; por trs da clara desiluso dos seus olhos, surgiu um brilho ardente, vindo do fundo 
do seu ser. A mscara plida do seu rosto denotava incredulidade e afastava-o, mas o ser brilhante que habitava dentro dela, durante tanto tempo confinado e mudo, 
sabia que fora mesmo isso que ouvira.
Llewelyn aproximou-se e a luz do fim da tarde de Junho tingiu de cobre os contornos do seu rosto de falco e a cana do seu nariz temerrio, e acentuou as manchas 
ruivas da sua barba escura e curta, marcando as linhas expressivas do seu temperamento audaz e risonho. Durante algum tempo, o riso pecara pela ausncia, mas no 
o abandonara: os sinais da sua morada permanente ainda l estavam.
- No penseis que  meramente um hbito - acrescentou Llewelyn. - Embora haja sido um hbito durante vinte e cinco anos. Farei eu bem as coisas sem vs? Sim, sem 
dvida, para um homem que se sente mutilado e de esprito distrado. Sem vs, Joan, sou um homem que se mutilou a si mesmo e que nega a verdade.
- E eu? - perguntou ela, baixinho. - Que sou eu?
- Vs sois a parte de mim que eu cortei e, sem vs, nunca fui nem nunca serei um homem completo.
Joan voltou a cabea e cobriu a cara com as mos.
- Aparte doente.
- No. A parte ferida. E, quando devia hav-la tratado, feri-a ainda mais.
- Santo Deus! - exclamou Joan, numa voz baixa e trmula. - Sede cuidadoso com o que lhe fazeis agora. Pensais que podeis curar a chaga sem ela se inflamar?
- Com a ajuda de Deus, sim - respondeu Llewelyn, agarrando-lhe docemente no pulso, embora sem a forar a afastar a mo do rosto. - No sentis que os lbios da ferida 
esto a fechar? Carne da minha carne, sangue do meu sangue, eu querer-vos-ia mesmo que me envenensseis. Mas sei muito bem que nunca o fareis. Voltai

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comigo para o lugar que foi e  vosso, ficai ao meu lado como outrora. Completai-me. Tornai-me um homem completo, antes de eu partir para o campo de batalha, com 
o futuro de Gales nas minhas mos. Como poderei lev-lo em segurana apenas com uma mo? Como poderei preservar a herana do nosso filho?
- Haveis esquecido o meu agravo contra vs? - perguntou Joan, em voz rouca, estremecendo ao contacto da mo dele.
- Haveis esquecido o meu? Mesmo com razo, um homem pode causar uma ofensa sem perdo. A medida da minha afronta e da minha clera contra vs era a medida do meu 
amor por vs. Deus  testemunha de que, mesmo nos piores momentos, nunca deixei de vos adorar.
Llewelyn utilizara outra palavra poderosa. Joan ergueu os olhos e o ser prisioneiro dentro de si brilhou nos seus olhos, ardendo de desejo de liberdade.
- Nem eu a vs - disse, espantada, permitindo que a mo dele estreitasse a sua. - Deus  minha testemunha! - exclamou, repetindo as palavras dele. - Mesmo nos piores 
momentos, mesmo quando estava presa, cega e louca, juro que o que sinto por vs se manteve intacto. Se pudsseis pegar no meu amor com as vossas mos, vereis que 
no h nele a mais nfima marca. Nem uma mancha, nem um risco! - Encostando a cabea  manga de Llewelyn, respirou fundo e acrescentou: - Ainda estou mergulhada 
nas trevas. Aquilo que me aconteceu ser sempre um mistrio, uma coisa como as estaes, como as cheias e os relmpagos, sem apelo nem possibilidade de fuga. E, 
todavia, no posso culp-lo s a ele...
No concluiu a frase. Apesar de ambos sentirem a sua presena, era a primeira vez que falavam da terceira pessoa que se encontrava ali, naquela sala, com eles. Na 
verdade, Joan vivera com essa presena durante um ano.
- Sim, falai dele - disse Llewelyn, olhando a cabea que repousava no seu brao. -  preciso faz-lo. Chegou o momento de o fazermos.
- Seja como for que tudo haja comeado, ele foi arrastado pela tempestade, tal como eu. Nunca foi vosso rival. Nunca houve um rival. - As palavras, entrecortadas 
por suspiros, brotavam

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daquela bela voz como o sangue brota de uma ferida. - Quando aqui chegou, estava fraco e sofria. E era to jovem! Ele precisava de todas as coisas que h em mim 
e para as quais vs no haveis qualquer uso: piedade, indulgncia e, at, perdo. Com a sua juventude, ele mostrou-me como era tarde e, pela sua admirao, que ainda 
no era demasiado tarde. Fez-me perceber que estava a ficar velha e que tudo quanto ele representava se estava a escapar das minhas mos. E eu fechei as mos e agarrei 
aquilo que ainda podia agarrar. E, depois, no fui capaz de soltar o que agarrara.
Por um momento, Joan ficou em silncio. Voltou um pouco a cabea e Llewelyn viu que o seu rosto recuperara a calma e, tambm, o brilho e a cor, como se o sangue, 
contido e paralisado pela solido e pela imobilidade corresse agora de novo.
- O que aconteceu nunca vos atingiu - prosseguiu ela. - O vosso lugar nunca esteve ameaado. O mundo pode no ver que assim foi, mas juro-vos que  verdade. Todavia, 
o que aconteceu prejudicou a vossa vida e a minha e custou a de um homem, que no era pior do que os outros e no merecia morrer. Lembro-me dele dia e noite,
- No  vossa obrigao esquec-lo e eu tambm no o esqueci - retorquiu Llewelyn. - E sei que, para onde quer que vamos, ele ir connosco. Mas nem sempre ir entre 
ns.
Llewelyn pegou-lhe nas duas mos e f-la levantar-se e ficar cara a cara com ele. Os seus braos rodearam-lhe o corpo. Por um instante, Joan no reagiu. Depois, 
com um suspiro, abraou-o tambm e, tremendo, ofereceu-lhe apaixonadamente os lbios.
O beijo teve o sabor da morte, mas Joan estava disposta a aceitar o preo com a recompensa, agarrando-se por igual  amargura e  felicidade, pois sabia que, a partir 
de ento, as duas eram inseparveis. Llewelyn sentiu o tremor que percorreu o corpo dela, at este morrer no seu prprio corao. A sua mo grande puxou o rosto 
dela contra a face e as palpitaes do seu sangue passaram para as veias de Joan e imprimiram ao sangue dela o mesmo ritmo apaixonado.
- A morte espera-nos - disse ele docemente, junto ao ouvido dela. - Quando chegar a altura de enfrentarmos William de Breos,

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enfrent-lo-emos. O que nos estar ento reservado, no nos cabe a ns decidir. Deus seja louvado! E que seja feita a Sua vontade.
Joan no foi capaz de falar, mas os seus lbios formaram a palavra, contra a garganta de Llewelyn: "men!"
Aps um longo silncio, Llewelyn afastou os braos que a enlaavam. Sorria. Os seus olhos argutos reflectiam o dourado do sol poente e o brilho que os animava no 
desapareceu quando a noite caiu. Joan viu que a chama dbil que nele acendera crescia e se tornava mais firme, num milagre de fidelidade nascida da infidelidade. 
Llewelyn seria um farol que guiaria os homens dos cls e um relmpago de tempestade para os seus inimigos. E ela que j se considerara extinta!
- Envergai as vossas vestes, ponde a vossa coroa e vinde comigo para o salo.
No terreiro, um jovem cavalario saa dos estbulos apressado, a caminho da ceia. Quando os viu parou, de olhos esbugalhados e boca aberta. Em seguida, soltou um 
grito de caador que encontrou a pista de uma pea de caa, deu meia volta e correu como uma lebre para o salo. A notcia precedeu-os, como o fogo a alastrar pelo 
restolho. Em todas as portas, assomavam cabeas de pessoas que queriam v-los passar e o murmrio de excitao e impacincia alongou-se atrs deles num fio de ouro: 
era a voz da alegria que brilhava em todos os rostos. A antiga e formidvel unio, que parecia haver-se dissolvido para sempre, voltava a brilhar em Aber como uma 
tocha, para confundir os seus inimigos.
Plido, com uma expresso grave e preocupada, David saiu dos seus aposentos, trazendo pela mo a sua esposa-criana. Sorriu, baixando os olhos para ela e, com uma 
delicadeza conscienciosa, respondeu  sua conversa viva e ftil. Alguns passos atrs dela, vinham as suas aias. Eram simpticas, mas oprimiam-na com a deferncia 
que mostravam para com a sua realeza e era difcil entender-se com elas. No compreendia por completo porque mudara a sua vida to sbita e drasticamente, embora 
soubesse de cor quais eram os deveres e os privilgios das senhoras casadas e fizesse tudo quanto estava ao seu alcance para desempenhar com decoro o seu papel.

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Abruptamente privada do pai e entregue a um marido, arrancada ao convvio familiar das irms, em Brecon, e mandada para aquela corte estrangeira e brbara, onde 
era a mais solitria das crianas, Isabella olhara tristemente  sua volta, em busca de um apoio, de um abrigo. E encontrara-o. Agarrava-se confiantemente  mo 
de David.
Naquela noite, estava mais srio e pensativo do que era habitual, caminhava de olhos postos no cho e sobrolho franzido, e apenas esboou um plido sorriso, quando, 
para o divertir e chamar a sua ateno, Isabella disse uma piada  esposa de Ednyfed. Continuava de olhos baixos quando chegaram ao canto do salo e no viu o prncipe 
aproximar-se, levando pela mo uma senhora desconhecida. Uma senhora alta, vestida de veludo azul-escuro, com um colar de gatas ao pescoo e um diadema de ouro 
nos cabelos; uma senhora que Isabella nunca vira, durante o ano que passara na corte de Gwynedd. Criana e mulher olharam uma para a outra, com igual surpresa e 
circunspeco, atradas mas receosas.
Joan viu uma rapariguinha de oito ou nove anos que, agarrada  mo de David, a fitava atentamente. A criana vestia uma cota de l amarelo plido e um pelote de 
brocado ornado com um fio dourado e, quando se aproximou, alisou as vestes com a mo livre, consciente da necessidade de se apresentar bem diante da desconhecida. 
O seu rosto redondo, fresco e corado era enquadrado por duas tranas curtas, de cabelo preto ondulado. Inocentes e ansiosos, os seus olhos sombreados por pestanas 
compridas como os do pai, brilhavam como espadas.
Furtivamente, Isabella puxou pela mo de David e encostou-se  anca dele. Sorrindo, distrado, ele olhou-a de lado e ela franziu a testa, indicando a estranha com 
um aceno. David olhou na direco indicada e viu o casal que, de mo dada, se encaminhava para ele.
Espantado, quase com medo de acreditar, David parou e a tez clara das suas faces enrubesceu, num acesso de alegria que lhe fez brilhar o rosto. O rosto da criana 
que, apesar de no compreender o que se passava, no desviava os olhos dele brilhou tambm, reflectindo a sua alegria. Por longos instantes, enquanto eles se aproximavam 
dos degraus do salo, reinou o silncio. Por fim, David recuperou a fala.

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- Finalmente a minha me voltou - disse, avanando sorridente ao seu encontro.
Um pouco desajeitadamente, por causa das lgrimas que lhe toldavam os olhos, levou a criana pela mo at junto dela.
- Aqui tendes, senhora, uma pessoa que vos peo que ameis e acarinheis como se fosse vossa filha. Esta  Isabella, minha esposa e vossa filha. H muito que espera 
um beijo vosso.
Joan aproximou-se, pegou nas mos da filha do morto e beijou-a. Os dedos macios e tmidos tremeram entre as suas mos, a flor ainda incompleta que era a boca da 
criana tinha o gosto da  Primavera e do Sol. Nenhuma sombra velava os seus olhos pretos, quando Isabella que, do amor, conhecia apenas a faceta esplendorosa e ignorava 
a faceta obscura, olhou para ela e sorriu.

CAPTULO ONZE

Parfois, Aber: Junho de 1231

A PRIMEIRA SRIE DE FOLHAS POTENTES E RGIDAS, a imitar OS capitis da nave principal, da autoria de mestre Harry, emergira da pedra com algumas imperfeies: o 
excesso de ambio originara uma concepo ligeiramente pretensiosa e a falta de prtica uma execuo um tanto desajeitada. Mas a segunda, de inspirao mais pessoal, 
era  medida de Harry que, ento, j dominava melhor as ferramentas e que a esculpiu com pacincia e facilidade, sem maltratar o material nem a si prprio. A certa 
altura, porm, quase a estragou, por puro nervosismo, quando mestre Edmund parou atrs dele, a observ-lo por alguns minutos. Mas o velho canteiro repreendeu-o primeiro 
e elogiou-o depois, de forma concisa em ambos os casos, e Harry conseguiu dominar o desagrado que lhe provocava ser observado enquanto trabalhava. A partir de ento, 
aproximasse-se quem se aproximasse, continuava a esculpir a pedra resoluta e firmemente.
Um dia, ao fim da tarde, quando se encontrava sozinho e absorto, a talhar as suas folhas, ouviu abrir-se a porta da sala de desenho. Pensando tratar-se, mais uma 
vez, de mestre Edmund, forou-se a continuar o trabalho. Decididos, leves, regulares, os golpes do macete

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produziam um som denso e alegre. A mo que orientava o cinzel movia-se com delicadeza e cautela, ainda um pouco hesitante mas a ganhar confiana. S quando ele fez 
uma pausa, para escolher um cinzel mais fino, a pessoa que se encontrava a um passo do seu ombro lhe dirigiu a palavra.
- Nem sequer imaginaste quem eu era - disse a voz provocadora, mas amvel de Isambard. - H um ms, o teu sangue fervia mal eu entrava na mesma sala onde tu estavas.
Demasiado tarde, Harry tentou ocultar o estremecimento que o trara e continuou a mexer nas ferramentas do pai, com uma concentrao feroz. Mas, aparentemente, havia 
mais coisas que estavam a mudar. Um ms antes, no haveria respondido  voz que odiava; agora, parecia-lhe que a sua prpria dignidade exigia que respondesse. Sem 
largar o cinzel que escolhera, voltou a cabea. Isambard trazia ainda vestida a loriga: acabava por certo de chegar a Parfois e Langholme devia estar  sua espera 
na Torre da Rainha, para o ajudar a mudar de traje.
- Sede bem-vindo, senhor - disse Harry, envergonhado pelo tom falso e pouco convincente da prpria voz.
- Sou mesmo bem-vindo? E s tu quem o diz?
Isambard encostou  parede alguns esboos poeirentos que se encontravam na extremidade da bancada, sentou-se de lado no stio de onde os retirara e encostou-se confortavelmente 
ao rebordo de pedra da janela, por onde entrava a luz que iluminava o trabalho do escultor. Riu-se, ao ver que o jovem franzia o sobrolho por a sua sombra lhe tirar 
a visibilidade, A atitude representava uma referncia, que Harry desconhecia.
-  muita cortesia da tua parte, tanto mais que o meu regresso vai voltar a fechar-te as portas e confinar-te ao terreiro interior. A menos que queiras prolongar 
indefinidamente a tua promessa? Queres?
- No, senhor - recusou Harry, antes de pronunciar as palavras que Isambard esperava: - Se, por bondade, vos afastsseis da janela, senhor, eu poderia continuar 
a trabalhar.
O som suave e nostlgico da gargalhada que lhe respondeu, e que no conseguia entender, desconcertou-o. Lanou um breve

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olhar ao homem, cujos ombros largos impediam a luz de entrar, e cruzou os braos contra o peito.
- No, Harry. Desta vez, no. Eu podia afastar-me mas j quase no h luz e no quero que estragues os olhos ou o teu trabalho, por trabalhares at muito tarde. 
Deixa para amanh. No por eu ordenar - acrescentou pacientemente, ao ver o trejeito rebelde de Harry - mas porque o teu bom-senso te diz para assim fazeres. S 
um mau arteso estraga a sua obra, mesmo que seja para desafiar o seu pior inimigo.
Num gesto que fez sorrir Isambard, Harry voltou-se com brusquido e, deliberadamente, poisou de novo a mo no contorno da folha. O macete hesitou no ar. Na verdade, 
a luz j quase desaparecera e a curva suave da folha parecia pedir que no a danificasse. Queria aperfeioar os pormenores, mas aquela hora no era a mais indicada. 
Aps uma breve luta com a prpria teimosia, Harry aproximou-se da bancada, poisou calmamente as ferramentas e comeou a baixar as mangas da cota.
- Muito bem! - comentou Isambard. - Se ficares aqui o tempo suficiente, ainda fazemos de ti um homem razovel. Continuas a no querer prolongar a tua palavra?
- A minha palavra valia at ao vosso regresso, senhor, e vs haveis regressado.
- Regressei e recebi as boas-vindas.  mais do que eu esperava. - Estendeu a mo, pegou num cinzel, experimentou-o com a ponta do dedo e acrescentou: - Sabes que 
novas trago eu de Hereford, Harry?
- No, senhor.
Harry contemplava a sua obra, de cenho franzido, mas a expresso era apenas de concentrao e de prazer. Mexeu no bloco de pedra, para ver o jogo da luz que ainda 
restava sobre a superfcie esculpida.
- Gales est em guerra - anunciou Isambard. - Faz hoje trs dias, Llewelyn deitou fogo ao burgo de New Montgomery.
Desta vez, houve reaco. As mos que afagavam a pedra largaram-na como se ela queimasse, o rosto amuado iluminou-se, os olhos verdes e ardentes muito abertos brilharam 
ao fit-lo. Em silncio, os lbios de Harry formaram a pergunta: "Em guerra?"

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- Dois dias antes da data marcada para mais uma ronda de conversaes fastidiosas em Shrewsbury, o nosso nobre corregedor do reino decidiu obrigar Llewelyn a agir, 
executando alguns prisioneiros em Montgomery. Os seus clculos podem haver sido acurados - disse Isambard com um sorriso sardnico - mas, aqui entre ns, Harry, 
eu duvido. Seja como for, ele assim fez e o teu grande prncipe de Aberffraw e senhor de Snowdon inflamou-se como palha seca e, agora, anda a lanar fogo  fronteira. 
Enquanto Sua Majestade o rei Henrique delibera, hesita e confia em que os seus bispos apaguem o fogo com um pouco de gua-benta.
- E Montgomery ardeu? - perguntou Harry, ele prprio incandescente como uma tocha.
- Casas, lojas, courelas, tudo, incluindo a igreja, Harry. E tambm, segundo ouvi dizer, alguns religiosos e algumas mulheres que estavam na igreja, embora duvide 
que o fogo haja querido saber quem l se encontrava. As construes estavam muito prximas umas das outras, sob o rochedo.
- E o castelo?
- Harry, Harry. s demasiado ambicioso! Alguma vez viste o castelo de New Montgomery? Mais vale atirar pedras a Parfois. Mas o que Llewelyn quer  Radnor, o castelo 
e o burgo, e no vai ser a ascenso de um monte que o vai fazer parar. Ele est furioso e quer deitar a mo a todos os senhorios e tutelas de Hubert de Burgh, de 
Powis a Gwent. E, por aquilo que eu vi, vai conseguir. Disseste alguma coisa, Harry?
- No, senhor.
No, no dissera nada: apenas respirara fundo para reprimir um grito. Voltou-se de novo para a bancada mas, desta vez, os seus olhos mal viam a obra que criara. 
Harry acariciava-a sem pensar, apenas numa tentativa de acalmar o tremor dos dedos. No conseguia estar quieto. Deu algumas passadas furiosas, procurando conter 
a raiva e o desejo. O prncipe pegara em armas, a fronteira estava a ferro e fogo e ele estava ali, preso, a talhar blocos de pedra! Haviam estado to perto, em 
Montgomery, e ele nem soubera de nada!
- Sim,  verdade, o teu prncipe est no campo de batalha - disse docemente Isambard, sorrindo, de olhos fixos nas costas rgidas

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de Harry - e tu, o seu leal irmo adoptivo, no ests ao seu lado. Que desaire para um jovem educado segundo as regras da honra! Nunca mais vais ousar mostrar-te 
em Gales, depois de uma tal desero.
- No vos fica bem criticar-me por isso, senhor - disparou Harry, a tremer de raiva.
- Ah! Vejo que toquei num ponto sensvel. E David, teu irmo e teu prncipe, ir perdoar-te?
Isambard viu Harry flectir os ombros rgidos e morder os lbios at fazer sangue. Um ponto insuportavelmente sensvel. Suavemente, levado pela curiosidade, tocou-o 
de novo:
- E se eu te deixasse ir cumprir o teu dever, Harry? Se me desses a tua palavra em como voltavas aqui, depois de a paz entre a Inglaterra e Gales haver sido restabelecida? 
Que achas? Davas-me a tua palavra? E serias capaz de a honrar?
Num acesso convulsivo de raiva e desgosto, Harry fechou com fora as mos, deu meia volta e dirigiu-se para a porta em passadas rpidas, tentando escapar quela 
armadilha ignbil. A dignidade da retirada foi contudo ligeiramente prejudicada pela brutal coliso da sua anca com a mesa de desenho de mestre Edmund; estava demasiado 
zangado para ver por onde ia.
- Precisamos de arranjar uma maneira de vergar esse mau feitio - disse Isambard para as costas de Harry. - Prejudica-te o raciocnio.
Estas palavras foram pronunciadas no mesmo tom brando de antes mas, quando Harry se encontrava j ao p da porta, a voz fez-se ouvir mais alto, numa ordem peremptria, 
que soou como uma chicotada:
- Volta aqui!
Volta por iniciativa prpria ou voltas arrastado, pensou Harry e, por um momento, sentiu-se tentado a obrig-los a empregarem a fora; mas, ao abrir a porta, chegaram 
at si, vindas do terreiro exterior, vrias vozes jovens e impetuosas que falavam muito alto, e lembrou-se de que a escolta de Isambard acabara de regressar de Hereford. 
Ser arrastado diante de tantas pessoas, pouco mais velhas do que ele, seria mais do que estava disposto a suportar. Lentamente,

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voltou a fechar a porta e virou-se para Isambard, que brincava com o cinzel e o observava com o seu sorriso oblquo.
- Vem c!
De rosto sombrio, Harry voltou obedientemente para junto da bancada e postou-se diante de Isambard, desafiando-o com o olhar.
- No  de bom-tom nem digno voltar as costas, quando algum nos faz uma pergunta directa. Se, em vez de meu prisioneiro, fosses meu pajem, isto valer-te-ia umas 
boas chicotadas.
- E, senhor, ser de bom-tom e digno acusar-me de uma falta pela qual no sou responsvel e acenar-me com uma oferta que no haveis teno de cumprir? No bastar 
eu estar aqui, encarcerado? Ser tambm preciso atormentar-me com promessas vs?
Harry tremia de raiva. As mos que, pouco antes, haviam empunhado o cinzel e o macete haveriam por certo feito um mau trabalho de escultura, naquele momento, mas 
seriam bem capazes de fazer melhor, se pudessem agarrar uma espada.
- Como sabes tu que estou a enganar-te? Pe-me  prova e vers. Responde  minha pergunta! E se eu te deixasse ir ao encontro do teu prncipe e cumprir o teu dever, 
mediante a tua promessa de voltares aqui, logo que a paz seja restabelecida? Davas-me a tua palavra? E estarias disposto a cumpri-la?
Desconfiado e mergulhado numa agonia de confuso, Harry ficou paralisado.
- Bem sabeis que no  uma proposta verdadeira, senhor. Atormentais-me s por diverso.  indigno!
Sem desviar os olhos de Harry, Isambard sorriu, batendo levemente na bancada com o cabo do cinzel.
- Ento, Harry? Jurarias?
Harry susteve a respirao por um momento, lutando consigo prprio e, por fim, numa voz entrecortada, disse:
- Sim, juraria!
- E respeitarias a tua promessa?
- Sim, respeitaria.
Lutando desesperadamente por conter a torrente de lgrimas que lhe queimava os olhos, Harry voltou a cabea. Era preciso

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responder para acabar com aquela tortura cruel. E responder com sinceridade, porque no havia outra sada.
- Ento, podes partir - disse Isambard, poisando o cinzel to suavemente que o metal no produziu qualquer som ao tocar na bancada. - Aceito a tua palavra.
- Partir?
Em estado de profunda confuso, aquela espcie de eco foi a nica palavra que Harry foi capaz de pronunciar.
- Sim. Vai ao encontro do teu irmo adoptivo. Eu aceito a tua palavra.
Aquilo no podia ser verdade, era seguramente uma maquinao diablica para o enredar num lao ainda pior, uma armadilha que faria dele no apenas um prisioneiro, 
mas causaria a sua runa total. Todavia, apesar desta certeza, Harry sentia que era preciso agarrar a oportunidade com as duas mos e lutar o melhor que pudesse 
contra aquela trama complexa de enganos. Os seus olhos adquiriram um brilho diferente, que expulsou o brilho das lgrimas.
- Quereis mesmo dizer que posso ir, senhor? Deixam-me passar a porta do castelo?
- V por ti prprio. Esta noite, se quiseres. - O sorriso oblquo brincava nos lbios de Isambard. - E mais: levas algum dinheiro para a viagem, para o caso de precisares.
- Agradeo-vos, senhor, mas no preciso de nada de vs, a no ser esta graa.
- E no queres ver-te obrigado a agradecer-me mais nada, alm desta graa! Nem um cavalo, Harry?
- Nada, senhor.
As sombras do sorriso alastraram s faces cavadas. As malhas da fina cota de armas de Isambard tilintaram ligeiramente, quando ele desceu da bancada e esticou os 
braos compridos.
- Ento vai, Harry. Vers que o caminho est livre. Voltaremos a ver-nos quando o teu prncipe e o meu rei firmarem a paz.
A despedida no podia ser mais clara. Aturdido, Harry voltou as costas, to profundamente dividido entre a alegria selvagem e o espanto que os seus ps mal encontravam 
o caminho, at se transformarem em asas.

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Atrs de si, a voz de Isambard chamou:
- Harry!
Com alguma dificuldade, Harry conseguiu arrancar-se ao delrio do voo e olhou para trs. Isambard segurava nas mos o bloco de pedra onde ele estivera a trabalhar 
e observava atentamente as folhas ali desenhadas.
- Eu encarrego-me de velar por que ningum toque nesta pedra. Podes acabar o trabalho quando voltares.
Apesar de ainda no acreditar no que acontecera, Harry saiu da priso plido e tenso, lavado e arranjado para a viagem. Pedira as suas velhas roupas, mas logo se 
dera conta de que mal conseguia vesti-las e, por fora das circunstncias, continuava a usar as vestes que, outrora, haviam pertencido a William Isambard, o segundo 
filho do velho lobo, o intriguista e corteso, que, na obscuridade relativa da casa real, aguardava uma herana que j tardava. Se lhe fosse realmente permitido 
abandonar o castelo, aquela ddiva forada voltaria um dia com ele. Mas no acreditava, no acreditava, repetia Harry para consigo mesmo, enquanto atravessava o 
terreiro exterior, cheio de medo de acreditar e sofrer uma desiluso.
Ningum lhe prestou mais ateno do que das outras vezes, nem ningum o deteve. A sua passagem at  entrada do castelo revestiu-se da normalidade anormal de um 
sonho, no qual todas as coisas, mesmo as mais fantsticas, so perfeitamente plausveis. Aproximou-se da passagem sombria, onde o frio da noite caa primeiro, e 
o corao acelerado desafiava-o a acreditar que ia conseguir chegar ao fim do tnel. Os guardas afastaram-se e ficaram a v-lo passar. Avanou para a ponte. Ali, 
podia ser o culminar de toda aquela piada cruel: deix-lo chegar a meio da ponte e, ento, i-la e faz-lo cair para trs. Um passo, depois outro, sempre  cautela 
e de ouvidos atentos ao mnimo ranger das correntes. Nada. Ouvia os estalidos inconstantes das armas das sentinelas, l em cima, nas torres, e o sussurro dos ramos 
das rvores, agitados pela brisa fria do entardecer.
Seguiu em frente, sobre a erva pisada. quela hora, a esplanada estava praticamente deserta: apenas alguns falcoeiros e caadores que regressavam ao castelo e o 
velho capelo de Isambard,

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que voltava, montado numa mula. Depois deles, Harry no se cruzou com ningum, enquanto seguia pelo longo carreiro em diagonal que ligava a ponte  rampa de acesso. 
A sua direita, via-se a igreja e Harry no afastou os olhos dela at ao ltimo momento, quando se embrenhou entre as rvores. A luz suave do fim do dia, a pedra 
assumia o tom cinzento azulado das penas dos pombos, com laivos de um brilho vivo, e o ouro dos ltimos raios de sol batia ainda na parte superior da torre. Harry 
manteve a cabea virada para trs, at as rvores a ocultarem. Este era o maior dos tributos, prestado por algum cujo corao partira j  desfilada em direco 
a Aber.
Agora, sabia que, no fundo, acreditava na oportunidade que lhe fora dada e apenas um resto de senso comum, prudente, realista e receoso lhe dizia que devia continuar 
a desconfiar. Mas, se os homens do ltimo posto da guarda o mandassem para trs, os restos de suspeio no bastariam para impedir que o seu corao ficasse destroado. 
Ainda assim, agarrou-se aos ltimos vestgios de cepticismo e seguiu o seu caminho, de cabea erguida, mas com o rosto plido e assustado, com receio at de se apressar, 
no fosse uma pressa demasiado notria fazer oscilar as coisas em seu desfavor.
Chegou  passagem estreita entre as torres, a meio da rampa. Era ali que ia acontecer. Os guardas iam permitir-lhe que chegasse junto deles, como se houvessem recebido 
ordens para o deixar passar e, ento, mandavam-no brutalmente para trs. Metade do seu ser acreditava que seria assim, a outra metade no. Dividido, em luta consigo 
prprio, aproximou-se e passou. Os guardas olharam para ele e fizeram-lhe sinal para passar.
Estava fora das barreiras defensivas de Parfois. Continuou a descer a rampa, estupefacto por se encontrar ali, livre e s, a caminho de casa.
Portanto, se se tratava de um truque, era mais complicado e subtil do que pensara. A dvida atormentou-lhe o esprito, enquanto descia em direco  margem do rio 
e, no momento em que, instintivamente, ia embrenhar-se na floresta para se dirigir  cabana de Robert, Harry emergiu do nevoeiro de confuso em que flutuava e comeou 
a compreender. Fora libertado, em troca da promessa de voltar voluntariamente ao cativeiro; uma promessa bem fcil de

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fazer agora mas difcil de cumprir a sangue-frio, mais tarde, quando chegasse a altura de a honrar. Estava a ser tentado a faltar  palavra, libertado com uma rdea 
muito, muito comprida, na esperana deliberada de ele morder a isca e nunca mais voltar.
Isambard est seguro de que eu no vou cumprir a minha promessa, pensou Harry, com o esprito subitamente lcido, apesar de cego pelo dio. Pensa obter de mim aquilo 
que nunca obteve do meu pai. E, assim, triunfar por fim sobre o sangue do meu pai.  isso que ele quer, que sempre quis de mim. Mas eu no vou faltar  minha palavra!
Ao chegar ao vau, Harry decidiu que, afinal, era melhor voltar as costas  cabana de Robert e atravessou o Severn em camisa, com a cota e as meias debaixo do brao. 
Depois, percorreu cerca de metade do caminho para Castell Coch, antes de ousar embrenhar-se no bosque e deitar-se  espera de que fosse noite cerrada. A sua mente 
demasiado impaciente ocorreu que j uma vez fora deixado sair de Parfois para que os seus movimentos revelassem uma informao que no quisera dar e no queria correr 
o risco de voltar a fazer o mesmo. Talvez eles suspeitassem de que tinha amigos na zona, talvez o facto de recusar um cavalo houvesse servido apenas para confirmar 
tal especulao, talvez eles estivessem  espera de que ele se mostrasse to tolo como da primeira vez e os levasse at Robert e Aelis.
Desta vez, porm, iriam ficar desapontados. Permaneceu escondido no bosque at anoitecer e, ento, com infinita cautela e muitas paragens para confirmar que se encontrava 
sozinho, voltou ao vau por outro caminho. Nu, naquela noite quente, atravessou o Severn e nu seguiu pela floresta, at secar e, ento, escondido entre os arbustos, 
no longe do rio prateado, voltou a vestir as roupas. Na volta, j com Barbarossa, no precisava de se despir de novo.
Aelis acabara de fechar a capoeira e estava sentada nos degraus de madeira,  entrada da cabana, a escutar a noite. De sbito, entre os sons suaves habituais, ouviu 
o pequeno estalido de um ramo seco, quebrado por um p imprevidente e ficou muito quieta,  escuta. Os seus sentidos apurados detectaram as passadas de um

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homem, na orla da clareira, perto da vedao. Ento, Barbarossa comeou a agitar-se, a bater com as patas e a relinchar. A tremer, Aelis levantou-se dos degraus 
e avanou para o visitante invisvel.
- Harry? - chamou num sussurro, que quase no chegou a quebrar o silncio.
Harry sentiu-se profundamente comovido pelo tom do apelo: to hesitante e, ao mesmo tempo, to temerrio, denotando o medo de acreditar e rejeitando a desiluso 
com tanta determinao. Foi um tom que o fez estremecer, tomado por uma emoo para a qual no estava preparado, e saltar impetuosamente para terreno aberto, para 
lhe responder.
- Aelis! Estou aqui!
- Harry, s mesmo tu! Como foi que chegaste aqui? Como foi que fugiste? Eles vm atrs de ti?
As perguntas, feitas em rpida sucesso, voavam para ele como penas arrastadas pelo vento, como carcias. Aelis abraou-o com todas as suas foras e a vibrao do 
seu prprio corpo f-lo aperceber-se das mudanas que se haviam verificado no dela. Despedira-se de uma rapariguinha selvagem, dura, arrapazada, mas ela tornara-se 
uma mulher durante a sua ausncia. Os seus seios pequenos, mas altos, fizeram-lhe palpitar o corao e afluir o sangue ao rosto. Assustado pela transformao de 
uma camaradagem to simples num sentimento desconhecido e aterrador, Harry abraou-a um tanto rigidamente, enquanto ela continuava a bombarde-lo com perguntas e 
splicas.
- Vais ficar aqui? Pelo menos esta noite! De certeza que no corres nenhum risco? Fizeram-te mal naquele stio horrvel?
- Eu estou bem, Aelis, estou muito bem. Mas no posso ficar. Preciso de atravessar o rio. De madrugada, estarei a caminho de casa. Vamos ver o teu pai e eu conto-vos 
tudo.
Mas iria mesmo contar tudo? E ela entenderia, se ele contasse? Ou julg-lo-ia louco por permitir que a palavra dada se interpusesse entre si e a liberdade permanente?
Quando afastou os braos do pescoo de Harry, os dedos de Aelis tocaram-lhe na face e fizeram-na tomar conscincia de que ele tinha dezasseis anos e era quase um 
homem. Arqueando o corpo,

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recuou um pouco, mas no to suavemente que ele no se apercebesse. Harry sentia a cara a arder. Os seus braos, que envolviam timidamente Aelis, fecharam-se com 
mais fora sobre o corpo dela, reagindo de modo instintivo  ameaa de separao, ciosos dos seus privilgios.
- Agora, vais voltar para casa e nunca mais te vemos - disse Aelis, numa confuso de sentimentos que incluam o espanto, a alegria, a tristeza e o medo. - Agora 
que ests livre, nunca mais vais voltar aqui.
Harry empurrou-a suavemente para casa e, de passagem, estendeu a mo para acariciar a pelagem macia do pescoo de Barbarossa.
- No  verdade - disse, numa voz que, desde a ltima vez que Aelis a ouvira, se tornara grave e adquirira autoridade. - Eu vou voltar.
Seria apenas por haver dado a sua palavra a Isambard? Ao responder, pensara que assim era mas, depois de as pronunciar, aquelas palavras assumiram um sentido diferente. 
Nos seus braos, Aelis afastou-se mais um pouco, o corpo tenso como um arco, rindo e troando dele e de si mesma.
- Sabes muito bem que, agora, s voltaste aqui por causa do Barbarossa - disse.
Uma hora antes, o prprio Harry haveria confessado honestamente que fora isso que ali o trouxera. Agora, via as coisas de um modo diferente. A proximidade do corpo 
dela, que procurava esquivar-se ao seu abrao, excitava-o. Estendendo os dois braos, puxou-a para si, satisfeito com a sua prpria fora e sentindo-se comovido 
e desafiado pela dela. Aelis encostou-lhe ao peito os punhos cerrados, empurrando-o energicamente, e caram ambos sobre a erva alta, perto da cerca.
Os seios pequenos e firmes de Aelis avolumavam-se sob o corpo dele. Deitado por cima dela, Harry tomou-os entre as mos e um prazer sbito submergiu-o, triunfante, 
como se houvesse sido ele a cri-los. Os cabelos de Aelis espalhavam-se sobre o rosto dele, frescos e estonteantes como rainhas dos prados. Fervorosa, mas um tanto 
desajeitadamente, Harry procurou os lbios dela mas encontrou

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apenas uma orelha, porque ela virara a cabea. Mas quando, entre risos e arquejos, tentou de novo, Aelis voltou-se para ele e, com um pequeno suspiro de espanto 
e prazer, a sua boca foi ao encontro da dele.

- No vais voltar para l - disse Gilleis, apertando-o contra o peito, sem se importar com o facto de ele estar sujo da viagem. - No podes! No podes! Ningum detm 
o direito de arrancar uma tal promessa a outra pessoa. Deus absolver-te-.
- No, me. E, ainda que um dos Seus bispos assumisse uma tal responsabilidade, eu no lhe daria ouvidos. Dei a minha palavra e vou cumpri-la.
Harry ajoelhara-se aos ps de Gilleis, com os braos  volta da cintura dela, apertando com fora o seu corpo frgil. Gilleis enlaava-lhe o pescoo, chorava e ria, 
afastava-se de vez em quando, maravilhada por o ver to crescido e to viril, voltando a pux-lo para si, para o embalar, como se ele fosse uma criana de colo. 
Agir de forma ridcula pouco lhe importava: no estava ningum a ver.
- O prncipe nunca ir permitir - disse ela com grande nfase, pois no acreditava que tal acontecesse.
- O prncipe h-de compreender que  mister que eu v. Ficaria furioso, se eu no cumprisse o meu dever. Mas eu vou cumpri-lo. E vs... bem podeis falar! Se o filho 
do meu pai trasse a palavra dada, bater-me-eis e mandar-me-eis de volta.
- No faria tal. Diria que possuas o bom-senso dos Otley e apoiar-te-ia.
Gilleis afastou-lhe os cabelos pretos da testa, agora completamente formada, a testa de um homem, com as salincias e reentrncias ali orgulhosamente marcadas pela 
reflexo. Quem poderia pensar que um ano apenas daria origem a tal transformao? Harry crescera tanto que ela quase no conseguia abra-lo e estava to forte e 
adulto que ela j no era capaz de se imaginar a puxar-lhe as orelhas, por mais que ele o merecesse.
- E, agora, vais a correr juntar-te ao exrcito - observou, exasperada. - Fica um pouco comigo. Estiveste longe de mim durante um ano.

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- Me, me, eu fui libertado para cumprir o meu dever. Vim aqui a pretexto de saber onde deveria apresentar-me, mas sabeis muito bem que foi para vos ver que realmente 
vim. Mas preciso de me juntar a David o mais depressa possvel. Ficar aqui seria uma traio. Parto amanh.
- Depois de amanh!
Harry prendeu-lhe o punho minsculo na palma da mo e, com os lbios encostados  face dela, murmurou:
- Amanh!
Gilleis sacudiu-o, poisou a cabea do filho no seu ombro e abraou-o com fora.
- Devias obedecer  tua me, filho indigno.
- Mulher obstinada. Segundo a lei galesa, j sou um homem e deveis-me respeito. E, se no fsseis a me mais bonita de Aber, no fareis de mim o que quereis, com 
tanta facilidade.
- Ento,  depois de amanh?
Harry beijou-a calorosamente, mas repetiu com firmeza:
- Amanh!
Gilleis deixou-o pensar que ficara convencida ou, pelo menos, resignada. Talvez o tempo atenuasse a premncia da sua deciso ou talvez os acontecimentos ainda pudessem 
alter-la. O prncipe podia proibi-lo de regressar, Isambard podia morrer, no campo de batalha, com a hoste do rei, ou em casa, de velhice. O castelo de Parfois 
podia ser arrasado ou conquistado por Llewelyn. Ou talvez um pequeno ferimento sem gravidade ou uma febre sem importncia retivessem na cama aquele grande teimoso, 
entregando-o aos seus cuidados. Gilleis apegava-se ao prazer e  ansiedade do momento. O que mais temia era a sua partida para aquela guerra e o que mais desejava 
era que voltasse so e salvo.
- Harry...
- Sim, me? - respondeu Harry, erguendo o rosto alegre e corado.
-Assim que estejas apresentvel, vai expressar os teus respeitos.
- A Ednyfed? - perguntou Harry, despreocupadamente. - Posso faz-lo  hora da ceia, quando nos encontrarmos no salo.
- A princesa - respondeu Gilleis.

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A expresso de Harry tornou-se instantaneamente grave. Gilleis viu a antiga emoo percorrer de forma quase imperceptvel o rosto do filho, como uma nuvem passageira 
sobre uma colina batida pelo sol. Sem lhe soltar as mos, Harry ps-se de p. Estava j mais alto do que o pai alguma vez fora e ainda continuaria a crescer pelo 
menos durante um ano ou dois.
- Iro deixar-me entrar na sua cela? - perguntou Harry em voz baixa.
- No ser preciso. Ela voltou para ns. Poders encontr-la no lugar que lhe pertence, na cmara do prncipe.
Quando a voz dela o mandou entrar, Harry estremeceu e a mo pousada sobre o puxador da porta ficou rgida e fria. Voltara a sentir a amargura do orgulho ferido, 
a memria do amor trado regressara e foi-lhe penoso franquear o limiar.
Ela estava sentada  mesa, diante de uma missiva chegada dez minutos antes, sozinha na sala de Llewelyn, na cadeira de Llewelyn, o diadema de ouro sobre os cabelos 
grisalhos, que ainda apresentavam ricas madeixas loiras. Ela virou a cabea para o ver entrar. Docemente, com todo o cuidado, poisou a pena e afastou a cadeira da 
mesa para o receber. O rosto dela mostrava-se plido e grave, como ele o recordava, e os olhos grandes e calmos, sem uma sombra, as sobrancelhas ligeiramente franzidas 
de preocupao. Teve de se arrancar ao mundo nebuloso da poltica para o acolher.
- Harry! Bem-vindo a casa.
Por um instante, ao olhar para ele, o rosto dela corou. O ano da vida dele que perdera estaria para sempre ligado ao ano que ela prpria perdera. Uma vez, havia 
muito tempo, Harry perguntara-lhe: "Sabereis o que  estar prisioneiro? Saberei eu?"
- Senhora! - saudou ele, avanando para se ajoelhar aos seus ps.
A mo que tocou na sua usava o anel de Llewelyn. Harry inclinou a cabea e beijou os dedos frios, junto  pedra. A volta dela flutuava um perfume subtil e, diante 
dos olhos de Harry, o movimento ligeiro da respirao agitava o seu corpo vestido de brocado, o seu corpo que envelhecia. Harry reteve longamente a mo dela, perdido

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no tempo, assaltado pelas recordaes dilacerantes do fim da sua infncia. Com resignao e humildade, Joan assistiu ao combate que se travava no campo de batalha 
do corao dele e que se reflectia no seu rosto torturado: a luta entre o orgulho e o ressentimento, por um lado, e o amor e o desgosto, por outro.
Maltratara-o e trara-o e, todavia, agora que tocava nas mos dela e deixava repousar as suas sobre os joelhos dela, Harry no sentia qualquer mudana nela: nada 
faltava ao afecto que ainda lhe aquecia a alma. No teria a sua desiluso passado de uma iluso? Fora ele quem mudara. Alguma coisa acontecera aos olhos com que 
via as coisas e aos ouvidos com que escutava o que se passava  sua volta. Agora, esses olhos viam os acontecimentos do ano anterior segundo uma perspectiva nova, 
que nunca imaginara e que se situava acima da batalha, mas no fora do alcance da dor. Recordou-se do morto, no seu esplendor vivo e na sua nudez assustada, e j 
no lhe parecia ser necessrio separar as duas imagens. Ouviu a splica premente da voz de Joan: "Pensa nele com bondade. Pensa com bondade em todos os pobres pecadores. 
Se te sentes ferido, qual no ser o sofrimento deles?"
Naquele momento, Harry sentia-se invadido por algo a que no sabia dar nome, porque, at ento, nunca fora obrigado a identificar a compaixo. Conhecia o respeito, 
que tambm sempre sentira por ela, mas no compreendia aquele impulso, mais desesperado, que o submergia, que lhe inundava o corao.
Sentira-se morrer de dor perante a ofensa que lhe fora feita, sem ver mais nada e, levado pela fora e pela amargura de tal sentimento, desafiara o prncipe e importunara 
Deus, banira-se a si mesmo e abandonara-a. Mas, se ele se sentira ferido, quanto no teria sido o sofrimento dela?
- Perdoai-me! - suplicou, a tremer e de olhos baixos. - Perdoai-me!
E ele que se julgara magnnimo por lhe perdoar a ela! No compreendia, mas tambm no se interrogava. Depois de as haver pronunciado, soube que aquelas eram as palavras 
certas e, ento, repousando a cabea no colo dela, repetiu-as uma vez e outra, num alvoroo de alegria e gratido.

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Joan deixou escapar um breve suspiro, debruou-se sobre ele e tomou-lhe a cabea entre as mos. Harry ergueu o rosto para ela, os olhos bem abertos e solenes e ofereceu-lhe 
os lbios, como fazia em criana. Mas quando, depois de o haver beijado, tomada de alegria, o afastou um pouco de si para olhar bem para ele, Joan viu que o Harry 
que voltara para casa era j quase um homem.

CAPTULO DOZE

Brecon, Cardigan, Vale do Wye: Julho a Dezembro de 1231

A guarnio do castelo de Brecon fez uma surtida, mal o fogo ficou reduzido a brasas e o fumo do burgo incendiado comeou a assentar como um lenol morturio sobre 
as muralhas e os telhados. Os ingleses estavam convencidos de que as suas defesas aguentariam praticamente tudo, menos um cerco prolongado e a rapidez do assalto 
gals indicava que a ideia de Llewelyn no era conquistar pela fome um castelo de de Breos, mas causar o maior nmero possvel de danos nas possesses do corregedor 
do reino, antes de esgotar o seu prprio mpeto ou de o rei Henrique pr finalmente em campo a sua hoste. Todavia, estavam a ser obrigados a alimentar um grande 
nmero de refugiados, os armazns no se encontravam suficientemente abastecidos e queriam ser eles a apoderar-se de quaisquer alimentos que restassem nas redondezas, 
em vez de os deixarem  espera do saque gals. Alm disso, estavam ansiosos por descobrir se Llewelyn iniciara a retirada, que caminho seguira e se o acesso  ponte 
estava livre, para o caso de dele virem a necessitar.
Llewelyn estava acampado a Leste do burgo, numa colina que dominava o vale do Usk. Danificara as portas do castelo por

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divertimento e lanara alguns falsos assaltos contra as muralhas, para manter a guarnio em estado de ansiedade, mas no tinha a mnima inteno de desperdiar 
tempo e energias com Brecon. A aldeia ficara reduzida a carvo e cinzas e, entre os escombros, no havia nada de que valesse a pena apoderar-se. Ajoelhados na igreja 
de Saint John, o prior e os seus frades beneditinos rezavam pela sua libertao, chorando as tbuas ainda fumegantes do delicado tecto do coro e dando graas a Deus 
pelas slidas paredes de pedra. Sem se aproximarem muito, David e Owen patrulhavam a colina do castelo, no fosse a guarnio arranjar coragem para vir atac-los.
Foi David quem viu os ingleses sarem pela poterna e esgueirarem-se at  margem ngreme do Honddu, em direco ao burgo. Manteve-se escondido atrs das paredes 
do priorado at a caa se encontrar bem  vista e, ento, mandou alegremente os seus homens colina abaixo, atrs deles. Antes de haverem dado por ele, por entre 
o fumo nauseabundo, surpreendeu-os pela retaguarda e empurrou-os at  ponte. Ali chegados, eles voltaram-se e lutaram e David, que se distanciara dos seus homens, 
viu-se subitamente isolado no meio dos inimigos e foi obrigado a enfrentar quatro ou cinco de uma s vez. O mpeto da cavalgada levara-o at ao outro lado do rio, 
onde eles podiam atac-lo de ambos os lados, enquanto meia dzia de homens lhe cortava a retirada pela ponte. Quantas vezes Owen o insultara e o pai lhe chamara 
a ateno para a sua valentia demasiado impetuosa e descuidada!
Quando a perseguio comeara, Owen encontrava-se do lado Norte do castelo e, mesmo quando o clamor lhe chegou aos ouvidos, tinha pela frente uma boa distncia a 
percorrer com os seus homens, para se juntar ao combate. David obrigava o cavalo a descrever um crculo frentico, para manter os adversrios  distncia e, durante 
alguns minutos de confuso, conseguiu o seu objectivo. Mas um deles lanou as mos s rdeas do cavalo, enquanto um segundo cruzava a espada com ele e dois outros 
se aproximavam, flanco com flanco, para o derrubar da sela. David libertou os ps dos estribos, para cair sem entraves e, depois, cercado pelas ferraduras dos cavalos, 
cravou a espada sob o sovaco do primeiro homem que erguia o brao para a atingir, rasgou-lhe as vestes no

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stio onde havia uma fenda na cota de malha e, apoiando-se no joelho, enterrou a lmina com toda a fora.
Um jacto de sangue jorrou-lhe para cima e o peso de um corpo fortemente armado desabou sobre ele, esmagando-o contra o solo, semiatordoado. Vagamente, ao longe, 
ouviu o estrondo e os gritos dos soldados de Owen, que cavalgavam colina abaixo em direco  ponte e, ao mesmo tempo, o eco mais prximo de outra cavalgada. Vindo 
do lado Oeste, onde no havia ningum de vigia, o som das ferraduras ressoou, primeiro sobre terreno firme, depois, com um tom mais cavernoso, sobre as traves da 
ponte. Ento, de repente, todos os adversrios ingleses foram empurrados na direco de Brecon, sob o impacto de quatro cavaleiros que haviam chegado a galope.
Erguendo o peso morto que jazia sobre ele, David viu o seu prprio cavalo bater com as patas no solo e recuar perante o choque e viu os seus inimigos subitamente 
em desvantagem face aos recm-chegados, serem arrastados com eles, numa massa confusa, ao encontro de Owen. David recuperou a espada que lhe fora arrancada da mo 
e, ainda estonteado, ergueu o peso do corpo sobre os joelhos. Ento, com um grito de raiva e dor, algum saltou da sela, correu para ele e amparou-o com um brao 
enquanto, com o outro, fazia girar a espada  sua volta, num crculo protector.
- Senhor! Senhor!
Lamentando no haver tido o bom-senso de pr de lado os hbitos galeses e usado um elmo, David limpou os olhos do sangue que no era seu e, incrdulo, deparou-se 
com um rosto furioso e ansioso e com uns olhos verdes e suplicantes, que lhe imploravam que estivesse so e salvo.
- Harry! - exclamou David, numa voz rouca de espanto e alegria, ao mesmo tempo que se punha de p.
- Senhor! David!
Harry apalpava-o febrilmente,  procura da ferida de onde brotara o sangue. O combate desenrolava-se apenas a alguns passos de ambos e David e Harry eram obrigados 
a gritar para se ouvirem um ao outro.
- No  meu!

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David abraou-o por um instante, arfando e rindo, e haver-se-ia lanado a p na batalha catica que se travava na ponte, se Harry no houvesse agarrado os estribos 
do seu prprio cavalo, oferecendo-os ao seu prncipe, to orgulhoso e seguro dos seus privilgios que Davd no ousou recusar. Voltou para o combate montado em Barbarossa, 
com Harry a segurar um estribo com a mo esquerda. A carga de ambos empurrou os combatentes para a extremidade da ponte. No momento em que os sobreviventes ingleses 
perceberam que a balana pendia a favor dos adversrios e que iriam haver-se j no com cinco galeses, mas com mais de quinze, era demasiado tarde. No fim da luta, 
a ponte estava juncada de mortos do seu lado e apenas meia dzia deles tiveram a sorte de escapar, para ir contar a histria aos que haviam ficado no castelo.
David desmontou sobre a margem verdejante do Usk para limpar a espada e, depois, voltou alegremente atrs para abraar Harry uma vez e outra. Arquejavam ambos de 
excitao e felicidade.
- Como foi que apareceste aqui? Estou to contente por te ver! Se no fosses tu, haveria sido difcil aguentar-me at o Owen conseguir chegar ao p de mim. De onde 
vieste tu to a propsito?
- Atravessmos Eppynt peio antigo carreiro da montanha - explicou Harry, quase sem flego. - Em Builth, disseram-nos que deveis estar por aqui. Fomos forados a 
desviar-nos um pouco, para evitar um grupo de ingleses, e passmos o rio a vau a montante. Ainda bem que assim foi! O susto que eu apanhei, ao ver-te coberto de 
sangue.
- E nem uma gota era minha - disse David, segurando Harry  distncia de um brao, para o examinar, do rosto radioso coberto de suor e fumo, aos ps calados em 
botas de montar cobertas de p. - Meu Deus, rapaz, como tu cresceste! Que braos! E que punho! Como conseguiste escapar e vir ao nosso encontro?
Mas a pergunta ficou sem resposta porque, naquele instante, Owen desmontou pesadamente junto deles e afastou Harry de David, sacudindo-o com alegria. O abrao que 
recebeu em troca arrancou-lhe um esgar de dor que, por seu turno, arrancou a Harry um grito de remorso.

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- Perdoa-me, Owen, esqueci-me! Em Aber, contaram-me o que te aconteceu. Lamento muito haver sido eu a causa de tudo isso.
- Eu estou bem Harry. Mas s graas a Deus e a ti  que este louco aqui pode dizer o mesmo. S te peo que guardes as tuas foras de lutador por uma semana ou duas, 
antes de te lanares contra mim. Santo Deus! - exclamou, mirando com admirao os ombros largos e o corpo esguio e flexvel de Harry. - No daria muito pelas minhas 
hipteses numa luta contigo, dentro de um ano ou dois! - O rosto a brilhar de alegria, tocou mais uma vez em Harry, como que para provar que ele era real, e acrescentou; 
- Lanaste uma bela carga na ponte, Harry. Espera at eu te levar diante do prncipe e lhe contar os teus feitos e vais ver como ainda ficas mais alto.
- E eu mais baixo - disse David, sorrindo, enquanto limpava o rosto.
Ao olhar para Harry, viu que o rosto deste se tornara subitamente grave e ansioso e, adivinhando o motivo, apressou-se a tranquiliz-lo:
- Ah, no te preocupes. Bem mereceste ser bem acolhido. Alis, mesmo sem isto, serias sempre bem acolhido. Ele esperava o teu regresso to ansiosamente como a tua 
me. Vem ver com os teus prprios olhos.
Partiram em fileira cerrada, deixando o campo de batalha para os mortos e para aqueles que, pela calada da noite, haviam de sair furtivamente do castelo, para socorrer 
os vivos. Agora calmo e silencioso, Harry seguia entre David e Owen, que, atravessando o burgo escuro e fumegante, o conduziram pelas colinas at ao planalto verdejante 
onde estava acampado o exrcito do prncipe. Quando l chegaram, Harry ainda s contara metade da sua histria e, mesmo isso, apenas atravs de respostas curtas 
e difceis, s perguntas impacientes. S quando se encontrasse diante do prncipe as palavras brotariam livremente e s ento poderia deix-las sair em torrente.
Llewelyn ouviu vozes que falavam alto, excitadas. Conhecendo bem duas delas, o tom do que diziam f-lo adivinhar a quem pertencia a terceira, apesar de esta ser 
mais grave e mais firme do que no dia em que a ouvira pedir justia. Temendo que o corao estivesse a tra-lo, apurou o ouvido. Mas, ao sair apressadamente da

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tenda, viu que era mesmo Harry: Harry entre os dois irmos e montado no alazo que conquistara a de Breos, no vau do Mule.
De bom-grado haveria corrido ao seu encontro mas limitou-se a concentrar todo o afecto e compreenso no olhar brilhante e atento com que fitou o rapaz. De bom-grado 
lhe haveria agarrado nos braos para o fazer descer do cavalo, erguendo-o no ar por instantes, como se ele fosse uma criana, para s depois o pr no cho, mas foi 
travado pela conscincia de erros passados e pela forma como Harry, atormentado pela recordao penosa das feridas mtuas, endireitou as costas e os ombros, para 
se apresentar diante dele com dignidade. Em vez disso, Llewelyn esperou por ele  entrada da tenda, o rosto de falco tisnado num tom cobre pelo Sol de Junho.
- Trazemo-vos o vosso outro filho, senhor - anunciou David, sorrindo. - Apareceu mesmo a tempo de nos ajudar com um bando de ingleses, na ponte do Usk, e foi uma 
sorte para mim. Nenhum homem socorreu melhor o seu irmo do que ele me socorreu hoje a mim.
De gorro na mo, rosto corado, com um respeito solene, Harry desceu do cavalo e ajoelhou diante de Llewelyn. A mo grande sobre a qual pousou os lbios sentiu o 
fervor do beijo como uma reparao cerimoniosa do passado. Mas, se ambos comeassem a comparar os pesos na conscincia, qual dos dois cairia por terra?
- Meu senhor... - comeou Harry, que teve de esperar uns segundos, para se certificar de que a voz no iria falhar. - Meu senhor - repetiu. - Sei que vos causei 
um grande mal. Fui libertado para lutar ao vosso lado, enquanto esta guerra durar... se me perdoardes a minha ausncia e me permitirdes que volte a ocupar o meu 
lugar.
Llewelyn pegou-lhe nas mos para o ajudar a levantar e s ento o abraou e beijou, com alguma conteno. Um homem pode ser tratado com amor, como uma criana, mas 
um adolescente hesitante e tmido, entre a infncia e a maturidade, precisa de ser tratado como um enviado real em misso importante. Llewelyn conseguiu ser formal, 
ocultando mesmo o brilho do seu sorriso por trs de uma gravidade respeitosa.
- Est permitido, Harry, e s muito bem-vindo. Nada poderia dar-me maior prazer do que ver-te aqui, diante de mim, vivo e de

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boa sade. O teu lugar continua a pertencer-te e sei que o ocupars com a valentia de um homem.
- Dei a minha palavra e vou respeit-la - anunciou Harry, mal concluiu a narrativa. - Quaisquer que sejam as suas intenes, Isambard cumpriu a sua parte do trato, 
o que foi mais do que eu esperava. E eu vou cumprir a minha.
Os seus olhos procuraram os de Llewelyn, em busca de aprovao. O prncipe sorria-lhe, no indulgentemente como se sorri a uma criana corajosa, mas com calma e 
ponderao, como haveria sorrido a Ednyfed para selar em silncio uma questo poltica quanto  qual estivessem de acordo.
- No duvido, Harry. Mas vai passar ainda muito tempo at ao momento de cumprires essa promessa e, louvado seja Deus, vamos apreciar a tua presena, enquanto aqui 
estiveres. No penses ainda no que acontecer depois. Daqui a pouco, o exrcito de Oeste do rei Henrique vai ser mandado para aqui, ao nosso encontro. E Ralf Isambard 
vai estar com eles. Lembra-te disso, mantm viva a tua querela e pode ser que as contas possam ser saldadas antes de voltares a ver Parfois.
Llewelyn viu a esperana iluminar o rosto do rapaz e tingir de dourado os seus olhos. Harry no pensara nisso e Llewelyn acabava de lhe oferecer um presente sobre 
o qual se apressou a fechar as mos. Erguendo imperiosamente a cabea, fitou-os:
- Se o encontrarmos durante o combate, senhor, lembrai-vos de que aquele homem me pertence.
- Ficar por tua conta - aquiesceu Llewelyn, reprimindo a riso pleno de afecto que o entontecia como se fosse vinho. - O direito de primazia sobre ele pertence-te, 
Harry Talvace, e ningum te privar dele.
Ao longo do Usk, o fogo propagou-se de Brecon a Gwent e reduziu a cinzas Caerleon. Depois disso, Llewelyn deixou apenas uma fora menor, para manter a guarnio 
do castelo de Newport dentro das muralhas, e dirigiu-se para Oeste pela montanha. Os prncipes de Glamorgan pegaram alegremente em armas para se lhe juntar e

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reforaram a sua hoste com os grupos de Senghenydd, Miskin e Neath. Em fins de Junho, haviam conquistado e desmantelado o castelo de Neath, uma espinha normanda 
cravada, havia uma centena de anos, na carne galesa de Morgan ap Morgan ap Caradoc e dos seus antepassados.
Enquanto o rei Henrique se afadigava a arranjar provises para socorrer a guarnio de Newport, submetida a um duro cerco, Llewelyn avanava para Oeste, atravessando 
o desfiladeiro de Gower, em direco a Kidwelly. E antes de os bispos da provncia de Canterbury se reunirem em conclave solene, em Oxford, a treze de Julho, para 
discutirem as ofensas do prncipe gals contra a Igreja, o alcaide de Llewelyn encontrava-se no que restava do castelo de Kidwelly e o prprio prncipe, com o grosso 
do seu exrcito, havia atravessado Gwendraeth e Towy, e passara j cinco milhas para alm de Carmarthen, sem que o seu sopro devastador se houvesse esgotado.
Os mensageiros dos prncipes de Cardigan vieram ao seu encontro poucos dias mais tarde e um correio de Builth, seu informador em Inglaterra, avistou-se com ele no 
mesmo dia. Llewelyn acolheu-os com pompa e circunstncia  prpria mesa, enquanto ouvia as novas que lhe traziam das Marcas.
- Fui ento excomungado? - disse, atirando a cabea para trs numa gargalhada sonora.
Nessa noite, Llewelyn estava alojado numa granja da abadia de Withland e o vinho que balanava no seu copo e o empado de carne partido em pedaos que se encontrava 
na sua frente haviam-lhe sido enviados com os cumprimentos do prior. Alm disso, o jovem que trouxera a notcia de Builth era um clrigo, com boa reputao na sua 
igreja.
- Afinal, no  a primeira vez. E os meus aliados tambm foram excomungados, dizeis vs?
- Doze dos prncipes, senhor, receberam a mesma sentena - informou o clrigo, que os enumerou de seguida.
- Mas os bispos esperam que Deus estivesse de costas voltadas, quando de Burgh assassinou os meus homens - observou o prncipe com desprezo. -A sentena j foi promulgada?

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- Em toda a Inglaterra, senhor.
Llewelyn riu-se de novo: eram poucas as hipteses de tal sentena ser respeitada no Pas de Gales.
- Espero que nenhum dos doze perca o sono por causa disso. Por mim, no vou perd-lo esta noite. Bem, pelo menos os bispos deles actuam mais depressa do que os seus 
marechais e esto menos atados de ps e mos do que estes pela lei e pelos precedentes da justia. Imagino que o arcebispo, em Itlia, esteja ao corrente? O meu 
corao diz-me que as preces dele sero por qualquer pessoa que, excomungada ou no, corte a cabea ao conde de Kent. E quais os episcopados de Gales que estiveram 
representados em Oxford?
- O bispo Anselm de Saint David esteve l, senhor, e o bispo Elias de Llandaff.
- Ambos Ingleses! Apostaria que eles no convocaram Martin de Bangor nem Abraham de Saint Asaph.
-No, senhor. Os galeses foram postos de lado.
- No precisais de me dizer isso. Onde est o rei neste momento?
- A caminho de Gloucester, senhor. A hoste foi convocada para l e para Hereford e deve estar a postos. E, em Builth, ouvimos dizer que foi enviada uma carta ao 
corregedor do reino na Irlanda, a dizer que todos os cavaleiros da Irlanda que quisessem terras no Pas de Gales poderiam ficar com as que conquistassem.
- Eles que venham - disse Llewelyn, com uma gargalhada. - Ele est a ser muito presunoso, ao oferecer aquilo que me pertence. Veremos se concede os mesmos direitos 
aos Galeses. Vamos p-lo  prova. Esto connosco mensageiros do meu grande amigo Maelgwn Fynchan, de Cardigan. Maelgwn arrasou o burgo e, agora, vamos juntar as 
nossas foras e concluir a obra. Ainda h tempo para conquistarmos o castelo, antes de eu voltar a cavalgar pelos caminhos de Powis,  espera de que o conde de Kent 
venha partir o pescoo contra a minha testa.
Harry encontrava-se com os arqueiros, num dos abrigos rasgados por seteiras que os engenheiros haviam construdo sob as muralhas, na margem Norte do rio, por entre 
as runas calcinadas em que Maelgwn e os seus aliados haviam transformado o burgo de

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Cardigan. Corria o terceiro dia do assalto e Harry passara toda a manh junto  sua seteira, cobrindo uma das galerias de madeira erigidas contra o pano da muralha, 
do lado Norte da porta.
A sua direita, ficava a estrutura comprida, escura e quente do abrigo e, para l dos doze arqueiros atentos postados nas seteiras, avistava-se um tringulo de terreno 
escurecido e um bosque de espinheiros calcinados. Mais alm, invisveis, os escombros cobertos de cinza estendiam-se encosta acima at mergulharem no topo arborizado. 
A esquerda de Harry, pela abertura do abrigo, viam-se as tnues espirais de fumo que se afastavam, as gaivotas que voavam em crculos e gritavam sobre as guas do 
Teifi, agitadas pela mar, e a ponte que terminava junto  muralha do castelo.
Ao longo da margem do rio, o fogo propagara-se de modo mais irregular, deixando espaos verdes e rvores intactas. As casas de madeira haviam ardido como palha, 
mas as paredes de pedra dos armazns e das casas dos barcos haviam resistido e, a coberto delas, fora do alcance das flechas lanadas dos basties, haviam sido desfraldados 
os pavilhes do prncipe. O muro de pedra mais prximo, que no media mais de um p de altura, ajudava a camuflar a entrada do abrigo. Sobre ele cresciam papoilas 
vermelhas e um tufo de cevada madura, que nem mesmo o fumo maculara.
Ali, no havia trabalho para os homens que manejavam a espada mas Harry reencontrara com gosto a sua antiga arma. No havia tempo para um cerco metdico e, alm 
disso, Llewelyn no estava disposto a erguer contrafortes de terra  volta do castelo de Cardigan e ficar  espera de que, assolada pela fome, a guarnio se rendesse. 
Por trs deles, na Marca, estava reunida a hoste real do Oeste. A questo de Cardigan tinha de ficar resolvida em poucos dias, pois eles precisavam de voltar para 
trs, para defender os acessos ao Pas de Gales. A tarefa de arrasar aquela fortaleza, to cara ao corregedor do reino, era trabalho para os engenheiros, para as 
grandes mquinas de cerco, catapultas e trabucos, que arremessavam dardos e cargas de pedra contra as muralhas, e para os aretes com pontas de ferro que os servos 
lanavam durante a noite contra os basties e que as correntes projectavam contra a construo de pedra, para a abrir buracos. Mas ainda havia trabalho para os

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arqueiros: derrubar com as suas flechas os defensores que aparecessem nos merles ou ousassem sair e atirar pedras e pesos de ferro contra as galerias dos atacantes. 
Os cavaleiros viam-se condenados  ociosidade, na retaguarda,  espera de um eventual coup de main, at ser aberta uma brecha suficientemente grande na muralha, 
ou de uma oportunidade de subir a uma escada que ali fosse encostada. Harry preferia deixar a cavalaria entregue s suas tarefas e desempenhar funes de arqueiro.
Agachado contra a madeira do abrigo, David correu ao encontro de Harry, quando o calor do meio-dia se fez sentir e sacudiu o cantil de couro sobre o ombro do irmo 
adoptivo. Concentrado na vigilncia da galeria, suspensa do parapeito como um ninho de andorinhas, Harry no identificara os passos de David e estendeu imediatamente 
a mo para o cantil, sem dizer palavra. S ento os seus olhos reconheceram a mo que o segurava, o anel de topzio e a manga verde escura e voltou a cabea, franzindo 
o sobrolho. Sem elmo, sem gorro, vestindo apenas parte da armadura, David sorriu-lhe.
- Senhor - disse Harry, surpreendido e contrariado. - No deveis estar aqui.
Em servio, Harry observava estritamente as regras, mas foi o irmo adoptivo ansioso e no o subordinado deferente quem abanou a cabea, num gesto de desaprovao.
- No? Eu vi-te deitar a mo de fora da toca, para apanhares um rebento de azeda para refrescar a boca. Toma, bebe! Por que pensas que me dei ao trabalho de trazer 
isto?
Durante toda a manh, o sol batera na cobertura pontiaguda do abrigo e, l dentro, o ar estava to quente como num forno. Harry tinha a camisa colada ao corpo e 
o suor abrira-lhe sulcos brancos no rosto coberto de fuligem. Inclinando o cantil, bebeu sofregamente at David retirar a mo e o cantil.
- Bebe devagar, homem, saboreia! Depois passa o cantil aos teus companheiros. Est um calor horrvel aqui. E porque no haveria eu de aqui vir?
- Porque, mesmo aqui por cima, h um arqueiro que  muito bom atirador e, se te visse, era capaz de adivinhar quem tu s pelo

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teu aspecto. Olha! Ests a ver a aquela seteira, l ao fundo? Olha com ateno e vers o castanho avermelhado das roupas, quando ele dispara.
Por breves instantes, o castanho camura de uma manga de couro ficou visvel, quando o arqueiro se deslocou lateralmente, em busca de um alvo. Do interior do terreiro 
subia consistentemente uma coluna de fumo, que obscurecia o ar, l no alto. Os barris de pez a arder haviam conseguido provocar danos nas construes de madeira 
encostadas ao pano da muralha,
- H duas horas que ele e eu disparamos  vez um contra o outro. No sei se as minhas flechas chegaram perto dele, mas as dele caem perto de mais para meu gosto 
desta seteira. Quando sares, avana agachado at chegares a um stio coberto. Entretanto, eu mantenho-o ocupado. Se, ao menos uma vez, ele mostrasse mais do que 
um bocado do brao! - disse Harry, com uma impacincia vida, colando o rosto  fenda, para vigiar o inimigo.
- Toma cuidado contigo - aconselhou David calorosamente. - No ests muito mais a coberto do que eu.
- No h nada a recear. Aquele homem merece-me demasiado respeito para eu correr riscos. J conseguimos abrir alguma brecha nos basties? Ouvi os aretes a bater 
durante toda a noite.
- J. J h uma brecha e, neste momento, h trs trabuquetes a tentar alarg-la. Dentro de uma hora, devemos poder passar. Daqui at l, os riscos devem ser poucos, 
pois ns catapultmos metade das pedras das construes de Cardigan por cima da muralha. E, a avaliar pelo fumo, l dentro, tudo quanto no  de pedra deve estar 
a arder.
- Chamas-me antes do assalto? - perguntou Harry, voltando para David o rosto escurecido e limpando com o brao nu o suor que lhe escorria para os olhos.
- Eu chamo-te.
David prendeu o cantil  cintura, acariciou afectuosamente o cabelo de Harry e esgueirou-se por entre os arqueiros ajoelhados junto s seteiras, saindo depois para 
terreno descoberto e correndo at alcanar a proteco das muralhas. Com todo o cuidado, Harry fez pontaria para a abertura distante na guarita de madeira, naquele

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momento a ser alvejada por uma carga de pedras que a despedaou parcialmente. Vibrando, a flecha de Hany atingiu a abertura e ficou atravessada nela como uma barra 
na janela de uma priso. A resposta veio sob a forma de um impacto sibilante que fendeu as tbuas grossas do abrigo. Uma ponta de ao, embotada mas ameaadora, atravessou 
a ferida aberta na madeira, junto  face de Harry, que, depois de disparar, recuara instintivamente para se colar  barreira e se afastava agora a toda a pressa, 
ao sentir o calor aflorar-lhe a orelha. O disparo fora demasiado certeiro para no lhe pregar um terrvel susto mas, pelo menos, David estava em segurana.
Sentindo-se espicaado, Harry retomou o duelo com o inimigo invisvel. Disparo em resposta a disparo, os dois mediam foras em destreza e cada um deles esperava 
o rasgo de sorte que lhe permitiria levar a melhor. Totalmente absorvido pelo desejo de vencer aquela luta, Harry esqueceu o calor e a sede.
Foi um disparo bem sucedido de uma das catapultas que lhe deu uma oportunidade. A enorme pedra, disparada obliquamente, bateu na muralha do lado esquerdo, por baixo 
da galeria, e o seu impacto danificou a construo de pedra, soltando dois ou trs fragmentos, que saltaram cada um para seu lado. O maior foi bater nas tbuas de 
suporte da galeria e quebrou uma delas. Ento, todos os sitiados recuaram, afastando-se do canto que fora atingido e agarrando-se ao slido muro de pedra por trs 
deles.
Harry tinha uma flecha colocada no arco e preparava-se para disparar, quando o choque fez tremer a galeria. Esquecendo por instantes o perigo de se mostrar, a sua 
presa recuou juntamente com os outros e ficou enquadrada pela seteira. Finalmente, Harry tinha uma viso completa do corpo do seu alvo e no apenas um vislumbre 
do brao que empunhava o arco.
Disparou e viu claramente a convulso de dois braos que agarravam o peito perfurado e a contoro de dor que pareceu erguer no ar o corpo do homem. Este tombou 
sobre a seteira, ficou ali, a oscilar, por um instante e depois, lentamente, lanou-se numa longa queda, volteando como uma aranha que se deixa deslizar pelo fio 
da sua teia. Esmagou-se ao fundo da muralha, com um som repugnante, que se repercutiu por um momento de silncio relativo.

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A catapulta no foi recarregada, os trabucos haviam sido abandonados e os seus braos enormes baloiavam sobre o vazio. O fumo tnue flutuava sobre Cardigan, arrastado 
como um galhardete pela brisa que se levantara. Em baixo, diante da fenda aberta na muralha e da porta do castelo danificada, vindo da margem do rio, reuniu-se um 
grupo de cavaleiros que avanaram a descoberto sob a luz do sol. Os ltimos ecos da sua cavalgada morreram ao longo do Teifi, como um trovo que se afasta, refluindo 
em direco ao mar.
A tremer, com o arco ainda a vibrar nas mos, Harry olhou em volta por um momento, sem compreender. O homem que se encontrava ao seu lado tocou-lhe no brao, bateu-lhe 
alegremente no ombro e apontou para a porta do castelo. A portinhola para pees da porta principal estava aberta. Enquadrada pela penumbra, desenhava-se a figura 
de um homem e um pano branco flutuava ao sabor da brisa.
Os arqueiros saam dos abrigos sufocantes e estendiam as pernas ao sol. Por trs da companhia de prncipes de Llewelyn, juntavam-se os capites, que se libertavam 
das luvas e dos elmos, expondo as cabeas ao ar fresco. Por trs da bandeira de trguas, do castelo de Cardigan saa o castelo do corregedor, desejoso de evitar 
maiores perdas, o assalto inevitvel e o saque da fortaleza.
Harry nem queria acreditar. Semicerrou os olhos para ver melhor,  distncia, o encontro dos chefes, sacudindo a cabea num gesto de descrena, at a realidade penetrar 
no seu esprito atordoado. Afinal, David no ia precisar de si ao seu lado, para o assalto. Cardigan rendera-se. De Burgh, o grande conde de Kent, grande corregedor 
do reino de Inglaterra e mestre do rei, perdera o castelo que era o seu orgulho. Agora, Llewelyn podia deix-lo entregue aos cuidados dos prncipes aliados e conduzir 
triunfalmente o seu exrcito ao encontro da hoste real que vinha de Hereford.
Com os msculos doridos, Harry saiu do fosso, respirou fundo e sentiu que o suor comeava a secar no seu rosto sujo. Os seus olhos fixaram-se na base da muralha, 
sob a galeria, em busca do casaco de couro castanho avermelhado, e avistou-o entre os escombros de pedras e detritos. O corpo encontrava-se numa posio grotesca, 
com a cabea inclinada num ngulo cruel, de rosto para cima. Harry viu que o seu inimigo fora um jovem, mais velho do

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que ele apenas um ano ou dois, loiro e bem feito. As mos, to hbeis no manejo do arco, jaziam por terra, vazias. O rosto tambm estava vazio, ainda crispado pela 
agonia, mas inerte e indiferente.
Um feito intil! Disparara a ltima flecha daquele cerco e talvez ela houvesse partido depois de a porta haver sido aberta e a bandeira das trguas desfraldada. 
Que o levara a empenhar-se tanto naquela morte? O jbilo durara apenas um instante. Agora, sentia somente remorsos e choque: destrura sem motivo uma coisa bela 
e admirvel. Aniquilara aquela mquina maravilhosa que sabia calcular a distncia e empunhar o arco.
De sbito, recordou-se de uma outra perda intil. E os seus olhos voltaram a ver o jovem cavalario do conde Ranulf, a mimar os horrveis trejeitos da atrocidade 
obscena da morte por enforcamento.
O cadver que jazia junto  muralha poderia muito bem ser o seu e aquele jovem desarticulado poderia at haver-se congratulado com o disparo que o derrubara. Mas 
isso no o desculpava. Ele conhecia o valor da criao e a violao que era destru-la, conhecia a maravilha das criaturas de Deus, que os homens to imperfeitamente 
copiavam. Por isso, era ele o mais culpado dos dois.
David acenava-lhe, chamando-o. Harry viu, hesitou em ir ao seu encontro, mas acabou por ir: o corpo rgido, os olhos toldados, diante dos quais permanecia a imagem 
do pobre boneco sem vida.
- Que se passa? - perguntou David, sempre rpido a aperceber-se do desconforto de Harry, mesmo quando no havia motivo aparente para tal. - Ests ferido? Ele acabou 
por conseguir atingir-te?
David agarrou-o e apalpou-o com um inquietao notria, que Harry sentiu quase como uma afronta.
- No - respondeu secamente, afastando de si as mos solcitas, num gesto que, mais tarde, lamentaria em segredo. - Eu acertei-lhe. Ele est alm, no meio do resto 
dos destroos.
Em Llandovery, foram interceptados por um mensageiro de Builth, que lhes contou que a hoste do rei Henrique partira de Hereford e avanava para Oeste, subindo o 
vale do Wye. A partir

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da, fizeram marchas foradas, a fim de, tanto quanto possvel, distriburem as suas foras pelos acessos s fortalezas galesas. Mas chegaram aos caminhos do cume 
de Eppynt sem haverem estabelecido contacto e David dormiu sossegadamente duas noites no seu castelo de Builth, at receberem novas seguras sobre o avano do rei. 
Das Marcas chegaram batedores, que os informaram de que o exrcito ingls se afastara do Wye em Hay e se dirigia para Oeste pela estrada de montanha em direco 
a Painscastle.
- Parece que no precisamos de ir ao encontro deles - comentou Owen, muito srio. - Eles vm em direco a ns.
Na verdade, dado o seu avano no terreno, Builth parecia ser o objectivo mais provvel dos ingleses e, com uma fora como a que Henrique reunira a marchar contra 
eles, os galeses tinham boas razes para reunir provises e homens, na expectativa de um cerco longo e determinado ao castelo. Mas, dia aps dia, foram observando 
atentamente os caminhos e as suas patrulhas no avistavam nenhuma coluna em marcha sobre as colinas vizinhas nem mais ao longe, no vale. Tudo indicava que o exrcito 
ingls abrandara a marcha, algures na regio de Painscastle. Llewelyn em pessoa saiu para verificar o motivo de tal atraso.
Do flanco da colina, perscrutou o antigo morro de Painscastle e a fortaleza de madeira que outro William de Breos, o segundo da linhagem, ali edificara, para conter 
Elfael. Os ingleses chamavam-lhe o castelo de Maud, a temvel esposa desse William, que o defendera com unhas e dentes contra os galeses e se transformara numa espcie 
de papo, que estes evocavam para assustar as crianas desobedientes.
- Santo Deus! - exclamou Llewelyn, olhando para o vale. - Parece que estamos outra vez no Kerry.
Bordado de tendas e linhas fortificadas do exrcito real, o vasto tapete verde do vale fervilhava de cor e movimentaes de homens. Mais acima, o morro, vrias vezes 
acrescentado, mostrava os vrios degraus de verde e os homens que observavam l do alto aperceberam-se de que os estratos cobertos de ervas haviam sido alargados 
e prolongados, com novas camadas de terra e entulho, que expunham ao sol o seu tom rido de cinzento esbranquiado.

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- H pedras ali - disse Harry, apontando. - Vede onde esto empilhadas. E vedes aquelas linhas alm, traadas a branco? Tambm so pedras. Eles esto a comear a 
construir uma nova linha de muralha.
Os galeses olhavam, mas nem queriam acreditar no que os seus olhos viam. Tudo parecera indicar que aquele exrcito imenso, reunido em resposta a uma provocao directa, 
iria lanar uma campanha decisiva contra todo o Pas de Gales. Ento, porque se detivera ali, a construir uma fortaleza? Os castelos so meios de ataque, depois 
de um exrcito haver progredido bastante em territrio inimigo, mas aquele local no era um posto avanado entre os cls: era uma ligao entre Brecon e Radnor, 
um elo da cadeia de castelos das Marcas, j conhecidos e havia muito odiados. Substituir a madeira por pedra no constitua uma nova ameaa.
Llewelyn segurou as rdeas e voltou as costas  cena.
- Eu pensava que estvamos a bloquear-lhes o caminho para o interior de Gales - disse. - Mas parece que o rei Henrique se contenta em bloquear-me o caminho para 
o interior da Inglaterra. Pois bem. Se ele hesita em avanar para um confronto directo, tanto melhor: ns mantemos os nossos caminhos abertos  volta dele e atacaremos 
os seus soldados extraviados, mal eles se afastem.
E assim fizeram enquanto corria o quente ms de Agosto: era, alis, um trabalho caro aos galeses. Armavam emboscadas aos grupos de ingleses que se distanciavam do 
campo, cortavam as vias de abastecimento e, a ttulo gratuito ou por interesse, aproveitavam o facto de o rei Henrique estar ocupado e lanavam ataques nas fronteiras 
inglesas, nas suas costas. At arranjavam tempo para tomarem banho no Wye e para se deitarem ao sol, nas margens, quando tinham calor e estavam cobertos de poeira, 
deixando algumas sentinelas de vigia no alto das colinas. Llewelyn patrulhava o centro do Pas de Gales, de Brecon a Caersws, e, sempre que podia, cobrava taxas 
aos vizinhos ingleses, at que alguns deles, como o prior de Leominster, acabaram por lhe pagar uma quantia generosa para ele os deixar em paz. Entretanto, os engenheiros 
do rei e o seu exrcito imobilizado de operrios continuavam a reconstruir Painscastle.

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- H que lhe fazer justia - comentou Llewelyn, em princpios de Setembro, durante uma inspeco. - Henrique constri melhor do que combate e bastante mais depressa. 
Devias seguir o exrcito dele e no o meu, Harry. Podias fazer carreira no teu prprio ofcio.
- O meu ofcio  o das armas - respondeu Harry, num tom to enftico que talvez se destinasse a abafar uma dvida escondida num recanto do seu esprito.
- Como ests a ver, conhecer a arte de construir tambm pode ser til a um soldado.
Pensativo, Harry perguntou:
- Porque fizeram eles isto, senhor? Porque deixaram escapar a oportunidade deles?  esta a poltica do rei? Ou a do corregedor do reino? Ns causmos-lhes bastantes 
danos durante a campanha de Vero e, ao princpio, eles pareciam alimentar pssimas intenes. Porque deixaram que tudo se reduzisse a isto? Esto com medo de ns?
- Medo, no. Nunca penses tal coisa do teu inimigo.  verdade que eles desconfiam mais de mim do que eu pensava. Mas alguma coisa aconteceu por certo, que os fez 
mudar de planos, depois de haverem iniciado a marcha - disse Llewelyn, estreitando os olhos, para observar melhor a actividade febril que se desenrolava  distncia, 
no vale. - Falavas verdade, quando disseste que esta expedio se destinava pelo menos a fazer-me recuar para as montanhas, se no conseguissem acabar de vez comigo. 
Em fins de Julho, aconteceu qualquer coisa que alterou tudo.
- O que foi? - perguntou Harry, certo de obter uma resposta. Estavam sozinhos no pequeno promontrio, entre as rvores.
Um quarto de milha mais abaixo, num fundo entre duas colinas, estava acampada uma companhia da escolta do prncipe.
- Como posso eu saber? Pensando bem, poder encontrar-se uma dzia de razes e qualquer uma delas pode ser o verme que estragou a colheita deles. Mas conheo pelo 
menos uma que parece bastante plausvel. Em fins de Julho, o bispo de Winchester regressou da sua cruzada vitoriosa e voltou para a sua diocese... e para junto da 
orelha do rei. Penso que, mal soube de tal nova, de Burgh

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perdeu o apetite por esta guerra.  certo que, de Montgomery a Cardigan, lhe causei bastantes perdas. Mas Peter de Winchester pode faz-lo perder tudo. Penso que 
ele no quis embrenhar-se mais em Gales e perder tempo e energias a lutar comigo, quando est a braos com uma batalha mais decisiva, pela sua prpria sobrevivncia.
- Mas como conseguiria ele levar o rei a fazer o que ele quer? Como conseguiria ret-lo aqui, quando o rei pensava poder obter uma vitria?
-Ah, consegue! O rei pode irritar-se e queixar-se mas, apesar de no gostar do seu corregedor, far o que este disser, at haver a seu lado outra vontade mais forte, 
que o aconselhe em sentido contrrio. - Com um sorriso sombrio, Llewelyn acrescentou: - E penso que no tardar muito para que isso acontea.
- Ento, se a posio dele  assim to m, vs podeis terminar a campanha quando vos aprouver. De Burgh ficar contente por firmar um acordo que o livre de ns.
- Mais devagar, Harry, mais devagar! Deixemo-lo suar por mais algum tempo, at eu estar mais seguro do terreno que piso. No estou com pressa de chegar a um acordo. 
Se eu cedesse com muita facilidade, eles iriam supor que estava com pressa, para encobrir uma fraqueza e sentir-se-iam tentados a reiniciar a querela, no momento 
que lhes fosse mais favorvel. No, deixemos o bispo Peter espetar uma faca nas costas de de Burgh e deixemos o rei danar ao som da msica deste por mais algum 
tempo, at eles se engolirem uns aos outros, deixando Gales em paz. Ento, no momento que eu escolher, far-lhes-ei saber que estou disposto a iniciar negociaes.
Harry voltou para o acampamento simultaneamente jubiloso e triste. Experimentava grande apreo pelas confidncias do prncipe e aquelas especulaes por vezes ousadas 
deliciavam-no e cativavam-no. Mas, caso fosse posta de lado a ideia de um confronto de monta com o exrcito ingls, bem podia perder a esperana de um encontro com 
Isambard em armas e de resolver a disputa no campo de batalha. A sombra do regresso a Parfois pairava como uma nuvem de tempestade sobre a sua cabea. Desejava que 
o prncipe

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alcanasse uma paz vitoriosa, mas estava ansioso por saldar a sua dvida, enquanto ainda era tempo.
A fim de aproveitar todas as oportunidades possveis, pediu a David que o deixasse acompanhar todas as patrulhas que contornavam a hoste inglesa pelas colinas e 
atravessavam o Wye, depois das pilhagens. Inquieto, mas compreensivo, David percebeu o que ele queria e deixou-o ir.
Em fins de Setembro, no regresso de uma dessas expedies, atravessaram o rio a montante de Hay. O nvel do rio estava baixo, pois o Vero fora seco e, por isso, 
no se deram ao trabalho de descer at ao vau, escolhendo um local onde a passagem fosse fcil. A margem para a qual subiram era um prado onde havia muitos salgueiros 
e, quando deixaram para trs a cobertura das ramagens prateadas das rvores, encontraram pela frente um grupo de ingleses trs vezes mais numeroso do que o seu. 
Por sorte, os galeses estavam todos a cavalo, pois a rapidez era um elemento essencial daquelas expedies. Os ingleses contavam com outros tantos cavaleiros e talvez 
o dobro de soldados de infantaria. A surpresa de uns e outros foi igual e a inclinao do terreno contribuiu para que o recontro os levasse at  beira da gua, 
numa luta desordenada.
Seria loucura deixar que um mero confronto se transformasse numa batalha campal: os ingleses podiam receber reforos e os galeses no, pois eram obrigados a contornar 
as posies inglesas para se juntarem aos seus. Ao longo da margem, para a esquerda, um bosque oferecia uma boa cobertura. Foi nessa direco que eles retiraram 
a toda a pressa; Harry e os cavaleiros com melhores montadas fechavam a marcha, repelindo os ataques, para dar tempo a que os seus companheiros se espalhassem pelo 
bosque, onde os arqueiros que havia entre eles podiam ocupar posies e auxiliar a retaguarda. Ainda assim, antes de haverem alcanado o bosque, deixaram para trs 
trs mortos e perderam dois feridos s mos dos ingleses.
Os soldados de infantaria ingleses estavam todos fora de combate e as foras equilibradas. Se Harry estivesse no comando, haver-se-ia sentido tentado a dar meia 
volta e a combater; mas estava sob

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as ordens de outrem e, em obedincia a essas ordens, bateu em retirada com os outros, galopando, parando para lutar e voltando a galopar, at o nmero dos perseguidores 
ficar bastante reduzido.
Encontravam-se ainda no meio das rvores, dispersos, mas no tanto que no pudessem ouvir-se uns aos outros, quando as patas de Barbarossa resvalaram no terreno 
arenoso, crivado de tocas de coelhos, e Harry foi projectado por cima da cabea da montada e caiu ao cho.
Abalado e quase sem poder respirar, Harry rolou sobre si prprio, ps-se de p e tentou freneticamente deitar as mos s rdeas; mas era demasiado tarde: as rdeas 
escaparam-se-lhe entre os dedos e Barbarossa, assustado e indignado, fugiu entre as rvores. Ento, muito perto, ecoou o som ameaador de outras ferraduras. Harry 
voltou-se em busca de um esconderijo, mas um grito de puro prazer demonaco indicou-lhe que havia sido visto. No instante seguinte, um cavaleiro surgiu entre a folhagem 
e, sem hesitar, saltou da sela e mergulhou entre os arbustos, atrs de Harry.
At quele momento, Harry no avistara, entre o grupo com o qual acabavam de se defrontar, nenhum rosto conhecido nem estandarte identificvel. Os ingleses, que 
se movimentavam descansadamente por trs das suas linhas, no esperavam um mau encontro e traziam apenas armas ligeiras, no ostentando as suas cores. Por outro 
lado, a aco desenrolara-se demasiado depressa e Harry no dispusera de tempo para pensar. Mas, agora, fora presenteado com a brusca e terrvel apario de um homem 
alto, corpo magro de ao, que se lanava sobre ele, com aqueles movimentos violentos e belos que to bem conhecia. E, acima da malha metlica da loriga, divisou 
por fim a cabea de bronze sem idade, a pele polida que luzia sobre a ossatura harmoniosa. O ltimo a abandonar a perseguio, o primeiro a abdicar da vantagem de 
um cavalo, como noutra altura abdicara da vantagem de uma espada, e a saltar para o solo atrs da sua presa, em p de igualdade: s podia ser o velho lobo de Parfois.
Cansado e frustrado pela longa imobilizao em Painscastle, jubilava por finalmente poder entrar em aco. Harry esquivou-se ao brao e  espada que, num movimento 
intrpido e desdenhoso,

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mergulhavam na sua direco e, afastando os arbustos, saltou para terreno aberto. Em resposta ao rudo das folhas secas, o homem voltou-se para o enfrentar, lmina 
contra lmina. As espadas de ambos silvaram e, depois, imobilizaram-se por um instante, punho contra punho. Os olhos cavados de Isambard, brilhantes de prazer, inflamaram-se 
quando reconheceu Harry.
- Que bom encontro, Harry! - exclamou, rindo.
Os dois repeliam-se brutalmente um ao outro, cada um deles tentando manter o adversrio  distncia de uma espada.
Harry no respondeu: a exultao e a ansiedade que lhe crispavam os nervos quase o impediam at de respirar. Apelando a todos os recursos de fora e destreza de 
que dispunha, avanou como uma fria, numa posio de equilbrio para enfrentar e desviar o golpe previsvel. Mas, a meio do assalto, hesitou e, com um grito horrorizado 
de protesto, fez uma evasiva, desviando a lmina mesmo antes do impacto. Em vez de erguer a espada ao encontro da de Harry, Isambard baixou-a deliberadamente, cravou-a 
no solo e ficou desarmado diante de Harry. Este desviou o golpe mesmo no ltimo instante e a ponta da sua espada rasgou o pelote branco abaixo do seio esquerdo, 
arrancando um pedao de tecido.
A tremer de raiva, ouviu o grito de uma voz rouca de emoo, que quase no reconheceu como sendo a sua:
- Deus vos amaldioe, senhor! No sois capaz de lutar lealmente? Em guarda! Preparai-vos! Sede um cavaleiro e cobri-vos ou eu mato-vos desarmado!
- Ento, mata-me, Harry - replicou Isambard, com um sorriso doce que era um convite. - No est ningum a ver.
Num rompante de fria, Harry ergueu a espada e avanou para o peito descoberto. Na sua angstia de ofensa, impotncia e desespero, queria atacar mas, quando chegou 
o momento decisivo, no foi capaz. A ponta da espada vacilou e afastou-se. Sem se mexer, Isambard riu-se.
- Sabeis bem que eu no podia! A sangue-frio, no... Dai luta, senhor! Em guarda!
Com um movimento amplo e ostensivo, Isambard colocou a espada na bainha e estendeu as mos para as rdeas do cavalo, que

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pastava a poucos passos. Sempre sem pressas, subiu para a sela e, olhando para trs uma vez, sorriu ao jovem, que permanecia no mesmo stio, a tremer de dio. Em 
seguida, lanou-se a trote pelo mesmo caminho por onde viera. Poucos momentos depois, Harry ouviu algum chamar, o tilintar de arreios e a resposta de Isambard:
- Desapareceram todos. No vamos voltar a v-los deste lado de Builth. Deixai-os ir!
Sobre o corpo de Harry, o suor de medo verdadeiro esfriou o suor de raiva. Atordoado, deu meia volta e correu em busca dos seus companheiros, engolindo o melhor 
que pde o dio e o fel. Alguns minutos depois era brutalmente chamado  realidade por uma voz ansiosa, vinda do bosque e que o chamava baixinho pelo nome. Visivelmente 
inquieto, Morgan ap Einon procurava-o, trazendo pela rdea Barbarossa, que apanhara junto ao rio.
No houve outros recontros. A guarda avanada da hoste inglesa estava j a regressar a Hereford. No fim de Setembro, todo o exrcito batera em retirada, deixando 
uma guarnio no novo castelo inacabado. Em comeos de Novembro, o prncipe de Aberffraw fez constar, por canais indirectos e sem que tal lhe houvesse sido solicitado, 
que estava disposto a discutir os termos da paz.

CAPTULO TREZE

Builth, Parfois: Dezembro de 1231

Os enviados voltaram de Londres em princpios de Dezembro e entraram em Builth com as primeiras tempestades de neve que assolavam o vale, embora as colinas estivessem 
j cobertas de branco. Aquilo que traziam consigo no era uma paz permanente mas uma trgua de um ano, assinada e selada no ltimo dia de Novembro: um ano de repouso 
que seria empregue em negociaes com vista a uma paz slida e duradoira. Entretanto, nada poderia ser reconquistado nem cedido. Llewelyn ficava com aquilo que conquistara.
- Ah! - exclamou o prncipe, respirando fundo, satisfeito. - Assim, podemos ir passar o Natal a Aber, levando Cardigan na bagagem, no  verdade? Eu no disse que, 
se esperssemos, poderamos obter tudo quanto queramos? E como reagiu o estmago do conde de Kent  perda do seu castelo? Aposto que estava doente e amargo. Ou 
ser que ele pensa que, no espao de um ano, eu posso ser obrigado a desistir daquilo que, agora, disse claramente que no lhe devolveria?
Philip ap Ivor aqueceu os seus venerandos tornozelos na lareira da cmara do prncipe e trocou um rpido olhar com o seu companheiro mais novo.

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- Duvido que abdicar de Cardigan lhe haja causado o mnimo
prazer, mas parece-me que o seu esprito est ocupado com outras renncias mais graves. Desde Setembro, perdeu um vassalo importante. O seu velho capelo Ranulf 
o Breto foi destitudo do cargo de tesoureiro da cmara, havendo-lhe sido ordenado que abandonasse o reino com a famlia. E foi Peter des Rivaulx quem ficou com 
o cargo dele.
- O qu? O sobrinho de Winchester? - perguntou David, que estava sentado num tamborete, aos ps de Llewelyn.
- O filho de Winchester - corrigiu Llewelyn, sem rodeios, rindo-se da expresso severa de Philip que, todavia, no protestou contra uma aluso to directa.
- E, antes da nossa partida de Londres, corria o rumor de que, este ano, no Natal, o rei ser hspede do bispo Peter, em Winchester. O bispo j encheu os ouvidos 
do rei e, a acreditar neste rumor, no se esqueceu de nenhuma das suas velhas queixas contra o corregedor do reino. E, agora, j no h nenhum Langton para restabelecer 
o equilbrio.
- No  de espantar que de Burgh queira contemporizar comigo, mesmo a um preo que lhe custa pagar. Vai precisar de toda a presena de esprito, se quiser manter 
a sua posio face a Peter des
Roches.
- Isso  mais verdade que nunca, senhor - concordou
Philip, em tom grave. - O bispo Peter regressou coberto de honras, como cruzado recm-chegado da Terra Santa, amigo ntimo do imperador e merecedor da confiana 
do Papa Gregrio. E, dado o seu temperamento, o rei preza muito a habilidade de um homem como ele.
Llewelyn escutou tudo quanto tinham para lhe contar e, no fim,
disse:
- Penso que foi a ltima vez que vimos de Burgh pegar em armas para entrar em Gales. Deus sabe que ele no merece mais piedade minha do que a que mostrou para com 
os meus homens, em Montgomery. Todavia, quase sinto pena dele. O rancor que lhe guardo no chega ao ponto de desejar v-lo servir de capacho a essas gentes de Poitou.

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Depois de os dois enviados se haverem arrastado at aos aposentos que haviam sido preparados para eles, David voltou  presena do pai, com uma expresso preocupada.
- O Harry pediu para se avistar convosco a ss, senhor. Permiti-me que o mande entrar.
- Ah, o Harry! - exclamou Llewelyn, com um suspiro. Adivinhava em parte o que o jovem tinha para lhe dizer e
preferiria no ter de o ouvir. Mas haveria outro remdio?
- Est bem - respondeu, numa voz cansada. - Manda-o entrar.
Harry entrou e fechou a porta atrs de si, num silncio determinado. O seu rosto estava plido e srio e os seus maxilares cerrados num trejeito que no deixava 
margem para dvidas. Llewelyn indicou-lhe o tamborete onde David estivera sentado e que continuava junto aos seus ps, mas Harry deslocou-o para, depois de se sentar, 
os dois poderem olhar-se nos olhos.
- Vim pedir-vos permisso para partir, senhor.
A voz do jovem era controlada e a sua expresso fazia lembrar a de um general perante tropas pouco dispostas a combater.
- A paz foi assinada e, portanto, o meu tempo de liberdade terminou.
- Foi assinada uma trgua - corrigiu Llewelyn.
- Segundo o sentido da promessa que eu fiz, uma trgua  paz. Dei a minha palavra em conforme regressaria, logo que fosse restabelecida a paz entre a Inglaterra 
e Gales. Chegou o momento de cumprir aquilo que jurei.
Os lbios de Harry estavam tensos e plidos. Isambard sempre soubera muito bem que aquele momento iria destro-lo, que a promessa fora fcil de fazer e difcil 
de cumprir.
- To depressa?  mesmo preciso seres to rigoroso no cumprimento, Harry? Por certo que te  concedido um certo perodo de graa e que no precisas de saltar para 
o cavalo, no minuto exacto em que recebes a notcia. Pensei que gostarias de acompanhar o teu prncipe e deix-lo em segurana, em Aber, antes de dares por terminado 
o teu dever junto dele.

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Llewelyn no mencionara Gilleis, nem Adam, nem a princesa, mas a crispao do rosto de Harry e o facto de este evitar agora o seu olhar diziam claramente que o jovem 
adivinhava muito bem o que havia de enganador naquela sugesto tentadora. Naquele momento, voltar a Aber era aquilo que ele mais desejava e, tambm, aquilo que mais 
temia. Regressar ao cativeiro, partindo de Aber, seria duplamente difcil, mesmo levando consigo os beijos e as preces de todos quantos lhe eram queridos.
- O David est no seu pas e no seu castelo - fez notar Harry, em voz baixa e cautelosa. - E a guerra acabou. Nenhum perigo o ameaa. Se eu dissesse que era meu 
dever acompanh-lo, estaria apenas a fingir. Sei que no me pedireis que mentisse a mim prprio. E penso que me impedireis de o fazer se... se... se a tentao 
me assaltasse.
- Deus me livre de tornar ainda mais difcil o cumprimento da tua palavra - disse Llewelyn. - Faz aquilo que deves fazer e sers tu o nico a julgar qual  o teu 
dever. Mas, honestamente, penso que nem mesmo Isambard te negaria os poucos dias da viagem at casa.
Harry baixou a cabea e, em silncio, lutou consigo mesmo por alguns minutos. Depois, de repente, levantou-se do tamborete e ajoelhou-se aos ps de Llewelyn.
- Eu tencionava ir! Ah, como eu gostaria de ir. Mas agora... senhor, no devo! No ouso! Poderia, se a promessa houvesse sido feita a qualquer outro homem mas, com 
ele, nunca.
As suas mos geladas e trementes agarraram-se aos joelhos de Llewelyn, sobre os quais poisou a cabea; e ento, em frases entrecortadas, que brotavam dolorosamente, 
disse tudo quanto lhe pesava na alma.
- Ele recusou-se a lutar lealmente comigo! Roubou-me a minha nica oportunidade de me libertar dele. Mas eu no posso cometer um embuste, nem mesmo por um dia, para 
no ser igual a ele...
Desta vez, quando o prncipe lhe ps a mo na cabea e o acariciou como quem consola uma criana, Harry no recusou o conforto, nem ficou tenso devido ao gesto. 
Pelo contrrio, naquele frio imenso e terrvel que se fechava sobre ele, recebeu com gratido o calor da mo de Llewelyn.

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- Nem um dia a menos do que devo! Antes um dia a mais! Todas as suas palavras, todos os seus actos so para me pr  prova. Entre os amigos, um homem pode falhar 
um pouco sem se perder mas, com o inimigo, isso no pode acontecer. Ademais, no  apenas a minha honra que me cabe defender. Isambard quer quebrar-me, descobrir 
os meus pontos fracos e destruir-me. E, se conseguisse, no me arruinaria apenas a mim. O meu pai bateu-o sempre em todos os pontos e Isambard nunca conseguiu levar 
a melhor. Penso que, se conseguisse levar-me a quebrar o meu juramento ou a pagar menos do que  devido, ele se livraria de uma coisa que lhe envenena e ensombra 
a vida. E eu preferia morrer a dar-lhe essa satisfao. O Owen contou-me que ele profanou o tmulo do meu pai e roubou os seus restos mortais. Mas eu sou o guardio 
da alma do meu pai e s Deus sabe at que ponto. Por isso, por ele, no posso diminuir em nada a minha dvida. Oh, meu senhor, meu pai, ajudai-me a saldar as minhas 
dvidas!  to difcil... to difcil...
- Filho, filho! - disse Llewelyn, condodo, erguendo-o para o sentar sobre os joelhos.
Estavam ss e nunca ningum iria saber. Desesperado, terrivelmente necessitado de ajuda para cumprir o seu dever, Harry deixou Llewelyn embal-lo e confort-lo, 
grato por aquela pausa.
- Por minha culpa, no faltars ao que cuidas ser teu dever, prometo - disse Llewelyn, junto ao seu ouvido. - Amanh, pes-te a caminho, com tudo aquilo de que necessitas. 
Ningum poderia exigir mais de ti... uma noite de sono, depois de receberes a nova, e ento regressas. No receies, eu serei teu advogado em Aber e apresentarei 
as tuas desculpas. Todos vo compreender. Queres que arranje uma escolta, para te acompanhar?
- No! Preciso de ir sozinho. Seno, ele ia pensar que me levavam de volta contra a minha vontade.
- Como queiras, meu filho, como queiras. No vou opor-me  tua vontade. Acalma-te! Isto no  para sempre e no vamos deixar que suportes o teu fardo sozinho. Embora 
eu saiba que, mesmo sem a ajuda dos teus amigos, s capaz de honrar o esprito do teu pai e a ti prprio e de sair vitorioso desta provao.

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Harry enlaou o pescoo do pai adoptivo e agarrou-se a ele, sem vergonha. Era como se estivesse a agarrar-se a uma rocha: uma rocha viva e quente, que reagia ao 
seu contacto. Aliviado do peso solitrio do seu fardo, Harry perguntou baixinho:
- No deixareis que David me guarde rancor por eu o abandonar, pois no? Se fosse livre, no sairia do seu lado.
- Ele sabe isso, Harry.
- E Madonna Benedetta... no cheguei a visit-la... pensei que podia passar l, quando voltssemos...
- Eu no disse que seria o teu advogado? Vamos, no te preocupes com aqueles que te amam. Ns conhecemos-te bem e no vamos pensar mal de ti.
Nos seus braos, o jovem soltou um profundo suspiro, como se houvesse libertado os ombros de uma pedra muito pesada. Depois, soltou os braos do pescoo de Llewelyn 
e afastou-se. O prncipe no tentou impedi-lo e Harry ps-se de p, com o rosto muito corado mas calmo e resoluto.
- Desejo pedir-vos uma coisa, senhor.
- Pede o que quiseres e ser-te- concedido.
- Eu sei que, durante este ano de trgua, no podeis fazer nada. Mas peo-vos que, quando o ano chegar ao fim, no faais nada por minha causa, que possa pr em 
perigo a herana de David. Prefiro apodrecer em Parfois at morrer a ser a causa dos seus males.
Llewelyn levantou-se tambm e beijou-o com respeito e ternura.
- No farei nada que seja contrrio aos teus direitos e desejos. Agora, vai ao encontro de David e de Owen e, depois, vai descansar. De manh, vamos pr-te a caminho.
Harry beijou-lhe a mo e saiu, cansado e sonolento. Quando o eco dos seus passos deixou de se ouvir, Llewelyn mandou chamar o seu alcaide de Builth.
- Mandai-me aqui um homem de confiana, capaz de decorar uma mensagem e de a transmitir como um embaixador. Um homem que conhea bem as estradas, mesmo de noite, 
porque quero que ele parta esta noite. Hei uma coisa a dizer a Ralf Isambard, antes de ele voltar a receber o meu filho adoptivo como prisioneiro.

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Rhys AP TUDOR ENTROU EM PARFOIS S DEZ DA MANH, quando
Isambard acabava de se sentar  mesa para tomar o pequeno-almoo, aps a cavalgada matinal. Acompanhavam-no perto de uma dzia de convidados nobres, que iam a caminho 
dos seus feudos e haviam feito uma paragem no castelo. A sotavento, junto ao muro do terreiro exterior, haviam sido montadas tendas para abrigar os respectivos squitos. 
Com expresses carregadas e amargas, homens de armas envergando nove ou dez librs diferentes de cores vivas juntaram-se nos terreiros, a ver passar o cavaleiro 
gals que atravessara a ponte levadia a trote e arrancava chispas s pedras cobertas de geada sob o arco da porta do castelo.
A campanha recente causara-lhes profunda mgoa e os termos da trgua doam mais ainda. Rhys, que tinha perfeita conscincia de que a sua presena, naquele local 
e naquele momento, representava uma provocao, era dotado de um temperamento que o levava a apreciar essa posio irritante. Avanou a direito entre as filas de 
homens silenciosos e ameaadores, com desenvoltura e arrogncia, sem mesmo se dignar dar mostras de reparar na sua presena, desmontou no meio do terreiro e entregou 
as rdeas ao arqueiro mais prximo, que foi obrigado a segur-las at aparecer um cavalario que lhas tirou das mos.
No podiam fazer nada. O senhor de Parfois decretara que o correio de Llewelyn seria recebido e essa deciso bastava para garantir a sua segurana. Alm disso, mesmo 
que a sombra de Isambard no constitusse dissuaso suficiente, a justia no deixaria de os penalizar, se dessem aos galeses um pretexto para estes clamarem que 
as condies da trgua haviam sido infringidas. Por isso, os homens ali reunidos abstiveram-se de dar voz aos seus pensamentos e s cuspiram no cho, nas costas 
de Rhys, erguidas numa postura provocatria, depois de este se haver afastado.
Um camareiro acompanhou-o at ao salo e conduziu-o, por entre a multido de servos, at  mesa principal. A sua passagem, as vozes e os rudos cessaram, reduzindo-se 
em seguida a um murmrio de excitao. Com uma condessa  sua direita e um bispo  sua esquerda, Isambard fitou-o por cima da mesa coberta de vitualhas, medindo-o 
da cabea aos ps com um breve pestanejar dos

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seus olhos encovados, nos quais se acendeu um brilho de interesse. A saudao formal de Rhys foi acolhida com cortesia. A sua maneira brbara, o homem enviado por 
Llewelyn tinha presena e sabia como responder aos cumprimentos dos prncipes.
- Lorde Isambard, o senhor Llewelyn, prncipe de Aberffraw e senhor de Snowdon, enviou-me como portador de uma mensagem respeitante ao futuro do seu filho adoptivo, 
Harry Talvace.
- Ah! - disse isambard, com um leve sorriso. - Sois o arauto de Harry, vindo para me assegurar o seu regresso?
- No, senhor. Ele no precisa de arauto e no h necessidade de vos assegurar o seu regresso. S cheguei aqui antes dele porque cavalguei durante toda a noite e, 
mesmo assim, ireis poder ver que no trago muitas horas de avano. Ele no sabe que eu vim e  desejo do prncipe de Aberffraw que no o venha a saber. Fui enviado 
para vos propor mais uma vez uma oferta de resgate pelo jovem Harry. O meu senhor oferece-vos o preo de um conde. Dois mil marcos pela liberdade de Harry Talvace.
Os nobres sentados  mesa principal sustiveram respeitosamente a respirao e observaram com curiosidade o rosto de Isambard, que se mantivera numa imobilidade contemplativa, 
ligeiramente irnica. O canto da sua boca moveu-se um pouco para cima, no trejeito oblquo que assinalava os seus momentos de leve divertimento.
- Lamento no poder aceitar a generosa oferta do prncipe.
- Sendo assim, senhor, fui encarregado de vos dizer que o prncipe de Aberffraw est disposto a considerar qualquer preo que queirais fixar pela liberdade de Harry 
Talvace... e no somente em dinheiro. Nomeai o que desejais dele e eu transmitir-lhe-ei fielmente a vossa mensagem.
- Lamento profundamente desapontar o prncipe - replicou Isambard. - Mas no h nenhum preo, em dinheiro ou em quaisquer outros bens ao seu alcance, que o prncipe 
possa oferecer-me em troca de Harry Talvace. No nomearei nenhum preo nem aceitarei nenhum que ele possa nomear, seja em terras, falces ou gado. Contento-me em 
ficar com o que possuo.
Rhys ap Tudor ergueu o queixo.

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- No desapontais nem surpreendeis o meu prncipe. Ele pediu-me para, no caso de recusardes, como ele mesmo disse que por certo fareis, vos transmitir outra mensagem.
- Transmiti-a pois - convidou tranquilamente Isambard. - Aqui mesmo, diante de todas estas testemunhas. Assim, elas ficaro a conhecer a mensagem e a resposta. A 
menos que desejeis que falemos em privado,
- No, senhor. No poderia haver melhor lugar. Senhor, o prncipe pediu-me que vos dissesse cara a cara que, a seu tempo, quando puder faz-lo, sem ofender os seus 
deveres sagrados nem a palavra dada,  sua inteno vir buscar Harry Talvace em armas. E jurou que, quando esse dia chegar, conquistar e destruir Parfois para 
o vingar.
O murmrio de consternao e nervosismo que percorreu o salo fez estremecer as tapearias verdes e douradas. De Guichet aproximou-se de Isambard e disse-lhe algumas 
palavras iradas ao ouvido e alguns dos cavaleiros mais jovens puseram-se de p. Afectados pela ignomnia do longo perodo de inaco em Painscastle, espicaados 
pelo acordo que permitia que o prncipe de Aberffraw conservasse todas as suas conquistas, de bom-grado aproveitariam aquele pretexto para fazer em bocadinhos um 
gals. Mas Isambard endireitou a cabea, varreu-os a todos com um dos seus olhares autoritrios, levantou a mo num gesto controlado e delicado e eles voltaram a 
sentar-se nos seus lugares, de boca calada. A ameaa que conseguia exprimir com um simples estalar de dedos era digna de ser vista.
- Devo ao prncipe uma resposta  sua mensagem - disse, em voz neutra. - Mas, antes de vos transmitir essa resposta, no quereis sentar-vos connosco para comer e 
beber? J no estamos em guerra e no precisais de haver escrpulos por aceitar a minha hospitalidade.
- Agradeo-vos, senhor, e peo-vos perdo por no aceitar, no por m vontade mas porque me foi dito que devo sair de Parfois antes da chegada de Harry Talvace, 
para que no seja por mim que ele fique a saber da minha presena aqui. E isso significa que no devo cruzar-me com ele no caminho. Cabe-vos a vs, senhor,

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decidir o que fazer mas, pela minha parte, devo obedecer s ordens que recebi. Dai-me a vossa resposta e permiti-me que parta.
- Ento, apresentai os meus respeitosos cumprimentos ao prncipe e dizei-lhe o seguinte: "Vinde quando vos aprouver e levai-o convosco, se fordes capaz. At l, 
conserv-lo-ei so e salvo para vs."
Rhys ap Tudor ajustou o cinto, colocou o manto sobre os ombros e respirou fundo de satisfao prudente, pois poderia haver conseguido menos para levar consigo e, 
daquilo de que agora dispunha, saberia tirar o melhor partido.
- Transmitirei de bom-grado a vossa resposta, senhor - disse. - Porque, mesmo entre os vossos inimigos, senhor,  sobejamente sabido que sois um homem de palavra.
E, pronunciadas estas palavras, em voz bem alta e enftica, apresentou as suas saudaes cerimoniosas e abandonou o salo de Parfois, ignorando os olhares rancorosos 
dos jovens homens de armas, como um homem de vistas largas ignora as moscas.
Para Harry, o momento mais penoso foi quando chegou ao local onde o caminho bifurcava. Para a esquerda, ficava o carreiro estreito que serpenteava pelo bosque, ao 
longo do Severn. Seguiu em frente, passando por ele mas, mau grado seu, a mo que segurava as rdeas ficou mole e Barbarossa, sentindo a sua indeciso, abrandou.
A menos de uma milha, por aquele carreiro, ficava a cabana de Robert. Ao longo de todo o trajecto a partir de Llanflhangel, no Kerry, que lutava consigo mesmo para 
expulsar Aelis dos seus pensamentos. Mas a imagem dela voltava constantemente a assaltar-lhe os sentidos, como uma msica que no conseguimos esquecer, como o gosto 
de um fruto maduro de um Vero distante, agora mais doce que nunca, de uma doura irreal sobre a lngua. No queria pensar nela, mas ela impunha-se na sua memria. 
O encontro com ela, naquela noite de Vero, fora to breve mas, mesmo esse pouco, fora roubado ao tempo de que dispunha para cumprir o dever, em nome do qual fora 
expressamente libertado. Havia sido menos escrupuloso, ao roubar um pouco do tempo que devia a David. Ento, porque havia de hesitar em roubar s uma hora a Isambard?

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Todavia, no era capaz. Tirar aos amigos, com a certeza de que estes no guardaro rancor por isso ou mesmo por mais,  uma coisa, mas, com um inimigo,  preciso 
pagar tudo at  ltima moeda. Em especial, quando se  o guardio de duas almas e duas honras e se retoma o cumprimento de uma provao relativamente  qual a mais 
nfima indulgncia seria uma pobre reparao.
Harry no virou a cabea: no queria olhar para o pequeno carreiro entre as rvores, onde a passagem de alguns ps - entre os quais talvez os dela - transformara 
a fina camada de neve em gelo escuro. Aproveitara to pouco a companhia dela! Umas escassas semanas de camaradagem despreocupada a que, na sua falta de bom-senso, 
no soubera dar o devido valor e, depois, apenas algumas migalhas de tempo, estragadas por segredos e reticncias que no havia conseguido evitar. At aquela nica 
noite de Junho lhe parecia agora maculada pela sua incapacidade de lhe contar a verdade sobre a sua liberdade condicional. Como fora insensato quando lhe prometera 
voltar, sem lhe explicar nada, pedindo-lhe que confiasse nele, sem se dar conta de como o seu regresso iria ser sinistro e duro. Deveria haver-lhe contado tudo. 
Talvez fosse difcil ela entender, talvez houvesse tentado dissuadi-lo de respeitar a palavra dada. Mas, pelo menos, ela haveria ficado a saber que ele se sentia 
obrigado a faz-lo e haver-se-ia esforado por aceitar e suportar o seu conceito de dever. E agora, porque lhe faltara a coragem para falar, ela ia esperar que ele 
voltasse, conforme prometera, e quem sabia quanto tempo passaria at poder cumprir essa promessa? Ela no sabia de nada e ficaria triste, pensando que ele se esquecera 
ou que nunca tencionara voltar. E ela estava ali to perto!
O slido conforto que o prncipe lhe dera no ia valer-lhe de nada neste caso. Os fios que ligavam o seu corao a Builth e Aber haviam ido sendo desenrolados, milha 
aps milha, atrs de si, at ao momento em que quase lhe arrancavam o corao do peito, dando depois lugar a um vazio doloroso. Todavia, por maior que fosse a dor 
que aquele presente duro lhe causava a si mesmo e a eles, fora-lhe dada a garantia absoluta de que aqueles que deixara para trs o compreenderiam e continuariam 
a am-lo.

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Mas quem iria explicar o seu gesto a Aelis? Ningum sabia que era preciso faz-lo. Ningum sabia do beijo imprevisto, sobre as ervas altas do cercado, que despertara 
neles uma febre inesperada que os assustara, levando-os a separar-se e a correr para dentro da casa, em busca da segurana e da conteno que a presena de Robert 
representava. Ningum conhecia a beleza que despontava em Aelis, nem aquilo que ela representava para ele. At quele momento, nem ele mesmo sabia o valor que lhe 
dava e, agora, para manter a integridade da sua alma, no podia ir ao encontro dela.
E no foi. Fez estalar as rdeas sobre o pescoo de Barbarossa, cravou-lhe as esporas nos flancos e seguiu em frente. O mais fino e delicado dos fios que levava 
presos ao corao comeou a desenrolar-se, dilacerando-lhe o peito, numa dor progressivamente mais forte. Cada passo parecia ser o ltimo que era capaz de suportar, 
sem que aquele fio se quebrasse com um golpe seco, deixando-o a sangrar at  morte.
Apesar disso, jarda aps jarda, continuou a avanar: at ao fundo da rampa sombria onde o caminho ia desembocar, at ao local onde o arvoredo era mais cerrado e, 
finalmente, at junto s torres de vigia. E o fio de angstia no se quebrou e a dor no se tornou intolervel. Ento, porque continuava a suport-la e a ser capaz 
de avanar, sentiu-se simultaneamente consternado e consolado e compreendeu de uma maneira um tanto vaga que, afinal, no h nada que no sejamos capazes de aguentar.
Do alto das torres, os guardas mandaram-no parar e, sensvel s flechas que, das seteiras, lhe eram apontadas ao peito, Harry obedeceu humildemente  ordem e, quando 
eles assim disseram, fez Barbarossa avanar a passo. Ento, dentro de si, embora sem se quebrar, a tenso abrandou e Harry experimentou uma espcie de repouso: a 
partir daquele ponto j no podia voltar atrs e o enorme peso da possibilidade de escolha fora retirado dos seus ombros.
Quase esperara que, depois de ser reconhecido, o levassem sob escolta, mas parecia que haviam recebido ordens relativas  sua chegada, pois deixaram-no passar sem 
hesitao e percorrer sozinho o resto do caminho. Harry subiu a passo a longa rampa ladeada de

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rvores.  direita e  esquerda, para l das rvores, o terreno descia a pique. Estava a subir a pennsula verde suspensa sobre o vazio, em direco  ilha de pedra, 
onde ningum poderia chegar at ele. E, agora, mesmo que quisesse, no podia voltar atrs.
As folhas e os ramos das rvores emitiam um sussurro seco e frio, o fino tapete de neve estalava e escurecia sob as ferraduras de Barbarossa e o vento gelado penetrava 
nas pregas do seu manto, fazendo-o tremer. Era apropriado voltar a Parfois no Inverno, quando no havia flores, nem rebentos, nem plantas de cultivo, nem sementes 
activas: apenas um longo sono, do qual alguma coisa poderia despertar, apenas quando Deus assim o decidisse. Harry no podia acreditar, no queria acreditar que 
uma estao inteira pudesse desembocar no nada.
O dia estava a chegar ao fim, naquele crepsculo precoce e plmbeo que precedia a festa do Natal. Quando chegou  esplanada, a ponte ainda estava descida e a luz 
vermelha e trmula das tochas de pez acesas no interior do arco da porta do castelo parecia fazer ondular os pilares cruzados do vo, dando-lhes o aspecto de uma 
escada para o inferno. Mas, em frente, ainda ligeiramente cintilante contra o cu invernal, erguia-se a silhueta apaziguadora da igreja. Agora, talvez pudesse roubar 
alguns minutos ao tempo do seu carcereiro. Encontrava-se dentro dos limites do castelo, a sua promessa estava prestes a ser cumprida e, uma vez que no tencionava 
renov-la, depois de haver franqueado a porta, aquele tesouro criado pelo esprito do seu pai e seu refgio deixaria de estar ao seu alcance.
Desmontou e deixou Barbarossa a pastar na erva gelada, enquanto esperava. Deu a volta  argola da porta Oeste e entrou silenciosamente. A luz quase desaparecera 
por completo, mas sempre podia tocar e sentir aquilo que j no podia ver. E, para rezar, os olhos no fazem falta.
A forma sombria e nobre da nave, que o crepsculo estava prestes a engolir, preservava ainda o volume, de que o esprito se apoderava avidamente. Harry seguiu em 
frente, ajoelhou-se diante do altar-mor, balbuciou uma prece pela me e, por um momento, foi invadido por uma desolao tal que quase no conseguia respirar.

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Ento, no fundo do seu ser, acendeu-se uma chamazinha rebelde: abrira os olhos e, na obscuridade que envolvia o altar, mesmo diante de si, distinguira a forma do 
rosto de um anjo turbulento mas devoto, agarrado a um saltrio e cantando apaixonadamente um hino em louvor a Deus. Era uma das nove imagens diferentes de Owen, 
ali esculpidas, entoando um concerto celestial. E, de repente, apesar do frio e da escurido, a igreja encheu-se de risos e do amor com que mestre Harry esculpira 
aquelas crianas de pedra e, levado  apoteose, esse mesmo amor tocou e consolou a criana que habitava o corpo do jovem ali ajoelhado.
Afinal, no estava sozinho. Parfois era um local onde nunca poderia estar sozinho: a presena do seu pai pairava por todo o lado. A integridade do pai tornaria firmes 
os passos que ali desse e as obras do pai que o rodeavam profetizavam aquilo que as suas obras haviam de ser um dia. Os dois eram uma fora nica. Opunham a sua 
unidade ao dio solitrio e monumental de Isambard e, enquanto se mantivessem juntos, nada poderia abal-los.
Com o esprito um tanto distrado e o corao perdido num estado de espanto e graa, Harry foi murmurando as suas oraes.
- Enquanto ests de joelhos, diz uma prece pela minha pobre alma, Harry - sussurrou Isambard atrs de si, numa voz baixa e seca que ecoou pela nave. -  o mnimo 
que podes fazer, se pensarmos no perigo que me ameaaria, caso pudesses dar a morte ao meu corpo de pecador.
Teria entrado to silenciosamente que nem mesmo o roagar das suas vestes ou o som dos seus sapatos sobre a pedra o havia trado? Ou estivera sempre ali, em algum 
canto, na penumbra, calado e sem se mover, talvez mesmo ajoelhado? Dizia-se que era um homem devoto,  sua maneira terrvel. A sua voz erguera-se como uma espada 
e a conscincia da sua presena, to prxima e silenciosa, ali no escuro, provocou um arrepio em Harry. De um salto, ps-se de p, com a dignidade consciente de 
quem se sente observado e avaliado. A partir daquele momento, tudo quanto dissesse ou fizesse seria inflectido pela conscincia do peso daqueles olhos pousados sobre 
ele. A maldade que nunca dera trguas a seu pai, nem mesmo depois de morto, no mais se afastaria dele.

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- A forma como respeitas as tuas promessas  digna de louvor, Harry - disse a voz suave. - Foste muito pontual.
Silenciosa como uma sombra, a figura alta e sombria de Isambard, emergiu da escurido em que se encontrava mergulhada a nave lateral Norte.
- Vim to depressa quanto me foi possvel, senhor. Sa de Builth na manh do dia seguinte quele em que os nossos emissrios regressaram de Londres. Estais satisfeito, 
senhor, por eu haver honrado o meu compromisso?
- Muito satisfeito, Harry... muito satisfeito.
- Assim sendo, considerarei haver redimido a minha palavra a partir do momento em que passar pela porta do castelo. Quero que saibais, senhor, que no tenciono voltar 
a d-la.
Embora no as pudesse ver, Harry adivinhou as duas chamas vermelhas que se acendiam na lanterna de bronze daquela cabea magnfica e o sorriso oblquo que lhe repuxava 
os lbios. Melflua e triste, a voz da tentao disse suavemente:
- Esta casa que ele te deixou, estas maravilhas que ele criou ficam fora de portas. E a fonte de conforto na qual matavas a sede ainda agora ficar tambm fora do 
teu alcance.
- No tenciono renovar a minha promessa - repetiu Harry, espantado por ser capaz de dizer novamente aquilo, num tom to neutro e determinado.
- Como queiras, Harry. Podemos entrar agora? Deves estar cansado e a ceia est  nossa espera.
Isambard poisou a mo no ombro de Harry e foi assim que ambos saram da igreja.
- Os teus aposentos esto preparados e o teu trabalho e as tuas ferramentas esto como os deixaste. Pelo menos isso podes ter, dentro de portas. E a minha companhia, 
Harry, a minha companhia que tanto prezas, podes contar com ela todos os dias.
Constrangido, Harry libertou-se para ir buscar Barbarossa. Isambard no fez meno de o seguir nem de se aproximar. Ficou calmamente  espera.
- Vejo que vens preparado para uma longa estada - observou, quando os seus olhos descobriram a trouxa grande, presa atrs

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da sela. - O meu corao alegra-se por isso, Harry. Receava que estivesses cansado de Parfois, agora que s um homem conhecedor do mundo.
- No desejo impor-vos o incmodo e a despesa de prover as minhas necessidades, senhor. J  bastante haverdes de prover o meu sustento e bem gostaria de vos poupar 
a tal.
- s mesmo filho do teu pai! Ele no aceitava ficar em dvida fosse do que fosse e tu tambm no - comentou Isambard, divertido.
- Lamento que assim penseis, senhor - replicou Harry, que caminhava ao seu lado, com uma expresso muito sria. - Ia pedir-vos um favor, mas repugna-me estragar 
a imagem que haveis feito de mim.
- Pede, Harry, pede! Faz bem  alma correr novos riscos.
- Ia pedir-vos que cuidsseis de que algum passeasse o meu cavalo, j que no posso ser eu a ocupar-me disso.
- Eu faria isso mesmo, por respeito pelas necessidades do pobre animal, Harry. No precisavas de violentar a tua natureza. No sers capaz de mostrar para contigo 
mesmo os cuidados que mostras para com a tua montada?
- Agradeo-vos, senhor - respondeu Harry. - As minhas necessidades so mais simples. Ficarei muito bem tal como estou.
A fonte de conforto no estava fora do seu alcance: Harry sentia-a tomar vida dentro de si. Sim, ficaria muito bem tal como estava.
Lado a lado, atravessaram a ponte levadia, cujas tbuas estalaram sob os seus ps, e chegaram ao arco iluminado pelas tochas. Ento, como que por mtuo acordo, 
pararam e olharam um para o outro. Harry observou o seu inimigo, vestido com uma luxuosa cota de veludo preto e um pelote bordado a fios de cobre e ouro: um imponente 
demnio cintilante. Isambard viu um rosto jovem e apaixonado, um rosto de homem, armado com dois olhos verdes e brilhantes, que o fitavam a direito, to implacveis 
como a espada que se recusara a enfrentar, na margem do Wye.
- Digna-te entrar em Parfois, Harry Talvace. Bem-vindo ao nosso convvio.

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Lado a lado, deixaram para trs as tbuas ruidosas da ponte levadia e entraram no tnel da porta do castelo, iluminado pelas tochas. Atrs deles, as roldanas foram 
accionadas e, com um ranger de correntes, a ponte levadia foi erguida, isolando-os do mundo.
